3/24/2018

SHOW DE TRUMP






Nas savanas da África
soa o alarme das armas:
Trump autoriza caçadores
americanos a buscar seus troféus
na cabeça de elefantes e leões.

É uma nova lei (da selva)
sem Tarzan, com caravanas
para o deleite da alta burguesia
numa fria escalada de horror.

Ante o poder do dinheiro
nada podem os africanos.
(– Eles só querem os chifres,
os dentes e as cabeças dos bichos!..)

– Mas como tirar chifres e cornos
sem os matar?
Trump avança entre o sim e o não
e seu coração (?) balança
pela ordem final: a matança.

Duvidar, quem há-de?

(24-03-2018)

2/25/2018

ROTA PARA O RIO-MAR





Sobre o lado ímpar da memória
o anjo da guarda esqueceu
perguntas que não se respondem.

(João Cabral de Melo Neto)


Quanto mais se souber da geração que, nos anos de 1960, na esfera mundial, revolucionou artes e costumes de modo tão radical, e da história da pequena cidade mineira de Cataguases, mais se vai poder mergulhar no universo de Pomba-Poema, de Ronaldo Werneck. Porque essas são águas da memória, feita de emanações poéticas vindas de regiões e de um tempo que ainda não se conhecem bem.

Mas, se não for assim, mesmo se não se tiver afinidades com a geração de lennons, faustinos e guevaras, pode-se também fruir desse poema-livro, que é muito bom.

Percebe-se no início do poema como se descortina a cidade e o mundo – por que não? – como a preparar o leitor para a descrição-narração que vai acontecer: “Nesgas neblina/ manhã ainda agora/ o cheiro da maçã/ evocando a metrópole/ o mundo exterior extraído/ a cada odor & dentada/ o mundo além da reta da saudade/ antes das indústrias o mundo/ atolado/ na ponte do sabiá/ Há? Não há? Não sabíamos/ não sabemos/ não soubemos/ nunca jamais/ estava ali o mundo/ antes do tempo e da ponte/ num repente/ na girândola do vento/ manga/ jabuticaba/ abiu/ explodindo no dente/ mas o mar mar/ telando as pedras/ no meio da luz/ e dia memória.[...]” (p. 25)

Assim, deixe-se levar pelo seu embalo, perca-se nas corredeiras estreitas aqui, livres ali, ouça o canto dos seus pássaros nas margens, esqueça a poesia gramatical e paramentada. Guie-se pela descoberta e pelas sonoridades fluviais que puder encontrar dentro de si mesmo, porque ali estarão os poemas que ainda não foram escritos.

Lembre-se de que os modernistas nos deram a forma livre de escrever, depois João Cabral e os concretistas descobriram a palavra-ouro na sintaxe da bateia discursiva, e Cassiano Ricardo e os pós-modernos jogaram a palavra de novo no rio, riscando no mapa constelações de linossignos, afluentes e caudais ideogrâmicos e visuais.
Deixe o espírito liberto e o corpo descansado para ouvir estas vozes, que você entenderá, ou melhor, perceberá.

Mesmo porque o Pomba-Poema volta agora em outro livro, Minas em mim e o mar esse trem azul (Cataguases: Poemação Produções), com recorte novo e refotografado, garfado instante a instante por um Ronaldo ainda mais consciente e dono da matéria poética.

O livro ganhou, com o tempo, um projeto de edição definitiva, para ser lido aquém e além-mares, até que o futuro o consuma, e estes versos, que bem poderiam ser uma homenagem ao poeta Mário Faustino, vêm muito a propósito para finalizar a viagem de Ronaldo Werneck: “ao largo/ eu ilha/ eu barco/ bateau à toa/ rumo ao arco/ da tarde/ quilha que ecoa/ e corta/ o mar melado/ de sol/ e eternidade.” (p. 139)

2/20/2018

A NOITE DE JORGE TUFIC



O poeta Jorge Tufic (foto: proparnaiba.com)




A morte na semana passada do poeta Jorge Tufic (1930-2018) me colhe de surpresa, mas não sem dizer algo sobre ele e sua obra.

Poeta isolado no interior da Amazônia, destinado ao ostracismo pela distância dos grandes centros (São Paulo e Rio), mesmo assim conseguiu se projetar na literatura brasileira, embora seja mais conhecido por poetas e ficcionistas.

Na juventude, em Manaus, Tufic foi um dos fundadores em 1953 do "Clube da Madrugada", que reunia jovens escritores que estavam se iniciando na literatura e que mais tarde se projetaram regional e nacionalmente.

Outro dia, um de seus componentes, o contista Adrino Aragão, me lembrou de um de melhores trabalhos de Jorge Tufic: "Que será de ti, Amazônia?", constante de seu livro "Quando as noites voavam". Belo título, bons poemas, tema atualíssimo.

Por isso, vou me concentrar nesse poema. Não poderei transcrevê-lo dada a sua extensão, mas pinçarei alguns fragmentos. O título funciona como refrão a abrir todas as estrofes.

[...]
Que será de ti, Amazônia,
enquanto o envolvimento de teu solo,
à cata de minérios
envenenar os seus rios
e as toras de madeira submersas
desabarem sobre ti
numa queda insalubre e frenética
de chuvas ácidas?

[...]
enquanto o desmatamento e as queimadas
transferem para os teus ares o sezão
dos pântanos
e a temperatura dos internos?

[...]
última página do Gênesis,
quando os seres que fazem a tua escrita
enigmática
mergulhar na usura
que te rebaixa
aos olhos do mundo?

Assim, Tufic vai desfiando poeticamente todas as mazelas que afligiam (e agora ainda mais) sua terra, para terminar apocalipticamente:

"Os nichos sagrados estão em chamas.
Teu coração também se revolta
e sangra, Amazônia.
Fetos de carbono
imitam pajés enforcados
nas enviras do luar."

(20-02-2018)

2/08/2018

ASCENSOR PARA O CADAFALSO




Não sei por que, ao acordar, me lembrei do filme de Louis Malle "Ascensor para o cadafalso", com Jeanne Moreau e Maurice Ronet, de 1958. Um clássico francês.
Posso resumir: a mulher e o amante bolam um plano para matar o marido. O homem pratica o ato com a ajuda da mulher. Mas ao sair do apartamento, lembram-se de que esqueceram um roupão incriminador. O homem volta para pegar, mas fica preso no elevador.
Esse filme tem tudo – a partir do título – que lembra o momento atual: sordidez, traição, injustiça, mas aqui falta o roupão. Está tudo preparado. Por certo, se esquecerão de algo...
Escrevo antes do ato, portanto só posso conjecturar.
Mas, pela tv, estou vendo o exercício de contorcionismo dos cameramen para não mostrar toda a multidão que se concentra nas ruas. Os locutores estão exercendo o que tiveram de aprender em meses de distorção dos fatos, ao escolher palavras trocadas, num esforço para agradar aos senhores das estações. Tristes "profissionais". Os comentaristas, geralmente de baixo nível em língua portuguesa, fingem caras de sérios naquele "esforço" de dizer o implausível...
Só o povo nas ruas é pra valer. Muitos viajaram horas, torrando seu curto e suado dinheirinho para dar o seu apoio, mostrar a indignação para os togados e para a nação.
Sinceramente não sei o que poderá acontecer. Só tenho as palavras, estas que aqui vou alinhando, alinhavanhando, escolhendo e deixando no ar. Talvez para nada.
Prepararam o cadafalso. O ascensor vai subir. Tomara que pare e se possa fazer justiça a alguém que fez tudo para levantar o povo, e alguns ainda nem tomaram consciência disso.

2/06/2018

O "BRICOLEUR" MACHADO DE ASSIS







Depois de O quebra-nozes de Machado de Assis: crítica e historiografia, o professor e crítico Eduardo Luz volta às pesquisas machadianas com sua tese de doutorado O romance que não foi lido: Helena, de Machado de Assis (Edições UFC, Fortaleza, 2017).

Dividido basicamente em 3 partes: "O que Machado de Assis fez", "Como Machado de Assis fez" e "O que Machado de Assis é", a obra penetra profundamente no romance Helena, considerado até aqui como pertencente à primeira fase – a romântica – da ficção de Machado.

A leitura da tese é puro prazer para quem pelo menos conhece algo da obra de um dos maiores ficcionistas da literatura mundial no século XIX. Eduardo Luz produziu um trabalho que desperta a atenção do leitor até pela maneira como realizou o livro.

Na 1ª parte, o crítico prepara sua tese, alertando-nos para o que viria. Na 2ª, vem a grande novidade para mim pelo ineditismo da proposição: os 28 capítulos de Helena mereceram 211 notas curtas e curtíssimas que fornecem ao leitor um caminho suave (como leitura descansada e tranquila) para vencer essas 300 páginas de análise crítica. E na 3ª, identificam-se as fontes gregas aonde M. de A. foi buscar inspiração: as tragédias Coéforas, de Ésquilo, e Electra, de Sófocles e Eurípedes, atualizando-as para o seu século – o XIX.

Do mesmo modo que Eduardo chama Machado de "bricoleur", aqui lhe devolvemos o nome, pois utilizando o recurso das notas curtas, o crítico vai juntando os pedaços e/ou cacos para formar um imenso painel de clareza argumentativa, ao ir e vir, com desenvoltura, pelas páginas do romance, a fim de mostrar como nosso grande romancista construiu tijolo por tijolo sua obra. E o mais importante: ao provar que Helena não foi concebido como um simples romance do Romantismo da época, Eduardo Luz chama atenção para as 2 camadas em que Machado trabalhou: a "camada aparente", que seria percebida como interpretação romantizada, e a "subjacente", bem mais sofisticada, e que tem como tema a vingança ao estilo grego com as devidas adaptações para o Oitocentos.

Fonte inesgotável de pesquisas, a obra de Machado de Assis continua propiciando novas "descobertas" ao longo do tempo. Esta agora, da maior importância, levou o professor e crítico Eduardo Luz a publicar este "romance que não foi lido", uma bela surpresa para todos nós, críticos e leitores de Machado de Assis.




O crítico e professor Eduardo Luz







Cena de Helena, de Machado de Assis (coleção Gráfica e Editora Edigraf, S.Paulo).




A pintura de Magritte ilustra a capa de Valdianio Araújo Macedo.




1/06/2018

POEMA PROCESSO - 50 ANOS


Ao completar 50 anos de sua inauguração, 1968-2018, o movimento do Poema-Processo teve agora um documento digno de sua importância na vanguarda brasileira.
A edição da exposição e do livro Poema-Processo: uma vanguarda semiológica, pesquisa e organização de Gustavo Nóbrega pela Galeria Superfície, em São Paulo. Registramos o destaque à atuação e importância do poeta Wlademir Dias-Pino, pelo seu pioneirismo.


O poeta Dias-Pino



Trata-se de um tijolão de 320 páginas, formato grande, encadernação dura, edição wmf-martinsfontes.
Nele vamos encontrar toda a documentação sobre o movimento, incluindo os poemas e textos mais representativos, no tempo e no espaço, compreendendo as diversas vanguardas que formaram o P/P no país. Do grupo de Cataguases, participam da antologia com poemas: Ronaldo Werneck, Plinio Guilherme Filho, P.J.Ribeiro, Sebastião Carvalho e Joaquim Branco.


Bilhete do organizador Gustavo Nóbrega



Capa e contracapa do volume











Alguns dos poemas incluídos na antologia:


Cavalo Vietcong, de P.J.Ribeiro



Teagonia, de Plínio Guilherme Filho





de Sebastião Carvalho

12/07/2017

DIANTE DA LEI - Franz Kafka




DIANTE DA LEI

Franz Kafka

Diante da Lei há um guarda. Um camponês apresenta-se diante deste guarda, e solicita que lhe permita entrar na Lei. Mas o guarda responde que por enquanto não pode deixá-lo entrar. O homem reflete, e pergunta se mais tarde o deixarão entrar.
– É possível – disse o porteiro –, mas não agora.
A porta que dá para a Lei está aberta, como de costume; quando o guarda se põe de lado, o homem inclina-se para espiar. O guarda vê isso, ri-se e lhe diz:
– Se tão grande é o teu desejo, experimenta entrar apesar de minha proibição. Mas lembra-te de que sou poderoso. E sou somente o último dos guardas. Entre salão e salão também existem guardas, cada qual mais poderoso do que o outro. Já o terceiro guarda é tão terrível que não posso suportar seu aspecto.
O camponês não havia previsto estas dificuldades; a Lei deveria ser sempre acessível para todos, pensa ele, mas ao observar o guarda, com seu abrigo de peles, seu nariz grande e como de águia, sua barba longa de tártaro, rala e negra, resolve que mais lhe convém esperar. O guarda dá-lhe um banquinho, e permite-lhe sentar-se a um lado da porta. Ali espera dias e anos. Tenta infinitas vezes entrar, e cansa ao guarda com suas súplicas. Com frequência o guarda mantém com ele breves palestras, faz-lhe perguntas sobre seu país, e sobre muitas outras coisas; mas são perguntas indiferentes, como as dos grandes senhores, e para terminar, sempre lhe repete que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que se abasteceu de muitas coisas para a viagem, sacrifica tudo, por mais valioso que seja, para subornar ao guarda. Este aceita tudo, com efeito, mas lhe diz:
– Aceito-o para que não julgues que tenhas omitido algum esforço.
Durante esses longos anos, o homem observa quase continuamente ao guarda: esquece-se dos outros, e parece-lhe que este é o único obstáculo que o separa da Lei. Maldiz sua má sorte, durante os primeiros anos temerariamente e em voz alta; mais tarde, à medida que envelhece, apenas murmura para si. Retorna à infância, e como em sua longa contemplação do guarda, chegou a conhecer até as pulgas de seu abrigo, também suplica às pulgas que o ajudem e convençam ao guarda. Finalmente sua vista enfraquece-se, e já não sabe se realmente há menos luz, ou se apenas o enganam seus olhos. Mas em meio da obscuridade distingue um resplendor, que surge inextinguível da porta da Lei. Já lhe resta pouco tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências desses longos anos se confundem em sua mente em uma só pergunta, que até agora não formou. Faz sinais ao guarda para que se aproxime, já que o rigor da morte endurece seu corpo. O guarda vê-se obrigado a baixar-se muito para falar com ele, porque a disparidade de estaturas entre ambos aumentou bastante com o tempo, para detrimento do camponês.
– Que queres saber agora? – pergunta o guarda –. És insaciável.
– Todos se esforçam por chegar à Lei – diz o homem –; como é possível então que durante tantos anos ninguém mais do que eu pretendesse entrar?
O guarda compreende que o homem está para morrer, e para que seus desfalecentes sentidos percebam suas palavras, diz-lhe junto ao ouvido com voz atroadora:
– Ninguém podia pretender isso, porque esta entrada era somente para ti. Agora vou fechá-la.

(In A Colônia Penal, Trad. Torrieri Guimarães, Livraria Exposição do Livro, 1965)