5/24/2015

Literatura de Cataguases - CELINA FERREIRA (1928-2012)



CELINA FERREIRA (1928-2012)

Morreu no dia 5 de agosto de 2012, no Rio de Janeiro, a poetisa Celina Ferreira, nascida em Santana de Cataguases em 1928. Aos 4 anos de idade sofreu um acidente que lhe prejudicou uma das pernas, causando-lhe problemas físicos por toda a vida. Viveu em Cataguases, onde lecionou por algum tempo, transferindo-se depois para Belo Horizonte, onde se tornou assistente social.
Casou-se aos 27 anos e transferiu-se para o Rio de Janeiro; teve 4 filhos e tornou-se escritora de certo prestígio por sua poesia de grande poder expressivo. Trabalhou na Rádio MEC, no Jornal do Brasil e na TV Tupi, como redatora.
Autora premiada com o Prêmio de Literatura Infantil do Estado da Guanabara, em 1971 e o Prêmio Brasília de Literatura Infantil e Juvenil e o Prêmio Fernando Chinaglia, em 1978.
Sua obra foi muito pouco divulgada, o que não a impediu de receber referências positivas de Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Artur da Távola, Affonso Romano de Santana e outros grandes escritores. Se houvesse mais divulgação, hoje seu nome teria lugar ao lado de Henriqueta Lisboa e Cecília Meireles
Obras: “Espelho convexo” (1973), “Hoje poemas” (1966), “Invenção do mundo” (1958). “Nave incorpórea” (1955), “Poesia de ninguém” (1954) e outros.
Sua família providenciou a remoção do corpo para Cataguases (a seu pedido) que foi velado na capela do cemitério no dia 7 de agosto. Uma das vozes isoladas e ao mesmo tempo mais significativas da literatura cataguasense nos anos de 1940-50.

Bilhete enviado a mim por sua filha Márcia: "Apenas para atualizar a informação. Mamãe faleceu em Teresópolis, no Hospital São José. Foi trasladada de lá para Cataguases. Ela viveu em Teresópolis desde final de 1998 ou princípio de 1999, não me lembro ao certo. Foi entre Natal e Ano Novo, ou depois do Ano Novo que ela foi para lá. Primeiro para a minha casa. Em 2000 é que foi para a Casa de repouso Santa Lúcia, em Teresópolis e viveu lá seus últimos anos.
Um abraço,
Márcia Ferreira"

Transcrevo a seguir um poema, que pode dar um pouco da dimensão artística de Celina Ferreira:

FLOR SOZINHA

Que flor é aquela
na beira do rio?
Ninguém a descobre
na beira do rio.
A flor é sozinha,
parece comigo.





Celina e seu marido Márcio de Azevedo Cardoso.













PRELÚDIO EM CINZA

Meu corpo cresce baixinho,
ai que vontade de amar!
Eu sinto a vida nos braços
que abraçaram quase nada.

Eu sinto o sangue crescendo
devagar como a tulipa.
Ai, que receio de amar!
Eu não amei quase nada.

Grave, meu corpo se estende
à superfície das águas.
Ai, desejo de naufrágio!
Por dentro morro calada.

(p. 79 – Hoje poemas)



Celina na calçada

















RONDÓ DA CHUVA CAINDO

A chuva chovendo chora
Minhas totas de alegria.
Que é do meu livro de estórias,
a bruxa de cartolina,
meu pilãozinho de vidro?
Que é do arraial na memória,
o apito rouco da usina
noite e noite, dia e dia?

A chuva chove que chove,
Lembrança tanta haveria?

Santana será que existe?
As ruas da meninice,
o doido correndo alegre,
mais doido que alguém de nós.
O largo sem muita história,
Uma igreja e a Santa rindo,
Rindo, rindo sobre nós.
Com olhos chorando o tempo
Que a chuva mansa escorria.

A infância lavada em chuva,
o corpo crescendo agreste,
as mãos tocando o infinito.
Lá longe, o medo e o silêncio,
a solidão incorpoórea,
as coisas de desengano,
lá longe o tempo de agora.

E a chuva chovendo chora
minhas gotas de alegria.

(p. 78 – Hoje poemas)





Celina e as filhas Márcia e Adriana.













CANÇÃO PARA O MENINO LEPROSO

Não peças milagre,
menino leproso.
Esquece, é melhor.
Esquece a doença,
o rosto vermelho,
as mãos pequeninas
no meio das chagas.

Esquece as crianças
que fogem correndo
de tua ternura.
Esquece a mulher
que esconde seu filho
na barra da saia.
Não penses na mãgoa
Que aflige meus olhos
Cansados de vida

Repousa em meu ombro,
aceita o carinho
de minha canção.
No mundo irreal
De meu “faz-de-conta”,
eu sou tua mãe,
tu és meu menino.
(p. 14, Hoje poemas)


Com o poeta Francisco Marcelo Cabral.





Capa do livro Hoje Poemas.















7 comentários:

cecília de mariz disse...

Mto bom, Joaquim. Belos poemas de uma poeta pouco conhecida. Na verdade, eu
nunca havia lido nada a respeito dela. Obrigada.

Aline Novaes Pires disse...

Parabéns por essa iniciativa, meu eterno professor e mestre. Já conhecia a história dessa grande escritora, minha conterrânea, e uma parte de sua obra. Sem dúvida nenhuma, ela merece nossa homenagem pelo legado que deixou. Parabéns, meu professor, e muito obrigada por reviver essa memória...

CLAUDIO PROFESSOR disse...

Tomei a liberdade de republicar essa artigo em http://mutumcultural.blogspot.com.br/2015/07/celina-ferreira.html

Rogerio Cardoso disse...

Joaquim, agradeço o registro de nossa mãe em seu blog. Mamãe poderia realmente ter escrito mais, mas o fato de ficado viúva precocemente (38 anos) com 4 filhos pequenos (8, 6, 3 e 2 anos), impôs uma dura realidade: escrever não dava dinheiro. Mas ela tinha múltiplos talentos: desde uma incrível habilidade manual, que permitiu ser professora de artes manuais no SENAI de BH quando solteira até um refinado bom gosto para artes plásticas que permitiu que ela ganhasse dinheiro como marchand que acabou sendo o seu ganha pão por vários anos. O Aquiles, seu irmão, participou muito dessa fase com ela. Muitas coisas lá em casa aconteciam como mágica. Mamãe era uma pessoa de pensamento acelerado, com alternância de períodos depressivos. Tinha realmente muito talento. O pouco que escreveu foi de muito esmero. Muitos poemas são de versos curtos, mas de muita perfeição. A minha irmã Adriana guarda muita coisa inédita de mamãe. Quem sabe conseguimos publicar alguma coisa no futuro? Sinto saudade dela.
Grande abraço do
Rogério

Valdeci Cunha disse...

Boa tarde Rogerio Cardoso,

sou pesquisador da obra do Murilo Rubião e gostaria de saber se vocês têm algumas das cartas trocadas entre ele e a Celina. Seria muito muito importante para o meu trabalho conhecê-las.

Um abraço, Valdeci

Rogerio Cardoso disse...

Acho que não, mas perguntarei para minha irmã caso tenha alfuma informação.

Valdeci Cunha disse...

Obrigado pela resposta!
Aguardo, então, um novo contato seu.
Att, Valdeci