11/24/2013

Um estranho Natal em 1928




O Natal – considerado por uns um momento de tristeza e por outros de comemoração, ou às vezes as duas coisas – é sempre um tema difícil, ainda que tentador para um poeta.

O poema de Ascânio Lopes (1907-1929) que transcrevemos a seguir deve ter sido escrito quando ele estava internado num sanatório em Belo Horizonte, provavelmente no final do ano de 1928, pois morreria no dia 10 de janeiro do ano seguinte.
Vejamos o que ele nos apresenta.

O título – "Natal do tuberculoso" – coloca o leitor literalmente de frente para uma temática crua, de enfrentamento direto, mas ao mesmo tempo parece nos enganar, pois o texto escorre para uma leveza puerilizada pelo tema, contribuindo para isso a escolha de palavras simples e a opção por um discurso com um tom marcadamente inocente.

Contudo, de repente, toda essa atmosfera é tragada por um realismo duro e de conformação, tendo como fundo os sinos da Missa do Galo que arrebatam para o texto uma sombra de inexorabilidade.

Será que podemos sentir, nessa aceitação da morte pelo poeta, um apelo final ao leitor? Algo filtrado nas entrelinhas e acentuado pelas reticências em gradação descendente pode nos dizer isso? Vejamos: “E aqui dentro ninguém... o silêncio..., o descanso... o mistério”.

Surpreendentemente, porém, o último verso insere um novo elemento no universo do poema, pois termina com uma metonímia ironicamente seca, trazida pela imagem agigantada dos "sapatos".

Se aí vai um instante de tristeza neste poema autobiográfico de um grande poeta cataguasense, pelo menos aproveite o leitor este momento poético que tem a assinatura indelével de Ascânio Lopes.


NATAL DO TUBERCULOSO

Ascânio Lopes

Eu pensei que Papai Noel passasse por aqui
e pus na janela do quarto
meus sapatos inúteis de doente que não mais andará.
Depois rezei. Uma oração feita por mim,
entrecortada pelo arfar do peito e pela tosse rouca.
Pedi uma morte mansa suave
o coração parando, sem aflição, sem dor.
Lá fora os sinos da Missa do Galo
acompanhando minha morte lenta.
E aqui dentro ninguém... o silêncio... o descanso... o mistério...
Mas Papai Noel passou sem nada me dar.
Achou decerto enormes meus sapatos...

(desenho de Slotti)


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