4/19/2007

QUEM LÊ BEM ESCREVE BEM



“Acho que a felicidade de um leitor está além da de um escritor,
pois o leitor não precisa experimentar aflição nem ansiedade:
seu negócio é simplesmente a felicidade.” (BORGES, 2000, p. 106)


O mestre argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), que exerce como poucos a magia da ficção sobre o leitor, deixando-o quase sempre magnetizado, consegue repetir a façanha também em suas palestras. Descobertas recentemente e reunidas em livro, as conversas que teve com estudantes da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, receberam o título geral de Esse ofício do verso, do qual me ocuparei especialmente em outro artigo.

As palavras da epígrafe, que transcrevo acima, pertencem a esse livro, e me vieram à lembrança quando examinava um manual sobre a técnica da leitura e seu aproveitamento para se atingir um bom nível de redação: Os degraus da leitura, das professoras Adriane Belluci B.Castro, Cinthia Maria R. Remach, Helena Aparecida G.Arantes e Léa Sílvia Braga de C.Sá, editado pela Edusc-Editora da Universidade do Sagrado Coração, de Bauru (SP).

De modo prático e objetivo, este livro ensina o leitor a penetrar em um texto por meio do reconhecimento de suas palavras-chave, da desmontagem de sua estrutura e outros recursos. São muitos os exercícios propostos nos capítulos em que se divide a obra, abrangendo muitos itens para um pequeno volume, como letras de música, poemas, contos e até textos não propriamente literários. Trata-se de um projeto que se situa mais no terreno da leitura e da escritura, visando ao ensino-aprendizagem de estudantes desta matéria hoje denominada Produção de Textos.

Voltando, no entanto, ao livro de Borges, pode-se observar que suas considerações viajam mais no terreno da arte como exercícios de uma mente privilegiada que conhece como ninguém os segredos da poesia e da criação.

Por isso, não estranhe, leitor-autor, se encontrar nas palestras borgianas esse arremate como uma flecha mortalmente dirigida a você:

“A pessoa lê o que gosta – porém não escreve o que gostaria de escrever, e sim o que é capaz de escrever.” (IBID., p. 103)


Referências bibliográficas:

BORGES, Jorge Luis. Esse ofício do verso. Trad. José Marcos Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
CASTRO Adriane Belucci B. et alii. Os degraus da leitura. Bauru: Edusc, 2000.

4 comentários:

Felipe Fritiz disse...

Joaquim! Falar o que? Escrever o que, quando o recado já foi dado? Esse "Degraus da Leitura" é realmente interessante sobre a construção do texto (eu sei pois tive de fazer um trabalho sobre o mesmo na FIC). E o Borges (sempre, o Borges). Figura "difácil" de se definir: incompreensível uma pessoa chegar a um grau de sabedoria como o dele, e fácil é simplesmente o dizer (não limitar) que o homem é UNI-vers'al.

Abraço,
Felipe.

Roberto disse...

Aulas com Joaquim e Borges???
Poxa vida, como tenho que me esforçar pra não fazer feio!!!
São os leitores mais inquietos que chegam um dia a um patamar literário digno!

Leiamos!!!

Prof. Andrea disse...

Ei Joaquim! Que bom encontrá-lo an blogosfera. Parabéns por mais esta. Vou lincá-lo ao meu blog.
Beijo grande
AndreaToledo

Leonardo de Paula Campos disse...

Oi, Joaquim! É a pura verdade, ler é um dos fundamentos principais para o aprimoramento da escrita. É a teoria e prática se completando e, no fundo, quase se unindo em algo único, (in)confundível: o texto.

Leonardo