https://www.youtube.com/watch?v=bfOMKCfa1-s
https://youtu.be/bfOMKCfa1-s
Bem mais tarde, em 2006 Fernando
participou da minha banca de doutorado na UERJ – Universidade do Estado do Rio
de Janeiro.
Foi curto e distante o
contato que tivemos, mas o acompanhamento de sua obra sempre esteve mais
próximo e mais agora que acabo de ler o seu “Romance dos desenganados do ouro &
outras prosas” (Rio de Janeiro: Faria e Silva, 2024, 151 pp.).
Escrito em versos, ora
seguindo um metro ora outro, mas sem perder o fio da meada, este romance-poesia
nos conta a história da Zona da Mata Mineira – “de língua dura e destravada”,
ou “na letra corrida da espingarda” –, da segunda metade do século XIX.
Na busca do ouro que não
existia, “no miserê dos lares”, nos “quiprocós que davam em riso”, nas “pendengas
dos dares e tomares”, Fiorese vai construindo uma identidade quase perdida nessas
Geraes de nossos antepassados.
Há mesmo em toda essa
aventura um fio condutor – o jeito, o modo de vida, os costumes de um povo por
onde vai passando seu texto algumas vezes mais participante como neste pequeno
capítulo em prosa de “Na Livraria Pereira” (p. 104): “E não são os teares e
outras máquinas que escravizam o trabalhador, e sim os capitalistas que se
assenhoram das obras dos gênios das Ciências Mecânicas, cujos espíritos tratam
de mover e mudar a matéria”. (p. 104-105)
No poema “Totonho Furtado”,
vêm enrolados religião, conversa de botequim, brigas de família, para terminar
em referência bíblica temperada pelo humor: “Tem cabimento não, tanto escarcéu/
só fiz achar o mote, afinal/ foi tal e qual: QUINZIM MATOU ABEL.” (p. 89)
Em nossos ‘Sertões proibidos’,
convivem os ditos populares “aquilo que não se tem, faz-se” como a vida do
bandido Antônio que “ganhou fama por pegar qualquer serviço (de menos matar criança,
moça e padre)”. Mas o texto poético e crítico também aí comparece: “Dias e
noites no mesmo e igual cilício/ de derrubar mata e domar cavalo,/ de caçar
pretos e mais tantos bichos.” (p 7)
Fiorese vai traduzindo e
poetizando todo o material narrado numa impressionante sucessão de fatos onde “Muita
vez é maior verdade a lenda” (p. 11). Como no caso do Capitão Amaral que não
queria o casamento da filha com um pretendente desconhecido na região. “Por
ele, antes a filha sem marido/ que emprestar o sangue àquele sicrano,/ de quem
não tinha as modas nem o molde./ Entanto, Laura cismou que era Antônio/ ou se
atirava no Pomba a doidivanas.” (p. 10)
Há 21 anos, meu irmão Pedro publicava este livro e se notabilizava com narrativas curtíssimas - seus microcontos de excelente qualidade que o colocaram como dos melhores criadores desse tipo de ficção:
COM UNS ‘BESOUROS FALANTES’, NA PELE DAS PALAVRAS
Joaquim Branco
(BESOUROS FALANTES – P. J. RibeiroEdições Totem – Cataguases - 87 pp.- 2003)
No meio do mato besouros falantes emitem cochichos. Formigam farelos de falas, confundem e misturam nexos. Estes não são propriamente aqueles animaizinhos de asas noturnas e dura casca que, na ânsia da luz e dos holofotes, rodopiam rodopiam até cair embaixo de sapatos esmagadores.
Seu misterioso ciclo de vida resume a metáfora do destino humano ou o capricho das sensações e a busca de um sentido para as coisas. Os besouros que narram também pintam e bordam na construção de um texto sem paralelismos e rodeios. Sua mágica entra na poesia e sai na prosa, e, quando se pensa que se tornaram líricos, já se vestiram de épicos ou penetraram no drama.
Esses bichinhos ruminam sua fome de dentro da mente humana e dali se veem diante de uma sede que não sacia nunca. Ficam remoendo um grilo que o descuido deixou apanhar, ou dormem sobre o remorso de horas tediosas. São falantes porque o tempo todo falam e ouvem vozes que lhes ensinam coisas, e eles as devolvem ao leitor no seu besourar contínuo.
A maioria dos microtextos deste livro de P. J. Ribeiro foi escrita na década de 1960, alguns na de 70, poucos na virada do século. Mas todos trazem indelevelmente inscrita na pele a marca da aventura com a linguagem, que faz do homem não o melhor, mas o mais inquieto bicho da natureza.
Transcrevo algumas dessas micronarrativas de P.J.Ribeiro para o leitor continuar a ‘viagem’:
MONTANHAS DE MINAS
Olhe, só depois de passar por certas coisas e de notar esta chuva caindo de mansinho e que só aumenta com o tempo é que finalmente tomo coragem, passo as mãos nos móveis da sala e sinto como estão frios. Então percebo lá fora aquelas montanhas de Minas que continuam caladas estupidamente geladas olhando para mim.
NUM DETERMINADO PAÍS
Num país subdesenvolvido o que vale é ser rico.
Num país subnutrido o que vale é ser bicho.
Num país desenvolvido o que vale é ser mito.
Num país independente o que vale é ser gente.
CLÍNICA
Por favor,
aguarde na recepção.
Pode ser grande
a decepção.
DIAS E NOITES
Dias e noites eu me chego bem pra perto de mim – o sol se distancia e uma luz se apaga – e as perdas qu’eu sinto no peito, contrafeito, mordem-me os sentidos, tolhem-me a vontade.
Noites e dias me pergunto tonto qual o destino dessa vida errante, se pra me encontrar me afasto tanto, se ao me entregar me despedaço antes.
COCEIRA
Coço a cabeça, passo a mão na perna, limpo meu rosto, pego o cigarro, escovo os dentes, sento-me no vaso e só aí sai alguma coisa.
Descarrego sonhos.
DE QUE ME ADIANTA?
De que me adianta ser feliz em Atlanta?
De que me vale ser uma besta em Sales?
O que me impede de ser um cego em Medes?
O que me leva a esconder nas trevas?
DO LADO DE LÁ
Quero ver o que acontece
do lado de lá.
Quero mudar de time
pra me escalar.
Quem puder ouvir essas vozes aproveite; o livro é pequeno, mas a conversa é preciosa. Os besouros não estarão para sempre do lado do homem, a entrar em seus pensamentos para lhe dar ideias...