5/08/2015

Perfil dos "Verdes" - Cataguases 1927 - (8) OSWALDO ABRITTA




OSWALDO ABRITTA - Oswaldo José Abritta nasceu em l908, no distrito de Cataguarino, município de Cataguases. Fez o ginásio como aluno interno no antigo Ginásio Municipal de Cataguases. Aos 23 anos, com seus colegas e professores, escreveu uma antologia manuscrita denominada "Um pouco de tudo". Integrante do Movimento Verde de literatura. Seu filho, Luiz Carlos Abritta, preservou sua obra - deixada encadernada e em manuscritos, e intitulada "Versos de ontem e de hoje", datada de 1931 - e a fez editar, em 2000. Morreu em Carandaí, em 1947. Obra publicada: Versos de ontem e de hoje - 1931 (2000).


A RUA DA ESTAÇÃO

A rua da Estação em Cataguases,
à noite, é silenciosa
e os automóveis sobre ela deslizam
como se deslizassem sobre um tapete...
Passam homens, mulheres apressadas
para o footing da Praça Rui Barbosa,
onde eu vejo sempre uma melindrosa
defendendo o charleston e falando
em crepes da China e fios de Escócia
e meias bege...
Mal sabe ela que eu a sigo silencioso
só porque ela se parece com um mapa
da América do Sul, colorido...
A rua da Estação em Cataguases, durante o dia,
é tumultuosa como os grandes centros.
Passam rapazes sem paletó e vão dizendo "olá "
para os conhecidos...
Caminhões, carroças...
Tudo exprime vida, força, energia, entusiasmo
nesta cidade principesca...
A rua da Estação é a vida de Cataguases.
(16.01.1928)


Oswaldo, a esposa e o filho.




JARDIM

Monotonia estranha dentro da tarde.
E o meu jardim?
O meu jardim
deixou de ser jardim
para ser perfume...
(1927)


Oswaldo e Oduvaldo Abritta


A AVENIDA

A Avenida é o encanto da cidade
de Cataguases – pérola luzente...
Tem tanto encanto, tanta suavidade
que até comove o coração da gente.

Quem a contempla, ao lusco-fusco brando,
tão serena, risonha e silenciosa
ficará em silêncio meditando
na sua formosura esplendorosa.

A alameda de oitis, calma e sombria
que lhe orgulhece o vulto de princesa
dá-lhe uma nota de Melancolia,
de saudade, de angústia, de tristeza...

E o regato que lhe serpeia e corre,
suas águas levando de roldão,
vai suspirando como a voz que morre
de Amor cantando dúlcida canção...

Tanta beleza vemos na Avenida
que eu não sei com que versos, com frases
hei de cantar a pérola nascida
para ser coração de Cataguases...


Oswaldo e a esposa Yolanda




O poeta, a esposa e os filhos em foto de 1943




QUADRO

Serenidade da minha rua
na manhã fresca.
A grama respingada de orvalho
se alastrando no calçamento
aqui, ali, acolá.
Gosto muito deste silêncio.
Não vejo automóveis,
não ouço vitrolas inconvenientes,
nem berros da criançada do vizinho.
Sinto uma paz caseira de roça
temperada de preguiça.

Mas...
na casa do vizinho, ao lado,
duas francesas franzinas ensinam francês.

E vêm meninas da Escola Normal
pra estudar com elas.
A francesinha magra pergunta:
– Que tipinho é este que te trouxe?
– Meu primo, responde.
Bem como as outras.

E a francesinha ingênua fica pensando,
cheia de ternura,
na solidariedade dos primos brasileiros...

(Belo Horizonte, 1929)





O poeta Oswaldo Abritta



DO CREPÚSCULO

Para J. Carlos

Crepúsculos de Belo Horizonte...
A noite quase a cair
sobre o brilho fosco da natureza...

O crepúsculo tem a doçura indizível
dos momentos despreocupados...

Pelo parque
as árvores têm a concentração das longas cismas
e a atitude indiferente
de quem não se preocupa com a Vida...

(Belo Horizonte, março de 1928)



Em bico-de-pena do pintor Di Carrara para o suplemento "Totem"






(ilustrações cedidas pelo filho Luiz Carlos Abritta para o Arquivo Joaquim Branco)







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