12/30/2013

NA PENUMBRA DA LINGUAGEM



No 1º tomo de Relíquias de casa velha, Machado de Assis reuniu contos da linha clássica de sua criação ficcional como "Pai contra mãe", "Suje-se gordo", "Anedota do cabriolé" e outros.

Há nesses contos famosas marcas machadianas, como a presença da personagem viúva – bonita e rodeada pelos pretendentes –, dândis do século XIX – jovens e senhores que viviam de heranças como ela e que certamente não trabalhavam. Na outra ponta, os serviçais: escravos que aparecem aqui e ali, entrando e saindo de cena, quase invisíveis para compor o ambiente urbano, como em outras obras de temática rural.
O conto "Marcha fúnebre", um dos melhores da antologia, cujo protagonista é o deputado Cordovil, passa-se na década de 60 do oitocentismo e fala sobre um homem solitário e suas esquisitices, entre elas a fixação do pensamento na morte.

Nas idas e vindas com que Machado estrutura a narrativa, o personagem Cordovil vai imaginando para si as inúmeras maneiras como as pessoas morrem. Mortes ruins, sofridas, outras rápidas talvez sem dor, ainda outras depois de ameaças e violência etc. Mas, na cena que antecede o final e que registra a hora de dormir do personagem, o autor caprichou ainda mais: é de uma beleza textual que merece ser reproduzida pelo uso de uma linguagem muito refinada. Vejam como Machado descreve aquela penumbra que antecede o sono:

"Ah! foi então que o sono tentou entrar, calado e surdo, todo cautelas, como seria a morte, se quisesse levá-lo de repente, para nunca mais. Cordovil cerrou os olhos com força, e fez mal, porque a força acentuou a vontade que tinha de dormir; cuidou de os afrouxar, e fez bem. O sono, passando-lhe aqueles braços leves e pesados, a um tempo, que tiram à pessoa todo o movimento. Cordovil os sentia, e com os seus quis conchegá-los ainda mais... A imagem não é boa, mas não tenho outra à mão nem tempo de ir buscá-la. Digo só o resultado do gesto, que foi arredar o sono de si, tão aborrecido ficou este reformador de cansados." (p. 48)

Repare o leitor como Machado avalia que romantizou demais as imagens do sono de que estava tratando e acaba se autocriticando ao dizer que "a imagem não é boa". No entanto, a imagem é boa, aliás, é ótima, um verdadeiro rendado tecido com a linguagem.

O último tipo de morte lembrado por Cordovil foi aquela em que a pessoa deita, dorme e amanhece morto. Mas ele não iria morrer naquela noite... Assim Machado de Assis finaliza a estória de modo magistral:
"Quando veio a falecer, muitos anos depois, pediu e teve a morte, não súbita, mas vagarosa, a morte de um vinho filtrado, que sai impuro de uma garrafa para entrar purificado em outra: a borra iria para o cemitério. Agora é que lhe via a filosofia; em ambas as garrafas era sempre o vinho que ia ficando, até passar inteiro e pingado para a segunda. Morte súbita não acabava de entender o que era." (p. 49)

(ASSIS, Machado de. Marcha fúnebre. In: ______.  Relíquias de casa velha, tomo I, São Paulo: Edigraf, p. 43-49).

(30-12-2013)

3 comentários:

Ricardo Alfaya disse...

A passagem do tempo não envelhece a obra de Machado, que continua sendo, em prosa, nosso nome mais expressivo. Aliás, seus artigos sobre a obra machadiana são tb sempre saborosos. Um abc, Ricardo Alfaya.

Joaquim Branco disse...

É isso aí, Ricardo. Machado inspira todos nós. Grande abraço, JB

Maria Antônia disse...

Machado me aterroriza ao mesmo tempo que me embasbaca. Quero ler inteiro.