1/07/2026

JOYCE - "ALGO MAIS NEGRO DO QUE A ESCURIDÃO"

 

James Joyce (1882-1941) nasceu em Dublin, Irlanda. Considerado pela crítica como um dos maiores escritores do século XX, escreveu contos e romances.


Como romancista criou “Ulisses” (*), um romance que revolucionou as técnicas da ficção ao desmontar a narrativa e até a sintaxe tradicional, e nisso se inclui a pontuação, a estrutura das palavras, a ordem do seu (anti)discurso.

Há cerca de 20 anos venho lendo esse livro. e agora, graças à excelente tradução da professora Bernardina da Silveira Pinheiro, estou vencendo essa escrita cheia de citações históricas embutidas num texto várias vezes truncado pelas experimentações com a linguagem.

Na página 201 surge o episódio do rapaz cego encontrado por Leopold Bloom (o protagonista) na Dawson Street, em Dublin. Ali o texto joyceano se enriquece ainda mais e posso associá-lo a um fato autobiográfico: o autor teve sérios problemas com a visão.

Um rapazinho cego batia de leve no meio-fio com sua bengala fina.

– Você quer atravessar? – perguntou o sr. Bloom.

O rapazinho cego não respondeu. Sua cara rígida se fechou levemente. [...]

– Eu o ajudo a atravessar. Você quer ir para Molesworth Street?

– Sim – respondeu o rapazinho. [...]

– Venha – disse o sr. Bloom.”

Aí vem o toque joyceano: “Ele tocou gentilmente o cotovelo magro: em seguida tomou a mão vidente e flácida para guiá-la adiante.” (p. 202)

“[...] O rapazinho cego bateu de leve no meio-fio e prosseguiu no seu caminho recolhendo sua bengala apalpando o chão de novo com ela.”

“O sr. Bloom caminhou atrás dos pés privados de visão, de terno de tweed em espinha de peixe de corte uniforme. Pobre moço! Mas afinal de contas como ele podia saber que o furgão estava ali? Deve tê-lo sentido. Veem coisas em suas cabeças talvez: uma espécie de sentido de volume. Peso ou tamanho dele, alguma coisa mais negra do que a escuridão. Me pergunto como ele se sentiria se alguma coisa fosse removida. Sentiria como um buraco. [...]” (p. 203)

Assim, o narrador vai registrando suas impressões por meio do protagonista, e, até a página 205 há outras que o colocam também na mente do personagem, numa associação provavelmente referente à própria deficiência do autor.

Como esse episódio, existem muitos outros dignos de menção, pois, nas suas 888 páginas este romance não revolucionou apenas a estrutura da narrativa ficcional, mas também muito do pensamento do século em que viveu o autor.

(*) JOYCE, James. Ulisses. Trad. Bernardina da Silveira Pinheiro. São Paulo: Editora Objetiva, 2005, 888 páginas.

07/01/2026

11/17/2025

VÍDEO-POEMA "ELA E A GATA"

 Link do vídeo-poema: https://youtu.be/04RX-Qm

Poema de Joaquim Branco                Música e efeitos: Gilmar de Oliveira Costa







10/19/2025

OSVALDO ANDRÉ DE MELO


  ENTRE PROTESTOS, LUAS E VITRAIS 

 Já vão longe as vanguardas dos anos 60/70, mas trata-se de vertentes não muito estudadas, seja pela variedade de ritmos, textos e imagens que representam esses poemas, seja pela dificuldade crítica em classificá-las.

 Alguns nomes, porém, permanecem ativos nesses muitos anos que se passaram. Um deles é Osvaldo André de Mello do qual tenho 2 livros que me foram enviados mais recentemente, ambos com textos e imagens. 

“Imagens imorredouras (como se fosse um vitral)” tem mais plasticidade e convida a uma viagem ao passado, como neste “O porta-retratos”: 

“O porta-retratos, vazio. 
Você mesma me roubou a sua imagem. 
Por detrás do vidro vejo o mundo sem você. 
E sofro.” (p. 108) 

 Em “Faltou te mostrar”, a linha de emotividade junta-se ao final concretista que sintetiza os movimentos: 

“Faltou de mostrar ainda o canto do sabiá. 
 O adejar. 
O voo. O ovo. O ninho.” (p. 104) 

 O livro mitificado como objeto poético nasce de “A poesia dos inconfidentes”: 

“Para mim, um livro sempre será um livro. 
Objeto físico, propicia ao leitor sagrada relação erótica, 
exaltando os sentidos e a engenharia da construção de imagens. 
Quando comprei “A poesia dos inconfidentes” 
– cuja leitura não consumei ainda –
 abracei o livro volumoso, cheirei-o 
folheei-o e o coloquei na estante. 
Posso dormir tranquilo, se na madrugada 
vier a vontade de visitar a Arcádia mineira: aqui está.” (p. 44) 

 O outro volume é “Lua Nova”, de temas mais variados e até cotidianos, traz o poema para o protesto ante situações de perdas de riquezas minerais e surge nas fortes exclamações: 

“Ó finíssimo ar filtrado pelas centenárias arvores das matas ciliares! 
Os quatro elementos reunidos na curva do Rio Fanado. 
A água de fugidio verde. Que branda seja a sede do Diabo! 
As almas descem cachoeira abaixo e param na curva do Rio Fanado: 
choram o ouro de Minas Novas levado.” (p. 102) 

 A homenagem a Fernando Pessoa em “Ao Mestre Caeiro” se sintetiza em 4 versos bem contidos: 

“Cheguei ao coração do dia. 
Estar no campo e olhar para dentro 
não me deixa ser natural entre as árvores.”! (p. 99) 

 “Cidade sitiada” completa o protesto do poeta mineiro em nítidas imagens: 

“A casa. O curral. O celeiro. O moinho. 
A estufa de fumo. A sebe. A relva. 
O coral das últimas árvores. 
A ferida no dorso da montanha. 
A beleza cruel do rio poluído. 
A próxima cidade e sua sede saciada. 
Cidade sitiada.” (p.101)

 Impossivel num pequeno espaço mostrar todas as tendências, estilos e habilidades de um poeta tão inspirado como Osvaldo André de Melo, mas certamente o leitor sentirá nestas breves linhas a força de um trabalho que ficará gravado por este poeta de Divinópolis, ultrapassando os limites de sua terra. 

(19-10-2025)

8/18/2025

UMA CERTA CANÇÃO EM LENINGRADO

  Já fiz alguns comentários sobre a incrível viagem de Francisco Inácio Peixoto e sua mulher Amelinha à Rússia em 1955. 

 Dali resultou um livro intitulado "Passaporte Proibido", publicado em 1956, o melhor texto de viagem que eu já li. Nele, às páginas 120 e 121, consta um poema de ocasião feito pelo autor, quando de sua passagem por Leningrado. Ali ele presenciou a dança de uma bailarina que o impressionou muito, motivando-o a escrever o poema "Cançãozinha para Gala Edelman", sobre o qual teço algumas considerações. 

 O poema é realmente uma canção tal a musicalidade que dele emana, e a temática que se revela na leitura é a Paz Mundial, tendo sido criado na época da Guerra Fria, quando os Estados Unidos e a União Soviética (hoje, Rússia) “dividiam” o mundo em dois: o lado ocidental (EUA) e o lado oriental (Rússia), após o final da II Guerra Mundial em 1942 contra os nazistas da Alemanha. 

 Seguindo a linha poética do livro, este poema é marcado por sonoridades modernas, por um perfeito equilíbrio sintático e por uma boa escolha morfológica. 

 Outra resultante é um certo movimento dos versos que parece ser conduzido pela dança de Gala Edelman, cuja evolução e leveza ela projeta nas direções geográficas que vai tomando em seu balé. 

  A utilização precisa dos fonemas em "a", que marcam o início do texto, produz uma espécie de "claridade" bem própria das noites geladas da Europa Oriental, que se alternam com os "iis" a pontilhar os passos da bailarina. 

 O estilo é leve e demonstra o tempo todo a busca da temática da paz que impressionou o poeta em toda a sua excursão pela Rússia. A arte de Gala aponta para os pontos cardiais onde poderia se localizar um futuro tão incerto naquela época como o é agora. 

 No fecho do poema, o poeta dá um tratamento cruzado às expressões "Pomba da Paz" e "Estrela do Norte", através de uma transposição que aumenta, para o leitor, o poder sugestivo para o objetivo e o tratamento do tema que ele criou. 

  Essa figura de linguagem – a Hipálage – mostra como a interpenetração das expressões desfaz o conhecido lugar-comum para resultar em “Pomba do Norte” e “Estrela da Paz”. 

 Trata-se, pois, de um apelo poético-emocional muito bem representado no sentido da construção da paz e da harmonia entre as nações que estavam se “bicando” em provocações que poderiam ser o princípio de um novo conflito mundial a se esboçar na época.

 (14-06-2018 e 28-06-2025)


 CANÇÃOZINHA PARA GALA EDELMAN 

 Gala dança 

dança e sorri 

na noite branca 

de Leningrado. 

 Que fazes, Gala, 

de teu corpo infante 

na noite branca 

de Leningrado? 

Tu o atiras 

pela rosa-dos-ventos; 

um pouco ao norte 

(Norte, Estrela!) 

um pouco ao sul. 

O resto roubo-os, 

que pertencem a mim. 

(Tão pura és, tão linda, tão clara 

que não distribuis desejos 

mas esperanças). 

Fico com as mãos 

que estas, sim,

espalham messes. 

Fico com os olhos 

que tingem de azul
 
(de branco, de branco!) 

tudo o que é áspero. 

Fico com a graça 

de Gala em flor 

a quem elejo 

do Norte, Pomba 

Estrela da Paz. 


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 A propósito, no nosso suplemento SLD (nos anos de 1960), o poeta Aquiles Branco bolou uma versão gráfica do poema que vale a pena transcrever:

 

8/09/2025

POEMA DE JOAQUIM BRANCO

]

"DEFESA DA POESIA"


  Que fazer diante de um título desse? A um poeta cabe aceitar e pronto. A outros, haverá poucas exceções.
 
  Mas o interessante é que este livro foi escrito em 1580, portanto em pleno Renascimento europeu e sua motivação foi o clima negativo – pasmem! – em relação à poesia, embora a Europa estivesse preparando um século de grandes nomes em termos de literatura poética, não fora a presença de Shakespeare, Camões, Cervantes e outros.
 
  Escrito por Philip Sidney (1554-1585) – um inglês do condado da Kent que teve estudos universitários e foi um viajante contumaz pela Europa – “Defesa da Poesia” vai buscar no seu tempo e na antiguidade grega conceitos e formas de encarar o tema. A tradução é do professor e crítico Roberto Acízelo de Souza, S. Paulo: Editora Filocalia, 2019, 102 p. 

  É nessa frente que o autor “põe a coroa de louros no poeta, como vitorioso não só sobre o historiador, mas também sobre o filósofo, não obstante o quanto possa a poesia ser questionada como ensino.” (p. 49)
 
  Afirmando que “o poeta, com a mesma mão de deleites, realmente atrai a mente com mais eficácia do que o faz qualquer arte” (p. 52), Sidney discorre sobre as várias formas de poemas. Os que misturam prosa e verso ou temas heróicos e pastoris. E é nesses últimos que constata que desvalorizam a pobre flauta, que retrata os problemas do povo ou a bem-aventurança. Ou quando Dario e Alexandre o grande disputavam a primazia como chefes guerreiros. 

  Fala também da elegia que denota a bondade e as virtudes das pessoas e as boas causas como retratou Heráclito. De outro lado, o poema iâmbico que rejeita a maldade humana ou o satírico ou o cômico, com temas que o próprio nome indica. E finalmente o heróico e o lírico com suas louvações aos grandes feitos e aos casos amorosos.
 
  Termino com a saudação à poesia, que, segundo Sidney, é a mais antiga criação do homem e que sendo universal é cultivada por todos, destacando que “somente o poeta produz o seu próprio elemento, e realmente não depreende um conceito da matéria, mas faz a matéria para um conceito;” (p. 57-58) 

  E, retirando outro fragmento do livro, podemos dizer que ”sua finalidade última é conduzir-nos e atrair-nos para a perfeição tão alta quanto comportam nossas almas degeneradas, feitas piores por suas moradas de barro.” (p. 39)

6/20/2025

OS TERRITÓRIOS DO POETA

Joaquim Branco


"a tarde se adentrar
pela noite adentro
até que a manhã
majestosamente
leve o verso como
pólen a fomentar
outros desconcertos."(p. 58)

Costumo receber pelo Correio muitos livros que entram numa fila para leitura e comentário. 
Agora, como se vê, chegou a vez de "Todos os céus", de Rogério Barbosa da Silva, de 2024. Nesse caso, pela qualidade da obra o prazer de ler e comentar aumenta bastante meu interesse. E tudo isso começa por um bom título: "Todos os céus", dividido em 5 partes.

No plano e execução da obra, Rogério Barbosa criou uma geografia própria onde aborda regiões e sensações que circunscrevem o momento íntimo do poeta, os lugares, as predileções por autores, o social, o episódico etc. Tudo porém não dissociado, mas funcionando com uma naturalidade ditada pelo ritmo dos poemas e a escolha da palavra certa.
Como neste "touchstone" de "Escalas":
"olho/ a poeira dos sapatos/ a trinta centímetros/ ao alcance da mão/ rastros de meu estar no mundo.(p. 16)

Ou aqui, entre o futuro e o sonho dentro do aprendizado poetico:
"de minhas ilhas/ mínimas/ qual bandoleiro/ quero tomar/ de assalto/ o amanhã" (p.23)

Na seção "Brincar o poema", o começo pessimista, mas não persistente:
"Na manhã/ um pássaro irritado/ dá o tom/ a meia distância/ uma segunda sombra." (p. 28)

Para introduzir autores certamente de preferência do poeta penetrando no poema, faz a inserção de acordo com cada um deles, como em "Ah Maiakovski":
"Se um grego te lê/ bem alto gritará/poema, a tinta/ escassa será/ o teu fim." (p. 29)
"Chego tarde em casa./ No quarto, acolhedor,/ ela lê tranquila/ uns contos fantásticos/ de Ítalo Calvino." (p. 34-35)
"O turbilhão passa/ enquanto passeio com Borges." (p. 39)

No breve roteiro pelas cidades, vão-se descortinando também os autores nativos, não sem poetizá-los:
"Em Recife viajamos no tempo,/ olho as fachadas das habitações/ em busca de Manuel Bandeira./ Atravessamos o Capibaribe,/passamos pela rua da União,/ adentramos o velho centro." (p; 40)
/'No Rio não há tristeza. Havendo,/ ela olha o Pão de Açúcar, a Pedra/ da Gávea. Notícia ruim sucumbe/ a um pásseio na Urca, ou fluir nas delícias de Botafogo.(...)" (p. 40)
Não deixa de avançar para outros países, como em:
"Então/ a Abbey Road é um presente/ um contínuo do ser/ a rua caminha na lua./ E eu caminho em sua sombra." (p. 42)

O autor busca percursos textuais em outros poetas, e aparece o tema bandeiriano disfarçado na formação do texto de dois poemas:                                                                                                                                "Uns tomam "Uns "Uns tomam absinto/outros cocaína/ uns esbaldam dialética outros estragam a rima." (p. 44)
"Loura ou morena,/ em torno do cemitério,/ o que eu vejo é a zona." (p. 65)
Como também em Baudelaire, Guimarães Rosa ou Machado:
"Amam de um modo geral na madura estação/ como os gatos poderosos de Baudelaire (...)"(p. 90)
"Nessas águas banhou-se Diadorim, e viu-se Riobaldo/ em provação." (p. 91)
"Nessas águas o verde e o arenoso são como mar traiçoeiro, os olhos/ de Capitu." (p. 91)

Enfim, este é um livro raro nos dias de hoje não só porque navega com maestria em todos os territórios do poeta, mas principalmente porque mostra como a boa poesia pode estar em 'todos os céus'.

20/06/2025)