11/14/2018

EXPOSIÇÃO INTERNACIONAL DE ARTE POSTAL EM ITABIRA MG



Release – Ação poética na Exposição “No Meio do Caminho”
O Instituto Imersão Latina realizará 16.Nov.2018 as 19 h, uma ação poético/performática na exposição internacional de Arte Postal “No Meio do Caminho”, que acontece na Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, em Itabira (MG) Brasil.
Exposição
A exposição teve uma pré-abertura na 17ª Semana Literária Drummondiana, e é constituída de obras de 90 autores de 23 países, que apresentam suas criações no sistema da Arte Postal. Com curadoria de Tchello d’Barros (RJ), a mostra integra a programação do I-Poem@ - Encontro Internacional de Escritura Migrante, coordenado por Brenda Marques Pena (MG), em instituições culturais das cidades mineiras de Belo Horizonte, Itabira, Ipoema, Moeda e Ravena. Após o período expositivo a mostra terá uma versão na Internet. De acordo com o curador, a exposição “é uma ação que visa reunir criações poéticas e imagéticas de diferentes origens em nosso planeta, convergindo com o poema de Drummond e ampliando o tema para questões como as migrações, os refugiados e o momento atual da geopolítica global”.
Artistas e Países:
ALEMANHA: Horst Tress - Lars Schumacher - Lutz Beeke - PC Tictac - Hans Braumüller - Susanne Schumacher |ARGENTINA: Alejandra Besozzi - Ana Montenegro - Claudio Mangifiesta - Negreira Patricia Walter Brovia |ÁUSTRIA: Gunter Vallaster - Horvath Piroska - Klaus Pinter | BÉLGICA: The Wasted Angel - R. Ramon |BRASIL: Almandrade - Bruce Svain - Constança Lucas - Dorian Ribas Marinho - Ermínia Marasca Soccol - Eni Ilis - Iara Abreu - Janyce Soares de Oliveira - Joaquim Branco - Gringo Carioca - Hugo Pontes - Jane Beatriz Sperandio Balconi -Jussara Leite Kronbauer - Karla K. Lipp - Maria Caruso - Maria do Carmo Toniolo Huhn -Maria Flor - Maria Julieta Damasceno Ferreira - Maria de Lourdes Rabello Villares - Maria Tereza Penna - Marithê Bergamin - Martina Berger - Ricardo Alfaya - Roberto Keppler - Sirlei Caetano - Tchello d’Barros - Terezinha Fogliato Lima - Coletivo Gralha Azul | CANADÁ: Christopher Willard | CHILE: Antonio Cares | DINAMARCA:Marina Salmaso - Poul Poclage - Victor Vidal | ESPANHA: Antonia Mayol Castelló - Daniel de Culla - Ibirico -Ferran Destemple - Juan López de Ael - Miguel Jimenez - Pedro Bericat - Rafael Gonzales - Sabela Baña | EUA:Daniel C. Boyer - Henry Guild - John M. Bennet - Michelangelo Mayo - Steve Dalachinsky - Reid Wood - | ESTÔNIA: Ilmar Kruusamãe | FINLÂNDIA: Anja Matilla-Tolvanen - John Gayer - Paul Tililã | FRANÇA: André Robèr - Richard Baudet | GRÉCIA: Katerina Nikoltsou | ITÁLIA: Bruno Chiarlone - Cinzia Farina - Daniele Virgílio - Franco Ballabeni - Giovanni e Renata StraDA DA - Maya Lopez Muro - Oronzo Liuzzi - Roman Bueri | JAPÃO: Keiichi Nakamura - Keigo Hara - Tohei Mano | NORUEGA: Jaromir Svozilik | POLÔNIA: Miron Tee | PORTO RICO: Esteban Valdés | PORTUGAL: Avelino Rocha - Fernando Aguiar | RÚSSIA: Alexander Limarev| TURQUIA: Derya Avci | URUGUAI: Clemente Padin

..........Texto Curatorial:

TINHA A ARTE POSTAL NO MEIO DO CAMINHO
por Tchello d’Barros*
“Disseram que jamais atravessaríamos a fronteira.
E agora, aqui estamos nós.”
Corey Taylor

“No Meio do Caminho” apresenta um diálogo entre textos e imagens de diferentes linguagens com o sistema da Arte Postal, estabelecendo um espaço específico - o Cartão Postal - como lugar de encontro com o leitor/visualizador das obras. Tal pluralidade de linguagens, desta vez homenageia o grande poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, em releituras textuais e visuais de seu emblemático poema.
Um dia, o filho maior de Itabira encontrou seu lugar na metrópole, mas qual o lugar ideal da Arte na contemporaneidade? Podemos mencionar as exposições, livros, espaços culturais, Internet e mídias digitais, mas antes de tudo talvez possamos considerar que seja um lugar interno em nós, onde a arte possa inquietar, comunicar e causar reações estéticas. A Arte Postal é uma sobrevivente de nossa turbulenta passagem para a pós-modernidade, abriu seu espaço na era digital, cruzou a linha do novo milênio, chegou aos nossos dias reinventando-se sempre mais, transgressora, crítica e política. E não veio apenas para ficar, mas para ampliar seu arco temático, seja pelo viés do humor, seja pela crítica mordaz nas abordagens dos grandes temas da humanidade, desde tensões geopolíticas, desníveis socioeconômicos, as relações humanas e até mesmo aspectos inusitados do cotidiano.
A Arte Postal – Arte Correo, Mail Art – vem ampliando suas redes de trocas simbólicas em todos os continentes, aumentando cada vez mais seus adeptos, e, para além das mostras coletivas, vem potencializando seus públicos de forma exponencial nos meios virtuais. Essa modalidade está mais viva do que nunca, num constante tráfico de poéticas diversas, num intercâmbio de obras, livres das amarras acadêmicas, das demandas de mercado e de engessamentos institucionais.
Atenderam ao chamado desta vez 90 artistas de 23 países, apresentando suas criações em técnicas como desenho, pintura, colagem, infogravura, fotografia, reprografia, assemblages, caligrafia, técnicas mistas, selos autorais e carimbos personalizados. E cada Cartão Postal possui elementos de manufatura que os tornam únicos, em contraponto com a cultura de massa em que nossa sociedade está inserida. O meio desse caminho bifurcou-se em releituras, como escrituras migrantes, trilhando sendas cada vez mais debatidas na atualidade, como Migração, Emigração, Imigração, Refugiados, Fronteira, Aduana, Xenofobia, Geopolítica, Clandestinidade, Percurso, Itinerário, Trajetória, Soberania, Integração, Território, Esperança, Mapa, Bússula, Latitude/Longitude, etc.
Provocar a produção em Arte Postal no cenário brasileiro e internacional, estimular a presença dessas linguagens e suportes nos meios culturais e tensionar aspectos conceituais para uma possível reflexão ou debate, são alguns pontos de partida desta mostra. E, talvez, um ponto de chegada num lugar chamado Arte, seja para quem quer trilhar essa vereda com suas criações, seja apenas para quem ama a arte em todos seus caminhos.

*Tchello d’Barros é Escritor, Artista Visual e Curador
Rio de Janeiro (RJ), Brasil - outubro 2018
...............................................................................
Serviço:
Ação Poética: 16 de novembro de 2018
Horário: 19 h
Local: Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade
Itabira (MG) Brasil
Visitação: Até 26 de novembro de 2018
Entrada franca

Links:
- “No Meio do Caminho” no Facebook:
www.facebook.com/poeticasmigrantes
- Instituto Cultural Imersão Latina:
www.imersaolatina.com









9/19/2018

HER MAJESTY - poema







HER MAJESTY
Joaquim Branco

Para Elizabeth Abritta Alves Schelb

“Her Majesty's a pretty nice girl” (Lennon & Mccartney)


Beauty
Her
Town
Merry
Down

Há belas pessoas,
poucas como ela.
Umas vivem
outras deixam-se ver
mas não são como antes.

São majestades
quando brincam,
vontades que se falam.
Comigo era brincando
sempre, sorrindo única,
Indo e vindo
desafiando
fugindo nunca.

Era o seu jeito
hoje deixado na mente
dos que sentem sua
ciência impermeável
de ser gente.

Elizabeth, Queen.

(19-09-2018)

9/10/2018

A ETERNA PROCURA DA POESIA: JB, O GUARDIÃO DA PALAVRA




por Francis Paulina Lopes da Silva[i]

Para todos os povos, a Poesia vem traduzindo os sonhos e sentimentos da humanidade, amenizando suas dores e extravasando suas alegrias. Pelo verbo poético, é possível tornar-se etérea e suave, reflexiva e lúdica e até mesmo risível e satírica a experiência humana de confronto consigo mesmo, com a vida, com o outro, o mundo, com Deus...

Nesta Cataguases que inspirou, acolheu e nos trouxe à luz tantos artistas da palavra, como nos tempos áureos do movimento modernista Verde, entre nós, hoje temos o privilégio de conviver com o poeta Joaquim Branco, que a si mesmo intitulou “O Caça-palavras”, mas, para nós se revela muito mais além, como o guardião da palavra poética...

Com seu espírito crítico e gênio criativo, Joaquim Branco Ribeiro Filho (Cataguases, 1940), JB, para nós, seus amigos e mais, para toda a memória cultural, vem realizando um incansável trabalho de produção, difusão, pesquisa da arte da poesia, que sempre nos surpreende e inquieta.

Nos tempos atuais, marcado pelo fim das utopias, o poeta cataguasense critica a sociedade pelo impacto da poesia visual. Em versos breves, faz da folha branca sua bandeira poética – e agora, na tela digital, o registro do protesto-denúncia, como uma mancha incômoda no olhar do leitor, um grito que ecoe nas suas consciências. Em um de seus tantos livros, Caça-palavras (1997), os poemas revelam a pena atenta, sagaz deste Hermes da Pós-Modernidade, que dá seu recado com a destreza da palavra – flecha rápida, exata e certeira – lançada à sociedade.

O poema processo de JB se projeta como extensão do olhar crítico do poeta, na denúncia provocativa à realidade econômica, social e moral do país.

Um excelente exemplo deste seu olhar crítico à sociedade brasileira, lançado como flecha aguda contra a liderança política nacional é o micropoema de JB, composto recentemente, intitulado “Pontuador”:





A flecha aguçada de JB seleciona as palavras, na entonação e pontuação exatas do profissional das Letras – Professor, Educador, Poeta e Crítico – Pontuador, que joga ironicamente os dados aos alvos certos. A Deus, o Justo Senhor, é preciso temer... Mas diante do caos sociopolítico e econômico do país, desencadeado desde a posse do atual Presidente, o poeta é incisivo: “– Temer, adeus!”, pontuando a voz do povo sofrido, decepcionado e saturado dos desmandos que geraram um retrocesso para a Nação.

Mas hoje aqui viemos atentar para outra habilidade de JB, ao lidar com a palavra... Professor, Educador, Poeta e Crítico, ele também se dedica à ficção. Este livro que hoje nos chega em sua segunda edição, O menino que procurava o Reino da Poesia, obra que ele mesmo indica como ficção infanto-juvenil, foi publicado em 2005.

Nesta obra, o Poeta JB se desdobra em outros poetas, para falar da importância e do papel da Poesia para a humanidade, como um Reino mágico, a ser explorado com intensidade e paixão. Este, segundo o narrador, “É o reino das coisas da mente e do coração, da sensibilidade e da simplicidade” e os poetas são:

[...] os habitantes desse reino e sabem como ninguém lidar com os sonhos e os acontecimentos do dia-a-dia. Eles costumam mover as montanhas, mas não sem antes piscar um olho para as estrelas. Os poetas podem pôr um pé no fundo do rio e as mãos na nuvem que passa. Seus olhos conhecem o brilho da beleza e do feio; e do ruim conseguem tirar algo para aquecer os corações de cada um de nós (BRANCO, 2005, p. 5).

E assim, o narrador convida-nos a percorrer, a cada página deste livro, junto ao protagonista, o menino Leonardo, por espaços geográficos e poéticos do Brasil, em diálogo com alguns de nossos brilhantes trovadores... Gota a gota, vamos recebendo o mel da Poesia, em lições breves e preciosas, como:

– O reino da poesia existe na cabeça dos poetas e das pessoas que têm bastante sensibilidade.
– Ahn! O que faz um poeta?
– Esta é a pergunta mais difícil que já me fizeram, mas vou tentar explicar. Um poeta vive e observa, vê e aprende, toca nas coisas, sente, muito antes de falar sua mensagem (BRANCO, 2005, p. 7).

Sobre a estética da recepção, pela voz do poeta Gregório de Mattos, o narrador nos ensina a ler poesia: “Outra coisa que dificulta o leitor de poesia é a tendência natural de se querer entender tudo antes de se sentir” (p. 9). E mais:

– A poesia não é o real e sim algo a que damos uma roupagem nova, com musicalidade, intenções, sensibilidade. O poema é uma janela, um recorte da sensibilidade que, de repente, fica suspensa no ar. Nela não cabe tudo, apenas o essencial, porque não se pode dizer tudo que a poesia foge (p. 10).

O elemento didático deste livro ficcional para o público jovem não trai o fascínio do poético e o leitor se envolve no jogo estético, aprendendo até mesmo da construção narrativa de JB, como este impacto entre os sentidos do tato, dos sons e do visual, na descrição da experiência de Leonardo, contemplando o mundo da poesia, imerso em seus pensamentos e reflexões sobre o que ouvira de um dos poetas, Tomás Antônio Gonzaga, o árcade Dirceu, que em seus versos eternizou a sua Marília amada:

– Ares mais quentes o esperam. E é ainda pensando na bela amada do poeta que sente o calor da nova terra, enquanto uma brisa mexe com os seus cabelos, e o cheiro do mar o anima. Ao longe, já se vê e sente as ondas como uma pasta de dentes que se transforma em espuma branca na boca. Levantando mais os olhos, contempla o ponto em que o mar se confunde com o céu e este parece baixar. É a linha do horizonte, lembrou-se agora de sua professora de geografia (p. 16).

O pintor JB aqui se revela ficcionista, ao delinear ante o leitor uma aquarela da paisagem do Norte do Brasil, contextualizando o novo espaço onde surgiu o poeta Gonçalves Dias e sua saga poética.
E ainda, ao prosseguir a procura de Leonardo pelo reino da poesia, narrador e personagem se confundem nesse percurso obsessivo pelas veredas da arte, que sempre oculta mais mistérios e novas possibilidades no mundo das palavras:

Continua buscando mais. Quer conhecer novos lugares e quem sabe? – outros artistas com o mesmo dom de saber o que está por trás de palavras tão misteriosas e, às vezes, com o significado tão difícil.
Leonardo está começando a sentir o que é a poesia e como são os poetas, esses seres que procuram na linguagem o sentido da vida e a solução para os problemas seus e do mundo (p. 16).
Assim como Leonardo, nosso Poeta JB continua seu percurso, sempre à procura da Poesia. Mesmo que, como poetizou Drummond, seja uma luta vã, árdua e aparentemente, inútil, neste mundo do pragmatismo imediatista, do automatismo consumista e da exploração neoliberal...
Em sua concepção do homem e do mundo, na tentativa de apreensão da significância do olhado, JB faz a sua viagem, o seu voyeurismo poético. O poeta, como expectador do mundo, provoca o jovem leitor e a todos nós a prosseguir essa fascinante viagem pelo universo da Arte. Ao lançar hoje a segunda edição deste livro O menino que procurava o Reino da Poesia, temos mais um indício do espírito inquieto e autoinventivo de JB, a reinventar-se, criativamente, idealizando um mundo novo, fraternitário, onde a Poesia, o sonho tenham lugar, voz e vez...

Referências
BRANCO, Joaquim. O caça-palavras. Cataguases: Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho, 1997.
______. O menino que procurava o reino da poesia; ficção infanto-juvenil. Cataguases: Instituto Francisca de Souza Peixoto, 2005
CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. 8. ed. São Paulo: T. A. Queiroz, 2000.

****08/09/2018

[i] Professora Adjunta aposentada da UFV, Colaboradora no Programa de Mestrado em Letras do Departamento de Letras da UFV. Doutora em Ciência da Literatura (UFRJ).

8/20/2018

13 PÍLULAS DE RECEITA POÉTICA




(Desenhos de Nélson Bravo e Di Carrara)


1. O segredo (dos poetas) é a arma do negócio (poético). “Trouxeste a chave?”, perguntaria o vate mineiro.

2. Os poemas à amada, o poeta faz é pra ele mesmo, porque, desde as cantigas de amor, eles (os poemas) de nada valeram, pois elas (as amadas) nunca deram muita bola pra isso.

3. Sousândrade, quando fez o Inferno de Wall Street, não anteviu as transas de Watergate, nem o 11 de Setembro. Nem os Golpes de 64 e 2016.

4. A pedra no caminho corresponde à montanha bíblica. Hoje a pedra ainda está no caminho e a montanha, uma hipérbole.

5. Quanto maior o poeta (de uma escola literária) maior é o tombo (na escola seguinte).

6. A turris eburnea de que falavam os parnasianos se reduziu hoje a uma modesta torre de tv, em que se pode sintonizar a máxima poundiana de que “os poetas são as antenas da raça”.

7. Quanto mais brilho tiver a metáfora, maiores méritos terá o lustrador de tropos.

8. O poeta não é um nefelibata, mas um aeronauta do improvável.

9. Na estrada de Sintra, Fernando Pessoa e Sá Carneiro entoaram os primeiros falsetes musicais.

10. Atirar pedras na vidraça de CDA não é mais revolucionário do que fritar bolinhos, não é, garotões de 45?

11. Para realizar a educação pela pedra precisa-se começar como o engenheiro da pedra do sono. No final, todos serão cães sem plumas.

12. O poeta que resolver tomar cicuta, como o velho sábio grego, é porque não tem medo de certas rimas raras...

13. Os Rolling Stones foram os únicos artistas que conseguiram realmente remover a pedra do caminho, rolando-as, rolando-as....

(1975-2018)

8/13/2018

QUANTO TEMOS PERDIDO ULTIMAMENTE



RECEITA FACE-TO-FACE BOOK


A questão de adicionar ou não alguém, hoje, costuma ser algo pra se pensar bem. A internet é como aqueles desertos mostrados em filmes americanos onde caubóis passam por savanas e desfiladeiros em busca de não se sabe o quê ou quem. Podem ser vingadores, aventureiros à procura de ouro, caçadores de índios, embusteiros etc. O deserto é a tela do celular ou do computador. Ela pode ser cavalgada, visitada por quem quer que seja. Vejamos o que escrevi há 4 anos sobre adicionar ou não alguém:


7/18/2018

NAS VEREDAS DE UM SERTÃO ENCANTADO







Os irmãos Delson e Dalton Gonçalves Ferreira


Nova surpresa nos prepara Dalton Gonçalves Ferreira, com a publicação póstuma de “A saga de Riobaldo”, do seu irmão Delson, saído dessa mina que parece conter muito mais.
Depois da boa revelação do livro de poema “Tempo”, surge outra faceta deste grande escritor e professor Delson Gonçalves Ferreira, que escreve em versos sua interpretação das aventuras do personagem principal do “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa.

Com ilustrações de Luis Matuto e projeto gráfico de Bernardo Lessa (editora Frente e Verso Encadernadora), recebo este “A saga de Riobaldo” que vem enriquecer o mundo rosiano com estas 150 páginas de uma bonita edição.
De um fôlego só, o livro – todo em versos, ora regulares ora não – traduz uma leitura crítica e criativa sobre a obra de Guimarães Rosa, tendo por base o texto do romance que representa o pensamento de seu protagonista Riobaldo Tatarana.

São muito interessantes os itens que precedem “A saga” de Delson Gonçalves Ferreira. Começa com os bilhetes recebidos pelo irmão Dalton sobre a obra. A seguir, vem “Um certo João”, uma visão poetizada de João Guimarães Rosa. Mais surpreendente ainda são as “Instruções” em número de 10 que “orientam” o leitor antes da leitura. Vou transcrever algumas:
I.O leitor lê e recria o poema.
II. Pontuação: o mínimo possível. Cada um coloque a sua.
IV. A poesia mora no texto, no contexto ou em qualquer lugar.
V. Todo poema é uma mensagem. Toda leitura é uma ultrapassagem.
VII. O que se diz é uma semente: tem que ter semeadura para dar colheita.
IX. O poema só existe por conta do autor e do leitor. (p. 12-13)

O texto do poema, em si, é escrito em versos curtos, alguns se alongando mais, sempre à procura de uma linguagem mais popular para o leitor, sem fugir do espírito do texto rosiano. Como aqui, ao falar do amor a Diadorim: “Aquele amor/ só desejo/ espinho/ e dor/ não foi de jeito. (p. 30) “(...) era uma linda mulher./ Descanse em paz/ dos homens/ e de Deus...” (p. 31-32). Há referências a todas as mulheres descritas pelo vaqueiro: a mãe Bigri e as paixões: Maria da Luz, Hortência, Diadorim, Nhorinhá, Rosa’uarda, Otacília... Após as recordações, e com elas, descrições aprofundam o pensamento: “No mundo/ cabe mundo/ de tanto recordar. (p. 88) Meus ais!/ Em bandos/ ou debandadas/ voltam alvoroçadas/ como aves voando/ as minhas recordações.” (p. 32)

Reflexões sobre o mundo passam do romance para a poesia do Delson, assim: “No mundo/ cabe mundo/de tanto recordar./ Mire e veja!/ Veredas/ buritis/ buritizais/ deste sertão...” (p. 88) Muitas vezes, mais trabalhadas poeticamente: “Veredas/ merejando/ molhando/ corpo r alma/ da gente.” (p. 89)

Definições do sertão, como era costume em Guimarães Rosa: “Sertão tem antes/ durante/ e depois.../ Ultrapassei./ Parei.” (p. 98) Aqui também: “No geral/ como vemos/ este mundo/ é muito misturado/ de bem e mal./ E ainda/ de mais ou menos./ Lado a lado/ o limpo e o imundo/ o raso e o profundo/ para homem navegar.” (p. 103)

A dúvida sobre a vida e a morte, e o que virá depois, são tópicos presentes em ambos os livros, mas sem perder a originalidade na obra analisada: “Um dia/ não sei a hora/ pode ser até agora/ chega a morte./ É mais fácil morrer/ do que viver./ Vou-me embora/ para o lado de lá./ Para ver/ o que há.” (p. 105)

Saudamos daqui a oportunidade que um irmão dá ao outro de levar sua obra ao público por meio de uma publicação que também traduz uma homenagem de um talentoso poeta a outro que, na literatura moderna, tornou-se um gigante de prodigiosa imaginação.

(18-07-2018)



Guimarães Rosa em foto solarizada