9/10/2018

A ETERNA PROCURA DA POESIA: JB, O GUARDIÃO DA PALAVRA




por Francis Paulina Lopes da Silva[i]

Para todos os povos, a Poesia vem traduzindo os sonhos e sentimentos da humanidade, amenizando suas dores e extravasando suas alegrias. Pelo verbo poético, é possível tornar-se etérea e suave, reflexiva e lúdica e até mesmo risível e satírica a experiência humana de confronto consigo mesmo, com a vida, com o outro, o mundo, com Deus...

Nesta Cataguases que inspirou, acolheu e nos trouxe à luz tantos artistas da palavra, como nos tempos áureos do movimento modernista Verde, entre nós, hoje temos o privilégio de conviver com o poeta Joaquim Branco, que a si mesmo intitulou “O Caça-palavras”, mas, para nós se revela muito mais além, como o guardião da palavra poética...

Com seu espírito crítico e gênio criativo, Joaquim Branco Ribeiro Filho (Cataguases, 1940), JB, para nós, seus amigos e mais, para toda a memória cultural, vem realizando um incansável trabalho de produção, difusão, pesquisa da arte da poesia, que sempre nos surpreende e inquieta.

Nos tempos atuais, marcado pelo fim das utopias, o poeta cataguasense critica a sociedade pelo impacto da poesia visual. Em versos breves, faz da folha branca sua bandeira poética – e agora, na tela digital, o registro do protesto-denúncia, como uma mancha incômoda no olhar do leitor, um grito que ecoe nas suas consciências. Em um de seus tantos livros, Caça-palavras (1997), os poemas revelam a pena atenta, sagaz deste Hermes da Pós-Modernidade, que dá seu recado com a destreza da palavra – flecha rápida, exata e certeira – lançada à sociedade.

O poema processo de JB se projeta como extensão do olhar crítico do poeta, na denúncia provocativa à realidade econômica, social e moral do país.

Um excelente exemplo deste seu olhar crítico à sociedade brasileira, lançado como flecha aguda contra a liderança política nacional é o micropoema de JB, composto recentemente, intitulado “Pontuador”:





A flecha aguçada de JB seleciona as palavras, na entonação e pontuação exatas do profissional das Letras – Professor, Educador, Poeta e Crítico – Pontuador, que joga ironicamente os dados aos alvos certos. A Deus, o Justo Senhor, é preciso temer... Mas diante do caos sociopolítico e econômico do país, desencadeado desde a posse do atual Presidente, o poeta é incisivo: “– Temer, adeus!”, pontuando a voz do povo sofrido, decepcionado e saturado dos desmandos que geraram um retrocesso para a Nação.

Mas hoje aqui viemos atentar para outra habilidade de JB, ao lidar com a palavra... Professor, Educador, Poeta e Crítico, ele também se dedica à ficção. Este livro que hoje nos chega em sua segunda edição, O menino que procurava o Reino da Poesia, obra que ele mesmo indica como ficção infanto-juvenil, foi publicado em 2005.

Nesta obra, o Poeta JB se desdobra em outros poetas, para falar da importância e do papel da Poesia para a humanidade, como um Reino mágico, a ser explorado com intensidade e paixão. Este, segundo o narrador, “É o reino das coisas da mente e do coração, da sensibilidade e da simplicidade” e os poetas são:

[...] os habitantes desse reino e sabem como ninguém lidar com os sonhos e os acontecimentos do dia-a-dia. Eles costumam mover as montanhas, mas não sem antes piscar um olho para as estrelas. Os poetas podem pôr um pé no fundo do rio e as mãos na nuvem que passa. Seus olhos conhecem o brilho da beleza e do feio; e do ruim conseguem tirar algo para aquecer os corações de cada um de nós (BRANCO, 2005, p. 5).

E assim, o narrador convida-nos a percorrer, a cada página deste livro, junto ao protagonista, o menino Leonardo, por espaços geográficos e poéticos do Brasil, em diálogo com alguns de nossos brilhantes trovadores... Gota a gota, vamos recebendo o mel da Poesia, em lições breves e preciosas, como:

– O reino da poesia existe na cabeça dos poetas e das pessoas que têm bastante sensibilidade.
– Ahn! O que faz um poeta?
– Esta é a pergunta mais difícil que já me fizeram, mas vou tentar explicar. Um poeta vive e observa, vê e aprende, toca nas coisas, sente, muito antes de falar sua mensagem (BRANCO, 2005, p. 7).

Sobre a estética da recepção, pela voz do poeta Gregório de Mattos, o narrador nos ensina a ler poesia: “Outra coisa que dificulta o leitor de poesia é a tendência natural de se querer entender tudo antes de se sentir” (p. 9). E mais:

– A poesia não é o real e sim algo a que damos uma roupagem nova, com musicalidade, intenções, sensibilidade. O poema é uma janela, um recorte da sensibilidade que, de repente, fica suspensa no ar. Nela não cabe tudo, apenas o essencial, porque não se pode dizer tudo que a poesia foge (p. 10).

O elemento didático deste livro ficcional para o público jovem não trai o fascínio do poético e o leitor se envolve no jogo estético, aprendendo até mesmo da construção narrativa de JB, como este impacto entre os sentidos do tato, dos sons e do visual, na descrição da experiência de Leonardo, contemplando o mundo da poesia, imerso em seus pensamentos e reflexões sobre o que ouvira de um dos poetas, Tomás Antônio Gonzaga, o árcade Dirceu, que em seus versos eternizou a sua Marília amada:

– Ares mais quentes o esperam. E é ainda pensando na bela amada do poeta que sente o calor da nova terra, enquanto uma brisa mexe com os seus cabelos, e o cheiro do mar o anima. Ao longe, já se vê e sente as ondas como uma pasta de dentes que se transforma em espuma branca na boca. Levantando mais os olhos, contempla o ponto em que o mar se confunde com o céu e este parece baixar. É a linha do horizonte, lembrou-se agora de sua professora de geografia (p. 16).

O pintor JB aqui se revela ficcionista, ao delinear ante o leitor uma aquarela da paisagem do Norte do Brasil, contextualizando o novo espaço onde surgiu o poeta Gonçalves Dias e sua saga poética.
E ainda, ao prosseguir a procura de Leonardo pelo reino da poesia, narrador e personagem se confundem nesse percurso obsessivo pelas veredas da arte, que sempre oculta mais mistérios e novas possibilidades no mundo das palavras:

Continua buscando mais. Quer conhecer novos lugares e quem sabe? – outros artistas com o mesmo dom de saber o que está por trás de palavras tão misteriosas e, às vezes, com o significado tão difícil.
Leonardo está começando a sentir o que é a poesia e como são os poetas, esses seres que procuram na linguagem o sentido da vida e a solução para os problemas seus e do mundo (p. 16).
Assim como Leonardo, nosso Poeta JB continua seu percurso, sempre à procura da Poesia. Mesmo que, como poetizou Drummond, seja uma luta vã, árdua e aparentemente, inútil, neste mundo do pragmatismo imediatista, do automatismo consumista e da exploração neoliberal...
Em sua concepção do homem e do mundo, na tentativa de apreensão da significância do olhado, JB faz a sua viagem, o seu voyeurismo poético. O poeta, como expectador do mundo, provoca o jovem leitor e a todos nós a prosseguir essa fascinante viagem pelo universo da Arte. Ao lançar hoje a segunda edição deste livro O menino que procurava o Reino da Poesia, temos mais um indício do espírito inquieto e autoinventivo de JB, a reinventar-se, criativamente, idealizando um mundo novo, fraternitário, onde a Poesia, o sonho tenham lugar, voz e vez...

Referências
BRANCO, Joaquim. O caça-palavras. Cataguases: Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho, 1997.
______. O menino que procurava o reino da poesia; ficção infanto-juvenil. Cataguases: Instituto Francisca de Souza Peixoto, 2005
CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. 8. ed. São Paulo: T. A. Queiroz, 2000.

****08/09/2018

[i] Professora Adjunta aposentada da UFV, Colaboradora no Programa de Mestrado em Letras do Departamento de Letras da UFV. Doutora em Ciência da Literatura (UFRJ).

Nenhum comentário: