4/19/2007

SONHOS (?) DE KAFKA



“Envolve a criança nas dobras do teu manto, sonho sublime.”


Este é o último fragmento do livro Sonhos, de Franz Kafka, traduzido por Ricardo F. Henrique (Editora Iluminuras). Poucas palavras, verdadeiros touchestones em que o leitor pode se fartar de beleza e, ao mesmo tempo, se perder em suas variadas formas significativas.

Para conhecedores da obra deste grande escritor tcheco, que viveu na confluência do século XIX com o XX e assombrou o seu tempo (e por que não dizer o nosso?) com sua prodigiosa literatura, fica um pouco difícil pensar num título desses.

A obra de Kafka, considerada um autêntico pesadelo da e na modernidade, tornou-se a emblemática tradução de nossas perplexidades ante o mundo que se nos apresentava como indecifrável e absurdo pelas guerras e outras aberrações do ser humano.

Kafka, um jovem judeu intimidado pela arrogância paterna, pressionado no gueto de Praga, enredado pela burocracia de um trabalho mecânico demais para sua vocação de escritor, escreveu um relato que até hoje desafia o pensamento crítico e remete sua reflexão para o futuro.

O processo, O castelo, A metamorfose, América são livros cuja linguagem é até acessível ao público, mas o pensamento que ela conduz, a tortuosidade do dilema que propõe, a densa névoa com que o autor reveste as palavras podem dificultar os caminhos do leitor.

Mas nada disso embaça a beleza do seu texto erguido em cima de uma simplicidade ao mesmo tempo poética e enigmática.

Os fragmentos desta coletânea denominada Sonhos foram recolhidos em cartas a suas namoradas Felice e Milena e ao amigo Max Brod e ainda em páginas soltas de seu diário. E se não constituem propriamente sonhos de uma pessoa comum são viagens numa nave encantada que só alguns poucos como Kafka podem (e sabem) pilotar.

Um comentário:

Felipe Fritiz disse...

Santo Max Brod! Se ele tivesse ouvido o Kafka acredito que o mundo não seria o mesmo. O mundo seria apenas um sonho tranqüilo. É preciso tensão, in-tensão.

Kafka é um sonho perturbador, leve como um cavaleiro que voa num balde.