8/13/2018

QUANTO TEMOS PERDIDO ULTIMAMENTE



RECEITA FACE-TO-FACE BOOK


A questão de adicionar ou não alguém, hoje, costuma ser algo pra se pensar bem. A internet é como aqueles desertos mostrados em filmes americanos onde caubóis passam por savanas e desfiladeiros em busca de não se sabe o quê ou quem. Podem ser vingadores, aventureiros à procura de ouro, caçadores de índios, embusteiros etc. O deserto é a tela do celular ou do computador. Ela pode ser cavalgada, visitada por quem quer que seja. Vejamos o que escrevi há 4 anos sobre adicionar ou não alguém:


7/18/2018

NAS VEREDAS DE UM SERTÃO ENCANTADO







Os irmãos Delson e Dalton Gonçalves Ferreira


Nova surpresa nos prepara Dalton Gonçalves Ferreira, com a publicação póstuma de “A saga de Riobaldo”, do seu irmão Delson, saído dessa mina que parece conter muito mais.
Depois da boa revelação do livro de poema “Tempo”, surge outra faceta deste grande escritor e professor Delson Gonçalves Ferreira, que escreve em versos sua interpretação das aventuras do personagem principal do “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa.

Com ilustrações de Luis Matuto e projeto gráfico de Bernardo Lessa (editora Frente e Verso Encadernadora), recebo este “A saga de Riobaldo” que vem enriquecer o mundo rosiano com estas 150 páginas de uma bonita edição.
De um fôlego só, o livro – todo em versos, ora regulares ora não – traduz uma leitura crítica e criativa sobre a obra de Guimarães Rosa, tendo por base o texto do romance que representa o pensamento de seu protagonista Riobaldo Tatarana.

São muito interessantes os itens que precedem “A saga” de Delson Gonçalves Ferreira. Começa com os bilhetes recebidos pelo irmão Dalton sobre a obra. A seguir, vem “Um certo João”, uma visão poetizada de João Guimarães Rosa. Mais surpreendente ainda são as “Instruções” em número de 10 que “orientam” o leitor antes da leitura. Vou transcrever algumas:
I.O leitor lê e recria o poema.
II. Pontuação: o mínimo possível. Cada um coloque a sua.
IV. A poesia mora no texto, no contexto ou em qualquer lugar.
V. Todo poema é uma mensagem. Toda leitura é uma ultrapassagem.
VII. O que se diz é uma semente: tem que ter semeadura para dar colheita.
IX. O poema só existe por conta do autor e do leitor. (p. 12-13)

O texto do poema, em si, é escrito em versos curtos, alguns se alongando mais, sempre à procura de uma linguagem mais popular para o leitor, sem fugir do espírito do texto rosiano. Como aqui, ao falar do amor a Diadorim: “Aquele amor/ só desejo/ espinho/ e dor/ não foi de jeito. (p. 30) “(...) era uma linda mulher./ Descanse em paz/ dos homens/ e de Deus...” (p. 31-32). Há referências a todas as mulheres descritas pelo vaqueiro: a mãe Bigri e as paixões: Maria da Luz, Hortência, Diadorim, Nhorinhá, Rosa’uarda, Otacília... Após as recordações, e com elas, descrições aprofundam o pensamento: “No mundo/ cabe mundo/ de tanto recordar. (p. 88) Meus ais!/ Em bandos/ ou debandadas/ voltam alvoroçadas/ como aves voando/ as minhas recordações.” (p. 32)

Reflexões sobre o mundo passam do romance para a poesia do Delson, assim: “No mundo/ cabe mundo/de tanto recordar./ Mire e veja!/ Veredas/ buritis/ buritizais/ deste sertão...” (p. 88) Muitas vezes, mais trabalhadas poeticamente: “Veredas/ merejando/ molhando/ corpo r alma/ da gente.” (p. 89)

Definições do sertão, como era costume em Guimarães Rosa: “Sertão tem antes/ durante/ e depois.../ Ultrapassei./ Parei.” (p. 98) Aqui também: “No geral/ como vemos/ este mundo/ é muito misturado/ de bem e mal./ E ainda/ de mais ou menos./ Lado a lado/ o limpo e o imundo/ o raso e o profundo/ para homem navegar.” (p. 103)

A dúvida sobre a vida e a morte, e o que virá depois, são tópicos presentes em ambos os livros, mas sem perder a originalidade na obra analisada: “Um dia/ não sei a hora/ pode ser até agora/ chega a morte./ É mais fácil morrer/ do que viver./ Vou-me embora/ para o lado de lá./ Para ver/ o que há.” (p. 105)

Saudamos daqui a oportunidade que um irmão dá ao outro de levar sua obra ao público por meio de uma publicação que também traduz uma homenagem de um talentoso poeta a outro que, na literatura moderna, tornou-se um gigante de prodigiosa imaginação.

(18-07-2018)



Guimarães Rosa em foto solarizada

6/17/2018

NOS PORÕES DA MENTE





Considerado o mais importante autor da literatura russa no século XIX, Dostoiévski, atormentado pelo pai despótico na infância e mais tarde pela epilepsia, mesmo assim produziu intensa obra ficcional.

O jovem Dostoiévski, nascido em Moscou em 1821, chegou a enfrentar a prisão e o degredo na Sibéria por ter participado em 1849 de um levante contra o czar Nicolau I. Lá casou-se com Maria Dinitrievna e escreveria o seu 1º clásssico: Recordações da casa dos mortos.

Dez anos após, de volta a São Petersburgo e com novas idéias políticas, dedicou-se ao jornalismo e publicou Crime e castigo – sua mais célebre novela – e Noites brancas.
Apesar da venda dos livros, endividou-se com a doença da mulher, a quem abandonou para seguir para o exterior com a estudante Polina Súslova. Consegue trabalho na França, e gasta o dinheiro no jogo. Com remorsos pela sorte da esposa, deixa a amante e volta à Rússia, onde enfrenta situação pior: repressão, encargos e doenças na família.
A epilepsia e a angústia atacam-no. Nesse período concebe a novela Notas do subterrâneo, livro publicado no Brasil pela Editora Bertrand-Brasil em tradução de Moacir Werneck de Castro, capa de Victor Burton.

Reflexo direto de sua precária condição pessoal, o livro é um mergulho na mente humana, onde o autor vai buscar no pessimismo e na dor material para a obra, da qual transcrevemos alguns fragmentos:
“[...] não somente não mudamos, como simplesmente não podemos fazer coisa alguma. Seguir-se-ia, por exemplo, como resultado de uma consciência apurada, que ninguém se censura por ser um canalha, como se houvesse para o canalha algum consolo no fato de compreender que é realmente um canalha”. (p. 15)
“E agora termino minha vida no meu canto, escarnecendo de mim mesmo com o inútil e despeitado consolo de que um homem inteligente não pode vir a ser nada de sério desde que o só o idiota o consegue. Sim, no século XIX, um homem inteligente deve, está obrigado moralmente a ser, em essência, uma criatura sem caráter.” (p. 11)

Quando preparava para seu editor o livro Crime e castigo, Dostoiévski apaixona-se por sua estenógrafa Ana Grigonevna. Mudam-se em 1867 para Genebra, na Suíça, em razão de dívidas, e depois para a Itália.
Em 1871 voltam com uma filha para a Rússia e com algumas economias. Redator-chefe de O Cidadão, torna-se um renovador do jornalismo. Quando publica Os possessos e Os irmãos Karamázovi já era o maior autor russo do momento.

No geral de sua obra, Dostoiévski tematiza o drama do país e do povo russo, as mudanças de um sistema quase feudal no campo por influência de uma Europa que se modernizava, as injustiças, a violência, o materialismo e a fé.
Morreu em São Petersburgo em 1881.

6/14/2018

SOBRE CERTA CANÇÃO EM LENINGRADO





Já comentei aqui sobre a incrível viagem de Francisco Inácio Peixoto à Rússia em 1955. Dali resultou um livro de viagem intitulado "Passaporte Proibido".
Nele, às páginas 120 e 121, consta um poema de ocasião feito pelo autor, quando de sua passagem por Leningrado. Ali ele presenciou a dança de uma bailarina que o impressionou muito, motivando-o a escrever o poema "Cançãozinha para Gala Edelman", sobre o qual teço algumas considerações.
A utilização precisa dos fonemas em "a", que marcam o início do texto, produz uma espécie de "claridade" bem própria das noites geladas da Europa Oriental, que se alternam com os "iis" a pontilhar os passos da bailarina.
Seguindo a linha poética do texto do livro (embora escrito em prosa), este poema é marcado por sonoridades modernas, por um perfeito equilíbrio sintático, a dose certa na escolha morfológica. Mais ainda, outra resultante é um certo movimento dos versos que parece ser conduzido pela dança de Gala Edelman.
O estilo é leve e demonstra o tempo todo a busca da temática da paz que impressionou o poeta em toda a sua excursão pela Rússia. A arte de Gala aponta para os pontos cardiais onde poderia se localizar um futuro tão incerto naquela época como o é agora.
No fecho do poema, o poeta dá um tratamento cruzado às expressões "Pomba da Paz" e "Estrela do Norte", através de uma transposição que aumenta. para o leitor, o poder sugestivo para o objetivo e o tratamento do tema que ele criou. E, mais uma vez, ele o fez magnificamente bem:

CANÇÃOZINHA PARA GALA EDELMAN

Gala dança
dança e sorri
na noite branca
de Leningrado.

Que fazes, Gala,
de teu corpo infante
na noite branca
de Leningrado?

Tu o atiras
pela rosa-dos-ventos;
um pouco ao norte
(Norte, Estrela!)
um pouco ao sul.
O resto roubo-os,
que pertencem a mim.
(Tão pura és, tão linda, tão clara
que não distribuis desejos
mas esperanças).
Fico com as mãos
que estas, sim,
espalham messes.

Fico com os olhos
que tingem de azul
(de branco, de branco!)
tudo o que é áspero.

Fico com a graça
de Gala em flor
a quem elejo
do norte, pomba
Estrela da Paz.

A propósito, no nosso suplemento SLD (nos anos de 1960), o poeta Aquiles Branco bolou uma versão gráfica do poema que vale a pena transcrever:




6/12/2018

MUITO ALÉM DA "CORTINA DE FERRO"




Hoje poucos devem-se lembrar da expressão “Cortina de Ferro”, utilizada pelo Ocidente para caracterizar negativamente o bloco dos países socialistas da Europa Oriental, nos tempos da Guerra Fria que envolveu Estados Unidos e Rússia (ex-União Soviética). Ela indicava uma espécie de separação virtual entre o mundo “livre”, capitalista, e as nações “comunistas”.
O próprio significado da expressão já denota o grau de mistério e terror que a propaganda anticomunista procurava infundir aos povos subdesenvolvidos (em especial) com relação aos países socialistas. Foi nessa época –1955 – que Francisco Inácio Peixoto e sua mulher dona Amelinha fizeram uma viagem à antiga União Soviética e à Tchecoslováquia, e na volta não puderam passar pelos Estados Unidos, devido ao visto carimbado em seus passaportes pelos ‘comunistas’. Foi necessária essa introdução, especialmente para os mais jovens, que não viveram os anos temerários da Guerra Fria.
Dessa viagem resultou o livro Passaporte Proibido, escrito e publicado cinco anos depois por Francisco Inácio, e um dos melhores roteiros de viagens que já li. Através dele, o leitor pode conhecer a paisagem e algo do povo russo, dos "espiões" nas esquinas moscovitas à comida, das viagens de trem à amabilidade e aos hábitos das pessoas que encontrou.
Mas, além de tudo, o ponto alto do livro é a sua concretização como texto. Fica-nos sempre na lembrança a imagem daqueles livros de que não se pode retirar ou acrescentar uma linha sequer. Um texto essencialmente poético, onde fina ironia faz compasso com a divisão perfeita dos capítulos e os diálogos com as observações sempre pertinentes sobre o que o autor viu e anotou. A leitura do livro, prazerosa e enriquecedora, nos revela não só a terra soviética e a tcheca, como também a finura de um exímio estilista.
No primeiro fragmento selecionado, a descrição rápida do hotel em Praga deixa entrever a ironia com que o autor responde aos apelos da anti-propaganda disseminada pelos norte-americanos contra os ‘inimigos’ do leste: “No Hotel Alcron, a tarde é triste. No grande salão sombrio, há mulheres suspeitas e, positivamente, conspiradores internacionais que aumentam nossa emoção." (p. 10)
No capítulo “No futebol, com Ludmila”, quando vão a um estádio para ver um jogo, a frase descreve o amor pela paz universal, sintetizada na palavra “Mir”, que em russo significa “Paz”: "(...)desfraldando bandeiras e flâmulas. Numa delas, em muitas delas, em letras vermelhas, a palavra nunca esquecida: "Mir". Paz, asas."(p. 60)
Em visita a uma adega e na recepção calorosa que receberam: “Mais safras houvera, mais prováramos, pois a adega é fria; a hospitalidade, antiga; as obras, demoradas e o vinho, um veludo.” (p. 158) “Dos sorrisos, entretanto, optamos por aquele que umedece negros olhos caucasianos.”(p. 76)
No retorno à Tchecoslováquia, Peixoto narra, em Bratislava, o jantar com o escritor Wladmir Olerini, e, depois das conversas iniciais à mesa, aproveita para fechar o diálogo com esta observação: “Quanto ao Danúbio, já dormia. Tarde, não há mais nada a fazer, senão jantar e dormir também.” (p. 165)
Na despedida de Bratislava, volta a referência ao Danúbio: “Primeira descoberta: o Danúbio não é azul. Suas águas são cinzentas, como se rolassem num leito de tabatinga.” (p. 171)
O turista, muito longe da terra natal, descobre no comércio a lembrança brasileira, em pequeno capítulo denominado “Saudade, apenas”: “A mercearia exibe, na vitrina, os dois saquinhos de café com as indicações ‘Minas’ e ‘Santos’, trazendo secretas e profundas nostalgias às almas dos turistas.” (p. 14)
A breve visita a Praga, na atual República Tcheca revela o cumprimento carinhoso à velha cidade: “Estes, a quem ausência e regresso repetidos já conferem sentimentos de cidadania, te cumprimentam: – Bom dia, cem torres! Moldau, bom dia! É bom volver à tua primavera, Praga, reconhecê-la, ainda que se esconda na negrura e solidão de tuas noites.” (p. 175)
São belas e impressionistas as descrições que o escritor faz da cidade de Moscou e do cotidiano vivido lá no meio do povo, em seu primeiro dia de visita: “(...) Atravessamos a Praça Vermelha e contornamos as muralhas do Kremlim, até onde se avista o plácido Moskva, com suas ilhotas flutuantes de neve suja, descendo na correnteza. Na avenida marginal, as crianças do jardim da infância passam por nós como bichinhos desconfiados. Mais além, a fileira de ferroviários que se formou para a visita ao Kremlim, nem se dá conta de que invejamos sua alegria palreira e ingênua. As mulheres, de lenços na cabeça, riem com dentes de ouro, os homens de boné riem. (...)” (p. 41-2)
Passeando pelas ruas, em liberdade, sentindo-se um ‘fora-da-lei’, viu um povo tranquilo e receptivo: “Havia uma semana que estávamos em Moscou, num "à vontade" de colegiais em férias. Às vezes desacompanhados de nossos intérpretes, íamos à toa pelas ruas. Desapontava-nos o fato de não estarmos sendo seguidos (tanto pode a contrapropaganda sistemática!). Era, pois, sempre com uma ligeira emoção de "out-laws", de quem se lançou em perigosa aventura, que saíamos para esses passeios solitários. E se nos sovertêssemos de um momento para outro, raptados pelos ferozes organismos da polícia soviética, suspeitosos de nosso caderninho de notas e de nossa curiosidade peripatética? Mas, não houve espiões nas manhãs e nas tardes moscovitas. O povo, esse, se mostrava pacato e, sempre que com ele nos pusemos em contato, hospitaleiro e acolhedor. Sozinhos andamos e sozinhos chegamos a comprar (milagres da mais pura mímica!) uma canção que nos enlevara, um par de meias e um colorido gorro do Usbequistão.” (p. 64-5)
No trem noturno para Leningrado, em companhia de duas russas que se tornaram amigas, Francisco e Amelinha viveram novas emoções: “Vera e Ludmila partiram conosco para Leningrado. Deixaram-nos à porta da cabina, onde ainda levamos tempo parolando, e já o trem andava a quilômetros de Moscou quando nos separamos para ir dormir. Mas, não dormimos logo, que é sempre triste a partida, mesmo sem termos de quem nos despedir, e a noite é fermento para cismas doidas. Quando estas crescem, assim, em terra estranha, mais triste é o contraponto das rodas rodando nos trilhos e mais pungente o apito da locomotiva. Apagamos a luz do abajur e só ficou o rádio tocando baixinho, no escuro, uma perdida canção. Acordamos com um hino, quando já era madrugada lá fora, nas bétulas e nos pinheiros, nas estepes regadas de orvalho. Que riacho é este? Duas mulheres apanham água na bica, uma cerca ao fundo, um homem olhando o trem passar, três casinhas na estrada tortuosa, três crianças, o cachorro latindo, a estação vazia. Por que esta paisagem incaracterística, e não outra, permanece indelével na memória? Vera bate à porta, trazendo-nos um embrulho de sanduíches e laranjas. No trem noturno só servem o copo de chá quente, que a camareira nos oferece na bandeja, com os cubos de açúcar. Outra vez: próvida e previdente Vera!” (p. 110-1)
Finalizamos com o capítulo denominado “Despedida e regresso”, que retrata o fim da viagem, de rápida e rara beleza plástica, fechando numa tomada tipicamente cinematográfica: “(...)Para acalmar a nossa excitação, servem-nos carne defumada com "knedlik". E bebemos, de Pilsen, a subornadora Prazdroj. No dia seguinte partimos. Da janela do trem que nos levaria a Viena, vamos vendo, cada vez mais embaciados, os vultos de Jitika, de Frantisek, de Gabriel, que nos acenam da plataforma. Uma curva súbita, e os três desaparecem. Para sempre.” (p. 178)
Há muitas outras passagens interessantes no livro, que fala de economia, de política, de literatura, em tempero de humor e lirismo, mas, de tudo isso, preferimos os fragmentos que extraímos do texto e as impressões que ficaram desse vivo retrato de dois povos admiráveis.




Francisco Inácio e dona Amelinha em Moscou (1955)





Na Associação de Escritores Tchecos, na antiga Tchecoslováquia (1955)

3/24/2018

SHOW DE TRUMP






Nas savanas da África
soa o alarme das armas:
Trump autoriza caçadores
americanos a buscar seus troféus
na cabeça de elefantes e leões.

É uma nova lei (da selva)
sem Tarzan, com caravanas
para o deleite da alta burguesia
numa fria escalada de horror.

Ante o poder do dinheiro
nada podem os africanos.
(– Eles só querem os chifres,
os dentes e as cabeças dos bichos!..)

– Mas como tirar chifres e cornos
sem os matar?
Trump avança entre o sim e o não
e seu coração (?) balança
pela ordem final: a matança.

Duvidar, quem há-de?

(24-03-2018)

2/25/2018

ROTA PARA O RIO-MAR





Sobre o lado ímpar da memória
o anjo da guarda esqueceu
perguntas que não se respondem.

(João Cabral de Melo Neto)


Quanto mais se souber da geração que, nos anos de 1960, na esfera mundial, revolucionou artes e costumes de modo tão radical, e da história da pequena cidade mineira de Cataguases, mais se vai poder mergulhar no universo de Pomba-Poema, de Ronaldo Werneck. Porque essas são águas da memória, feita de emanações poéticas vindas de regiões e de um tempo que ainda não se conhecem bem.

Mas, se não for assim, mesmo se não se tiver afinidades com a geração de lennons, faustinos e guevaras, pode-se também fruir desse poema-livro, que é muito bom.

Percebe-se no início do poema como se descortina a cidade e o mundo – por que não? – como a preparar o leitor para a descrição-narração que vai acontecer: “Nesgas neblina/ manhã ainda agora/ o cheiro da maçã/ evocando a metrópole/ o mundo exterior extraído/ a cada odor & dentada/ o mundo além da reta da saudade/ antes das indústrias o mundo/ atolado/ na ponte do sabiá/ Há? Não há? Não sabíamos/ não sabemos/ não soubemos/ nunca jamais/ estava ali o mundo/ antes do tempo e da ponte/ num repente/ na girândola do vento/ manga/ jabuticaba/ abiu/ explodindo no dente/ mas o mar mar/ telando as pedras/ no meio da luz/ e dia memória.[...]” (p. 25)

Assim, deixe-se levar pelo seu embalo, perca-se nas corredeiras estreitas aqui, livres ali, ouça o canto dos seus pássaros nas margens, esqueça a poesia gramatical e paramentada. Guie-se pela descoberta e pelas sonoridades fluviais que puder encontrar dentro de si mesmo, porque ali estarão os poemas que ainda não foram escritos.

Lembre-se de que os modernistas nos deram a forma livre de escrever, depois João Cabral e os concretistas descobriram a palavra-ouro na sintaxe da bateia discursiva, e Cassiano Ricardo e os pós-modernos jogaram a palavra de novo no rio, riscando no mapa constelações de linossignos, afluentes e caudais ideogrâmicos e visuais.
Deixe o espírito liberto e o corpo descansado para ouvir estas vozes, que você entenderá, ou melhor, perceberá.

Mesmo porque o Pomba-Poema volta agora em outro livro, Minas em mim e o mar esse trem azul (Cataguases: Poemação Produções), com recorte novo e refotografado, garfado instante a instante por um Ronaldo ainda mais consciente e dono da matéria poética.

O livro ganhou, com o tempo, um projeto de edição definitiva, para ser lido aquém e além-mares, até que o futuro o consuma, e estes versos, que bem poderiam ser uma homenagem ao poeta Mário Faustino, vêm muito a propósito para finalizar a viagem de Ronaldo Werneck: “ao largo/ eu ilha/ eu barco/ bateau à toa/ rumo ao arco/ da tarde/ quilha que ecoa/ e corta/ o mar melado/ de sol/ e eternidade.” (p. 139)