O LENHADOR DA FLORESTA
Joaquim Branco
Krung levantou mais cedo que de costume, pegou o machado e rumou para a floresta. Na caminhada lembrou-se de que tivera um pesadelo com o Cedro Central durante toda a noite.
O Cedro era uma árvore gigante cujo tronco desafiava os lenhadores da região. Diziam ser uma árvore de épocas imemoriais, devido ao seu tamanho incomum. Aos olhos que o viram em muitos anos, impressionara a todos.
Mas Krung nunca recuara diante de um obstáculo. Então, olhou para a árvore e, como se medisse cara a cara um contendor, começou o trabalho.
As primeiras machadadas, o tronco aceitou bem. Depois foram tantas e tão fortes que os ouvidos de quem passasse não poderiam distinguir o que era ímpeto do que se tornara cansaço do lenhador. Lascas de madeira passavam rentes ao corpo de Krung, batendo em seu rosto ou cravando-lhe na pele.
Na dificuldade de conseguir algum resultado, Krung foi ficando na floresta. Aos poucos, as fendas que abria na árvore não o animavam mais. Eram feridas que apareciam, porém, cicatrizadas na manhã seguinte.
Ao fim de cada dia de trabalho, encostava o machado, comia alguns frutos pendentes de árvores e dormia. Um sono cheio de folhas secas e ventos, quando muito um barulhento bater de asas desconhecidas.
Finalmente um dia Krung resolveu medir a espessura do magnífico tronco. Arrancou uma boa quantidade de cipó das árvores vizinhas e começou a caminhar em volta do Cedro, envolvendo-o com o cipó.
Nos primeiros três dias ficou apreensivo para chegar ao ponto de onde saíra. Mas a caminhada foi se tornando longa demais. Eram semanas e meses andando em círculo, e naquela altura do seu trabalho Krung acabou esquecendo o que estivera fazendo ali.
Só se lembrava agora de seu nome: Krun ou Krr. E também de outra coisa: de que um dia fora o lenhador número 1 de toda a floresta.
3/29/2007
POEMAS NA BLOGOSFERA II
3/23/2007
Pesquisa em Língua Portuguesa
3/22/2007
3/21/2007
Pós...o quê?
PÓS... O QUÊ?
Joaquim Branco
joaquimb@gmail.com (e-mail)
www.joaquimbranco.cjb.net (site)
joaquimbranco.blogspot.com (blog)
Quando o estudante termina o seu curso de nível superior vê-se – como na época do vestibular – diante de novos desafios. É a pós-graduação, que vai contribuir para o seu aprimoramento frente a um mundo globalizado que exige mais e mais competência.
A pós-graduação compreende basicamente quatro etapas: a especialização, o mestrado, o doutorado e o pós-doutorado ou pós-doc como é conhecido popularmente.
Essa série que define um aprofundamento cultural e profissional, representa uma espécie de funil em que os conhecimentos vão-se refinando até se chegar a um grau cada vez mais elevado na área específica escolhida pelo estudioso.
Regra geral, no caso do magistério, cumpre-se o primeiro estágio – a especialização – e raramente se alcança o doutorado ou o pós-doc, que são oferecidos apenas nos grandes centros e em poucas vagas.
Hoje, existem cursos de especialização nas modalidades presencial ou à distância – simplificadamente chamados “pós-graduação” – em muitas cidades de porte pequeno e médio espalhadas pelo país. O que os diferencia, no entanto, é a faculdade que os organiza e mantém, que deve ser escolhida cuidadosamente pela tradição de bons e continuados serviços na região, pelos professores que irão ministrar as aulas e pelo reconhecimento perante os órgãos do governo responsáveis pelo ensino superior.
A propósito, as Faculdades Integradas de Cataguases, por meio de seu departamento de Letras, estão se preparando para iniciar uma nova especialização em Letras (língua e literatura) a partir do dia 30 de março próximo. Trata-se de um curso com amplitude de matérias, pois vai abranger não só língua, mas também literaturas, e projetado para durar cerca de doze meses. Saibam os interessados que, mesmo os que não são formados em Letras, mas em outras áreas de Humanas (como jornalismo, pedagogia, história etc.), poderão se inscrever, e que ainda há tempo para isso.
Esta pós-graduação em Letras (especialização) é uma boa oportunidade para as pessoas que moram em Cataguases e em toda a nossa região, que não precisarão se deslocar para cidades mais distantes ou viajar grandes distâncias para freqüentar as aulas. Para inscrições e maiores informações, liguem para a secretaria da FIC (telefone 3421-3109).
Joaquim Branco
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Quando o estudante termina o seu curso de nível superior vê-se – como na época do vestibular – diante de novos desafios. É a pós-graduação, que vai contribuir para o seu aprimoramento frente a um mundo globalizado que exige mais e mais competência.
A pós-graduação compreende basicamente quatro etapas: a especialização, o mestrado, o doutorado e o pós-doutorado ou pós-doc como é conhecido popularmente.
Essa série que define um aprofundamento cultural e profissional, representa uma espécie de funil em que os conhecimentos vão-se refinando até se chegar a um grau cada vez mais elevado na área específica escolhida pelo estudioso.
Regra geral, no caso do magistério, cumpre-se o primeiro estágio – a especialização – e raramente se alcança o doutorado ou o pós-doc, que são oferecidos apenas nos grandes centros e em poucas vagas.
Hoje, existem cursos de especialização nas modalidades presencial ou à distância – simplificadamente chamados “pós-graduação” – em muitas cidades de porte pequeno e médio espalhadas pelo país. O que os diferencia, no entanto, é a faculdade que os organiza e mantém, que deve ser escolhida cuidadosamente pela tradição de bons e continuados serviços na região, pelos professores que irão ministrar as aulas e pelo reconhecimento perante os órgãos do governo responsáveis pelo ensino superior.
A propósito, as Faculdades Integradas de Cataguases, por meio de seu departamento de Letras, estão se preparando para iniciar uma nova especialização em Letras (língua e literatura) a partir do dia 30 de março próximo. Trata-se de um curso com amplitude de matérias, pois vai abranger não só língua, mas também literaturas, e projetado para durar cerca de doze meses. Saibam os interessados que, mesmo os que não são formados em Letras, mas em outras áreas de Humanas (como jornalismo, pedagogia, história etc.), poderão se inscrever, e que ainda há tempo para isso.
Esta pós-graduação em Letras (especialização) é uma boa oportunidade para as pessoas que moram em Cataguases e em toda a nossa região, que não precisarão se deslocar para cidades mais distantes ou viajar grandes distâncias para freqüentar as aulas. Para inscrições e maiores informações, liguem para a secretaria da FIC (telefone 3421-3109).
3/11/2007
NA GALÁXIA DE GUTEMBERG
NA GALÁXIA DE GUTEMBERG
Joaquim Branco
Sempre gostei de ler vários livros ao mesmo tempo, e já pude observar que o hábito não constitui fato incomum entre as pessoas.
Tem a desvantagem de atrasar a leitura individual, mas traz a sensação de se poder passar de um texto para o outro sem se abandonar totalmente o anterior.
No momento, enquanto termino Bartleby o escrivão, de Hermann Melville, vou bem adiantado em O poder das biblioteca e em A revolução da cultura impressa.
Me espanto com a incrível modernidade (publicado em meados do século XIX) de Melville, e vejo o quanto o criador de Moby Dick antecipou o “estranho” e o “fantástico” com a estória de um copista de cartório que trilhou os caminhos da rotina até se incorporar intrinsecamente a ela. É uma novela simples e pesada ao mesmo tempo, essa Bartleby o escrivão, com ótimo prólogo de Jorge Luis Borges, que a Record editou há tempos e agora deveria reeditar.
Fascinado pelos mistérios da Biblioteca de Alexandria, penetrei nos dados de O poder das bibliotecas, artigos de pesquisadores de renome reunidos por Marc Baratin e Christian Jacob para a Editora UFRJ. São as memórias dos livros no Ocidente, tema por demais amplo que mostra a “acumulação infinita” que norteava a política de Alexandria, esmiúça materiais como o papiro e o pergaminho – ancestrais do papel – e faz outras abordagens. A coletânea revela um mundo de conhecimentos em que o livro aparece como figura central.
O terceiro exemplar em exame é A revolução da cultura impressa, de Elizabeth L.Eisenstein, lançamento da Ática, que historia a invenção da imprensa e suas implicações, desde os primórdios na Europa. Chamada ora de “arte divina” (do clero e do patriciado), ora de “amiga do pobre”, a imprensa, principalmente após a invenção dos tipos móveis de Gutemberg, revolucionou a comunicação, alterando conceitos, profissões, atitudes e mercados. A autora comenta todos os aspectos, inclusive o econômico, desta invenção, que aos poucos foi substituindo a função dos antigos escribas.
É assim que o prazer da leitura compartilhada de mais de um livro amplia o sentido de viagem que a imaginação de poetas e ficcionistas pode oferecer. E a rota que se está seguindo costuma, de repente, mudar, e surgir magicamente uma outra paisagem que nem estava nos planos do leitor.
Joaquim Branco
Sempre gostei de ler vários livros ao mesmo tempo, e já pude observar que o hábito não constitui fato incomum entre as pessoas.
Tem a desvantagem de atrasar a leitura individual, mas traz a sensação de se poder passar de um texto para o outro sem se abandonar totalmente o anterior.
No momento, enquanto termino Bartleby o escrivão, de Hermann Melville, vou bem adiantado em O poder das biblioteca e em A revolução da cultura impressa.
Me espanto com a incrível modernidade (publicado em meados do século XIX) de Melville, e vejo o quanto o criador de Moby Dick antecipou o “estranho” e o “fantástico” com a estória de um copista de cartório que trilhou os caminhos da rotina até se incorporar intrinsecamente a ela. É uma novela simples e pesada ao mesmo tempo, essa Bartleby o escrivão, com ótimo prólogo de Jorge Luis Borges, que a Record editou há tempos e agora deveria reeditar.
Fascinado pelos mistérios da Biblioteca de Alexandria, penetrei nos dados de O poder das bibliotecas, artigos de pesquisadores de renome reunidos por Marc Baratin e Christian Jacob para a Editora UFRJ. São as memórias dos livros no Ocidente, tema por demais amplo que mostra a “acumulação infinita” que norteava a política de Alexandria, esmiúça materiais como o papiro e o pergaminho – ancestrais do papel – e faz outras abordagens. A coletânea revela um mundo de conhecimentos em que o livro aparece como figura central.
O terceiro exemplar em exame é A revolução da cultura impressa, de Elizabeth L.Eisenstein, lançamento da Ática, que historia a invenção da imprensa e suas implicações, desde os primórdios na Europa. Chamada ora de “arte divina” (do clero e do patriciado), ora de “amiga do pobre”, a imprensa, principalmente após a invenção dos tipos móveis de Gutemberg, revolucionou a comunicação, alterando conceitos, profissões, atitudes e mercados. A autora comenta todos os aspectos, inclusive o econômico, desta invenção, que aos poucos foi substituindo a função dos antigos escribas.
É assim que o prazer da leitura compartilhada de mais de um livro amplia o sentido de viagem que a imaginação de poetas e ficcionistas pode oferecer. E a rota que se está seguindo costuma, de repente, mudar, e surgir magicamente uma outra paisagem que nem estava nos planos do leitor.
2/28/2007
EU x eu
EU X eu
(Story-board)
Joaquim Branco
A moda agora é não fumar. Apague essa idéia de sua cabeça de fósforo. Ou, então, morra. Aspire sonho e inspire cof-cuidados. A asma é duradoura senão eterna e quem ganhar o prêmio receberá o bônus do enfizema: terá para dormir um caixote refrigerado a orvalho ou a laje fria mesmo.
E isso não é nada perto da morte shakesperiana. Sufocado como Desdêmona e sem Otelo. Na lápide, a frase: “morreu voando, aliás, fumando”. Um logotipo da multinacional de cigarros vai decorar o granito. Impávido.
Fé inquebrantável no caráter volátil da alma que alça aos céus.
O contra-anúncio pede para apagar a idéia. Mas como resistir ao charme de atingir o orgasmo, quer dizer, o sucesso, com Hollywood, música bacaninha e jovens atléticos estourando em ondas wind-surfadas a sol, champagne e neon?
É preciso encarar o real como mostra o storyboard e está no filme. Afinal, você agora aparece em todas as telas. É imagem, não gente. Sente que em breve nem que seja por um instante será eterno.
(Story-board)
Joaquim Branco
A moda agora é não fumar. Apague essa idéia de sua cabeça de fósforo. Ou, então, morra. Aspire sonho e inspire cof-cuidados. A asma é duradoura senão eterna e quem ganhar o prêmio receberá o bônus do enfizema: terá para dormir um caixote refrigerado a orvalho ou a laje fria mesmo.
E isso não é nada perto da morte shakesperiana. Sufocado como Desdêmona e sem Otelo. Na lápide, a frase: “morreu voando, aliás, fumando”. Um logotipo da multinacional de cigarros vai decorar o granito. Impávido.
Fé inquebrantável no caráter volátil da alma que alça aos céus.
O contra-anúncio pede para apagar a idéia. Mas como resistir ao charme de atingir o orgasmo, quer dizer, o sucesso, com Hollywood, música bacaninha e jovens atléticos estourando em ondas wind-surfadas a sol, champagne e neon?
É preciso encarar o real como mostra o storyboard e está no filme. Afinal, você agora aparece em todas as telas. É imagem, não gente. Sente que em breve nem que seja por um instante será eterno.
2/24/2007
MUNDO DAS LETRAS
Mundo das letras
Joaquim Branco
Tradicionalmente os cursos de licenciatura em Letras preparam os alunos para se tornarem futuros professores. Assim é que naturalmente esses profissionais poderão dar aulas de língua portuguesa, literatura portuguesa e brasileira, além de uma língua estrangeira.
No entanto, é preciso saber que ao graduado em Letras abre-se um horizonte bem mais amplo do que esse – já grande –, que o habilita para inúmeras funções como a de redator, revisor, secretário, tradutor, escritor, copy-desk e muitas outras em que o conhecimento de línguas e de literaturas o credencia como especialista nessa e em áreas afins.
Nas Faculdades Integradas de Cataguases, por exemplo, a opção atual para língua estrangeira é o inglês, o mais utilizado idioma nas relações sociais, comerciais e culturais do mundo contemporâneo.
Ali, há mais de 30 anos formam-se turmas anualmente, a princípio apenas com graduação em Matemática, Letras, Pedagogia e História, e atualmente com o acréscimo de Administração, Normal Superior, Geografia e Meio Ambiente, Engenharia de Produção e Ciências Biológicas, novos cursos de tecnólogos, de extensão universitária, pós-graduação, além do recém-criado Colégio de Aplicação.
Mas, retornando ao curso de Letras, de que estávamos falando, temos hoje nas Faculdades Integradas uma formação mais rápida – três anos em seis períodos semestrais – em que se procura dar ao aluno conhecimentos específicos da sua área, dotando-o também das ferramentas críticas para “ler e entender o mundo” que o rodeia.
Desse modo, os estudos literários e lingüísticos ultrapassam as aquisições meramente conteudísticas para alcançar um terreno em que a criatividade e o jogo intelectual são componentes essenciais e voltados constantemente para a produção do saber.
Joaquim Branco
Tradicionalmente os cursos de licenciatura em Letras preparam os alunos para se tornarem futuros professores. Assim é que naturalmente esses profissionais poderão dar aulas de língua portuguesa, literatura portuguesa e brasileira, além de uma língua estrangeira.
No entanto, é preciso saber que ao graduado em Letras abre-se um horizonte bem mais amplo do que esse – já grande –, que o habilita para inúmeras funções como a de redator, revisor, secretário, tradutor, escritor, copy-desk e muitas outras em que o conhecimento de línguas e de literaturas o credencia como especialista nessa e em áreas afins.
Nas Faculdades Integradas de Cataguases, por exemplo, a opção atual para língua estrangeira é o inglês, o mais utilizado idioma nas relações sociais, comerciais e culturais do mundo contemporâneo.
Ali, há mais de 30 anos formam-se turmas anualmente, a princípio apenas com graduação em Matemática, Letras, Pedagogia e História, e atualmente com o acréscimo de Administração, Normal Superior, Geografia e Meio Ambiente, Engenharia de Produção e Ciências Biológicas, novos cursos de tecnólogos, de extensão universitária, pós-graduação, além do recém-criado Colégio de Aplicação.
Mas, retornando ao curso de Letras, de que estávamos falando, temos hoje nas Faculdades Integradas uma formação mais rápida – três anos em seis períodos semestrais – em que se procura dar ao aluno conhecimentos específicos da sua área, dotando-o também das ferramentas críticas para “ler e entender o mundo” que o rodeia.
Desse modo, os estudos literários e lingüísticos ultrapassam as aquisições meramente conteudísticas para alcançar um terreno em que a criatividade e o jogo intelectual são componentes essenciais e voltados constantemente para a produção do saber.
2/12/2007
A ORALIDADE DE UM MESTRE
ESSE OFÍCIO DO VERSO
Jorge Luis Borges
Trad. José Marcos Macedo
Org. Calin-Andrei Mihailescu
Companhia das Letras – São Paulo
São célebres as conferências pronunciadas por Jorge Luis Borges em universidades européias, na Argentina e em outros países.
Reunidas, algumas delas foram publicadas no Brasil, nos anos 80, pela editora Max Limonad de São Paulo sob o título Sete noites. Este livro, em termos de criatividade e qualidade textual, nada fica a dever às obras de ficção e de poesia do mestre argentino.
Ali Borges aborda temas como: o pesadelo, a cabala, a cegueira, o budismo, entre outros.
Após a publicação, a partir de 1999, de suas Obras completas pela Editora Globo, em excelente trabalho editorial em quatro volumes encadernados, não pensei que teria mais oportunidade de ‘ouvir’ outros de seus textos ditos ‘orais’.
Mas eis que, por vias enigmáticas (borgianas, por certo), descobrem-se seis palestras perdidas, que haviam sido proferidas em inglês na Universidade de Harvard, em 1967-68, que a Companhia das Letras leva ao público com o título de Esse ofício do verso, organizadas por Calin-Andrei Mihailescu, em tradução de José Marcos Macedo.
Novos temas no mínimo diferentes: a metáfora; o narrar uma história; o credo de um poeta etc. O mesmo Borges – concentrado e livre; simples e erudito; poético e com uma memória prodigiosa ao citar trechos de livros sem recorrer a apontamentos, e já vitimado pela cegueira.
No capítulo “O credo de um poeta”, faz comentários sobre a literatura, em especial a poesia:
“[...] muitas coisas aconteceram comigo, como a todos os homens. Tirei prazer de muitas coisas – de nadar, de escrever, de contemplar um nascer do sol ou um crepúsculo, de estar apaixonado e assim por diante. Mas, de algum modo, o fato central de minha vida foi a existência das palavras e a possibilidade de tecê-las em poesia.” (p. 106)
Sobre a preocupação com o leitor, de que pouco se fala em Borges, no mesmo capítulo pode-se anotar:
“Quando escrevo não penso no leitor (porque o leitor é um personagem imaginário) e não penso em mim mesmo (talvez eu também seja um personagem imaginário), mas penso no que tento transmitir e faço de tudo para não estragá-lo. Quando eu era jovem acreditava na expressão. [...] não acredito mais na expressão: acredito somente na alusão. Afinal de contas, o que são as palavras? As palavras são símbolos para memórias partilhadas. Se uso uma palavra, então vocês devem ter alguma experiência do que essa palavra representa. Senão a palavra não significa nada para vocês. Acho que podemos apenas aludir, podemos apenas tentar fazer o leitor imaginar.” (p. 121-2)
Se neste livro mais uma vez o leitor terá contato com uma literatura de alta expressividade (e – por que não dizer? – de inúmeras alusões), característica dos grandes escritores, poderá igualmente usufruir de um conhecimento mais profundo das coisas do mundo que se sintetiza numa só palavra: sabedoria. Que Borges sempre soube distribuir fartamente a todos que o leram e lêem.
Jorge Luis Borges
Trad. José Marcos Macedo
Org. Calin-Andrei Mihailescu
Companhia das Letras – São Paulo
São célebres as conferências pronunciadas por Jorge Luis Borges em universidades européias, na Argentina e em outros países.
Reunidas, algumas delas foram publicadas no Brasil, nos anos 80, pela editora Max Limonad de São Paulo sob o título Sete noites. Este livro, em termos de criatividade e qualidade textual, nada fica a dever às obras de ficção e de poesia do mestre argentino.
Ali Borges aborda temas como: o pesadelo, a cabala, a cegueira, o budismo, entre outros.
Após a publicação, a partir de 1999, de suas Obras completas pela Editora Globo, em excelente trabalho editorial em quatro volumes encadernados, não pensei que teria mais oportunidade de ‘ouvir’ outros de seus textos ditos ‘orais’.
Mas eis que, por vias enigmáticas (borgianas, por certo), descobrem-se seis palestras perdidas, que haviam sido proferidas em inglês na Universidade de Harvard, em 1967-68, que a Companhia das Letras leva ao público com o título de Esse ofício do verso, organizadas por Calin-Andrei Mihailescu, em tradução de José Marcos Macedo.
Novos temas no mínimo diferentes: a metáfora; o narrar uma história; o credo de um poeta etc. O mesmo Borges – concentrado e livre; simples e erudito; poético e com uma memória prodigiosa ao citar trechos de livros sem recorrer a apontamentos, e já vitimado pela cegueira.
No capítulo “O credo de um poeta”, faz comentários sobre a literatura, em especial a poesia:
“[...] muitas coisas aconteceram comigo, como a todos os homens. Tirei prazer de muitas coisas – de nadar, de escrever, de contemplar um nascer do sol ou um crepúsculo, de estar apaixonado e assim por diante. Mas, de algum modo, o fato central de minha vida foi a existência das palavras e a possibilidade de tecê-las em poesia.” (p. 106)
Sobre a preocupação com o leitor, de que pouco se fala em Borges, no mesmo capítulo pode-se anotar:
“Quando escrevo não penso no leitor (porque o leitor é um personagem imaginário) e não penso em mim mesmo (talvez eu também seja um personagem imaginário), mas penso no que tento transmitir e faço de tudo para não estragá-lo. Quando eu era jovem acreditava na expressão. [...] não acredito mais na expressão: acredito somente na alusão. Afinal de contas, o que são as palavras? As palavras são símbolos para memórias partilhadas. Se uso uma palavra, então vocês devem ter alguma experiência do que essa palavra representa. Senão a palavra não significa nada para vocês. Acho que podemos apenas aludir, podemos apenas tentar fazer o leitor imaginar.” (p. 121-2)
Se neste livro mais uma vez o leitor terá contato com uma literatura de alta expressividade (e – por que não dizer? – de inúmeras alusões), característica dos grandes escritores, poderá igualmente usufruir de um conhecimento mais profundo das coisas do mundo que se sintetiza numa só palavra: sabedoria. Que Borges sempre soube distribuir fartamente a todos que o leram e lêem.
1/18/2007
PILARES DO ROMANTISMO
SOUSÂNDRADE - Tendo surgido no Brasil em meados do século XIX, o Romantismo se assemelhou em muitos pontos à produção européia oitocentista, mas apresentou também características próprias como a temática indianista e a presença da exuberante natureza tropical (palmeiras, sabiás, verdes matas etc.).
Todavia, mais extravagante é o registro, no Maranhão, de um poeta totalmente à parte dos demais: Joaquim de Sousa Andrade (1832-1902) ou simplesmente Sousândrade, como queria ser chamado, e que passou quase despercebido a seus contemporâneos. Não fosse a pesquisa feita por Augusto e Haroldo de Campos e publicada em 1964, até hoje estaríamos talvez sem conhecer aquele que foi denominado um “terremoto clandestino”, tal a natureza de sua obra moderna, instigadora e vanguardista.
Posteriormente à 1ª, saiu uma 2ª edição, mas recentemente a Editora Perspectiva [(11)-3885-8388] reeditou Re visão de Sousândrade, com estudos acompanhando uma antologia do autor, resultando em belíssima e completa obra. Me lembro, quando da publicação da 1ª edição, de algumas críticas que davam a descoberta como fora de tempo, apontando para a irrelevância de poemas que não foram lidos na época de sua feitura.
Hoje, com o advento de novas teorias literárias, a herança de Sousândrade assume maior importância para a literatura e este autor já tem um lugar de destaque na galeria dos escritores essenciais do Brasil.
SOBRE O ROMANTISMO - Uma visão sincrônica da literatura romântica nos oferece Introdução ao Romantismo, seleta de textos organizada pelo crítico e professor José Luiz Jobim em que cinco professores universitários desenvolvem os temas: Nacionalismo, por Maria Helena Rouanet; História, João César de Castro Rocha; Língua, Ana Lúcia Henriques; Crítica, Regina Zilberman; e Subjetivismo, José Luiz Jobim.
Além de pertinentes e vitais no âmbito do panorama brasileiro, os assuntos – nas variadas linhas apresentadas – se entrelaçam, à medida que cada texto se desenvolve, para dar ao leitor uma noção tão abrangente quanto particular do Romantismo.
O livro, em formato econômico e a preço acessível, faz parte da série “Ponto de Partida” editada pela EdUerj [(21)-25877788], e constitui, pela argúcia e propriedade das interpretações, material de informação de primeira qualidade para estudantes e professores de literatura.
Todavia, mais extravagante é o registro, no Maranhão, de um poeta totalmente à parte dos demais: Joaquim de Sousa Andrade (1832-1902) ou simplesmente Sousândrade, como queria ser chamado, e que passou quase despercebido a seus contemporâneos. Não fosse a pesquisa feita por Augusto e Haroldo de Campos e publicada em 1964, até hoje estaríamos talvez sem conhecer aquele que foi denominado um “terremoto clandestino”, tal a natureza de sua obra moderna, instigadora e vanguardista.
Posteriormente à 1ª, saiu uma 2ª edição, mas recentemente a Editora Perspectiva [(11)-3885-8388] reeditou Re visão de Sousândrade, com estudos acompanhando uma antologia do autor, resultando em belíssima e completa obra. Me lembro, quando da publicação da 1ª edição, de algumas críticas que davam a descoberta como fora de tempo, apontando para a irrelevância de poemas que não foram lidos na época de sua feitura.
Hoje, com o advento de novas teorias literárias, a herança de Sousândrade assume maior importância para a literatura e este autor já tem um lugar de destaque na galeria dos escritores essenciais do Brasil.
SOBRE O ROMANTISMO - Uma visão sincrônica da literatura romântica nos oferece Introdução ao Romantismo, seleta de textos organizada pelo crítico e professor José Luiz Jobim em que cinco professores universitários desenvolvem os temas: Nacionalismo, por Maria Helena Rouanet; História, João César de Castro Rocha; Língua, Ana Lúcia Henriques; Crítica, Regina Zilberman; e Subjetivismo, José Luiz Jobim.
Além de pertinentes e vitais no âmbito do panorama brasileiro, os assuntos – nas variadas linhas apresentadas – se entrelaçam, à medida que cada texto se desenvolve, para dar ao leitor uma noção tão abrangente quanto particular do Romantismo.
O livro, em formato econômico e a preço acessível, faz parte da série “Ponto de Partida” editada pela EdUerj [(21)-25877788], e constitui, pela argúcia e propriedade das interpretações, material de informação de primeira qualidade para estudantes e professores de literatura.
1/17/2007
Écloga
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