10/07/2012

NOS PORÕES DA MENTE


Considerado um dos mais importantes autores da literatura russa no século XIX, Dostoiévski, atormentado pelo pai despótico na infância e mais tarde pela epilepsia, produziu intensa obra ficcional.

O jovem Dostoiévski, nascido em Moscou em 1821, chegou a enfrentar a prisão e o degredo na Sibéria por ter participado em 1849 de um levante contra o czar Nicolau I. Lá casou-se com Maria Dinitrievna e escreveria o seu primeiro clásssico: Recordações da casa dos mortos.

Dez anos após, de volta a São Petersburgo e com novas ideias políticas, dedicou-se ao jornalismo e publicou Crime e castigo – sua mais célebre novela – e Noites brancas.
Apesar da venda dos livros, endividou-se com a doença da mulher, a quem abandonou para seguir para o exterior com a estudante Polina Súslova. Consegue trabalho na França, e gasta o dinheiro no jogo. Com remorsos pela sorte da esposa, deixa a amante e volta à Rússia, onde enfrenta situação pior: repressão, encargos e doenças na família.

A epilepsia e a angústia atacam-no. Nesse período concebe a novela Notas do subterrâneo, livro publicado no Brasil pela Editora Bertrand-Brasil em tradução de Moacir Werneck de Castro, capa de Victor Burton.

Reflexo direto de sua precária condição pessoal, o livro é um mergulho na mente humana, onde o autor vai buscar no pessimismo e na dor material para a obra, da qual transcrevemos alguns fragmentos:

“(...) não somente não mudamos, como simplesmente não podemos fazer coisa alguma. Seguir-se-ia, por exemplo, como resultado de uma consciência apurada, que ninguém se censura por ser um canalha, como se houvesse para o canalha algum consolo no fato de compreender que é realmente um canalha”. (p. 15)

“E agora termino minha vida no meu canto, escarnecendo de mim mesmo com o inútil e despeitado consolo de que um homem inteligente não pode vir a ser nada de sério desde que o só o idiota o consegue. Sim, no século XIX, um homem inteligente deve, está obrigado moralmente a ser, em essência, uma criatura sem caráter.” (p. 11)

Quando preparava para seu editor o livro Crime e castigoO Cidadão, torna-se um renovador do jornalismo. Quando publica Os possessos e Os irmãos Karamázovi já era o maior autor russo do momento.

9/28/2012

SOBRE UMA "MÁQUINA DE NARRAR"


Com a publicação de Tempo reencontrado, de Alexandre Eulálio (1932-1988), a Editora 34 em parceria com o Instituto Moreira Salles corrige uma injustiça que há muito vem sendo feita a esse grande crítico e teórico brasileiro.
Organizado pelo estudioso Carlos Augusto Calil, o volume de 269 páginas reúne ensaios sobre literatura à luz das artes plásticas, tendo como pano de fundo o Oitocentos brasileiro e o início da modernidade.

Abre com um panorama do século XIX e divide os capítulos com ensaios sobre diversificados autores como Lucio de Mendonça, Gonzaga Duque, Henrique Alvim, Cornelio Penna e Jorge de Lima, sempre equilibrando pintura e letras.
Reservo meus comentários, porém, para o capítulo 5 em que se destaca o estudo sobre Esaú e Jacó (1904), um romance tardio de Machado de Assis, e geralmente colocado um pouco abaixo da celebrada tríade formada por Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro.

Sob o subtítulo “Narrador e personagens diante do espelho”, Alexandre Eulálio classifica a obra Esaú e Jacó como a mais complexa e ambígua da maturidade machadiana e aquela em que a parábola e o apólogo – formas preferidas pelas quais o autor aborda sua ficção – se apresentam de maneira diferente das demais obras, deixando a história de Pedro e Paulo nas mãos de um leitor atônito para “entender” a temática em meio aos elementos narrativos que vão sendo propostos.

As célebres conversas do narrador com o leitor aqui acontecem como nos outros romances, mas “rompendo com a convenção do gênero no seu tempo, o narrador fictício, delegado do autêntico criador, e seu porta-voz, abre o processo mesmo da criação, ao pretender fazer-se acompanhar do leitor às raízes do escrever.” (p. 112) Não sem deixar transparecer a força da criação literária, a crítica à ficção e os embaraços que pode trazer o caminho ficcional e principalmente a crise pela qual a narrativa já estava passando dentro do Realismo. Desse modo, por essas e outras características, Machado de Assis se coloca na vanguarda da narração de ficção de seu tempo.

Eulálio lembra, a propósito, como o narrador, seguindo o “gosto floreal do modern style [....] cria uma moldura caligráfica que ao mesmo tempo separa e integra, num movimento de ida e volta, o absoluto da criação romanesca e a relatividade do seu existir em livro.” (p. 120) As ações do livro vão sendo acompanhadas, por um lado, pela escrita do diário pelo Conselheiro Ayres e, por outro, constroem a narrativa ajudadas pelos comentários junto ao leitor.

O caso dos gêmeos Pedro e Paulo – cerne de Esaú e Jacó – lembra a Alexandre Eulálio o conto “O espelho”, do próprio Machado, e me lembra outro conto – “Trio em lá menor” – em que a protagonista Maria Regina não se decide entre dois pretendentes e termina em longos pensamentos em busca do absoluto. É a dialética do duplo, ou de duas almas que aparecem divididas pelo eterno problema existencial e trabalhadas em forma de metáfora na ficção machadiana.

O artigo de Alexandre Eulálio sobre o romance de Machado, por si só, vale pelo livro todo, dá oportunidade ao leitor de entrever o talento crítico-criativo do autor e me lembra a frase de Luiz Costa Lima: “O crítico não é nada se não tem, como o poeta, o impulso ficcional”. Eulálio tinha.
Na dúvida, porém, “o melhor é ler com atenção”. Assinado: Machado de Assis.

9/11/2012

A MULHER NO SÉCULO DAS LUZES

Émilie Émilie - a ambição feminina no século XVIII
Elisabeth Badinter
Trad. Celeste Marcondes
Paz e Terra/Discurso Editorial/Duna Dueto.


O que mais se identifica com o século XVIII europeu do que a máxima de Hegel: “Nada de grande se faz jamais sem paixão”? Assim, tudo que, em tempos passados, representava equilíbrio e indiferença às vicissitudes da vida foi afastado em prol de uma nova moda que era viver sob a ótica do amor e das emoções.

O Setecentos trouxe não só o progresso das ciências, a Revolução Industrial, a Ilustração e a Encyclopédie, como o nascimento do romance como gênero literário popular em substituição às liras pastoris, epopeias e histórias de feitos virtuosos.

Por outro lado, o poder dos reis ainda no auge e a aristocracia brilhando nos salões retratam tanto esse século quanto o início de uma classe em ascensão: a dos burgueses.

Como tempero a essas transformações que iriam alterar o curso da história, a vida de duas mulheres notáveis – as primeiras pensadoras – mexe com a nossa curiosidade ao ler a obra de Elisabeth Badinter Émilie Émilie - a ambição feminina no século XVIII, edição tríplice da Paz e Terra, Discurso Editorial e Duna Dueto.

Tendo como pano de fundo o Século das Luzes, a história de duas damas da aristocracia francesa – Madame de Châtelet e Madame d’Epinay, ou simplesmente Émilie e Louise – é magnificamente descrita no ambiente de sedução e de lances de fingimento e coragem na Corte.

A historiadora francesa Elisabeth Badinter deu ao seu trabalho, por um lado características de pesquisa séria, por outro uma tonalidade romanesca que o torna de sabor inigualável para leitores exigentes de todas as idades e gostos. Ler este livro é penetrar nos salões imperiais dos tempos do Iluminismo.

9/10/2012

SOBRE LUIZ BACELLAR

O texto a seguir é uma homenagem feita pelo escritor Adrino Aragão ao grande poeta amazonense Luiz Bacellar, falecido no dia 08-09-2012 aos 84 anos.



Carpintaria poética

Adrino Aragão


Luiz Bacellar é, dentre os expressivos poetas amazonenses, o mais aclamado pelas elites, estudantes e populares de Manaus. Mas, ao contrário do que possa parecer, sua poesia não é tão simples, de fácil consumo. Artesão da palavra, carpinteiro do verso, Bacellar constrói cada poema com rigor formal e forte densidade temática, numa linguagem refinada, primorosa.
Como explicar o sucesso de um poeta sério como Luiz Bacellar que não faz poesia em função do mercado? Mistérios da poesia, da arte? Talvez. Quem sabe uma resposta ao mercado do livro que aí está: a boa literatura brasileira existe; há, sim, leitores para a poesia, o conto, o romance, a novela de nossos escritores.
A verdade é que são 50 anos de trabalho poético de Luiz Bacellar. Frauta de barro, seu livro de estreia, na correta afirmação do poeta e crítico literário professor Tenório Telles, “é um marco na evolução da literatura que se faz no Amazonas”.
De formação clássica e espírito de renovação estética modernista, Bacellar pôde construir, com admirável liberdade (já a partir desse livro) algo de novo na dicção lírica de sua poesia. E que haveria de se ampliar em livros posteriores. Canta o poeta em “Variações sobre um prólogo”: “Em menino achei um dia/ bem no fundo de um surrão/ um frio tubo de argila/ e fui feliz desde então; // rude e doce melodia/ quando me pus a soprá-lo/ jorrou límpida e tranquila/ como água por um gargalo. // E mesmo que toda a gente/ fique rindo, duvidando/ destas estórias que narro, // não me importo: vou contente/ toscamente improvisando/ na minha frauta de barro.// É o tema recomeçado/ na minha vária canção.”
Enquanto muitos destroem o passado com a ânsia de criar o novo, o moderno, o poeta Luiz Bacellar mantém forte diálogo com a tradição, elege a memória como tema em muitos de seus textos poéticos. Sem saudosismos. O passado tem o sentido de memória, de registro - seja de denúncia ou crítica (quase sempre bem-humorada) contra o silêncio do descaso, do abandono, da “insanidade de um presente” que flagela e aniquila as fontes de nossa história. Como nos versos de “Balada da rua da Conceição”: “Vão derrubar vinte casas/ na rua da Conceição./ Vão derrubar as mangueiras/ e as fachadas de azulejo/ da rua da Conceição./ (Onde irão morar os ratos/ de ventre gordo e pelado?/ e a saparia canora da rua da Conceição?” O poeta, por vezes, estende o olhar sobre gentes humildes, os esquecidos, como em “Lavadeiras”, poema do mais fino lirismo, comparável a de um Jorge de Lima: “A roupa nos varais panda flutuando,/ com seus laivos de anil coando a brisa,/ até parece ávida nau cortando/ o mar azul que a leve espuma frisa.// O vento timoneiro vai guiando/ e o sol nas bolhas de sabão se irisa/ enquanto as lavadeiras vão cantando/ a torcer e a bater na tábua lisa”. Aliás, como um Midas, Bacellar consegue transformar em filigranas de poesia as coisas mais comuns, por exemplo, um simples isqueiro, vejam: “Se, na pedra, acordo estrelas/ com um golpe do polegar,/ a chama, só para vê-las,/ já se levanta a bailar”.
Frauta de barro tem ainda outro mérito. Deu ao poeta Luiz Bacellar o prêmio Olavo Bilac, da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro (1959). Na comissão julgadora do concurso estavam dois dos maiores poetas brasileiros, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Pode haver reconhecimento maior que este, para qualquer escritor?
Mas Luiz Bacellar não é poeta de um livro só. Outros foram publicados. Cada um deles revela, de modo surpreendente, a performance desse poeta que tece poesia de altíssima qualidade.
Sol de feira é outro grande momento literário de Luiz Bacellar. Para início, o tema é originalíssimo, senão inusitado, na poética brasileira. Professor Ernesto Renan Freitas Pinto considerou o livro um “pomar real” que “nos ensina a admirar e saborear a rica coleção dos frutos da terra”. Vejo-o como telas do mais belo impressionismo. Mas, às vezes, parece escorrer, do rondel de cada fruta, um sumo mágico de canções: é quando me sinto arrebatado pelos acordes de uma sinfonia de Bach ou Handel. Por que não de Villa-Lobos? Como nos versos de “rondel da pitanga”: “Gracioso arbusto/ de folhas breves/ todo adornado/ de frutos leves/ como as caboclas/ do meu torrão/ e as notas loucas/ do meu violão// rubras miçangas/ rubis talhados/ de viva cor/ sois vós pitangas/ cristalizados/ beijos de amor”.
Há mais, muito mais. Por exemplo, um belíssimo poema musical longo, dividido em 33 partes – ou, como declara o poeta, sonata em si bemol menor para flauta, fagote, clarinete e oboé. Inclusive uma boa safra de haicais, em que o poeta reafirma o seu talento criativo. “Rajadas de chuva/ sobre o teto de alumínio:/ sons da lua cheia.” “Como um prisioneiro/ a lua me espia pelas/ grades do banheiro.” “Água resmungona.../ No tanque limoso/ o pulo da rã.” (Bashô)
A Editora Valer publicou (1998) as obras de Luiz Bacellar, reunidas em um só volume, com o título de Quarteto.
Vale a pena ler Luiz Bacellar. E conhecer, através de seus poemas, a trajetória luminosa do poeta amazonense, que atingiu o estado de excelência na poesia brasileira. Mais que isto. Ultrapassou a barreira do preestabelecido: ao lidar com elementos tradicionais, aprofunda o exato conceito de modernidade.

(foto cedida por Rogelio Casado)



8/30/2012

O APELO DO ORIENTE


Entre as histórias que povoaram a infância de boa parte da minha geração, encontram-se os contos de Malba Tahan (1895-1974), esse professor brasileiro que se especializou em cultura oriental, geralmente ligada a problemas de matemática.
Lia com encantamento suas estórias pontilhadas de mistério, em que se encontravam sábios, leões, xeques, gatos siameses e princesas, todos personagens de um texto que ressaltava a simplicidade e a concisão narrativa.
Lembro-me de Paca tatu, Maktub e principalmente de O homem que calculava, o mais famoso de seus livros. Acima da curiosidade dos problemas aritméticos ali propostos, atraíam-me os temas inusitados e a maneira leve e interessante como Malba Tahan escrevia.
O tema me remete a outro sonhador com o Oriente – Jorge Luis Borges – que afirma em seu livro Sete noites:

“A gente tem vontade de perder-se em ‘As mil e uma noites’, pois sabe que, se entrar nesse livro, é capaz de esquecer nosso pobre destino humano”.

Citado por Borges, o inglês-indiano Kipling acrescenta algo não menos precioso:

“Se ouvires o apelo do Oriente, já não ouvirás outra coisa”.

Pode ser encontrada nas livrarias uma compilação dos melhores trabalhos de M. Tahan intitulada Contos e lendas orientais, edição ilustrada da Ediouro, que, além de entretenimento, constitui boa literatura para leitores de todas as idades exercitarem sua imaginação e desenvolverem suas técnicas de escrever.

8/28/2012

AS VISITAS DE UM BRITÂNICO ILUSTRE

(Na foto, o crítico inglês John Gledson em palestra na UERJ, em 2006).

John Gledson é um brasilianista inglês que descobriu a nossa literatura e suas pesquisas deram bons resultados.
Inicialmente veio ao Brasil para estudar a obra de Carlos Drummond de Andrade resultando no livro Poesia e poética de Carlos Drummond de Andrade. Apaixonou-se tanto pela literatura brasileira que resolveu ir à base, ninguém menos do que Machado de Assis. Novamente acertou o inglês, que não para mais de estudar esses dois autores fundamentais, um da época do Realismo, outro do Modernismo.
E agora nos surpreende com Machado de Assis - ficção e história (Editora Paz e Terra) e Influências e impasses - Drummond e alguns contemporâneos (Companhia das Letras).
O primeiro toque de Gledson está no seu estilo de escrever: rodeando o tema, vai cativando o leitor por meio de uma escrita simples e envolvente, em que estudado e estudioso se veem lado a lado, e literatura e história vão recebendo paulatinamente tintas e cores vindas do ficcional e da pesquisa que o tempo e o espaço fornecem.
No livro sobre Machado, várias considerações me chamaram a atenção, especialmente as que partiram da ‘descoberta’ do romance Casa velha (1885), obra situada entre Brás Cubas (1881) e Quincas Borba (1886) e à qual a crítica brasileira nunca deu maior importância.
No tocante ao livro sobre Drummond, Gledson se aventurou num terreno em que nossos críticos pouco pisaram: o do comparativismo e das influências, o que torna sua pesquisa mais interessante e diferenciada. O crítico busca autores nacionais e estrangeiros que tiveram alguma parcela de contribuição na obra do poeta de Itabira, de Bandeira a Cabral, de Jules Supervielle a Valéry.
Os caminhos seguidos e as marcas deixadas aqui e ali por poetas, bem como o desempenho e o aproveitamento de CDA são ‘perseguidos’ pelo pesquisador com minúcia de detetive e mãos de conhecedor da matéria, num trabalho que, aos olhos do leitor, qualifica ainda mais as obras de Machado de Assis e Carlos Drummond pelo que elas têm de universal e – por que não dizer? – de eterno.

8/21/2012

A SUPOSTA INFERIORIDADE



Há certos artigos, poemas e trechos de livros que gostaríamos que todo mundo lesse, e nessa vontade às vezes os levamos aos amigos mais interessados.
Um desses textos que sempre me vêm à mente intitula-se "Sobre o óbvio", e foi escrito por Darcy Ribeiro na revista Civilização Brasileira no final dos 70. Nele, Darcy dá uma aula de inteligência e massacra o velho pensamento dominante que coloca a nós, centro e sul-americanos – mestiços – como supostamente inferiores aos nobres habitantes do hemisfério norte. Nosso antropólogo comenta e desmoraliza a balela de que, se tivéssemos sido colonizados por ingleses, alemães ou outra raça ‘superior’, estaríamos hoje em pé de igualdade com os norte-americanos.
São preconceitos que até hoje querem nos impingir, como os da inferioridade das mulheres, dos negros, judeus e outros em que as pessoas infelizmente acreditavam.
O artigo é crítico, irônico, argumentativo, e levanta todos os pontos da questão, desde aquele início de colonização até os poderes de uma classe que, a partir do descobrimento, domina a cena brasileira. Da sua leitura, sai-se de alma lavada.
Um livro que de certo modo complementa a matéria é O avesso e o direito (Trad. Valerie Rumjanek, Rio de Janeiro, Record, 1995), do franco-argelino Albert Camus, que no prefácio abre para uma constatação redentora:
“Encontram-se muitas injustiças no mundo, mas existe uma da qual nunca se fala, que é a do clima”. (p. 20)
Isso nada mais é que outra fixação em que tentam nos manter; a de que as pessoas que vivem em climas quentes são inferiores, preguiçosas e não lutam pela vida.
Nas recordações infantis de Camus estão as mais belas descrições de sua terra – a Argélia – e tantas outras assertivas esclarecedoras:

“[...] fui colocado a meio caminho entre a miséria e o sol. A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na história; o sol ensinou-me que a história não é tudo”. “De qualquer forma, o belo calor que reinou sobre minha infância privou-me de qualquer ressentimento. Eu vivia na adversidade, mas, também, numa espécie de gozo. Sentia em mim forças infinitas: bastava, apenas, encontrar seu ponto de aplicação. Não era a miséria que colocava barreiras a essas forças: na África, o mar e o sol nada custam. A barreira está mais nos preconceitos ou na burrice”. (p. 18/19)

(foto do escritor Albert Camus)




8/06/2012

VIAGEM À BABILÔNIA


Nascida em Worcester, nas imediações de Boston, a menina Elizabeth Bishop (1911-1979) perdeu os pais muito cedo e foi criada pelos avós, que apenas conseguiram remediar seus traços de solidão, pois esta a acompanhou por toda a vida.
Ajudada pelo pecúlio deixado pelo pai, pôde concluir a faculdade, mudando-se depois para Nova York. A vida solitária constantemente a impeliu para as viagens, por isso conheceu o Canadá, França, Itália, Marrocos e muitos outros países.
Com o primeiro livro publicado – Norte e Sul –, Elizabeth recebeu um prêmio literário, logo seguido de muitos outros, numa carreira literária de sucesso, especialmente de crítica.
Em Washington tornou-se consultora de poesia na Biblioteca do Congresso, contudo, nessa época, seus problemas maiores – o álcool e a depressão – quase a levaram ao suicídio.
Foi numa grande viagem em 1951 que esteve em alguns países da América do Sul, tendo se maravilhado com o Brasil, onde residiu por alguns anos ao lado de Lota, a companheira que conheceu aqui.
Em 1967, de volta aos EUA, dedicou-se ao magistério, lecionando em universidades como Harvard, contudo voltava sempre ao Brasil. Em contato com a literatura brasileira verteu para o inglês poemas de João Cabral, Drummond e Vinicius de Moraes.
Morreu em 1979, aos 68 anos, em Boston, e deixou obra valiosa, entre cartas, poemas e textos em prosa.
A poesia de Elizabeth Bishop pertence cronologicamente ao alto modernismo norte-americano, no entanto o grande domínio dos ritmos deu-lhe uma característica variada na composição poética.
Ainda que tenha demonstrado preferência por temas em que os lugares – sua geografia em particular – e o mundo dos animais se sobressaem, Bishop era uma poetisa voltada para o “eu”, às vezes com tendência surrealista e ora com traços de ironia.
A Companhia das Letras publicou "O iceberg imaginário e outros poemas", de Elizabeth Bishop, com seleção, tradução e estudo crítico de Paulo Henriques Britto.
Ali estão seus mais significativos poemas e, especialmente, um – “O ladrão da Babilônia” –, escrito quando de sua estada no Brasil, do qual extraímos o fragmento a seguir, que tem como tema os morros do Rio de Janeiro, onde a pobreza a impressionou sobremaneira:

O LADRÃO DA BABILÔNIA

Nos morros verdes do Rio
há uma mancha a se espalhar: são os pobres que vêm pro Rio
e não têm como voltar.

São milhares, são milhões,
são aves de arribação,
que constroem ninhos frágeis
de madeira e papelão.

Parecem tão leves que um sopro
os faria desabar.
Porém grudam feito líquens,
sempre a se multiplicar.

Pois cada vez mais gente
tem o morro da Macumba,
tem o morro da Galinha,
e o morro da Catacumba;

tem o morro do Querosene,
o Esqueleto, o da Congonha,
tem o morro do Pasmado
e o morro da Babilônia.
[...]

(publicado no jornal Cataguases)

7/13/2012

A ORALIDADE DE UM MESTRE

São célebres as conferências pronunciadas por Jorge Luis Borges em universidades europeias e americanas. Reunidas, algumas delas foram publicadas no Brasil, nos anos 80, pela Editora Max Limonad de São Paulo sob o título de Sete noites. Este livro, em termos de criatividade e qualidade textual, nada fica a dever às obras de ficção e de poesia do mestre argentino. Ali Borges aborda temas como: o pesadelo; a cabala, a cegueira, o budismo, entre outros.

Após a publicação, a partir de 1999, de suas Obras completas pela Editora Globo, em excelente trabalho editorial em quatro volumes encadernados, não pensei que teria mais oportunidade de ‘ouvir’ outros de seus textos ditos ‘orais’.
Mas eis que, por vias enigmáticas (borgianas, por certo), descobrem-se seis palestras perdidas, que haviam sido proferidas em inglês na Universidade de Harvard, em 1967-68, que a Companhia das Letras leva ao público com o título de Esse ofício do verso, organizadas por Calin-Andrei Mihailescu, em tradução de José Marcos Macedo (São Paulo: 2000, 159 p.).

Novos temas no mínimo diferentes: a metáfora; o narrar uma história; o credo de um poeta etc. O mesmo Borges – concentrado e livre; simples e erudito; poético e com uma memória prodigiosa ao citar trechos de livros sem recorrer a apontamentos, e já vitimado pela cegueira.

No capítulo “O credo de um poeta”, seus comentários sobre a literatura, em especial a poesia, são marca registrada de um modo particular de lidar com as palavras:

"(...) muitas coisas aconteceram comigo, como a todos os homens. Tirei prazer de muitas coisas – de nadar, de escrever, de contemplar um nascer do sol ou um crepúsculo, de estar apaixonado e assim por diante. Mas, de algum modo, o fato central de minha vida foi a existência das palavras e a possibilidade de tecê-las em poesia" (BORGES, 2000, p. 106).

Sobre a preocupação com o leitor, de que pouco se fala em Borges, no mesmo capítulo podem-se anotar fragmentos de refinada sensibilidade poética:

"Quando escrevo não penso no leitor (porque o leitor é um personagem imaginário) e não penso em mim mesmo (talvez eu também seja um personagem imaginário), mas penso no que tento transmitir e faço de tudo para não estragá-lo. Quando eu era jovem acreditava na expressão. [...] não acredito mais na expressão: acredito somente na alusão. Afinal de contas, o que são as palavras? As palavras são símbolos para memórias partilhadas. Se uso uma palavra, então vocês devem ter alguma experiência do que essa palavra representa. Senão a palavra não significa nada para vocês. Acho que podemos apenas aludir, podemos apenas tentar fazer o leitor imaginar" (BORGES, 2000, p. 121-2).

Se neste livro mais uma vez o leitor terá contato com uma literatura de alta expressividade (e – por que não dizer? – de inúmeras alusões), característica dos grandes escritores, poderá igualmente usufruir de um conhecimento mais profundo das coisas do mundo que se sintetiza numa só palavra: sabedoria. Que Borges sempre soube distribuir fartamente a todos que o leram e leem.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
BORGES, Jorge Luis. Esse ofício do verso. Org. por Calin-Andrei Mihailescu. Trad. José Marcos Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

7/05/2012

FICÇÃO INTER'DITA


Não sei como classificar, entre os gêneros literários, o segundo livro do escritor cataguasense (residente em Brasília) Marcelo Benini – O homem interdito (São Paulo: Intermeios, 2012, 84 p.). Só esta constatação já vale como referência favorável, não bastassem as outras que irei acrescentar adiante.
Situado entre a crônica e o conto, entre o real-ficcional e a prosa poética, o texto de Benini, à medida que se lê, vai revelando principalmente um autor que escreve muito bem – não apenas no sentido de correção linguística etc., mas naquele ponto em que o domínio da escritura encontra a criação literária.
Esses fatores me levaram à leitura de suas crônicas (?) uma após outra, e fui até o fim sem perder o embalo.
Não que a leitura corra de maneira macia o tempo todo. Ela guina ora para um lado, ora para outro – como na descrição que Machado de Assis, em Brás Cubas, faz do seu estilo comparado ao andar dos ébrios –, e só no final encontra o que procurava.
São crônicas-contos, em certos momentos, e, em outros, contos-crônicas, ou poemas em prosa.
Por exemplo, no início de “Espírito de Palminha”, Marcelo capta o cotidiano tão poeticamente que esta poderia ser um poema, mais na frente uma crônica, para no final se transformar num conto cujo narrador, à vista de jagunços que vão invadir a cidade, reage assim: “Tchuuuuuuuru! Tchuuuuuuuru! Estamos todos correndo à espera de uma voz suave que nos diga:
– Não precisam correr mais, irmãos. (p. 46)
Em “Cartas de Graciliano Ramos”, encontro a enigmática moça que guarda a sete chaves fabulosas cartas de Graciliano Ramos. Aqui um tema poético busca tornar a narração mais misteriosa e as considerações do narrador sobre o espírito feminino, mais reflexivas. O fecho mantém a secreta chave: “Nunca pude ler as cartas, talvez porque a moça esteja guardando esse segredo para alguém que lhe inspire mais confiança, alguém que não lhe tenha segredos.” (p. 38)
“Raulzito azul” sinaliza o olhar do cronista para a metrópole anônima, engarrafada de pedintes e moradores de rua, e “profetiza” uma revolução desses miseráveis que irão assaltar o poder em substituição aos engravatados de sempre:
“O sinal abriu e percebi que Raulzito vinha descendo a rua recolhendo contribuições para a revolução. Rapidamente peguei todas as moedas que tinha e entreguei-as ao grande líder.” (p. 20)
Enfim, ao procurar um “defeito” no livro, encontrei um, que é também o da maioria das edições atuais: não oferece conforto ao manuseio do leitor, pois as páginas não se abrem fácil e naturalmente, ao contrário dos antigos livros costurados à linha. Essa dificuldade tão geral, porém, não impede o leitor de usufruir do prazer que a boa literatura de Marcelo Benini nos proporciona por meio desse auspicioso e surpreendente lançamento.

6/15/2012

JOYCE E O "BLOOMSDAY"






Nos bares e cafeterias de Paris, nos pubs da Irlanda, nos cursos de literatura da América (incluíndo-se o Brasil), nas associações literárias de Londres, comemora-se, no dia 16 de junho, o “Bloomsday”, o dia de Bloom, personagem do romance Ulisses, do escritor James Joyce. Este texto é uma homenagem ao genial autor.

Parece estranho associar a obra do maior escritor irlandês do século XX – James Joyce (1882-1941) – a uma leitura mais acessível ao grande público. Mas, podem crer, isso já aconteceu para o leitor brasileiro com a republicação de Ulisses (Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 888 páginas, R$79,90), devido à magistral tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro.
Considerado por muitos críticos como obra máxima da modernidade, o romance Ulisses há anos intriga os leitores pela impermeabilidade de seu texto complexo, cheio de armadilhas e códigos cifrados, de collages e cortes abruptos, de associações rápidas e inusitadas e de um fraseado multilingue.
Sua primeira tradução no Brasil, feita pelo competente filólogo Antônio Houaiss em 1966, só fez aumentar sua fama de livro difícil, cuja arquitetura permanecia dificultosa mesmo para um leitor sofisticado.
O trabalho da professora Bernardina, porém, trouxe uma surpreendente fluência para o texto joyceano, além de uma simplicidade que reedita o Joyce bandalho e anedótico que todos nós gostaríamos de ler e que ficou elíptico no eruditismo e em pequenas diferenças em relação à primeira tradução.
A revista Veja, em comentário do resenhista Jerônimo Teixeira, coteja alguns fragmentos das duas traduções, das quais transcrevemos um em que Houaiss não percebeu a esperteza do expediente utilizado pela personagem Milly, filha do protagonista Leopold Bloom. Vejam como a mesma frase ganha outra conotação nas mãos da professora Bernardina:

“O dia em que a peguei na rua pintando as faces para fazê-las coradas.” (A. Houaiss)
“O dia em que a peguei beliscando as bochechas para torná-las vermelhas.” (Bernardina)

Há fragmentos em que um realismo muito duro – tipicamente joyceano – se sobrepõe até à escrita cortada e pontilhada de enigmas criada por Joyce:

“– Você conhece aquela moça ruiva, a Lily Carlisle?
– Conheço.
– Estava aos beijos com ele na noite passada no quebra-mar. O pai é podre de rico.
– Ela está de barriga?
– É melhor perguntar ao Seymour.
– Seymour um maldito oficial! – disse Mulligan.
Ele acenou com a cabeça em sinal de assentimento enquanto tirava a calça e se levantava, dizendo corriqueiramente:
– As ruivas copulam como cabras.” (p. 24)

Criado – a partir do título – com um elo com a Odisseia de Homero, Ulisses é uma trama moderna em que um trio de personagens (Leopold e Molly Bloom e Stephen Dedalus) se move tendo como pano de fundo a cidade de Dublin, na Irlanda, em apenas um dia (16 de junho de 1904) na vida deles. Posteriormente, este dia ficou consagrado como o Bloomsday (Dia de Bloom), que hoje é comemorado com festejos em todo o mundo literário.
Habilitem-se, pois, leitores. Chegou a sua vez de conhecer a obra mais desafiadora do século que passou, escrita com a marca do talento inconfundível de James Joyce.

6/12/2012

NA CAIXA DE MENSAGENS... ÀS 16:43 (“short-net-story”)



– td bem?
– td e vc?
– graças a Deus, td.
– o que manda?
– ñ, eu ñ mando nada.
– de vez em quando vc aparece na minha caixa de mensagens...
– fazendo...
– ... mistério.
– meu pai! fala sério.
– ??
– te atrapalho...?
– ñ, estou apenas querendo saber o quê.
– vc disse que eu apareço em sua caixa de mensagem, fiquei preocupada.
– ñ se preocupe, vc já me perguntou se estava td bem, respondi, coisas de internet, linha cruzada.
– !!
– achei interessante esta conversa como diálogo de personagens.
– tenho que ter muito cuidado com minha escrita, né?
– ??
– mas, referente à caixa de mensagens, o que vc diz?
– estou pensando em escrever um conto com este diálogo de 2 pessoas que não se conhecem.
– adorei, vai em frente, vai arrasar, ñ nos conhecemos mas papai do céu conhece cada um de nós, oportunidade ñ irá faltar, um dia nos conhecemos.
– este material tá ficando bom.
– suas mãos serão abençoadas sempre.
– (?) posso utilizar sua fala? vou encaixar como um texto sem narração, apenas diálogos, sem citar nomes, é claro.
– ok, boa sorte, mocinho, vai bombar.
– depois leia o resultado no meu blog.
– sim, como faço, e quando vai ser?
– talvez ainda hoje.
– sou meio careta na net ainda.
– vou caprichar.
– ah! disso eu ñ tenho dúvida, quando vai ser?
– hoje à noite.
– e o que eu faço, hein? qual o meu papel?
– será o seu primeiro papel como protagonista de uma história.
– sei não, hein? estranho, ñ entendo nada, verdade.
– aviso pelo facebook, no local das suas mensagens.
– uma atriz virtual, né?
– isso, só que vc mesma criou o seu diálogo.
– tá certo, aguardo.
– e geralmente as atrizes só decoram o texto alheio...
– tô dizendo que ñ entendo nada kkkkkkkkkkk.
– vai ser divertido.
– vc ñ vai citar meu nome, né?
– claro que ñ, mas vc ñ disse nada de mais.
– como funciona isso? sou iniciante.
– é novo, inventei agora.
– e minha imagem, hein?
– ñ haverá imagem, é um conto.
– tô com medo.
– então leia o meu perfil.
– vc ficou chateado comigo...?
– ñ fiquei, vc tem razão de ter medo.
– vc me entende.
– entendo sim.
– mas td bem, manda ver.
– já estou preparando o texto.
– obrigada por me entender.
– vai sair um pouco "glamourizado", é natural na ficção.
– muito bacana seu talento, viu?
– obrigado.
– fique em paz.
– vc também.
– um bom final de tarde.
– pra todos nós, que Deus nos abençoe.
– eu ia dizer isso, fique dito.
– kkkkkkkkkkkkkk
– ehehehehehehehe
– tudo bem, né?
– tudo, espero que ñ fique preocupada.
– vou confiar em vc pq senti no meu coração que vc é uma pessoa boa.
– poxa, ainda tá temerosa...
– ñ é isso, ñ me entenda mal, por favor.
– vc ñ fez nada de mau.
– ok mestre.
– ok atriz.
– rsrsrs
– vai dar tudo certo.
– eu te aluguei mesmo, né?
– ñ me alugou ñ. Eu dei corda porque precisava de um tema para escrever.
– e achou.
– pois é.
– espero ter te ajudado a ter algumas ideias diferenciadas.
– vc nem imagina...
– dá licença, tenho que sair, bjs e se cuida, viu? bom trabalho.
– bye!
– até mais!

6/10/2012

COSTUMES DA CORTE NO 'ANTIGO REGIME'





A época áurea do "Ancien Régime" (Antigo Regime) constitui o período que vai aproximadamente do século XV ao XVIII, quando floresceram as monarquias na Europa e do qual tivemos apenas um apagado finalzinho com a vinda da família real portuguesa para o Brasil em 1808.
O apogeu desse Regime se processou principalmente com o fausto dos salões nos palácios da França, e graças a um componente especial que foi a Corte, com sua estrutura de funcionamento em que sobressaíam as regras de etiqueta e os princípios de honra.
A Corte – um espaço hoje inexistente – juntava o público e o privado em torno do rei, sua família e os senhores de maior poder. Seu aprimoramento ‘coincide’ com o fim do feudalismo e prenuncia o Estado moderno fortalecido pelo poder real concentrado.
Foi só depois de muitas lutas, mudanças territoriais, deposições, casamentos por interesse e assassinatos é que surgiram as monarquias europeias, oriundas da junção de pequenos reinos. Nesse ambiente cortesão, nasceu então a necessidade da existência de um conjunto de regras e princípios que se pode chamar de etiqueta, uma espécie de ritual que regulava a vida na Corte.
Desse modo, a “busca de uma vida bela” e luxuosa constituiu o objetivo de um dos primeiros e maiores reinos – o do duque de Borgonha –, em torno do qual desfilava a nobreza da Corte. Saídos da lida dura das guerras, esses nobres passaram a uma vida ‘difícil’ porque sedentária, e precisavam dominar a sua violência aprendida e desenvolvida nas contínuas guerras. A etiqueta apareceu então como uma necessidade social para refrear os impulsos, enfatizar sentimentos e facilitar o convívio.
Interessantes informações como essas estão no pequeno volume "A etiqueta no Antigo Regime", de Renato Janine Ribeiro (Editora Moderna, 63 páginas), do qual extraímos algumas curiosidades.
O capítulo intitulado “As boas maneiras” conta que no século XI uma princesa de Bizâncio casou-se com o Doge de Gênova e trouxe em sua bagagem um garfo, pois sabia que na Europa este instrumento era desconhecido. No Ocidente só se usava a faca com que os homens cortavam carne, palitavam os dentes ou portavam como arma. A princesa oriental com o seu garfo escandalizou a Corte, sendo até acusada por um sacerdote de ímpia, provavelmente devido às semelhanças do instrumento com o tridente do diabo.
Naquela época, o Oriente era mais civilizado que o Ocidente, que só começou a manejar os talheres com o Renascimento, a partir do século XV.
Assim como o garfo, o uso do lenço foi outra prática que se iniciou na Renascença, e só se tornou mais difundida na época de Luís XIV, o rei-sol. Ensinava-se aos nobres que deviam usar sempre o lenço, lembrando que os camponeses assoavam o nariz no boné ou na roupa. O autor cita Giovanni della Casa: “Tu não deves, depois de te assoares, abrir o lenço e olhar o que este contém, como se pérolas ou rubis te houvessem descido do cérebro pelo nariz”.
A palavra etiqueta quer dizer “rótulo”, mas originariamente significava um “escrito num saco de processo”, para identificar, nos tribunais, os documentos de um processo. Depois passou a significar qualquer papel colocado em um objeto para indicar a sua natureza. Só mais tarde, no “Ancien Régime”, teve a acepção de conjunto de normas de comportamento.
Na França, a rainha Maria Antonieta ficou célebre por uma reverência com a cabeça e um olhar especial para colocar os nobres em seus devidos lugares como forma de etiqueta. Portanto, a etiqueta fazia parte do jogo social, por estabelecer hierarquias, normas e atitudes.
Com a Revolução Francesa, no final do Oitocentos, e a consequente subida da burguesia ao poder, a etiqueta, como comportamento leve e natural, desapareceu e com ela a vida prazerosa no Antigo Regime, passando a ser posteriormente e cada vez mais apenas um instrumento de competição de classes e de ascensão social.

5/23/2012


FUENTES DE “A” a “Z



Habitualmente não volto a resenhar um mesmo livro, embora faça costumeiras releituras de fragmentos que me chamem a atenção. Desta vez, porém, abro uma exceção para Este é o meu credo (Rio de Janeiro: Editora Rocco, 303 páginas), do mexicano recém-falecido Carlos Fuentes,
É que, nos capítulos em que se divide a obra, há mais alguns textos sobre os quais gostaria de comentar. De A a Z, começando por “América Ibérica” e finalizando com “Zurique”, Fuentes nos embala com ideias originais principalmente naqueles intitulados “Amizade”, “Beleza”, “Deus”, “Esquerda”, “Eu”, “Filhos”, “Globalização”, “Jesus”, “Tempo”, do que se pode depreender que o livro não é apenas o manual de um especialista a falar sob a perspectiva da arte ou da literatura, e sim um homem de cultura que expõe sobre temas até cotidianos, no prisma de sua experiência como grande leitor e observador do mundo e dos homens.
Além disso, sua linguagem é fluente – às vezes até poética – o bastante para interessar a leitores dos mais variados interesses, que daí podem tirar valiosa contribuição não só para ampliar o horizonte de sua cultura como também para admirar a escritura de um grande autor.
No capítulo sobre a “Globalização”, por exemplo, Fuentes faz um imprescindível retrospecto histórico que se inicia com o século XX e o fascismo, a depressão, a II Guerra, Stalin, os males do capitalismo e do totalitarismo soviético, o macartismo, a Guerra Fria, a paranoia anticomunista, para chegar à América Latina e seus problemas. E aporta na globalização.
Neste texto, que parece datar de proximidades do ano 2000, portanto, bem antes dos problemas atuais dos países da comunidade europeia, Fuentes fala da necessidade de esse novo tipo de estado se tornar mais regulador e normativo, e onde iria se reduzir o estado proprietário. Pelo fato de ser a globalização inevitável, diante de um mundo que se torna cada vez menor com o fenômeno da comunicação, os perigos da especulação aumentam e fogem ao controle do estado com mais facilidade, principalmente nos países da América Latina, onde “não há globalidade que valha sem uma localidade que atenda” (p. 122).
Nosso autor alertava há mais de 10 anos para os perigos da mundialização (como a denominam os franceses), ante as diferenças entre países e também entre populações, e para o seu fracasso se não forem observados os problemas de desemprego, fome e miséria, perda de soberania, falta de serviços sociais adequados etc.
Concluo com Carlos Fuentes, pois melhores palavras eu não teria: “Por isso é tão importante ir construindo, passo a passo, o edifício da legalidade internacional para a era global. Não abramos, como fez Virgílio no inferno(1), uma porta de mármore para enviar falsos sonhos ao mundo. É preferível a paciência de Jó(2), para quem as águas acabarão por desgastar as pedras, mas permitirão, também, que a árvore volte” (p. 130).
Voltarei em breve a este livro para novas considerações.

(1)Virgílio, poeta latino que, na Divina Comédia, serviu de guia para Dante, e abriu-lhe as portas do Inferno.
(2)Jó, personagem bíblico conhecido pela fé e pela paciência, apesar dos sofrimentos que enfrentou.



5/15/2012

UIVOS NO BRONX






Na década de 1950 surgiu nos Estados Unidos uma nova leva de escritores que foi denominada pela crítica literária e pela imprensa de Geração Beat. Eram conhecidos como poetas “beatniks”, uma mistura de intelectuais e vagabundos, que perambulavam pelo país em busca de aventuras.
Além de adotar um posicionamento contra o stablishment, eles também queriam viver como artistas, evitavam o trabalho rotineiro e a vida burguesa, o chamado “american way of life”.
Combateram todas as normas regulares de conduta e tiveram uma participação importante na militância contra a Guerra do Vietnã que os Estados Unidos travaram tão injustamente contra o povo vietnamita. Também protestaram contra a intromissão do país na política interna e na independência de outros países inferiorizados militarmente.
Os mais importantes representantes dessa geração foram Jack Kerouac, William Burroughs e o poeta Allen Ginsberg, do qual iremos falar especialmente.
Ginsberg nasceu em Newark (Nova Jersey) em 1926, e morreu em Lower Manhattan em 1997, aos 70 anos, depois de uma vida bastante atribulada como autor-personagem. Sua trajetória variou entre uma inclusão como elemento considerado perigoso pelo FBI e premiações de poesia como a do Festival de Struga, na Iugoslávia, o National Book Award e a participação na Academia Americana de Artes e Letras nos EUA.
Acaba de ser publicado no Brasil uma edição especial do seu poema “Uivo” (“Howl”) (Editora Globo), tradução de Luis Dolhnikoff, em versão “graphic novel” (narrativa visual), ilustrada pelo artista Eric Drooker. Uma simbiose perfeita: um texto poético arrasador, acoplado aos visuais catastróficos e hiperrealistas de um retratista de pôsteres de metrópoles norte-americanas.
São pouco mais de 200 páginas em cores, em papel “couché”, nas quais os autores vão desenvolvendo narrativamente uma mistura gráfica em que o poema dos anos de 1950 – quando os protestos públicos se iniciavam – se une a imagens desconcertantes do final do século passado retratando a ambiência da pós-modernidade.
Na epígrafe do livro, a famosa dedicatória de Ginsberg:
“Dedicado aos fodidos anônimos
& miseráveis sofredores
& hipsters de cabeça feita
de todos os lugares...” (p. 9)
Bem ao modo dos autores cujo eu-lírico narra a própria vida e tudo o que vê, Allen inclui tudo em sua crítica-coletânea da miséria humana:
“...famélicos histéricos nus, arrastando-se
pelas ruas do bairro negro ao amanhecer
na fissura de um pico.” (p. 19).
Seus versos, após a abertura, são quase todos construídos como orações adjetivas antecedidas naturalmente pelo pronome “que”, numa sucessão ininterrupta de descrições dos famélicos e miseráveis que viu nas ruas e com quem até conviveu:
“que pobreza e farrapos e ocos olhos loucos se
sentaram fumando na escuridão sobrenatural
de apartamentos sem aquecimento flutuando
pelos telhados das cidades contemplando o jazz,” (p. 22)
Os bairros novaiorquinos são os mais contemplados nos textos e imagens:
“que se prenderam no metrô para a interminável
viagem de Battery ao sagrado Bronx com benzedrina
até que o ruído de rodas e crianças
os arrancou de volta tremendo boquiabertos
abatidos desertos do cérebro drenados de todo
brilho na lúgubre luz do zoológico.” (p. 37)
Nas páginas finais reduz-se a crítica e acentua-se o lado lírico para transformar-se o poema no que se pode chamar de um hino da solidariedade humana, até se fechar assim:
“Estou com você em Rockland nos meus sonhos
você caminha gotejando de uma viagem marinha
pela estrada que atravessa a América em lágrimas...
até a porta da minha casa na noite ocidental” (p. 189-190)
Escrito em 1955-56 em San Francisco, “Uivo” se tornou, com o passar dos anos, um clássico da literatura pop nos Estados Unidos e no mundo, e Allen Ginsberg, um sucessor de Walt Whitman e dos poetas corajosos de todos os tempos.

4/07/2012

ENTRE AURORA E MEIO-DIA, A POESIA DE MÁRIO FAUSTINO



No final dos anos 1950, pontificava no jornalismo literário brasileiro uma figura ímpar: o poeta Mário Faustino (1930-1962), nascido no Piauí, e que, antes dos 30 anos, além de uma invejável cultura (sabia grego, latim e outras línguas), havia escrito um livro que emocionou minha geração – O homem e sua hora
A par de uma poesia de qualidade incontestável, seus versos, porém, pareciam vaticinar uma tragédia aérea iminente. Foi o que aconteceu em 1962, quando o avião em que viajava caiu cinco minutos antes de chegar ao Aeroporto de Lima, no Peru, em Cerro de los Cruzes.

“Corro despido atrás de um cristo preso
cavalheiro gentil que me abomina
e atrai-me ao despudor da luz esquerda
ao beco da agonia onde me espreita
a morte espacial que me ilumina.” (p. 92)

Morria então uma das maiores promessas da crítica e da poesia brasileira. Faustino brilhou nos tempos do “SDJB - Suplemento Dominical do Jornal do Brasil”, ao lado da geração concretista, com estudos e traduções magistrais de Mallarmé, Pound, Eliot, Kafka e outros mestres do século XX, na época ainda pouco conhecidos no Brasil.
Seu argúcia crítica antenou jovens como eu que procuravam nas páginas do Suplemento uma palavra de orientação frente as novidades de violentação do verso e as mudanças que anunciavam uma nova arte. E sua poesia – no início, de linha melódico-discursiva, porém consciente da matéria a produzir – aprimorou-se nas conquistas da linguagem poética, apontando sempre para o futuro.
A professora Maria Eugênia Boaventura, através da Companhia das Letras, iniciou há algum tempo a publicação de sua obra com a edição deste magnífico O homem e sua hora e outros poemas (São Paulo: 2002, 288 páginas). Ali o leitor poderá conhecer também vários inéditos de Mário Faustino, e, como eu, maravilhar-se com a diferente, bela e inovadora música dos seus versos, como neste final premonitório contido no poema “Romance” (p. 81):

“Não morri de mala sorte
morri de amor pela morte”.

Nos últimos versos do primeiro poema da coletânea, denominado “Prefácio” (p. 71), em que Faustino dá o tom do livro e ao mesmo tempo vaticina sobre sua sorte, ou em todos os outros poemas, pode-se dizer que, em nível de qualidade, salvam-se todos. Senão, vejamos:

“Quem fez esta manhã fé-la por ser
um raio a fecundá-la, não por lívida
ausência sem pecado e fê-la ter
em si princípio e fim: ter entre aurora
e meio-dia um homem e sua hora.”

3/12/2012

VIDA RECLUSA, POESIA LIVRE


Emily Dickinson exerceu como poucos o ‘ofício’ de poeta. Sua vida reclusa, quase monástica, transcorrida, em grande parte do tempo, numa mesma casa, inclinou-a naturalmente para a poesia – ou se poderia dizer o inverso?

Nasceu em Amherst, estado de Massachussetts, EUA, em 1830, iniciando seus estudos aos 5 anos de idade. Mais tarde, aos 17 anos, transferiu-se para o seminário de Mount Holyoke, mas um ano depois seu pai decide afastá-la dos estudos regulares. Foi quando, passou a dedicar-se mais a leituras.

Aos 34 anos Emily enclausurou-se em sua casa, e anos depois foi acometida de grave enfermidade, morrendo em 1886.

De sua vida amorosa, pouco se sabe, apenas de ‘amores secretos’, como o que talvez tenha vivido com o juiz Otis Lord. Seus poemas e cartas eram, na maioria, destinados à cunhada e vizinha Susan Dickinson, com quem teve tão estreita amizade que alguns críticos classificam-na como manifestação lésbica.

Cito alguns dados revelados no livro A branca voz da solidão, uma antologia bilíngue editada pela Iluminuras em 2011 (351 páginas), acompanhada por um revelador estudo introdutório escrito pelo seu tradutor José Lira.

Por suas características inovadoras e pelas inúmeras versões que criava para seus poemas, tornou-se difícil estabelecer uma edição ‘definitiva’ de sua obra, mas a seleção-tradução criteriosa de José Lira pode dar ao leitor uma boa visão do que nos deixou Emily Dickinson.

Lira manteve na tradução até o que se convencionou chamar de “disjunções” ou sinais gráficos multifuncionais, além do uso de maiúsculas, que Emily ‘espalhava’ pelo texto a seu bel-prazer. Tudo isso, aliado às variadas versões que se acumularam com o tempo, exigiu do tradutor atenção e cuidados redobrados.
A estranheza de seu lirismo pode ser notada neste pequeno poema:


Papai do Céu! Olha o Ratinho
Que é subjugado pelo Gato!
Reserva dentro do teu reino
A “Mansão” para o Rato!

Põe-no em seráficos Armários
O dia inteiro mordiscando
Enquanto os Ciclos impassíveis
Vão solenes girando! (p. 57)

Ou neste poema em que se entrevê a tragicidade da cena cotidiana:

A mais viva Expressão do Drama
É o Dia a Dia
Que à nossa volta nasce e acaba
Uma tragédia

Perece ao ser levada à Cena –
Esta – é mais cheia
Com as Cortinas abaixadas
E sem Plateia –

“Hamlet” teria sido Hamlet
Mesmo sem Shakespeare
“Romeu” de sua Julieta
Não saberia,

Se bem que em atração eterno
Na Alma Humana –
Teatro que não é fechado
Pelo seu Dono –

O alto registro poético de Emily Dickinson, de meados do século XIX, ressoa em nosso tempo – cerca de 200 anos depois – como uma contribuição diferente pela individualizada dicção de poemas escritos com a autenticidade de uma arte por demais expressiva. Resta concluir que a perfeita escolha do título – A branca voz da solidão – está bem à altura da obra.

2/21/2012

SONHOS (?) DE KAFKA




“Envolve a criança nas dobras do teu manto, sonho sublime.” (Franz Kafka)



Este é o último fragmento do livro Sonhos, de Franz Kafka, traduzido por Ricardo F. Henrique (Editora Iluminuras). Poucas palavras, verdadeiros “touchestones” onde o leitor pode se fartar de beleza e, ao mesmo tempo, se perder em suas variadas formas significativas.

Para conhecedores da obra deste grande escritor tcheco, que viveu na confluência do século XIX com o XX e assombrou o seu tempo (e por que não dizer o nosso?) com sua prodigiosa literatura, fica um pouco difícil pensar num título desses.

A obra de Kafka, considerada um autêntico pesadelo da e na modernidade, tornou-se a emblemática tradução de nossas perplexidades ante o mundo que se nos apresentava como indecifrável e absurdo pelas guerras e outras aberrações do ser humano.

Kafka, um jovem judeu intimidado pela arrogância paterna, pressionado no gueto de Praga, enredado pela burocracia de um trabalho mecânico demais para sua vocação de escritor, escreveu um relato que até hoje desafia o pensamento crítico e remete sua reflexão para o futuro.

O processo, O castelo, A metamorfose, América são livros cuja linguagem é até acessível ao público, mas o pensamento que ela conduz, a tortuosidade do dilema que propõe, a densa névoa com que o autor reveste as palavras sempre dificultam os caminhos do leitor.

Mas nada disso embaça a beleza do seu texto erguido em cima de uma simplicidade ao mesmo tempo poética e enigmática.

Os fragmentos desta coletânea denominada Sonhos foram recolhidos em cartas a suas namoradas Felice e Milena e ao amigo Max Brod e ainda em páginas soltas de seu diário. E se não constituem propriamente sonhos de uma pessoa comum são viagens numa nave encantada que só alguns poucos como Kafka podem (e sabem) pilotar.

2/15/2012

PAPÁ HEMINGWAY


“Se você quando jovem teve a sorte de viver em Paris, então a lembrança o acompanhará pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa ambulante” (E.H.)


Joaquim Branco


Uma de minhas preferências entre autores é Ernest Hemingway (1899-1961), esse americano intranquilo que atravessou a 1ª metade do século XX se metendo em safaris na África, lutas de boxe em Nova York, pescarias perigosas no Gulf Stream, touradas na Espanha, noitadas em Havana e até em guerras pelo mundo.

Papá Hemingway, como era carinhosamente apelidado, ganhou o prêmio Nobel em 1954, foi um escritor admirável, desses que não conseguem separar o que escrevem da própria vida, como Melville, Proust, Camus, Fusco. Orientou-se, como os demais, pelo ideal de Mário Faustino: “Poesia e vida minha seguirão paralelas”.

“A vida de todo homem termina da mesma maneira. Apenas os pormenores de como viveu e morreu distinguem um homem de outro”, confessou um dia ao seu biógrafo, o jornalista A.E.Hotchen.

O Hemingway ainda novo, ‘refugiado’ na Europa nos anos 20 e participante da "Geração Perdida", é quem protagoniza Paris é uma festa, livro de memórias escrito no final dos anos de 1950, e lançado pela Bertrand-Brasil, em tradução de Ênio Silveira.

Sua escrita rápida – quase telegráfica, raros adjetivos – aqui ainda não se impõe totalmente. Este era o jovem Hemingway que estava descobrindo os clássicos nas livrarias e bibliotecas ao longo do Sena, mantendo encontros com os figurões literários da época (Gertrude Stein, Ezra Pound), e alternando momentos de êxtase com crises melancólicas, às vezes passando por dificuldades na capital francesa.

Com Ernest, podemos nos sentar num café da Place Saint-Michel ou do Boulevard Saint-Germain, para escrever um conto “que se passava no Michigan” e ver a moça que “entrou no café e sentou-se perto da janela. Era muito bonita, com um rosto fresco como moeda acabada de cunhar, se é que se possam cunhar moedas em carne tão macia, coberta de pele umedecida pela chuva. [...] Olhei para ela e senti-me perturbado, numa grande excitação. Desejei colocá-la no meu conto,[...] O conto escrevia-se por si próprio, e eu tinha dificuldade em conduzi-lo. Pedi outro rum Saint James, observando a moça [...] – Eu te vi, oh, beleza, tu me pertences agora, seja quem for que estejas esperando e mesmo que nunca te veja em toda a minha vida – pensei. – Tu me pertences, toda Paris me pertence e eu pertenço a este caderno e a este lápis. Voltei a escrever, entrei a fundo na história e me perdi nela. Agora quem a escrevia era eu; o conto não escrevia mais a si próprio, de modo que não tornei a levantar a cabeça.” (p. 20)

A radiografia da cidade, surge aqui e ali nos pequenos e interessantes capítulos em que se divide a obra, onde está inteira a impressão do escritor no seu início de carreira, numa grande capital europeia: “Mas Paris era uma cidade muito antiga, nós éramos jovens e nada ali era simples, nem mesmo a pobreza, nem o dinheiro súbito, nem o luar, nem o bem e o mal, nem a respiração de alguém que deitada ao nosso lado dormisse ao luar.” (p. 72)

Como esses fragmentos de textos, há inúmeros outros neste A moveable feast – título do original –, que pode parecer o roteiro biográfico de um grande escritor pela Paris trepidante dos anos 20, mas, para o leitor, transforma-se numa insólita narrativa que fascina e prende na leitura. E, no seu autor, mal dá para reconhecer o caçador de leões que, cerca de quarenta anos depois de viver esses episódios, no auge do seu sucesso artístico, aos 62 anos de idade, iria apontar a carabina de caça para a boca e disparar impiedosa e lamentavelmente.

(HEMINGWAY, Ernest. Paris é uma festa. Trad. de Ênio Silveira. Rio de Janeiro: Editora Bertrand-Brasil, 248 pp., R$30,00)






2/11/2012

O NASCIMENTO DO ROMANCE



Em 1719 aparecia na velha Inglaterra a 1ª edição do romance Robinson Crusoé, nascido talvez por influência de um caso real: a notícia de um náufrago que, por quatro anos, permanecera sozinho numa ilha da América espanhola. Foi tão grande o sucesso da obra que rapidamente sucederam-se outras edições, e seu autor – Daniel Defoe (1660-1731) – escreveu então uma segunda parte dessas aventuras.


Estava inaugurado um gênero literário que seria conhecido como romance, cujo desenvolvimento se deveu, em parte, ao aprimoramento de uma tecnologia descoberta por Gutemberg no Renascimento: a imprensa.

Haviam se passado muitos séculos antes que uma narrativa de características populares transpusesse os muros de castelos e mosteiros para atingir um público ansioso em se ver retratado num livro – a burguesia. Antes disso, predominavam os discursos morais e religiosos, as estórias fantásticas, ora em forma de épica (poesia) ora do antigo romance (prosa), verdadeiros manuais de preceitos de conduta.

A grandeza do Setecentos aliava ao Iluminismo, ao Enciclopedismo e à Revolução Industrial mais esta novidade: uma modalidade literária que deixava para trás o compromisso exagerado com a verdade e com os princípios da religião, para dar asas – no caso de Defoe – a um homem que vivia de expedientes e experimentou as profissões de comerciante, viajante, político, jornalista e propagandista. Daniel teve nos seus compatriotas Henry Fielding e Laurence Sterne e nos franceses Choderlos de Laclos e Jean-Jacques Rousseau seus ‘companheiros’ na criação do nascente romance, que trouxe as coisas mundanas e os temas cotidianos para a ficção, dando a ela credencial de autonomia em relação à história, à moral, religião etc.

Daí a precaução de Daniel Defoe ao colocar no próprio prefácio do livro palavras com que se escondeu na capa de editor, ao reverenciar os conceitos bíblicos e do bom-senso, para afirmar “uma história verdadeira dos fatos”, “tanto para a diversão como para a instrução do leitor”.

Era a necessidade do ficcional de ganhar (mais do que verossimilhança) foros de verdade, essencial ao "nihil obstat" para sua publicação. E, no caso de um documento escrito, ao menos o pressuposto de o texto já haver passado por trâmites legais-eclesiais, tão comuns naquele tempo.

Não se espante tanto o leitor (que conheceu outros impedimentos como a censura e a ditadura da era moderna), pois corria o século XVIII, época repressiva e ainda inquisitorial e em que o controle do imaginário se fazia intensamente.

Quanto à estória do livro – por demais conhecida e já incorporada ao nosso imaginário –, sabe-se que tornou-se clássica, não tanto pelo foco temático, que mostra o ângulo de um indivíduo entregue a sua própria sorte e que se socorre da reflexão, mas pelo lado da aventura e do perigo por que passa um homem comum que se vê só em uma ilha desconhecida, após se salvar de um naufrágio.

A estória de Robinson Crusoé, além de transformar-se num best-seller mundial na área do entretenimento e da boa literatura para pessoas de todas as idades, garantiu a Daniel Defoe a sua sobrevivência literária como um dos pioneiros da narrativa de ficção que iria se firmar cada vez mais nos séculos seguintes.


ROBINSON CRUSOÉ - Daniel Defoe. Trad. Domingos Demasi. Editora Record – Rio de Janeiro – 2004

ROBINSON CRUSOE - Daniel Defoe. Trad. Celso M. Paciornik. Editora Iluminuras – São Paulo - 2004

JOYCE PARA PRINCIPIANTES

Parece estranho associar a obra do maior escritor irlandês do século XX – James Joyce (1882-1941) – a uma leitura mais acessível ao grande público. Mas, podem crer, isso acaba de acontecer para o leitor brasileiro com a republicação de Ulisses, devido à boa tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro.

Considerado por muitos críticos como obra máxima da modernidade, o romance Ulisses há anos intriga os leitores pela impermeabilidade de seu texto complexo, cheio de armadilhas e códigos cifrados, de collages e cortes abruptos, de associações rápidas e inusitadas e de um fraseado multilíngüe.

Sua primeira tradução no Brasil, feita pelo filólogo Antônio Houaiss em 1966, só fez aumentar sua fama de livro difícil, cuja arquitetura permanecia dificultosa para o leitor comum.

O trabalho da professora Bernardina, porém, trouxe uma surpreendente fluência para o texto joyceano, além de uma simplicidade que reedita o Joyce bandalho e anedótico que todos nós gostaríamos de ler e que ficou elíptico no eruditismo e em pequenas diferenças em relação à primeira tradução.

A revista Veja, em comentário do resenhista Jerônimo Teixeira, coteja alguns fragmentos das duas traduções, das quais transcrevemos um em que Houaiss não percebeu a esperteza do expediente utilizado pela personagem Milly, filha do protagonista Leopold Bloom. Vejam como a mesma frase ganha outra conotação nas mãos da professora Bernardina:
“O dia em que a peguei na rua pintando as faces para fazê-las coradas.” (A. Houaiss)

“O dia em que a peguei beliscando as bochechas para torná-las vermelhas.” (Bernardina)
Há fragmentos em que um realismo duro – tipicamente joyceano – se sobrepõe até à escrita cortada e pontilhada de enigmas:
“– Você conhece aquela moça ruiva, a Lily Carlisle?

– Conheço.

– Estava aos beijos com ele na noite passada no quebra-mar. O pai é podre de rico.

– Ela está de barriga?

– É melhor perguntar ao Seymour.

– Seymour um maldito oficial! – disse Mulligan.

Ele acenou com a cabeça em sinal de assentimento enquanto tirava a calça e se levantava, dizendo corriqueiramente:

– As ruivas copulam como cabras.” (p. 24)
Criado – a partir do título – com um elo com a Odisseia de Homero, Ulisses é uma trama moderna em que um trio de personagens (Leopold e Molly Bloom e Stephen Dedalus) se move tendo como pano de fundo a cidade de Dublin, na Irlanda, em apenas um dia (16 de junho de 1904) na vida deles. Posteriormente, este dia ficou consagrado como o "Bloomsday" (Dia de Bloom), que hoje é comemorado com festejos em todo o mundo literário.

Habilitem-se, pois, leitores. Chegou a sua vez de conhecer a obra mais desafiadora do século que passou, escrita com a marca do talento inconfundível de James Joyce.

(JOYCE, James. Ulisses. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 888 pp.)









HISTÓRIA E LITERATURA



Em todos os tempos sempre ocorreu uma estreita ligação entre Literatura e História, constatada se não pela produção e análise de textos, mas pela leitura das relações sociais e artísticas que traçam o perfil dos povos. O século XVIII, no Brasil, é um perfeito exemplo desse entrelaçamento também com as outras artes.

A escola de arte denominada Barroco que se desenvolveu no século XVII no Ocidente, no Brasil, devido a uma natural e compreensível defasagem cultural – o ‘descobrimento’ ocorreu no século XVI, portanto apenas 100 anos antes –, teve poucos representantes, mas avançou pelo Setecentos, em parte, devido à descoberta do ouro em Minas Gerais.

Estimulados pela nova mercadoria que substituíra a cana-de-açúcar do Nordeste, massas de pessoas – negociantes, artesãos, escravos, famílias inteiras – se deslocaram para o Sudeste em busca do enriquecimento.

O Barroco que florescia na literatura e na música agora ganhava novas artes: a arquitetura das igrejas e a escultura e a pintura de anjos e santos. Embora todo esse movimento objetivasse, do lado da Igreja, apenas a “monumentalização da espiritualidade divina” (SALLES, 2007, p. 19), não se pode negar o que se propiciou de progresso para as artes e para o ambiente social.

Mas tudo isso não ocorreu tão naturalmente. Parte das riquezas que não eram levadas para Portugal, aqui eram encaminhadas às chamadas Associações Religiosas, que, se notabilizando por uma impressionante organização administrativa, fizeram construir os monumentos religiosos que hoje formam o acervo das cidades históricas mineiras.

Essas entidades também aplicavam o dinheiro na contratação de artistas – daí o surgimento de gênios como Aleijadinho e mestre Ataíde –, de centenas de artesãos, e ainda supervisionavam o trabalho e escolhiam os locais das edificações. Guardadas as proporções, aconteceu, na época, o florescimento das artes naquela região de Minas Gerais.

O nascimento e a história desse momento cultural são contados em As associações religiosas no ciclo do ouro, de Fritz Teixeira de Salles (Perspectiva/Museu da Inconfidência, 2007), um clássico reeditado recentemente. Rico em reproduções fotográficas, o livro tem apresentações de especialistas no assunto, os escritores Rui Mourão, Caio Boschi e Cristina Ávila, e sua leitura é recomendada especialmente a interessados e estudiosos do Barroco brasileiro.

2/08/2012

O CONTO, UMA VALISE DE EMOÇÕES

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Joaquim Branco


O conto – seja ele muito curto ou apenas curto, experimental ou não, ou ainda o simplesmente tradicional conto realista com enredo claro e delineado – apresenta um limite de extensão, a partir do qual será considerado novela. Com tempo e espaço condensados, o contista tem que ser incisivo desde sua introdução, portanto todos os detalhes que vão sendo revelados devem ser observados atentamente pelo leitor com pena de se perder algo que as entrelinhas trazem implícito e que vai ser determinante para o clímax e a realização da história.

Julio Cortazar, no capítulo “Alguns aspectos do conto”, em seu Valise de cronópio (São Paulo: Perspectiva, 1974) mesmo reconhecendo que não há uma receita para se fazer um conto, propõe o que ele chama de “pontos de vista” – elementos que funcionam para formar a estrutura desse gênero literário.

Paralelamente à noção de limitação de páginas, Cortazar lembra, como decorrência disso, a eliminação de todos os elementos gratuitos ou decorativos do seu enredo, e acrescenta que tempo e espaço devem estar “submetidos a uma alta pressão espiritual e formal” (p. 152) para que se produza uma “espécie de abertura, de fermento que projete a inteligência e a sensibilidade em direção a algo que vai muito além do argumento visual ou literário” (p. 152).

Além disso, o ficcionista precisa manter a rédea do tempo e do espaço sob intensa pressão, tanto no que se refere ao enredo quanto à escritura utilizada, sem o que ficaria comprometida a realização do texto como relato ficcional.

Cortazar chega a afirmar que “um conto é ruim quando é escrito sem essa tensão que se deve manifestar desde as primeiras palavras ou desde as primeiras cenas” (p. 152).

A essa intensidade e tensão, alia-se um outro componente: o elemento ‘significativo’ do conto, que, ligado à temática, consiste na escolha de “um acontecimento real ou fictício que possua essa misteriosa propriedade de irradiar alguma coisa para além dele mesmo, de modo que um vulgar episódio doméstico, como ocorre em tantas admiráveis narrativas de uma Katherine Mansfield ou de um Sherwood Anderson, se converta no resumo implacável de uma certa condição humana, ou no símbolo candente de uma ordem social ou histórica” (p. 152-3).

Essa “misteriosa propriedade” – que representa um corte no cotidiano, no trivial, no puramente episódico e epidérmico – é que dá a qualquer narrativa o status de qualidade, de dinamicidade com o tempo e além dele, de cruzamento com o espaço comum dos acontecimentos, para se caracterizar como obra maior destinada a vencer as contingências da própria época em que foi escrita para se tornar um clássico da literatura.

Daí se concluir que não é a escolha do tema propriamente o que vai elevar o conto à categoria de esmero ou de “classicidade”, mas toda uma combinação de condições que presidem a sua elaboração pelo autor.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CORTAZAR, Julio. Alguns aspectos do conto. In:______. Valise de Cronópio. São Paulo: Perspectiva, 1974, p. 149.

(*) Este texto é parte de meu próximo livro sobre o minimalismo na literatura, intitulado O conto à meia-luz.

1/21/2012

OS NOMES DE ROSA





Se Ana Maria Machado não houvesse realizado todo o seu grande percurso na literatura infanto-juvenil, só o seu 1º livro publicado – “Recado do nome: leitura de Guimarães Rosa à luz do nome de seus personagens” – já lhe daria ampla projeção no meio literário.

Mesmo sabendo ser um clássico da crítica, só agora o li, em 3ª edição, e pude perceber o quanto é imprescindível para a compreensão da obra de Guimarães Rosa. Além dessa inestimável contribuição técnica, trata-se, antes de tudo, de uma leitura das mais prazerosas, notadamente para quem conhece o autor mineiro.

Mas por que escrever uma obra tão específica apenas sobre nomes próprios de personagens? Pois é. Todos sabemos que a ficção de Guimarães Rosa, além de possuir uma linguagem inovadora – carregada de arcaísmos, neologismos, jogos sintáticos – traz escondida nos nomes de seus personagens um universo à parte de significação. O desvendamento proposto por Ana Maria Machado vai mais além, e tem tantas razões que ‘auxiliam’ na penetração no projeto rosiano que qualquer leitor se sentirá gratificado com o seu conhecimento.

A cada enigma proposto por Rosa, vai o ‘recado’ sendo decifrado e incorporado ao porquê dos temas e dos enredos que surgem da bifurcação entre o sistema onomástico (mais do que a palavra isolada) e a estrutura da própria narrativa.

No Grande sertão: veredas, por exemplo, o personagem seo Habão, que inicialmente é Abraão, sofre alterações à medida que o texto precisa caracterizá-lo diferentemente: “o nome dele não era na verdade Abrão, mas Habão que assim se chamava.” (ROSA, apud MACHADO, 2003, p. 54). Machado mostra como “começa a apagar sua [do nome] imagem cheia de conotações bíblicas de hospitalidade... (MACHADO, 2003, p. 54) para depois – transportado a outro aspecto do nome (Habão/habere/possuir), apresentar o lado ruim do personagem: “precisava de todos como escravos” (ROSA, 1958, p. 392) ou “pudesse economizava até com o sol, com a chuva” (Id., ibid., p. 392).

O escorrer incessante de um rio – o Urucuia, que nunca chega ao mar – é comparável à vida do vaqueiro nômade Riobaldo – rio + baldo (frustrado) –: “Como os rios não dormem. O rio não quer ir a parte alguma, ele quer é chegar a ser mais grosso, mais fundo (...) Recolhe e semeia areia. Fui cativo para ser solto? (...) Mesmo na hora em que eu for morrer, eu sei que o Urucuia está sempre, ele corre. O que eu fui, o que eu fui.” (ROSA, 1958, p. 410).

Assim como são decifradas várias acepções do vocábulo Riobaldo (“rio baldio”), os diversos desdobramentos da personagem e da palavra Diadorim (personagem do “Grande sertão”) também são tratados: “Diá” como diabo, dependendo do momento da estória; “Diá” como Dea (deusa); “Dia” como luz, brilho; “adorar” (deadorar), Deus e amor; “durar” (o jagunço Quipes falava: “Diardurinh...” (quase como andorinha) e muitos outros que aparecem no texto rosiano (MACHADO, 2003, p. 69).

O bandido Hermógenes – procurado em todo o sertão pelo bando de Riobaldo e Diadorim – é o “filho do ermo”, origina-se do nome do deus grego Hermes (Mercúrio para os latinos), lembra solidão, comércio, rapidez. “O Hermógenes – demônio. Sim só isto. Era ele mesmo (ROSA, 1958, p. 48) matador – o de judiar de criaturas filhas-de-deus – felão de mau.” (Id., ibid., p. 179).

Na novela “Cara-de-Bronze”, por exemplo, o tema da procura da poesia começa pelo próprio texto, cujo teor poético é tão explícito quanto misterioso: “A noiva tem olhos gázeos” (Id., ibid., p. 6l9). Através do personagem Grivo (já insinuado: grifo), o emissário do enigmático Patrão, segundo Ana Maria, “não sai à procura do sentido, nem do real” (MACHADO, 2003, p. 92), mas da palavra como significante. Por outro lado, ao chamar a atenção para o que está escrito (grifado), ele mostra o mundo por meio da linguagem.

Guimarães Rosa, em “Cara-de-Bronze”, a partir dos conceitos de significante e significado procura atingir finalmente o signo, como se demonstra na passagem com o vaqueiro Maçapira (pira = fogo) que cuida da fogueira para ‘iluminar’ e premiar o leitor com um epílogo assim: “Estou escutando a sede do gado.” (ROSA, 1958, p. 691).

Anteriormente, na resposta a Cicica, a fala do Grivo desmonta o lugar-comum à maneira machadiana, e remonta um velho e surrado provérbio em outras bases: “Ninguém não enxerga um palmo atrás de seu nariz...” (ROSA, 1958, p. 618).

Nas suas 203 páginas de O recado do nome” – referência à novela rosiana “O recado do morro” – Ana Maria Machado, analisando aspectos linguísticos do Grande sertão: veredas e de Tutameia e das novelas “Cara-de-Bronze”, “Uma estória de amor”, “Buriti”. “Dão-Lalalão”, “O recado do morro” e “A estória de Lélio e Lina”, nos dá a grande dimensão que os nomes próprios dos personagens podem ter na estrutura e no significado das narrativas, especialmente nas de Guimarães Rosa, este emplumador de palavras, como ele mesmo se denominava.

Referências:
MACHADO, Ana Maria. Recado do nome – leitura de Guimarães Rosa à luz do nome de seus personagens. 3ª ed.. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003.
ROSA, Guimarães. Grande sertão: veredas. 2ª ed. Rio de Janeiro: J.Olympio, 1958.
______. Cara-de-Bronze. In: ______. Corpo de baile. 2 vol. 1ª ed. Rio de Janeiro: J.Olympio, 1956, p. 555-621.