12/10/2016

UM FICCIONISTA DE LOND



Jair Ferreira dos Santos

Resenha que publiquei em jornal pelos idos de 1981, quando eu trabalhava na revista "Cacex" com o autor do livro, Jair F. dos Santos:

"Kafka na cama", de Jair Ferreira dos Santos, marcou em 1980 a estreia de um escritor cuja trajetória já dava para antecipar como das mais auspiciosas para a literatura brasileira.
Reuniu o autor sete contos (a rigor, seis contos e uma novela), que, numa primeira abordagem, apresentam um divisor de águas que marca especialmente o conjunto das narrativas. Nascido no Paraná, região de Londrina, Jair Ferreira dos Santos transferiu-se na década de 70 para o Rio, e esse ponto divisório, marcado pelo eixo Londrina/Rio, atua como fulcro, ora dividindo os caminhos da narração, ora propondo rotas para uma visão crítica.
Daí derivam duas ficções – advindas das ambiências, dos personagens, do plot – a influir na própria linguagem e esta em cada estória.
Do eixo Londrina, vem a primeira, uma ficção de temas, ação e traços da província (a família, no fundo), terreno em que a introspecção se sedimenta sob um léxico forte e bem jogado.
"Mais para Gardel do que para o bardo inglês", "Sextuor: o pai" e "Anjos" estão desse lado do rio. A província – e não o regional conduzindo ao “facilmente” social – aí pulsa, “torpe, mas hílare”, como nestes fragmentos:
“À noite, em casa, pensei que diante dos filhos o casal se recuperasse moralmente. Pobre de mim! Separados são sórdidos, perto são pérfidos. Fogo e gelo.”
“Pouca água correu. A vida aqui, não é preciso ser nenhum Houdini para adivinhar, segue naquele ritmo pantanoso de sempre. De tão pequenas que nem dá gosto mencionar, duas novidades: voltei a estudar violão e estou com hemorróidas.”
Nas descrições, a terra e a natureza recriam-se plasticamente e por si sós, movendo-se ora e vez pelo olho atento de uma câmera invisível:
“Logo o sol dará à cidade, no horizonte, a aparência arenosa de um traço a pastel, um aceno. Mas ele é rijo e sem olhar para ela segue a caminho do Sul.”
Ou nesta visão meio nostálgica, um tanto à Salinger e/ou Saroyan:
“Havia guerra do outro lado do mundo e fora por ruas diferentes daquela terra vermelha, forte, barrenta, que ambos tinham chegado a L., em meados dos anos 40.”
Mais adiante a província se abre inteira dentro do cotidiano:
“...coisas na memória dela amontoadas ao acaso como cartas de jogar, eles tiveram mesmo de se casar, para acabar com os falatórios e os rubores do seu corpo.”
A dedicatória do livro reforça mais ainda a preocupação do autor com a dualidade província-metrópole, quando os advérbios aqui e lá introduzem e separam as homenagens ao clã local e aos novos amigos do Rio.
Mas de novo nos fixamos no filão de Lond.(ou Land. ou Londrina). Aqui, subjacente, um caminho se percorre e se desdobra mais uma vez: o do romancista que pode surgir e que nos parece de fôlego e correnteza represados em "Sextuor: o pai".
Os diques colocados nesta novela à maneira de divisões de capítulos são marcas de condensações de um romance que só deixou de crescer para se acomodar ao livro como conjunto de 'contos reunidos'. Embora não deixe de compor um todo orgânico com os demais contos, "Sextuor: o pai" é em si um painel completo (mesmo comprimido) para onde convergem todos os dramas que a província amesquinha e amplifica. “É vivendo aqui em Land., que só tem a crescer na sua mediocridade. Dezenas de casais como nós enfiando a cabeça pelas frestas dos baronetes do café.”
Também é ao falar da terra que vêm as melhores descrições da paisagem paranaense, e é nelas que o autor deixa transparecer a vocação poética:
“Neblina como echarpes preguiçosas na copa das árvores à margem da lagoa. Depois vinha o sol branco, sorridente, cheio de revelações. Os pastos, as vacas, as amoreiras”.
E mais ainda as descrições vão se adensando para brilhar na noite:
“É noite, meu pai. Lá fora, para nosso embevecimento, há um céu de maio que parece sustentar-se apenas na sua pureza, com uma Lua cabeceante a leste entre duas constelações. Estamos em Touro, sob o domínio suave de Vênus. Hydra navega desdenhosamente próxima de Leo, enquanto Antares, no centro da noite, brilha girando sobre si mesma como uma noiva em festa. Eis a trama dos astros para o fim desse outono de nossa desesperança.”
Em busca da vida em seus detalhes, o ficcionista procura definições, sonda nuances, “na calma febril da memória, com aqueles anos destroçados entre os dedos, anos sem clareza, sem destino e que, se tinham sido perdidos tão abusada, tão levianamente, pelo seu pendor a culpas à menor sombra de logro ela merecia que não lhe trouxessem alento nem proteção contra a morte pestanejante às suas costas.”
Outras vezes Jair Ferreira tira do prosaico o poético ou o prosaico dele mesmo:
“A cozinha com suas facas de dois gumes.”
Ou aqui, meio à Oswald de Andrade:
“Os requintes dela tinham sido vestidos de crepe, sianinha, sutache, tailleurs de linha para casamentos e batizados, boleros para esporte e às vezes um turbante enrolado com jeito e romantismo meio a uma nuvem de talco Ross e água-de-colônia.”
Em Lond. estava centralizada a vida da burguesia do café e da terra roxa do Paraná, e ali novas relações se faziam:
“Nascer em Land e ser artista de teatro. Só faltava essa. Diverte-se porque Ariel não é capaz de imaginar a mulher que for sua mulher sem cozinha de aço, aspirador de pó, seguro de vida e uma reconfortante conta conjunta como prêmio para proezas na cama.”
“Já tem morte de sobra rondando sobre nós. Sinto. Morremos em nossa família. Dois irmãos há muito tempo. Por isso mesmo, já era hora. Dois ciprestes bem altos atrás do túmulo deles. No outono ficam escuros e tristes. Ariel prometeu pintar o túmulo para novembro. Longe demais.”
A outra parte anteriormente mencionada – constituída por "Dan & Dan: exercícios de Narciso", "De tarde", "Kafka, na cama", "Joel Sad ou Week-end mais ou menos à Saroyan" e "Xique & Jô/Ousada pecinha fratricida" –, pertence a uma linha urbana. É a vertente carioca. Esses contos mostram uma sintaxe peculiar que é a teia em que corretamente se “inscreve” e acontece sua narrativa curta.
E o circuito se transforma num jogo em que um gato e seu dono – Dan e Dan – se enrolam numa amizade perfeita, no conto "Dan & Dan: exercícios de Narciso", de todos o mais bem realizado no plano da linguagem.
“(...) não era nem persa nem angorá nem siamês nem espanhol, mas um preguiçoso novelo de pelúcia cor-de-rosa (Dan tingira-o) acidentalmente estendido sobre ossatura e vísceras de procedência ignorada.”
"De tarde, Kafka, na cama", de fachada erótica, transmite a todo tempo um humor resvalante para o cinismo:
“– Vocês têm filhos?
– Não e não é triste. Seriam pessoas a mais a quem mentir.
– É sempre assim com você? Não há nada que você aceite sem bancar a serpente?
– Uma boa cama.”
Em "Joel Sad", há o encontro do personagem-título com o guarda do aeroporto e o tête-a-tête com a prostituta. Merece transcrição.
“(...) ele teve de se recompor quando achou que o guarda do portão de embarque, com a fatalidade de uma máquina a realizar o seu trabalho, caminhava na sua direção. O guarda passou. A ansiedade ficou. Relax, imbecil. Liberdade não é vigia. O guarda do guarda. Ad infinitum."
“Ela tirou a roupa com a rapidez de ilusionista e o que era mulher converteu-se numa ave gorda, implume, tatuada do joelho à nuca com tranças de celulite.”
E o diálogo cortante, com a saída pela tangente:
“– Você tem mãe?
– Mãe está fora de moda – não sabia por que respondeu Joel.”
A Joel restava – no abandono de um dia inteiro vagando pela cidade grande – ver a “decolagem de aviões no Santos Dumont. Arrebatado por eles, pelo seu dom de repouso no ar, talvez recuperasse um pouco a tolerância consigo (...)”
Quase todo num diálogo acre é "Xique & Jô/ousada pecinha fratricida", em que os personagens são um corcunda paralítico e seu periquito, em clima surreal.
“Jô: Aquecimento, Xique. Circuit training. Poesia faz bem. É a ginástica da alma.
Xique: E a fome?
Jôz: É a prosa.”
Ou ainda na definição de Jô:
“A felicidade. A velha cenoura que apodrece cada vez mais longe do nariz. Quem disse que eu quero ser feliz?”
E neste que poderia ser um desfecho, com pano rápido, no auge do pessimismo:
“Xique: Eu te mato (vários soluços)
Jô: Você não me faria esse favor (...)”

Bibliografia: SANTOS, Jair Ferreira dos. Kafka na cama. Rio de Janeiro: CivilizaçãoT Brasileira, 1980.

11/22/2016

VISAGENS - Rio de Janeiro - 2016


VISAGENS

O Sarau Fio MultiCultural apresenta a exposição coletiva e internacional de Poesia Visual “Visagens”, com obras de 46 artistas de 16 países, com curadoria assinada por Tchello d’Barros.

Sobre a exposição Visagens
“Visagens” é um projeto iniciado em 2013 com a finalidade de difundir a Poesia Visual e vem se desdobrando em exposições itinerantes, mesas-redondas, produção textual teórica, palestras e projeções de imagens em diversos eventos e instituições. São obras de 46 autores de 16 países que apresentam suas criações sob o tema universal da Paz.




Serviço
Quê: Exposição internacional de Poesia Visual “Visagens”
Quando: Abertura em 22.nov. 2016 - Terça-feira as 17 h
Onde: Fórum de Arte e Cultura da UFRJ - Av. Rui Barbosa, 762 - Flamengo, Rio de Janeiro, RJ
Visitação: Segunda a sexta-feira das 09 as 17 h até 09.dez.2016
Quanto: Entrada Franca
Curadoria: Tchello d’Barros
Coordenação do Sarau FioMulticultural: Clécia Oliveira
Evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/880938015406813/
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Contato
Tchello d’Barros
(21) (21) 9 8354.1978 Tim
tchellodbarros@gmail.com


11/12/2016

CENTENÁRIO DO POETA ASCANIO LOPES 1906-2006


Registro das comemorações realizadas no ano de 2006, em Cataguases MG, por ocasião do Centenário do poeta Ascanio Lopes, com organização do Departamento de Letras da FIC em conjunto com a Prefeitura Municipal de Cataguases e o Instituto Francisca de Souza Peixoto. Houve um sarau com poemas de Ascanio, lançamento dos livros Verdes vozes modernistas e Ascanio Lopes no fio da navalha, discursos, música.



COMEMORAÇÕES DO CENTENÁRIO DO POETA ASCÂNIO LOPES - 2006

1. Abertura geral - Flávia Massena.
2. Palavra do Prefeito
3. Palavra do Secretário de Cultura e Turismo
4. Flávia apresenta o Sarau do grupo da FIC
5. Carol apresenta a teatralização do sarau sobre Ascânio Lopes
6. Encenação do sarau “Ascânio Lopes no fio da navalha”
7. Carol apresenta as músicas de Giovani e Edjaine
8. As músicas, por Giovani e Edjaine
9. Flávia dá início ao lançamento com os autógrafos e o coquetel
10. O lançamento

APRESENTAÇÃO DO SARAU - 11 de maio de 1906 - dia em que nasceu o poeta Ascânio Lopes.
Hoje, 11 de maio de 2006 - dia em que comemoramos os 100 anos de um jovem que morreu aos 22 anos e se tornou o maior poeta de Cataguases.
Portanto é uma honra para todos nós saudar esse dia em que uma luz maior se fez em nossa cidade e se projetou logo intensamente.

O sarau que vamos apresentar agora é um recorte de poemas de Ascânio Lopes, colocados numa sequência temática, em que foram agrupados os trabalhos. Este grupo de alunos do 5º Período de Letras pertence às Faculdades Integradas de Cataguases, a cujos diretores agradecemos o empenho para esta apresentação. As músicas de ligação foram selecionadas e montadas por Sonia Regina Tinoco. Design gráfico: Natália Tinoco. Concepção e direção: professor Joaquim Branco. Como convidada especial tivemos a presença ilustre da sobrinha do poeta Regina Quatorzevoltas.

Promoção do evento: Prefeitura Municipal de Cataguases.
Organização: Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, com a colaboração da Secretaria de Infra-Estrutura e Secretaria de Educação.
Local das comemorações: Centro Cultural Eva Nil.
Data e horário: 11 de maio de 2006, a partir de 20 horas.
Agradecimentos: Departamento de Letras das Faculdades Integradas de Cataguases FIC e Instituto Francisca de Souza Peixoto.

Sequência dos eventos:

- Encenação do sarau “Ascânio Lopes no fio da navalha”, por alunos do Curso de Letras das Faculdades Integradas de Cataguases - FIC.
- Apresentação de músicas com letras de Ascânio Lopes e composição musical de Giovani, na voz de Edjaine, alunos da FIC.
- Exposição de cartazes com a história do Movimento Verde.
- Coquetel de lançamento do livro Ascânio Lopes no fio da navalha, de Joaquim Branco.






Capa e contracapa de Natália Tinoco a partir de desenhos de Zeluca e de Slotti.







Discurso do prefeito Tarcísio Henriques:

O Centenário de Ascânio Lopes

“A luz do lampião ficou fraca e havia muito mais sombras pelas paredes e dentro de nós uma sombra infinitamente maior”(“Serão de menino pobre”)

Nunca ficou suficientemente esclarecido como é que se juntou um dia um grupo de rapazes de 18 e 20 anos com uma ideia de reformular a literatura, e tendo uma repercussão tão grande que conquistou o apoio de São Paulo, alcançou o Brasil inteiro e até hoje é um ponto de referência de protesto intelectual que obteve foros de revolução, com propostas até agora aproveitadas como base para retomada do nosso renascimento provinciano.
As incipientes forças produtoras ainda estavam ressentidas da Abolição, as estruturas políticas engatinhavam nos primeiros anos republicanos, quando começaram a surgir as primeiras insatisfações sociais, retratadas nas inquietações refletidas na Revolta Tenentista de 22, no manifesto modernista de São Paulo, enquanto o Movimento de Cataguases interpretado por Guilhermino César foi “um movimento, à semelhança do que sucedeu por igual, em outros lugares, na mesma ocasião, prenunciando 30, fomentando inquietações que iriam desembocar num largo estuário literário e político.”
As manifestações artísticas sempre foram formas e meios utilizados pelas elites intelectuais para mostrar os enganos cometidos pelos governantes. Se a elas não apeteciam ser governo, como queria Platão, podem e devem influenciar, chamando a atenção para caminhos melhores. Desde o teatro grego, há mais de dois mil anos, tem sido assim, como no mesmo tom têm sido a poesia, a música, a escultura, a pintura, abrindo os olhos entre abertos, ou mesmo fechados, de muitos homens.
Lembrar Ascânio Lopes, no centenário de seu nascimento, além de evocar seus companheiros e os seus propósitos na Revista Verde, mas também refletir sobre sua vida sofrida de um jovem saído do meio rural, órfão em tenra idade, trazido para a cidade para se criado por parentes longínquos. No Ginásio de Cataguases aproximou-se de um grupo irrequieto, disposto a “mudar o mundo” Poeta, essencialmente poeta, pôs em versos sua amargura, mas também sua esperança, o que o sensibiliza quantos o leram e ainda o lêem. Morreu cedo, ainda sem completar os 23 anos, mas com o pouco que deixou foi comparado a Carlos Drumond de Andrade, que um dia se encontrou com ele, na rua da Bahia e “fiquei gostando dele em quem enxergava uma alma finamente colorida, meiga, séria e encharcada de poesia. Não pretendo entender de almas, julgo porém ter encontrado desde primeiro dia a chave desta, que nunca cheguei a abrir, mas fui um de seus amigos mais certos”.
Lembrar Ascânio é falar de seus companheiros, das ideias jovens que queriam romper com o obscurantismo de então. Foi tão querido pelos companheiros e foi tão sentida sua partida, que, com sua morte, morreu também a veiculação da Revista que circulou apenas mais uma vez, somente para homenagear o poeta que tombara. Sua morte abalou seus companheiros da Revista, e o Dr. Francisco, Rosário Fusco, Guilhermino César, Enrique de Resende, foram unânimes no registro de que a Revista não teve razão de continuar sem Ascânio.
Delson Gonçalves Ferreira e Luiz Rufato, em excelentes trabalhos escreveram livros que merecem ser consultados, lidos e relidos, porque tratam de Ascânio, com proficiência.
Márcia Carrano, minha candidata para o sonho da junção da Secretaria da Cultura com Educação, num determinado momento deixou para nossa reflexão:
“Agora, se quisermos analisar a sua importância para Cataguases, a história fica mais longa e os frutos mais copiosos, pois tudo o que se fez e se tem feito culturalmente aqui é resultado da “Verde” que amadurece e volta a se enverdecer cada nova geração”.
Parabéns a quantos se lembraram desta homenagem, aos quais rendo meus agradecimentos, com um registro especial para Joaquim Branco e para Lourdinha Paixão.
















11/09/2016

GUERRA E PAZ


Joaquim Branco


Hoje (7/11/2016), na Inglaterra, no Canadá e em alguns outros países, é o Dia do Ressurgimento no qual se comemora o término das grandes guerras na Europa. Como simbologia para o evento, tanto homens quanto mulheres usam papoulas na lapela.
Republico aqui "Um canto na noite", de Henrique Silveira (1919-1943), poeta que viveu em Cataguases no século passado, e sobre o qual faço algumas considerações críticas, Observem como as papoulas (ou papoilas) fazem parte sugestiva do poema para montar o "ambiente" que Silveira tão bem descreveu:


UM CANTO NA NOITE
Henrique Silveira

Um canto chegou
lá de onde floresciam as papoilas...
Chegou com a noite, mas não é da noite.
Veio dos campos de luta molhados de sangue,
veio do chão pisado de máquinas.
Veio das crateras e passou pelos corpos inertes.
Saiu de dentro das trincheiras de ninguém
e rompeu o silêncio,
o silêncio que estava perto de tudo
em toda extensão.
Chegou um canto como de pássaros chumbados.
Chegou flocado de vozes,
de vozes perdidas e de vozes lívidas
e de vozes à procura de Deus.
Quem ouve comigo este canto na noite!?

O poeta Henrique Ignacio da Silveira (1919-1943) viveu sua aventura literária na década de 1930 e início de 40, em Cataguases, no entreato do finalzinho do Modernismo, tendo produzido um tipo de trabalho mesclado de poemas curtos e introspectivos.
Um solitário, sem grandes ousadias, construiu pequena obra que está sintetizada no livro "Poemas desta guerra", publicado pós-morte em 1979, numa antologia selecionada e organizada por mim, após uma pesquisa em que suprimi apenas poucas peças.
Suas temáticas circulam ora pelo alto grau de subjetivismo, ora pela interferência nas coisas do mundo como as guerras, as doenças e os amores.
O poema "Um canto na noite", por si só, nos dá a dimensão deste autor cataguasense cujo senso poético-musical é reforçado por sua capacidade de criação e de domínio do texto literário.
O tema da II Guerra Mundial, que se passava justamente no auge do amadurecimento do poeta (final da década de 1930), é abordado aqui com uma força e uma singeleza pouco comuns.
Em todo o texto, o poeta entoa um canto seu, mas que vem de terras distantes: de onde nascem as "papoilas", de campos "molhados de sangue", e "pisado de máquinas", e fala de trincheiras e do silêncio mortal dos "corpos inertes". Verso a verso, ele parece ensaiar um canto para o leitor chegar a esse tempo (que é o seu) e a esse lugar distante (e próximo) de nós, para que se mostre – como ele – solidário a tanto sofrimento – o das guerras.
Percebem-se, na penúltima estrofe, as metáforas carregadas do peso e da sombra da guerra: o canto de "pássaros chumbados", "flocado de vozes", apertado logo em seguida pelos "iis" de "vozes perdidas e de vozes lívidas" que afinam o discurso poético para, em seguida, abrir e se multiplicar nas vozes "à procura de Deus".
Sua sensibilidade poética pode ser reconhecida na dicção perfeita propiciada pela escolha das palavras, tocadas por um ritmo que vai num crescendo e termina com um estranho lamento, como a buscar na interrogativa final a cumplicidade do Outro.

(Henrique Silveira em desenho de Iannini, 1943)

11/06/2016

A AGRESSÃO FICCIONAL


Joaquim Branco





Em 1943, a Editora José Olympio publicou o romance "O Agressor", de Rosário Fusco, com sugestiva capa de Santa Rosa.

Nesses 33 anos, entre a 1ª edição e a 2ª (de 1976), pela Francisco Alves, Rosário Fusco escreveu outros livros, tornou-se um viramundo. Esteve na França várias vezes, e mais tarde se aposentou como procurador do antigo Estado da Guanabara, não sem antes rechear sua biografia com mil peripécias, para pousar enfim em Cataguases, onde continuou a escrever romances, alguns ainda inéditos.

"O Agressor" foi também publicado na Itália pela Mondadori, em 1968. No ano 2000, seu filho François reeditou a obra pela editora Bluhm.
E seu autor, de temperamento e atividade intensos, permanece até hoje mais como um nome para os outros escritores que o admiravam e admiram sua obra.
"Nunca consegui editar um livro em moldes comerciais", disse ele a mim certa vez, e, consequentemente, também não teve uma resposta popular, permanecendo infelizmente quase desconhecido tanto do público como um todo, como do meio universitário.

Recentemente, o contista Adrino Aragão chamou atenção para as características de "O Agressor" como um romance de esfera kafkiana, alinhando seu autor entre os precursores do realismo fantástico não só no Brasil, mas também internacionalmente, já que as primeiras obras desse movimento são da mesma época.

Tal como em romances classificados no gênero de "estranhamento", David – a figura central de "O Agressor" – é um homem comum, no caso um guarda-livros que trabalha no escritório de uma chapelaria numa grande cidade. Sua existência rotineira, de repente, começa a ser modificada por acontecimentos comuns que, no entanto, o atingem de maneira única e estranha. Só a ele. Como se as coisas, ao se aproximar dele, perdessem o contorno do normal, apresentando sempre consequências negativas e agigantadas.
Já no 1º capítulo, na apresentação de David, pode-se ler: “Nunca recebera uma visita, nem mesmo quando esteve acamado por uns dias, há tempos.” (p. 12) E mais adiante: “Voltando à noite, raramente via os pensionistas, que em geral se recolhiam cedo.” (p. 12)

David chega a confessar, diante das incríveis pressões que vinha sofrendo: “(...) eu lhes juro preliminarmente que não tenho a menor culpa do que está ocorrendo. Não sei de que lado está o direito (...)” (p. 20)
No capítulo final, antes do surpreendente desfecho, mais uma vez o personagem volta à carga, na sua defesa: “– Mas ninguém sabe de nada... Eu não fiz nada...” (p.171)

No capítulo 5 - "Entendimento com Nicolau" - o narrador acentua a atmosfera de mistério e repentinamente registra, como a prenunciar certas investigações que, em tempos de regimes autoritários, surgem: "Nada de especial podia dar corpo às suspeitas de David. Porém, como a falta de indícios também podia ser considerada indício [grifo do autor], suas atividades na casa passaram a ser de pura reserva. [...] Agora, de vez em quando recebia telefonemas." (p. 51)

Entre agredidos e agressores, vale re'viver o universo fusqueano, que precisa ser mais bem conhecido do nosso público, ávido de livros fabulosos como esse "O Agressor". Bem Rosário Fusco.

Bibliografia: FUSCO, Rosário. O agressor. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora, 1976.

Nota: entre as 3 edições de "O Agressor", optei aqui por reproduzir a capa da 1ª edição, desenhada pelo grande pintor Santa Rosa, que retrata muito bem o universo do romance e que me parece de melhor qualidade.

11/05/2016

LANTERNAS ALÉM DO JARDIM




LANTERNAS ALÉM DO JARDIM

Joaquim Branco

Uma vertente para a qual os poetas e ficcionistas sempre se inclinaram é a chamada linha da reflexão e da memória. E trata-se, modernamente, de uma tendência que reúne muitas produções tanto entre criadores quanto em teóricos da literatura.

Se se falar em termos cataguasenses, pode-se remontar, na década de 1920, a Ascânio Lopes – autor de “Cataguases”, que ao enaltecer ‘a mais mineira cidade de Minas Gerais’, transformou o poema na nossa primeira reminiscência literária digna de nota –, ou a Guilhermino Cesar, Francisco Inácio, Enrique de Resende e Martins Mendes, que não permitiram que jamais se esquecesse o córrego Meia-Pataca e a vida da cidade naquele tempo.

Na mesma trilha temática, Francisco Marcelo Cabral manteve a tradição com o seu "Inexílio" – o melhor livro escrito sobre a cidade –, ou Ronaldo Werneck, com seu discurso-corredeira sobre o Rio Pomba.

Agora, reporto-me a algo que os leitores também não poderiam deixar de conhecer: o poema “Carta de Cataguases”, de Lina Tâmega Peixoto, uma homenagem a sua mãe e – por que não dizer? – a Cataguases. Sobre o texto e sua autora, eu teria muito que dizer, mas, diante das poucas linhas que me restam e do que isso adiaria de prazer ao leitor, prefiro ouvir em silêncio a comovedora reflexão propiciada por esses versos.

CARTA DE CATAGUASES
Lina Tâmega Peixoto

Nada afasta o atordoado e leso dia
em que senti se apagarem as margens do mundo
onde cavas as águas do sonho.
Nada redime as formas de amor
e feições de encantamento, transcritas
por muitos anos em teu amargo e doce silêncio.
Eu estava lá e não soube arrancar de teus ombros
o manto de montanhas que tolhia
tua esperança, graça e brilho
com que reordenavas as coisas
da natural existência.
Agora, em penitência e dádiva, desejo tua morte diferente
atenta à glória e levantada do pranto
buscando-te para um passeio em tua casa.
Aflora o coração nos vasos de flores e orquídeas
concebidas como lanternas de jardim
e toma posse do que está aquecido
sob o chão duro do quintal.

Estás tão próxima, submersa no poço da insônia,
que louvo tua miragem e a cerco de filhos
que acariciam teu cabelo e o enrolam
como botões de rosa.
Vejo-te sentada na cadeira da varanda
espalhando no colo meadas de cores
e conduzindo com a mão o rebanho de linhas
para cintilar na toalha sinos de Natal.

Peço que lembres do que construí
camuflada no caos da infância.
Enclausurada nas palavras
deixei-as emendadas na garganta
e fiapos de voz, canto crepuscular,
ficaram à deriva das constelações do medo.

Deposito em teus ossos
– reino de herança ao abrigo da terra –
o óleo suave e espesso da lembrança
que ultrapassa a viagem circunscrita
a nascimentos e mortes.
E recorto na envelhecida porta da memória
as festas de aniversário,
a de borboletas de papel, pregadas nas árvores,
que apanhávamos com redes de filó
e a dos balões crepitando com iscas de fogo
na negrura do céu.
Os rumores de outrora renovam,
como armadilhas de sol,
a compassiva alegria no teu rosto.
Amarguro a perda dos signos do passado
que, indistinto, reconstruo com visitas à tua cidade
e com linguagens de lastro e palha
que contam à tua gente
como salvar-me da solidão.
Não me inclinei sobre tua imagem insulada no tempo
para juntas deitarmos sobre a pedra,
– adamantina pedra da pele e das fraturas do corpo –
que se aquieta em mim
a luz frouxa da meia lua
desfazendo as dobras de nossa história.

Procuro falas da tua vida
na seiva solar que escreve
teu infindo repouso
que arremesso às imprecisas raízes maternas.
Tanto mistério me consola e de tal modo
ordena o emaranhado da alma
que não percebo que lateja nos olhos
a mansa demência da tua morte, mãe.

(foto: Natália Tinoco)


10/30/2016

EXPOSIÇÃO DE POEMAS VISUAIS NA INDONÉSIA


Convidado para participar da exposição intitulada "MY TOWN - INDONESIA", a se realizar em fevereiro de 2017, vou enviar o poema a seguir, sobre o tema indicado no convite abaixo:


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10/29/2016

SUBMERGINDO EM ESTRANHAS ÁGUAS





Quando P. J. Ribeiro, de repente, resolveu botar pra fora todo um arsenal de textos guardado há cerca de 20 anos, ninguém esperava que houvesse tanta coisa boa. Isso o surpreendeu também.

Leitores e críticos, não sabendo que aquela avalanche de bons textos vinha de muitos anos atrás, estão recebendo os livros como produções atuais. Tanto melhor.
Assim, o efeito torna-se ainda mais forte, pois, posto em confronto com muito do que se publica hoje, sua miniprosapoesia cresce em qualidade e novidade.

Este é o 5º volume tirado de um baú que parece inesgotável. A ideia do título inicial de “Água sanitária” passou pela variação de “Águia solitária”, para pousar definitivamente no cruzamento trabalhado: "Água solitária". No caso, o insólito adjetivo ("solitária") aplicado a "água", retira-a da categoria que o inglês chama de "uncountable", levando-a a formar um estranho sintagma, que ajuda a produzir o efeito pretendido pelo autor.

Um pequeno livro composto de minitextos, que parecem a princípio seriados e individualizados em cada página, no entanto, se encadeiam para formar um texto único.
São microfrações de textos tirados de outros textos um pouco maiores feitos ao sabor (ou ao dissabor) da vida, e que certamente, embora em pequenas doses, comprovam e confirmam a tese do quanto menor melhor.
O resto, o leitor há de tirar da sua própria vivência/leitura.
(setembro de 2002)

FRAGMENTOS DE "ÁGUA SOLITÁRIA":
Se o caminho é esse, se ter
de viver exige tanto,
pedir a morte não é muito.
O preço da vida tá um absurdo:
pela hora da morte!

Não posso brigar comigo
embora tenha vontade.
Por dentro quem me garante
qu’ eu não seja a outra metade?

O que me espera depois da morte?
Deus? As almas?
Algum parente?

Como posso saber de mim
se não me acho
um minuto sequer
por perto?

Entretanto tudo temo
e fico tremendo
toda vez que o dia amanhece
e o sol vem
e a luz me bate no rosto

No espelho
viro-me pelo avesso.

A vida tá parando, já sei.
Sei também porque nada mais incomoda
àquele que sempre se passa por mim.

Vou correr atrás desse dia,
lento e indestrutível
bocejo.

Porém não sei como
nem pra onde ir
pois nada nem ninguém
me espera.

Quer saber?
O preço da minha liberdade
tá ficando caro..

Seus lábios me despertam
e me chamam pra vida;
aí eu a abraço e juntos
vamos caminhando por essas ruas
dentro de nossas cabeças.

Assim vou deixando meu coração
seguir sua rota, minha estrela,
pois desse jeito seremos todos
iluminados.

Se a morte chegar de repente
não me surpreendo.
É a vida.

(2002)
(foto Natália Tinoco)

10/21/2016

ENCONTRO COM ALUNOS DO COLÉGIO CARMO



DA POESIA DISCURSIVA À POESIA VISUAL





A convite do professor de literatura Humberto Mendonça da Costa, fui hoje, 21-10-2016, ao Colégio Carmo, de Cataguases MG, para um encontro com alunos do 3º ano do curso médio. Apresentei uma minipalestra sobre o tema "Da Poesia Discursiva à Poesia Visual", englobando os movimentos da Poesia Concreta, Poesia Praxis e Poema Processo dos anos de 1960 e 70, bem como os antecedentes e consequências desses movimentos.













Fotos Edivânio Felix Silva

10/10/2016

INTERMEZZO COM MADAME BOVARY



(artigo e texto de criação tendo como partida o curso sobre Teoria do Romance, dado por Luiz Costa Lima no meu curso de Doutorado na UERJ)

O romance Madame Bovary, publicado na França em 1856, marca o movimento realista e o ponto máximo da obra de Gustave Flaubert. É a estória de Emma Bovary, mulher entediada pelo casamento, que se mete em confusões amorosas e acaba por se suicidar, iniciando o drama burguês que substituiu as peripécias 'pueris' do Romantismo.
É uma narrativa em constante estado de "em processo". Nele, a iniciativa do personagem vira o rumo dos acontecimentos a toda hora, como nesta conversa que Emma, distante de seu marido Carlos, tem com um certo Rodolfo:

"Enfim, chegou o sábado, antevéspera.
Rodolfo veio à noite, mais cedo que de costume.
– Está tudo pronto? – perguntou-lhe ela.
– Sim.
Deram a volta a uma platibanda e foram sentar-se perto do terraço, à beira do muro.
– Estás triste – observou Emma.
– Não, por quê? – E, contudo, ele a mirava singularmente, com ternura.
– É por que vais partir – insistiu ela – por que deixas tuas amizades, tua vida? (...)" (1)

Emma procura um lugar no quarto para descansar em seus pensamentos. Lembra-se de um livro de cavalaria... Ah! Era o Dom Quixote, de um certo autor espanhol. Um romance (humm?) em que o cavaleiro não era galante e não se podia suspirar por ele. Isso a desvia do estado inicial. Lembra-se de que à tarde irá à 6ª Corte Correcional do Tribunal do Sena, em Paris, só para ver, em meio à multidão, a entrada de um escritor que estava sendo processado pelas “indecências” registradas no livro Madame Bovary. Os juízes e os críticos nos jornais discutiam também se aquele era um romance realista ou naturalista.
De uma das portas de seu boudoir, Emma (sou um personagem LIVRE! LIVRE!?), depois de andar por toda a casa, contempla um retrato de Homero lateralmente.
Pode-se folhear um livro de páginas meio amareladas e grossas pela poeira e ler sobre a insatisfação que vai rondando o personagem:

"Após o aborrecimento desta decepção, seu coração ficou de novo vazio, recomeçando a série dos dias monótonos.
Iam, pois, continuar assim, uns após outros, sempre os mesmos, incontáveis, sem surpresas! As outras existências, por mais insípidas que fossem, tinham, pelo menos, a possibilidade do inesperado. Uma aventura trazia consigo, às vezes, peripécias sem fim, o cenário transformava-se. Mas para ela nada surgia, era a vontade de Deus! O futuro era um corredor escuro, que tinha, no extremo, a porta bem fechada."(2)

A protagonista afunda no tédio, no nada prosaico-burguês, no redemunho do (seu) horror individual.
Flaubert encontra sua solução ficcional tornando artístico o banal, a ninharia. A arte autônoma e o personagem “individualizado” mergulham no cotidiano, só possível no romance.
O horror metropolitano a que aduz Luiz Costa Lima invade a tela, melhor dizendo, a folha branca, como “ponto de partida” (3) . Não impede, no entanto, a “ambiência tranquila” (4) que um nada avassalador tome conta do cotidiano de Emma e lhe subtraia o sentido da vida. O romance acompanha palmo a passo os acontecimentos. “O texto ficcional, em vez de dar as costas à realidade, a dramatiza e metamorfoseia” (5) para registrar o suicídio da protagonista no final do romance. Nesse ponto, este é um ato diferenciado do lugar-comum romântico pela motivação difusa e patética:

"Emma analisava-se curiosamente, para ver se sofria ou não. Mas não! ouvia o bater do pêndulo, o crepitar do lume e a respiração de Carlos, que se conservava em pé, à cabeceira.
– Que coisa insignificante é a morte! – pensava ela; – vou adormecer de novo e tudo acabará!" (6)

Mas, não precipitemos os acontecimentos, voltemos às primeiras páginas para ver a esposa de Carlos em visita a Paris, onde narra suas impressões “de dentro” do cenário grandioso em que contempla a burguesia ‘feliz’ no luxo de seu vestuário e dos locais ornados. O balanço crítico de Emma, em discurso indireto livre, em que mais se vê a mão do narrador, conta do aborrecimento e do tédio burguês em meio à feérica festa parisiense:

"Paris, mais vasta que o Oceano, resplandecia, pois, aos olhos de Ema, numa atmosfera vermelha. A onda enorme que se agitava naquele tumulto dividia-se contudo em partes, classificadas em quadros distintos. (...) O mundo dos embaixadores caminhava por assoalhos luzidios, em salões forrados de espelhos, ao redor de mesas cobertas de tapetes de veludo com franjas de ouro. Havia ali vestidos de cauda, grandes mistérios, angústias disfarçadas em sorrisos. (...) Era uma existência superior às outras entre o céu e a terra, nas tempestades, alguma coisa de sublime. Quanto ao resto do mundo, desaparecia, sem lugar determinado, e como se não existisse.
Quanto mais próximas lhe ficavam as coisas, mais o seu pensamento se afastava delas. Tudo o que a rodeava de perto, os campos enfadonhos, os burguesinhos imbecis, a mediocridade da existência, parecia-lhe uma exceção no mundo, um caso particular em que se achava envolvida, ao passo que para além se estendia, a perder de vista, o imenso país da felicidade e das paixões." (7)

Fica melhor assim. Um final não tão infeliz. Sair do drama para adentrar na cena burguesa. Terminamos com um fragmento que envolve, como um cortinado de veludo, luzes, pesados tapetes e pensamentos inebriantes, a todos nós e ao próprio texto flaubertiano, rendado ficcional da mais refinada expressão oitocentista.

REFERÊNCIAS:
1 FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary. Trad.Araújo Nabuco. São Paulo: Martins, 1957, p. 205.
2 ______. Ob. cit., p. 69.
3 COSTA LIMA, Luiz. O Redemunho do horror - As margens do Ocidente. São Paulo: Planeta, 2003, p. 21.
4 _____. Ob.cit., p. 21.
5_____. Ob. cit., p. 18.
6 FLAUBERT, Gustave. Ob. cit. p. 324.
7 ______. Ob. cit., p. 64-5

(resumo de meu trabalho apresentado no curso de Doutorado na UERJ).

9/18/2016

DE VOLTA AO PASSADO



DE VOLTA AO PASSADO

Joaquim Branco



As viagens literárias são as mais fruitivas, dizem alguns, porque a imaginação voa livre de empecilhos ou mal-estares. Não há atrasos, contratempos ou enganos. Existe, entretanto, o perigo da verossimilhança, esse gigante que nos assalta quando, entre o imaginado e o descrito, algo nos escapa ou excede no dizer.
No caso do texto a seguir, nada disso acontece. O poema “Encontro”, de Lina Tâmega Peixoto, é resultado de uma viagem feita por ela aos Açores para percorrer o caminho que seu tio Francisco desejou percorrer e não o fez. Lina viajou e escreveu estes versos, dedicando-os à memória do patriarca Manoel Inácio Peixoto, aquele que um dia transpôs o Atlântico em busca de uma vida nova no Brasil, como fizeram muitos de seus conterrâneos.
A nós, leitores, cabe o melhor da viagem: a leitura e a navegação em versos elaborados com a maestria e o bom gosto de quem sempre sabe o que faz.


ENCONTRO

Lina Tâmega Peixoto

À memória de Manoel Inácio Peixoto

"Tenho agora uma única obsessão: ir ao Açores em busca
das origens" (Francisco Inacio Peixoto em carta de 8/4/80)


Morei nos Açores por uma semana, eternamente.
A ilha construída
da forma mineral da noite
circunda o ar navegado no oceano.
Nela, desembarquei no cais
de onde o avô havia partido.

Lugares, ancestrais, afeto
são coisas arrebatadas à vida
e corroídas de invenção.
Conta a família, para aumentar o infinito,
a travessia do pai,
ainda menino, cortando sozinho
as vagas de suor e medo
repetidos rumos de começo e fim.

A calçada, acertos de floração vulcânica,
leva à Igreja de Nossa Senhora da Lampadosa
e me desconcerta ver dormida a luz
nas mãos da santa.
A pia de batismo, manchada de limo,
ainda úmida ao toque dos dedos,
embaça a esperada contemplação
- a de vivas cinzas caídas no chão
e a de muito antes, com grinaldas de água
molhando o recém-nascido -
Junto ao altar, um aroma seco rodeia
o jarro de flor.

A viagem descida até o fundo do corpo
desmancha-se em um nome.
Muitas vezes naufraguei
em meus próprios deuses
navegantes de um outro lado do mundo.

Este que procuro desdobra o passado nos retratos
e nas pinturas que seguram as paredes da casa.
Meu pai esculpe o rosto de seu pai
na certeza de que a imagem se assemelha
ao que ficou retido na infância.

Outras lembranças recolhem a visão
das rochas escuras e antigas
entornadas do vulcão.
Enraízam o sol e a seiva das videiras
e brilham com beleza tão intensa
como se guardassem dentro delas
auroras extintas.

Não há ossos.
Só o amor exarcebado pela solidão.
Escrevo a história deste
que vagueia pela Ilha do Pico
a respirar as sombras de sua aldeia
a ser trocada por uma pátria
desenhada de montanhas verdes
e de córregos e rio fechados
em cântaros de poesia e lama.

Deixo a Ilha, como fez o avô,
repetindo, com doçura, o que lá
submete a memória à desordem dos sonhos.
Eu já sou relíquia do acaso
que deixo em um canto da Ilha
ou em uma cidade de Minas.
Cataguases.

9/12/2016

MIRAGENS - Expô internacional de Poesia Visual em Bento Gonçalves RS



O XXIV Congresso Brasileiro de Poesia abrirá em 13 de setembro de 2016, na Casa das Artes em Bento Gonçalves (RS), a exposição internacional de poesia visual “Miragens”.

“Miragens é uma das grandes exposições de Poesia Visual já acontecidas na América do Sul, reunindo 152 obras de autores de 44 países, que apresentam em suas criações poéticas abordagens livres sobre a ÁGUA,que é o tema da exposição. Os autores foram convidados a criar obras visuais sobre a água como fonte da vida, em suas dimensões socioambientais, sustentáveis, em seus impactos sociais em relação aos fatores climáticos, recursos hídricos, fluviais e pluviais, como fonte de energia e origem da vida. Miragem é um termo que descreve uma ilusão de ótica em suas relações entre umidade, temperatura e luz, como os imaginários oásis no deserto ou navios inexistentes em alto-mar. Miragens aqui são também as possibilidades de visualizar o que se deseja num mundo em transformação e de grande demanda em termos de consciência ecológica e sustentabilidade ambiental.

A mostra integra a programação da XXI Mostra Internacional de Poesia Visual, que abrigará também a exposição “Trajetória de Experimentalidades – Vida e Obra de Hugo Pontes” poeta visual homenageado no evento que abriga as duas exposições, o XXIV Congresso Brasileiro de Poesia, coordenado pelo jornalista Ademir Antônio Bacca. Haverá ainda a mesa-redonda “Poesia Visual Contemporânea”, tanto no dia 12, abertura do Congresso, quanto no dia 15, onde serão debatidos aspectos desse segmento na atualidade, com nomes como Artur Gomes, Ronaldo Werneck, Sady Bianchin e Tchello d’Barros.

Autores:

ÁFRICA DO SUL: CHERYL PENN | ALEMANHA: ANDREA ZÁMBORI – HANS BRAUMÜLLER | ARGENTINA: ADRIAN DORADO – ALEJANDRO FONTANA - CECILIA AUDAGNA - DANIEL ACOSTA – LORENA LOPEZ CENTELL – MARCELA PERAL – MIRIAM MIDLEY | AUSTRÁLIA: ANNEKE BAETEN – DENIS SMITH – JOHN McCONNOCHIE - VSEVOLOD VLASKINE | ÁUSTRIA: LIESL UJVARY – GÜNTER VALLASTER – THOMAS HAVLIK |BÉLGICA: LUC FIERENS - RENAAT RAMON - SVEN STAELENS | BRASIL:AIRTON REIS – ANDRÉ VALLIAS – AL-CHAER – ALEXANDRE REIS – ALEXANDRE DACOSTA – ALMANDRADE – ANGÉLICA RIZZI - AURINEIDE ALENCAR – CARMEM SALAZAR – CONCEIÇÃO HIPPOLITO – CONSTANÇA LUCAS – FÁTIMA QUEIROZ – DIEGO DOURADO – FRANCISCO XAVIER - GIL JORGE – JOAQUIM BRANCO – HUGO PONTES - JOESER ÁLVAREZ – JORGE VENTURA - JOSÉ HENRIQUE CALAZANS –JOUVANA WHITAKER – JULIANA MEIRA – LEANDRO SANTIAGO – LEONARDO TRIANDOPOLIS VIEIRA – MICHELLE HERNANDES – RENATO DE MATTOS MOTTA – RENATO GONDA – ROBERTO KEPPLER – ROGÉRIO BRUGNERA – RUTH HELLMANN – PAULO DE TOLEDO - RICARDO ALFAYA - TCHELLO D'BARROS - VICTOR AZ – XICO CHAVES |CANADÁ: MARGENTO – AMANDA EARL | CHILE: CHICOMA |COLÔMBIA: ANGYE GAONA – TULIO RESTREPO | CUBA: ENRIQUE SACERIO-GARÍ | DINAMARCA: MARINA SALMASO | ESCÓCIA: STEPHEN NELSON | ESPANHA: ÀLEX MONFORT – ALFONSO AGUADO ORTUÑO –ÀNGELS J. SAGUÉS – ANTONIO GÓMEZ –BRUNO EFIMERO – CÉSAR NAVES - EVA HIERNAUX – IBIRICO – JAIME RGUEZ – MARISA MAESTRE – MIGUEL AGUDO OROZCO – MIGUEL GIMENEZ – NÚRIA FERNÀNDEZ ESTOPÁ – SERGI QUIÑONERO – SERGIO PINTO BRIONES – SABELA BAÑA | EUA: ALEX OCHERETYANSKY - ANDREW OLEKSIUK – ANDREW TOPEL – ARAM SAROYAN – BILL DIMICHELE – ERICA BAUM - JOHN M. BENNET – NICO VASSILAKIS – MICHAEL BASINSKI – STEVE DALACHINSKY | FINLÂNDIA: SATU KAIKKONEN | FRANÇA: ANDRÉ ROBÉR – JEAN-CHRISTOPHE GIACOTTINO – JULIEN BLAINE - NUNO DE MATOS | GUATEMALA: ALVARO SÁNCHEZ | GRÉCIA: PETALA EYTIHIA |HUNGRIA: MÁRTON KOPPÁNY | INDONÉSIA: KARNA MUSTAQIM |INGLATERRA: CHRIS BIRD - SEAN BURN – LISA TRAVERS | IRLANDA DO NORTE: CRISTOPHER FLEMING | ISLÂNDIA: ANGELA RAWLINGS -RAGNHILDUR JÓHANNS | ITÁLIA: ANGELA CAPORASO - CINZIA FARINA – ENZO MINARELLI - JIMMY RIVOLTELLA – ORONZO LIUZZI – RENATA SOLIMINI - ROSSANA BUCCI - TIZIANA BARACCHI | JAPAN: JESSE GLASS - KEIICHI NAKAMURA – KEIGO DEPID HARA – KOJI NAGAI |MÉXICO: CÉSAR ESPINOSA – MARA PATRICIA HERNANDEZ – MIGUEL CÓRDOVA COLOMÉ – ROMINA CAZÓN | NORUEGA: JAROMIR SVOZILIK – ELIN MACK | PANAMÁ: MANUEL E. MONTILLA | PERÚ: VICTOR VALQUI VIDAL | POLÔNIA: MIRON ET | PORTO RICO: ESTEBAN VALDÉS ARZATE – ROBERTO NCAR | PORTUGAL: ARMANDO SALES MACATRÃO –AVELINO ROCHA - FELICIANO DE MIRA – FERNANDO AGUIAR |REPÚBLICA DOMINICANA: LUIS MUNOT | ROMÊNIA: ANCA BUCUR – IULIA MILITARU | RÚSSIA: ALEXANDER LIMAREV – EDWARD KULEMIN – RENE RIG (RAFIKOV R.M.) – SWETA LITWAK | SÉRVIA: DEJAN BOGOJEVIC | SUÉCIA: LARS PALM – XIMENA NAREA – RUBÉN AGUILERA | SUÍÇA: SCHLATTER BRUNO | TUNÍSIA: ALI ZNAIDI |TURQUIA: ERCAN Y YILMAZ | UCRÂNIA: VOLODYMYR BILYK |URUGUAI: CLAUDE NGUYEN – CLAUDIA LÓPEZ FOLETTO – CLEMENTE PADIN – JORGE ECHENIQUE – JUAN ANGEL ITALIANO | VENEZUELA:AMARILYS QUINTERO RUIZ

Serviço:
Abertura: 13 de setembro de 2016 às 19 h
Local: Casa Das Artes. Bento Gonçalves, RS.
Visitação: 16 de setembro a 30 de setembro de 2016.




9/08/2016

O CONTO





O CONTO: pequenas variações no tempo e no espaço

Joaquim Branco

Etimologicamente a palavra “contar” vem do latim “computare”, e, na acepção de contar uma estória, reporta-se inicialmente à narração oral.

Somente muito tempo depois, com a invenção da escrita, aos poucos, foi surgindo o conto (literário) como se conhece hoje.

Em tempos remotos, a poesia era muito mais praticada e apreciada, pois, contendo em si características de cadência, ritmo e musicalidade, podia e pode ser facilmente memorizada. Não dependendo do registro escrito, a poesia se popularizou nas praças, salões da aristocracia, nas reuniões de família e em outros ambientes.

Por outro lado, diferente do simples relato que deve reproduzir um fato acontecido, o conto (como o romance) não tem compromisso com a verdade, pois ele basicamente é “ficção” (do vocábulo latino "fictio", que significa “fingimento”, ou mais concretamente “mentira”). Portanto, aquele dito popular “quem conta um conto aumenta um ponto” tem tudo a ver com o ficcional, pois este está ligado à subjetividade e à individualidade de cada “autor”.

Cultivado desde a Antiguidade por todos os povos, o conto conheceu na Grécia o lado maravilhoso da Mitologia, e no Oriente o fascínio do qual temos como exemplo mais famoso as estórias de "As mil e uma noites".

O prestígio artístico e a popularidade deste tipo de narrativa só se consolidaram a partir do século XIX com o surgimento de grandes mestres da narrativa curta como Maupassant, Tchecov, Machado de Assis, Flaubert, Dostoievski, Swift e no século seguinte Kafka, Hemingway, Fitzgerald, Joyce, Borges, Katherine Mansfield, Camus.

Pode-se conhecer muito sobre o conto com a leitura do livro intitulado "Teoria do Conto", de Nádia Battella Gotlib (Editora Ática). Num pequeno volume de 95 páginas, a professora da USP nos faz navegar por vários tópicos importantes como a história do próprio conto, o maravilhoso, o gênero, o enredo, a construção e os autores que deram a esse tipo de narrativa um grau de excelência.

(A foto é do ficcionista franco-argelino Alberto Camus, um dos maiores nomes na literatura do século XX)

8/06/2016

"O Planeta Azul" - exposição de Arte Postal na Itália


S A C S - ART ESPAÇO CONTEMPORÂNEA EXPERIMENTAL
IT / PT
O planeta azul
Journey into natureza e do homem
PROJETO ARTE POSTAL INTERNACIONAL E DIGITAL
marcador Art
De Setembro de 1 - 15 de outubro de 2016
VERNISSAGE Quinta-feira 1 de setembro às 17h30
Apresentação de George amigo
Projeto por Cristina Sosio e Bruno Cassaglia
Biblioteca Municipal A. Aonzo - Praça da Constituição - Quiliano (Savona)
DOWNLOAD: Manifesto - Convite - Comunicado de imprensa
EVENTOS
● espaço de arte de vídeo
Toda quarta-feira da exposição é dedicada à apresentação de um vídeo.
A partir de 16.00 horas você será capaz de ver os vídeos
7 de setembro - Homenagem a Christine Tarantino (EUA) - 14 de setembro - Grupo Sinestetico (Itália)
21 de setembro - Renato Cerisola (Itália) - 28 de Setembro - Maurizio Follin (Itália)
5 de outubro - Cristina Sosio e Franca Maria Ferraris (Itália) - Outubro 12 - Ioanna Roussou (Grécia)
15 de outubro de 2016
abertura especial 9:00-12:00 / 15:00-18:00 e 20:30-23:00
instalação de vídeo por Bruno Cassaglia - 15.00
16.00 Apresentação do vídeo apresentado durante a exposição Espaço ● Vídeo Arte
20.30 - Filme / Documentário screening "The Blue Planet", dirigido por Franco Piavoli
Preparado pelo Grupo Cineforum "Os Bons Companheiros"
Evento organizado por ocasião do 12º dia do Contemporary
promovido pela Hammock - Associação de Museus de arte contemporânea italiana
http://www.amaci.org/gdc/dodicesima-edizione/il-pianeta-azzurro
O show vai seguir no seguinte horário:
Terças, quintas e sábados, das 09h00 às 12h00 / terça, quarta e sexta-feira 15,00-18,00
Fechado domingo e segunda-feira
abertura especial por ocasião do Agrigusta: 1-2-3-4 setembro às 20:30-22:30
WEB página dedicada Link: www.sacsarte.net/Progetto-pianeta/Il-pianeta-azzurro.html
_______________________________________
planeta azul
Journey into Natureza e do Homem
PROJECT INTERNACIONAL DE ARTE MAIL E ARTE DIGITAL
Bookmark Art
1 de setembro a 15 de outubro de 2016
VERNISSAGE quinta-feira, setembro 1, 17:30
Editado por Cristina Sosio e Bruno Cassaglia
Revisão de George amigo
Catálogo da exposição
Biblioteca Pública A. Aonzo
Praça da Constituição, Quiliano (Savona)
Download: Posters - Convite - Comunicado de imprensa
EVENTO
Espaço ● Vídeo Arte
Toda quarta-feira, Durante o tempo de exposição, será dedicado a uma apresentação de vídeo.
A partir de 16:00, será possível assistir os vídeos de
07 de setembro - Homenagem a Christine Tarantino (EUA) - 14 de Setembro - Grupo Sinestetico (Itália)
21 de setembro - Renato Cerisola (Itália) - 28 de Setembro - Maurizio Follin (Itália)
05 de outubro - Cristina Sosio e Franca Maria Ferraris (Itália) - 12 de outubro - Ioanna Roussou (Grécia)
15 de outubro de 2016
aberturas especiais: 9:00-00:00 - 15:00 - 18:00 - 21:00-23:00 pm
15:00: instalação de arte de vídeo por Bruno Cassaglia
16:00: Projeção de vídeos, apresentou durante a exposição em Video Art Space
20:30: Projecção do documentário "The Blue Planet" ( "O Planeta Azul"), dirigido por Franco Piavoli
Iniciativa realizado pelo Grupo de Cine-fórum "Goodfellas" ( "Os bons rapazes")
A exposição está incluído no dia 12 de Contemporary,
organizado pela amaci
http://www.amaci.org/gdc/dodicesima-edizione/il-pianeta-azzurro
A exposição estará aberta durante os seguintes horários:
Terça-feira, quinta e sábado: 9:00 às 12:00 am - terça, quarta e sexta-feira: 15:00 - 18:00
Ele será fechado no domingo e segunda-feira.
aberturas especiais durante "Agrigusta" (exposição de alimentos da agricultura): 01 de setembro, 2º, 3º quarto, 20:30 - 22:30
Web site dedicado Link: www.sacsarte.net/Progetto-pianeta/Il-pianeta-azzurro.html
ARTISTAS / ARTISTAS
ARGENTINA
Assinar Susana - Arauz Nelly - Gabriela Caruso - Escot Claudia - Leone Geraci Stella Maris - Makrucz Marcela - Maribel Martinez - Hilda Paz - Pezzani Claudia
AUSTRÁLIA
Carland Lillian - Peter Murphy - Viers Alicia
ÁUSTRIA
Pinter Klaus - Erich Sundermann
BÉLGICA / BÉLGICA
Gonay Fabienne - Anke Van Den Berg - Van Hissenhoven Marie-Laure
BRASIL / BRASIL
Remedios Carmen - Varandas Sperandio Jane Beatriz - Bergamin Marithe - Bohn Leci - Joaquim Branco - Mara Caruso - Damasceno Ferreira M. Julieta - dê para mim Maria Araujo - Ecker Kohler Jeanete - Erzinger Janos - Mariano Ferreira Ieda - Fogliato Therezinha Lima - Gutierrez Luiza - Imagine o Par B. - Kronbauer Leite Jussara - Luzzatto Tania - Marasca Soccol Erminia - Mattioli Leite Neiva - Neto Celestino - Pacheco Lilian - Presotto Vera - Remedios Carmen - Ribas Marinho Dorian - Ribeiro Queiroz Helen - Sirlei Caetano - Toniolo Maria Do Carmo
BULGÁRIA
Vesselinov Vlado
CANADA
Diane Bertrand - Evangelista Anna - Elaine Rondas
CHILE / CHILE
Busquets Carolina - Antonio Cares - Femenias Victor - Pacheco Acuña Orlando Nelson
DINAMARCA / DINAMARCA
Bjørnhaug Grethe
FINLÂNDIA / FINLÂNDIA
Holopainen Tapio - Mattila-Tolvanen Anja - Tiililä Paul
FRANÇA / FRANCE
Boccù Carmen - Burgaud Christian - Flamengo Patricia
ALEMANHA / ALEMANHA
Buchholz Joachim - Dermani Abdoul-Ganiou - Elke Grundmann - Hidir Ok - Henning Mittendorf - Jürgen O. Olbrich (No-Institute) - Sandra Schmidt Simone - Lars Schumacher - Schumacher Susanne
JAPÃO / JAPÃO
Ryosuke Cohen
GRÉCIA / GRÉCIA
Coutarelli Demetrios
INGLATERRA / INGLATERRA
Keith Bates
Irlanda / Irlanda
John Jennings
ITALY / ITALIA
Accigliaro Walter - Albano Irene - Alberton Germana - Matthew Allegri - Alliri Venturino Silvana - Amadelli Chiara - Antonio Amato - Andolcetti Cristina - Andolcetti Fernando - Antonielli Adriana - Avanzini Celestina - Baldassini Paola - Tiziana Baracchi - Barbarino Jonathan - Barbero Bruno - Barli Alberto - Basile Giovanni - Basile Lucia - Beglia Emilio - Bellini Giuliana - Berretta Daria - Bertola Carla - Besozzi Ermanno - Alberto Besson - Bobo Antonio - Mariella Bogliacino - Boiocchi Stefano - Bolgiaghi Emilio - Bonari Adriano - Borrini Sergio - Milvia Bortoluzzi - madeiras Anna - Paul Bottari - Cesare Botto / Bondi Ober - Bucci Rossana - Busanelli Pino - Caccaro Mirta - Alfonso Caccavale - Campagnolo Alessio - Caporaso Angela - Caputo Annamaria - Carantani Maurizia - Cargnelli Rossana - Carmellino Michele - Cassaglia Bruno - Cavallero Antoinette - Celotto Camilla - Centrone Francesca - Cerruti Arianna - Cesino Daniela - Chiarini Lucrezia - Ciarlo Francis - Cosimo Cimino - Corcione Piera - Craviotto Marta - Crescini Giovanna - Cuciniello Natal - Gianni D'Adda - Chiara D'agostino - Giorgio De Cesario - Michele De Luca - De Marchi - Gherini Antonio - Dealessi Albina - Dede Massimiliano - Demuro Simonetta - Di Michele Antonio - Maria Teresa Di Nardo - Di Palma Renata - Dietrich Konrad - Marcello Diotallevi - Dolermo Gabriele - Maria Anna Donati - Donaudi Giovanni - Donin Beatrice - Duro Gianfranco - Paola Failla - Filippo Falco - Falsaci Massimo - Cynthia Farina - Ferrara Carolina - Filardi Giuseppe - Maurizio Follin - Roberto Formigoni - Strong Humbert - Franzia Lia - Frassanito Matteo - Frei Mariano - Fulgor C.Silvi - Galeotti Gaia - Gangemi Marialetizia - Garavini Lia - Garzoni Federico - Gazzarini Maria Silvia - Enrico Giannelli - Giarrizzo Annamaria - gigante Silvana - Giorio Cesare - Giuliano Gloria - Gobbi Tosca - Claudio Grandinetti - Gravina Giuseppina - Guano Alessio - Gusella Simone - Gusinu Giuseppe - I Santini Del Prete - Iacomucci Carlo - Jandolo Benedetta - Passar Rosanna - Lepori Eliseo - Liuzzi Oronzo - Luigetti Xerxes - Mabi Col - Mancin Margherita - chuck Francis - Alessio Manfredi - Manfredi Andrea - Mantisi Cristina - Marchesa Giuliana - Matthew Marquis - Arnaldo Marcolini - Marrali Calogero - Vanessa Martini - Masoni Romano - Maute Michele - Mazzola Pinuccia - Medola Massimo - Giovanni Meloni - Menni Veronica - Produtos Aldo - Monica Michelotti - Minuto Francesca - Mocano Vlad - Molinari Mauro - Federico Monachesi - Montanella Gilia - Montano Maria Grazia - Emilio Morandi - Mossio Rebecca - Christmas Aurora - Nadia Nava - Ober Paul - Occorsio Paola - Orisol (Oriana Del Carlo) - Palmisani Ramona - Paoli Linda - Pertone Silvano - Petraglia Giorgio - Antonio Picardi - Piccazzo Gianni - Anna Pizzi - Predieritaliercio Mariarosa - Nadia Presotto - Prota Giurleo Antonella - Alessandra Pucci - Puddu Federico - Franco Repetto - Repiccioli Paola - Resurreccion Maria Marrienel - Ricci Rossella - Ricciardi Angelo - Riri Negri - Rizzo Caterina - Roberto Martina - Roccioletti Andrea - Sabina Romanin - Romeo Claudio - Sandra Rose - Rosmini Tiziana - Rossi Jacopo - Ruggieri Martina - Salviati Alessio - Sansevrino Sergio - Santarelli Rosa Maria - Sassu Antonio - Alessandro Scaglia - Scala Roberto - Scalise Carolina - Schiro Elena - Scutelnic Anastasia - Salvatore Sebaste - Sellerio Elena - Sergiampietri Danilo - Domenico Severino - Sireno Monica - Solamito Luigino - Solda Paola - Somenari afro - Alberto Sordi - Sosio Cristina - Spaggiari Daniela - Umberto Stagnaro - Salvatore Starace - Stradada Giovanni E Renata - Teruzzi Giorgia Valeria - Tinazzi Luisa - Tissone Luca - Traverso Lacchini Elisa - Valderrama Fabrizio - Venier Emanuela - Veronesi Rosanna - Viriglio Lilia - Vitacchio Alberto - Zilich Alice - Zucchini Rolando (Estúdio Zetau ) - Luca Zunino -
MACEDÓNIA
Gjorgjievska Elena
MÉXICO / MÉXICO
Alcalde José Luis Soberanes - María Guadalupe Zavala
NORUEGA / NORUEGA
Larsen Torill Elisabeth - Jaromir Svozilik
PAÍSES BAIXOS / HOLLAND
Bouws Renee - Já Artes - Sidac / Piet Franzen
PERU '
Kruger Antonio Cano (Krugerland)
POLÓNIA / POLÔNIA
Kuzniar Elżbieta
PORTUGAL / PORTUGAL
Mousinho Antonio
ROMÉNIA
Petca Ovidiu - Valcelean Krisztina
RÚSSIA
Limarev Alexander
SÉRVIA
Kamperelic Dobrica - Predrag Kovačić
ESPANHA / SPAIN
Balboa Garnica Jorge - Bericat Pedro - Antoni Miró - Moyol Castelo Antonia - Reglero Cesar Campos - Ruiz - Ruiz Manuel - Manuel Sainz Serrano - Viana Silvia
TURQUIA / TURQUIA
Meral Agar - Dincakman Bahar - Elci Pűrkan - Sinasi Güneş - Oznur Kepçe - Turşoluk Hilal - Ugur Ayṣesidika - Yagci Melahat - Ziya Tunc Arif
HUNGRIA / HUNGRIA
Csaba Pál - Tibor Urban
EUA
Arvello Angel - Henry Gwiazda - Laurie Hansen - Connie Jean - Mikedyar / Eat Art - Cynthia Morrison - Ocheretyansky Alexander - Rex Monica - Judith Skolnick - Mark Sonnenfeld - Vanberg VeeBee
VENEZUELA
Guroga
SACS (Contemporary Art Space Experimental)
Website: www.sacsarte.net - E-mail: info@sacsarte.net
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7/30/2016

KAFKA, A MENINA E A BONECA



KAFKA, A MENINA E A BONECA

Joaquim Branco

Entre as monumentais obras de Franz Kafka, não se poderia supor que o autor tcheco tenha deixado para a posteridade o que se poderia chamar de um livro infantil...
Pois é. Eis que chega ao meu conhecimento (e mãos) “Kafka e a boneca viajante”. Uma narrativa sobre cartas escritas por ele para uma menina que encontrou certo dia no Parque Steglitz, em Berlim.
O fato é que as verdadeiras cartas se perderam, apesar dos esforços de pesquisadores em encontrá-las. Mais recentemente o escritor espanhol Jordi Sierra i Fabri – com a colaboração das lembranças de Dora Dymant, moça que morava com Kafka na época – as recompôs, e aí nasceu o livro. A história que vou resumir a seguir, portanto, é real.
Um ano antes de morrer, em 1923, quando Franz Kafka passeava pela Praça Steglitz, encontrou uma menina chorando muito. Elsi – era o seu nome – havia perdido sua boneca Brígida.
Foi consolada por Kafka que lhe disse que Brígida estava apenas viajando e não havia se perdido. Buscando uma maneira de resolver o problema, Franz começou a escrever cartas (como se fosse a boneca Brígida) a Elsi e a entregá-las de tempos em tempos, fingindo ser um carteiro.
As cartas e os encontros na praça foram-se sucedendo para alegria da menina e do próprio autor-personagem-carteiro.
Deixo de contar o que se passou depois e o final para não estragar o prazer de possíveis leitores da obra, mas continuo minhas impressões de leitura.
Confesso que, nas primeiras páginas, o autor do livro não me convenceu com sua escritura. Como aceitar que alguém pudesse se fazer de Kafka, um dos maiores escritores do século XX? Seria um salto mortal contra a eternidade e a própria literatura. Aos poucos, porém, Jordi Sierra, ao mesmo tempo que se apropriava da ideia de Kafka, parece que foi incorporando o que seria a linguagem original do texto, e me fazendo ‘lembrar’ de que estava ali subjacente o próprio ficcionista Franz Kafka. Tive quase certeza de que me encontrava com o grande autor saindo dos tortuosos corredores de “O Processo” e se transvestindo na versão simples e purificada da sua antípoda literária.
Assim, comecei a ver a narrativa com a leveza e a naturalidade que ela adquirira ao correr das páginas.
Kafka aparecia como autor e personagem, narrado em terceira pessoa, em fuga de sua ficção habitual. Transformou-se no carteiro que levava felicidade para uma menina anônima que encontrou por acaso num jardim.
No transcorrer do texto, a imaginação de Jordi o leva a reflexões nas mais diversas áreas do conhecimento, enquanto narra a história.

“A única coisa que sabia por intuição era que as crianças destilavam egoísmo. Fazia parte de sua própria inocência. Egoísmo por precaução, por senso de sobrevivência, por necessidade.” (p. 52)

Considerações do personagem-autor sobre as bonecas são inevitáveis para o convencimento de que Brígida estava apenas viajando e não havia se perdido:

“Sabe, sei de bonecas que nunca fazem sua viagem. Têm medo. Ficam com suas meninas, mas não por amor a elas, ao contrário, ficam por medo.” (p. 52)

E a justificação da entrega das cartas pessoalmente e não nas casas propicia outro diálogo entre Kafka e Elsi:

“ – Os carteiros não entregam as cartas nas casas?
– Os carteiros normais entregam, mas não os carteiros de bonecas. As cartas de bonecas são especiais, porque são diferentes. Têm de ser entregues às suas destinatárias em mãos.” (p. 27)

O carteiro não poderia faltar ao próximo encontro marcado e fala para si próprio:

“Estava em jogo uma esperança.
O que há de mais sagrado na vida.” (p. 32)

Nos diálogos entre o carteiro e Elsi há momentos especiais, como nestas comparações:

“– Você sabia que o céu de Paris é da cor de seus olhos quando você sorri e que as nuvens são como os pêssegos que se formam no seu rosto?” (p. 61)

Kafka e a sua mulher Dora também comparecem a algumas cenas:

“– Só você poderia pensar uma coisa dessas, querida. Te amo.
Salvar uma menina não era salvar o mundo?” (p. 74)

A referência aos animais como defesa para sua sobrevivência, na afirmação do carteiro para a menina:

“– ...quanto a mim, seria incapaz de matar um leão ou um elefante. Totalmente incapaz. Para que destruir uma vida? Esses animais selvagens são tão lindos, Elsi.” (p. 83)

A descrição do mundo – simples, direta:

“– Às vezes percebo que o mundo é o lugar mais bonito que existe, e vejo a imensa sorte que temos de viver nele. Precisamos cuidar dele e protegê-lo para deixá-lo aos nossos descendentes, da mesma forma que um dia o recebemos de nossos pais. Somos apenas hóspedes momentâneos de sua generosa grandiosidade.” (p. 85)

Termino com o diálogo entre a boneca Brígida e a menina Elsi, que dá talvez mais significado à temática do(s) autor(es):

“ – ...nós duas vamos saber que nunca chegaríamos tão longe sem a outra. Viveremos cada uma na memória da outra, e isso é a eternidade, Elsi, porque o tempo não existe para além do amor.” (p. 87)

Esse não é o final – que prometi não revelar –, mas bem poderia ser o deste livro que ganhou o Prêmio Nacional de Literatura Infantil e Juvenil do Ministério da Cultura da Espanha em 2007, e, merecidamente, acredito.

*FABRA, Jordi Sierra i. Kafka e a boneca viajante. Trad. Rubia Prates Goldoni. Ilustrações de Pep Montserrat. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009, 127 p.

6/29/2016

NOS TEMPOS DO MODERNISMO EM CATAGUASES




NOS TEMPOS DO MODERNISMO EM CATAGUASES

Joaquim Branco

O livro de Rivânia Maria Trotta Sant'Ana "O movimento modernista Verde, de Cataguases MG 1027-1029" vem acrescentar muitos dados ao que se sabe sobre essa significativa vertente do Modernismo brasileiro e se destaca pela riqueza da pesquisa realizada.

Num alentado volume de 372 páginas, editado pelo Instituto Francisca de Souza Peixoto, a professora-doutora Rivânia Maria desenvolve em 3 capítulos aquele que foi seu projeto de mestrado na UFMG.

A revista em si, seus participantes e o movimento em suas fases fazem parte do 1º capítulo, em que a autora alinha opiniões de dentro e fora da Verde, entre inúmeros críticos literários da época. Acrescenta ao final considerações sobre a influência e importância do café que sustentava a economia da região e da indústria então nascente, bem como do cinema que também se iniciava.

No 2º capítulo, são analisados alguns textos de criação e crítica constantes da revista, além de seu manifesto que foi anexado ao número 3 da publicação em novembro de 1927. Este último é visto sob diversos ângulos, o que permite ao leitor uma visão ampla dos objetivos que pretendiam seus 9 autores: Ascânio Lopes, Camilo Soares, Francisco Inácio, Martins Mendes, Rosário Fusco, Oswaldo Abritta, Fonte Boa e Guilhermino Cesar.

Os livros publicados e as colaborações em jornais e revistas fazem parte do 3º capítulo, com amplo levantamento das primeiras investidas artísticas dos moços da Verde.

Após a conclusão, Rivânia n os reserva uma farta bibliografia e um apêndice em que coloca os anexos com muitos textos desses autores, bem como um índice remissivo que, por certo, ajudará o leitor na localização de todas as referências presentes no estudo.

Publicado em 2008, em edição não-comercial e tiragem restrita, este livro de Rivânia Maria T. Sant'Ana vem se juntar aos poucos que há até hoje editados no país sobre o movimento Verde e suas conquistas e consequências, no entanto, como os demais, deverá levantar novos estudos e novos pesquisadores que se interessarão por temática tão rica e interessante. Pois, nas palavras da autora na introdução: "O Modernismo é considerado, por parte dos historiadores e críticos da literatura brasileira, o grande momento da nossa literatura (...)" (p. 19)

5/31/2016

MEUS LIVROS PUBLICADOS de 1969 a 2016

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Observações: note-se que em alguns livros, figuro como Organizador (como no livro "Poemas desta guerra". de Henrique Silveira) e em outros como coautor e organizador (como em "Marginais do Pomba", com Ronaldo Werneck e Fernando Cesário).