VIDA RECLUSA, POESIA LIVRE
Nasceu em Amherst, estado de Massachussetts, EUA, em 1830, iniciando
seus estudos aos 5 anos de idade. Mais tarde, aos 17 anos, transferiu-se para o
seminário de Mount Holyoke, mas um ano depois seu pai decide afastá-la dos
estudos regulares. Foi quando, passou a dedicar-se mais a leituras.
Aos 34 anos enclausurou-se em sua casa, e anos depois foi acometida de
grave enfermidade, morrendo em 1886.
De sua vida amorosa, pouco se sabe, apenas de ‘amores secretos’, como o
que talvez tenha vivido com o juiz Otis Lord. Seus poemas e cartas eram, na
maioria, destinados a sua cunhada e vizinha Susan Dickinson, com quem teve tão
estreita amizade que alguns críticos classificam-na como manifestação lésbica.
Esses e outros são dados revelados no livro A branca voz da solidão, uma antologia bilíngue editada pela
Iluminuras em 2011 (351 páginas), acompanhada por um revelador estudo introdutório
escrito pelo seu tradutor José Lira.
Por suas características inovadoras e pelas inúmeras versões que criava
para seus poemas, tornou-se difícil estabelecer uma edição ‘definitiva’ de sua
obra, mas a seleção-tradução criteriosa de José Lira pode dar ao leitor uma boa
visão do que nos deixou Emily Dickinson.
Lira manteve na tradução até o que se convencionou chamar de “disjunções”
ou sinais gráficos multifuncionais, além do uso de maiúsculas, que Emily
‘espalhava’ pelo texto a seu bel-prazer. Tudo isso, aliado às variadas versões
que se acumularam com o tempo, exigiu do tradutor atenção e cuidados redobrados.
A estranheza de seu lirismo pode ser notada neste pequeno poema:
Papai do Céu! Olha o
Ratinho
Que é subjugado pelo
Gato!
Reserva dentro do teu
reino
A “Mansão” para o
Rato!
Põe-no em seráficos
Armários
O dia inteiro
mordiscando
Enquanto os Ciclos
impassíveis
Vão solenes girando!
(p. 57)
Ou neste poema em que se entrevê a tragicidade da cena cotidiana:
A mais viva Expressão
do Drama
É o Dia a Dia
Que à nossa volta
nasce e acaba
Uma tragédia
Perece ao ser levada à
Cena –
Esta – é mais cheia
Com as Cortinas abaixadas
E sem Plateia –
“Hamlet” teria sido
Hamlet
Mesmo sem Shakespeare
“Romeu” de sua Julieta
Não saberia,
Se bem que em atração
eterno
Na Alma Humana –
Teatro que não é
fechado
Pelo seu Dono – (p.59)
O alto registro poético de Emily Dickinson, de meados do século XIX,
ressoa em nosso tempo – cerca de 200 anos depois – como uma contribuição
diferente pela individualizada dicção de poemas escritos com a autenticidade de
uma arte por demais expressiva. Resta concluir que a perfeita escolha do título
– A branca voz da solidão – está bem
à altura da obra.


