12/09/2024
KAFKA NO CENTENÁRIO DE SUA MORTE (1883-1924)
12/03/2024
SOBRE O LIVRO "UMA VERDE HISTÓRIA"
NINGUÉM ME CONTOU... EU
VI!
Mauro Sérgio Fernandes
A cena aconteceu
há quase cem anos, muito antes
– é claro – de eu ter nascido. Mas eu vi, juro que vi. Foi ali, num terreno perto do Grupo Escolar Coronel Vieira, nas
imediações
onde hoje se situam a Igreja Metodista,
a CIMA [hoje, Supermercado
Morais] e o Bar do Goiaba [hoje, Restaurante Caruso]. Talvez até mais pra lá, do outro lado, na
altura do Centro Espírita Paz, Luz e Amor. Dois garotos jogavam bola, em “dolce far niente”, enquanto outros rodavam pião, aprumavam papagaios,
brincavam de pique e as meninas arrumavam bonecas em casinhas de brinquedo. Francisquim tinha
nove anos e Rosário, oito. Bons amigos desde os primeiros anos, eles cultivaram a amizade na juventude, subindo
juntos o morro da Granjaria para frequentar o Ginásio
Municipal de Cataguases.
Mas se isso aconteceu em 1918, e eu nasci décadas depois, como
é que eu posso jurar ter visto tal cena? Que mistério é esse? Que magia é essa? direis – “ouvir
estrelas... Certo perdeste o senso.”
Pois eu lhes reafirmo: é mistério sim, é magia também. Mistério e magia somente possíveis no
inebriante cenário da Arte ou, mais precisamente, na Literatura. Mais precisamente
ainda no livro “Uma Verde História”,
escrito por Joaquim Branco e ilustrado por Fernando Abritta.
Não se trata de mais um livro de Joaquim Branco, mas um livro
dotado de tanta magia, que, apesar de ter como alvo o público
infantil, ele consegue nos alcançar a todos, ve- nerandos coroas,
fazendo-nos crianças com “olhos
de ver histórias”. Assim eu me senti. Porque, afinal, quem de nós, cataguasenses, não leu, releu e pesquisou tanto essa história da qual tanto nos
orgulhamos? Dessa vez,
no entanto, foi diferente: ninguém me contou essa história... eu vi essa história
na sua essência mais profunda.
Vi Francisco e o Fusco jogando
bola, indo pro Ginásio, discutindo no Grêmio Literário Machado
de Assis. Vi Ascanio chutar
chapínhas e gravetos. Vi Guilhermino ruborizando alunas da Escola Normal Nossa Senhora do Carmo, recitando “Menina batuta/ dos seios de fruta/ novinha que cai...” Vi Oswaldo Abritta versejando sobre a amada
Estação e o “footing” na Praça Rui Barbosa. Vi Camilo Soares louvando a beleza
das ruas cataguasenses e dando a notícia da existência, em São Paulo, da grande
revolução nas artes com a Semana
da Arte Moderna de 1922. Eu vi, gente, juro que
vi o Fusco comentando essa notícia assim : “lsso tem cheiro de coisa nova. Taí,
gostei.”
Eu vi, sim, o Doutor Toniquinho, o Enrique de Resende e o Christóphoro Fonte- Boa reunidos com o grupo inteiro da “Verde” no Bar do Fonseca, situado
na Rua do Comércio [hoje, Calçadão]. E
vi muito mais: vi o grupo
redigindo, a muitas mãos, o Manifesto
e cada um colaborando com poemas e artigos para a Revista. Aquela
Revista que bagunçou o coreto dos conservadores e projetou uma cidade do interior das Minas Gerais
na vanguarda do movimento
modernista brasileiro.
Mais do que simplesmente ler o texto e curtir as ilustrações, a gente viaja no tempo. E eu viajei com
tamanha e tão doce infantilidade, que parecia estar tomando conhecimento da história da Verde
pela primeira vez. Assim como quem se deslumbra diante do passo a passo
de uma historinha, eu vi o que nunca havia visto antes. Ou seja:
não apenas a descrição factual e sempre recorrente, mas a aura de um passado
mítico, como se tudo fizesse parte de um memorável "faz-de-conta".
Cada página do livro de Joaquim Branco é uma janela de onde se descortina a
visão de um tempo heróico. Cada palavra, cada frase joaquiniana é uma
revelação. Cada traço, cada rabisco abrittiano é uma tradução onírica do que
"aqui aconteceu". Texto e imagem são a simbiose perfeita, que resulta
em efeito sinestésico com a concretude da visão, além do ler e do olhar. As
novas gerações gritavam ávidas por algo que não lhes permitisse desconhecer o
sonho revolucionário dos meninos da Verde. O que o Joaquim e o Abritta fizeram
foi mostrar à garotada de hoje que eles são "rapazes muito capazes/ de ir
ver de Ford verde/ os ases de Cataguases". Resumindo: "Uma Verde
História" veio para ficar.
No
final do livro, existe a biografia com o retrato dos nove integrantes da
revista e duas sugestões de planos de aula para orientação dos professores
junto aos alunos do ensino fundamental e médio. E como se isso não bastasse, o
livro encaixa na contracapa um livreto com resumo da obra principal, impresso
em preto e branco, para o aluno colorir, livremente, de acordo com sua
sensibilidade. Vamos saborear a obra de dois grandes artistas, nossos
conterrâneos. Somente assim vocês poderão juntar-se a mim, nesse privilégio de
poderem também afirmar terem visto, com seus próprios olhos, o que aconteceu há
quase cem anos. De minha parte, fica aqui o convite: vamos saborear a obra
desses dois grandes artistas, nossos conterrâneos. Somente assim, vocês vão se
juntar a mim, afirmando terem visto, com seus próprios olhos, o que aconteceu
há quase cem anos.
(in
jornal “Cataguases”, 11.11.2011, p. 2.)
JOAQUIM BRANCO: UM AUTOR COM O SELO DA POESIA
José Luís Jobim
Creio que Joaquim Branco não necessita de apresentação para
Cataguases, cidade que sabe muito bem a imensa energia e criatividade que há
por trás deste poeta, pesquisador e professor, ligado à vida cultural da cidade
há meio século. Também não necessita de apresentação no Rio de Janeiro e nos
outros lugares do Brasil onde ele ou sua obra circularam e circulam. Assim
sendo, vou me concentrar, nestas breves linhas, a falar um pouco do livro que
ele agora publica, porque, meu caro leitor, quando se lê um livro, nem sempre
se conhece a história por trás de sua feitura.
Este livro começou de fato quando Joaquim Branco, poeta já
consagrado, após a aposentadoria, passou a dedicar-se mais intensamente ao
magistério universitário, na sua Cataguases – que ele carinhosamente chama de
"província", e que guarda com ele uma grande sinergia, pois tem uma
tradição literária de conexão com o agora, com o nacional, com o transnacional,
e um potencial de catalisar personalidades artísticas criativas que sempre chamou
a atenção dos estudiosos da literatura e da cultura, e a colocou numa posição
nada provinciana. De fato, se é uma província com o selo da poesia, como diz o
título, não é só por sua relação com a chamada "Arte Postal", mas
principalmente porque, seguindo a etimologia da palavra selo, Cataguases tem a
marca ou o sinal da poesia em sua história cultural. E parte significante disto
se deve à geração de Joaquim - e muito especialmente a ele.
Falemos então novamente de Joaquim Branco e do seu livro. Um
dia, este poeta-professor, já sessentão, decidiu fazer seu doutorado na
Universidade do Estado do Rio de Janeiro: fez o exame de seleção, passou com
brilhantismo e começou a frequentar seus cursos em 2003. Tive então o
privilégio de ser escolhido como seu orientador de tese, papel que cumpri mais
na forma de diálogo do que na de orientação propriamente dita. Na época, ele
pensava em trabalhar algum dos temas literários mais presentes no cardápio dos
estudos de pós-graduação, mas, a partir deste nosso diálogo, chegamos à conclusão
de que o trabalho mais relevante a ser feito, e que provavelmente apenas ele
poderia fazer – a partir de sua perspectiva histórica e pessoal –, seria
exatamente enfocar os movimentos artísticos em que ele se inseriu, durante toda
uma vida dedicada a criar e a refletir sobre a criação. Ao longo das páginas
seguintes, portanto, o leitor verá Joaquim contando sua estória, transformando
em narrativa um passado em que ele foi personagem, descrevendo e ao mesmo tempo
refletindo sobre ações e eventos, dando uma certa ordem e sentido à sua própria
perspectiva sobre o que vivenciou, estabelecendo um padrão de organização na
própria configuração de seu tempo, e dos movimentos que testemunhou e de que
participou, e ajudando a criar quadros de referência para a compreensão do
contexto e dos textos produzidos em sua época. Quem o conhece sabe que ele não
fez (nem fará) isto em um estilo caudaloso, pois nada mais distante de Joaquim
do que prestar-se ao chavão do literato verboso e cheio de pompa que gerou personagens
caricatos na obra de Jorge Amado ou Dias Gomes.
De fato, uma das minhas mais árduas tarefas no diálogo com
Joaquim foi fazê-lo abandonar parcialmente seu modo seco e enxuto de trabalhar
a palavra, para desenvolver mais a análise tanto do que ele efetivamente
produziu ao longo de sua longa carreira quanto das circunstâncias e teorias
que presidiram esta produção. Assim, Joaquim nos levará a recuperar sua
vivência de geração, de interior mineiro dos anos 60 e de homem que morou e
visitou os grandes centros, construindo sua literatura e sua vida em jornais,
livros, cartões e impressos, mas sempre pensando no contexto social em que ele
e seus textos se inseriram. Se os que o conhecem sabem que, de fato, Joaquim
tem muito mais a dizer do que disse neste volume, o próprio lançamento do livro
servirá, entre outras coisas, para que estes amigos (incluso eu) aproveitem
para cobrar dele que escreva mais e que seja menos egoísta com suas memórias –
ou seja, que deixe de guardá-las só para si e as socialize mais. Claro, sabemos
que o modo sintético de ser de Joaquim vai oferecer resistência, porém vencê-la
é importante. Eu mesmo tive às vezes uma tarefa difícil, pois houve ocasiões em
que o nosso diálogo funcionava como uma cobrança minha de que ele explicitasse
o que estava implícito em seu argumento, e ele dizia mais ou menos o seguinte:
"Mas eu preciso escrever isto mesmo? É tão óbvio!". Eu asseverava que
estava óbvio para ele, porque ele possuía a informação, mas não
necessariamente para o leitor virtual, que poderia não possuí-la, e ele então
concedia em explicitar a "obviedade". Creio que muitos leitores do
presente (e muito mais do futuro!) nos agradecerão por isto. De todo modo, o
resultado está agora disponível neste volume e com certeza este é um trabalho
que já nasceu como referência obrigatória de todos os que, no campo dos estudos
literários, se dedicarem a estudar a geração e a obra de Joaquim Branco. Bom
proveito, caro leitor!
30-04-2013
José Luís Jobim é Professor dos cursos de graduação e pós-graduação
em Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Universidade Federal
Fluminense.
11/17/2024
O POEMA PROCESSO DE JOAQUIM BRANCO - Alécio Cunha
No vasto emaranhado da
produção poética contemporânea no Brasil, o mineiro Joaquim Branco exerce papel
crucial. De Cataguases, na Zona da Mata, onde nasceu e mora há 57 anos, ele
construiu uma obra fundamentada na concisão e na experimentação. Ao lado do mato-grossense
Wlademir Dias-Pino, Branco é o principal nome do poema-processo no Brasil,
movimento literário surgido no início dos anos 70, rompendo com o concretismo
dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e o neoconcretismo de Ferreira Gullar.
No raciocínio de Joaquim,
tanto o concretismo como o neoconcretismo eram movimentos endógenos, fechados
em si mesmos e incapazes de uma abertura e diálogo circulares com poetas de
outras tendências, o que distanciava ainda mais os poemas do público-leitor.
Assim o poema-processo, apesar da mesma paixão pela genealogia das palavras
expressa nas vias concretas, diferenciava-se destes movimentos ao buscar uma
liberdade maior, alcançada através de trocadilhos e de um humor que os estetas
do concretismo não conseguiam.
Um pouco desta alquimia verbal pode ser sentida no novo livro de Joaquim Branco, "O Caça-Palavras", em que o autor experimenta seu rico manancial poético, dando continuidade a obras anteriores, como "Concreções da Fala" (1969) e "Consumito" (1975). O curioso é perceber que Branco está imune a algumas transformações ocorridas na criação poética brasileira entre o final dos anos 80 e o início da década de 90, como o ressurgimento de uma poesia extremamente cerebral, pseudocabralina e pseudoschmidtiana (tadinhos de João Cabral e Augusto Frederico Schmidt), centrada em versos gordurosos e poemas discursivos. Branco é o antídoto contra tamanha enrolação adjetiva. Seus versos retomam os aspectos telúricos da palavra, resgatam o coloquial e soam leves embora tragam embutidos na sua própria lavra a densidade de um poeta-critico em relação às mazelas do mundo. O aspecto ideológico é simultaneamente o atrativo e o diferencial de sua poesia.
Livro em duas partes
Em "O
Caça-Palavras", Branco dividiu o livro em duas partes.
"Pré-estória" e "Estória", o primeiro com poemas publicados
esparsamente desde a década a 70 e a segunda com inéditos. A divisão tem dupla
função: serve como introdução ao universo poético do autor e também mostra seu
pro-cesso de evolução e maturidade estéticas através dos poemas recentes.
E é bom constatar que os
versos de Branco não envelheceram. A visualidade de seus caligramas não é
inócua, evitando o vazio da forma pela forma. Seus trocadilhos, em alguns casos
onomatopaicos, são felizes, como o efeito
morfossintático do verso
"gaivotas nem dão notiiiiiicias de terra à vista", em que o som
destas aves figura no poema.
A síntese é outra de suas qualidades. Como em "Marauto", onde Branco cria "um mar de manchas musicais/tragando um sonho de sal". Fora o verso de múltiplos sentidos e ressonâncias ("sede minha sede") do poema "Renascença". Soluções eficazes de um sujeito sintonizado com o mundo e que transcende, por meio da palavra, a indignação de sua cidadania poética.
Neoliberalismo, alvo
da poética
Quando embrenhou-se no
território dos versos no final dos anos 60, embriagado pelas revoluções linguísticas
de Ezra Pound e James Joyce e embalado pela tradição poética de Cataguases da
revista modernista "Ver-de" e de nomes como Francisco Inácio Peixoto
e Guilhermino César, o inimigo de sua criação poética era a ditadura militar
pós-AI-5. Era impossível resistir à tentação de enfrentar um regime político
excludente e cruel através do exercício poético.
Promovendo uma sábia interação entre literatura e artes plásticas, Branco usou cartazes e poemas-objeto, apostando na arte postal, utilizando o correio como arma poética. Agora, o inimigo é outro. Mascarado, oculto, invisível. Não há mais a guerra do Vietnã, tema de alguns de seus poemas-postais que ficaram famosos nos Estados Unidos e na Europa, a neura atômica entre os EUA e a ex-URSS diminuiu (embora o risco de um conflito nuclear ainda exista). O alvo da poética de Branco é o neoliberalismo que estupra constituições e direitos adquiridos em nome de uma economia de mercado que amplia assustadoramente o hiato entre os poucos que ganham cada vez mais e os muitos que perdem as estribeiras. Isto pode ser notado em poemas visuais como "Privatizar", que explora as semelhanças estéticas entre o verbo neoliberal privatizar e certas instalações sanitárias.
(21-12-1997 in Cultura,
jornal Hoje em Dia - BH)
10/03/2024
A BOA LITERATURA INFANTIL
A BOA LITERATURA INFANTIL
Joaquim Branco
A novela infanto-juvenil “Era uma vez um rio”, confirma o
nome da autora Martha Pannunzio entre as melhores do país com sua narrativa
poética e bem desenvolvida.
Ainda que dedicada a esse público específico, este livro pode
ser estendido a todos os leitores que apreciam a boa literatura.
Martha é uma autora premiada, e seu livro, uma estória com
dois personagens, um menino e um rio, que mantêm um diálogo nascido das
fantasias infantis de Guto, esse é o nome do garoto.
O texto tem muitos momentos que merecem transcrição e deixam
entrever as qualidades da ficcionista, como neste discurso indireto livre
impregnado de poesia e referências fluviais:
“Em terra firme ele ficava riando, cachoeirando, correntezando,
rebojando garganteando, canalando, remansando, lagoando, dasteando, esturiando,
delteando, fozeando, se divertindo com os estabanados cardumes de dourados,
lambaris, piracanjubas, piaus, pacus...” (p. 63)
Ou no diálogo com o pai: “– Pai, cadê o rio? Eu perguntei
aflito. – O rio está lá embaixo, no mesmo lugar. – Fazendo o quê? – Correndo. –
Como assim, correndo, pai? – Correndo, não deslizando.” (p. 67)
Ou mais adiante: “– E o rio, como é que fica, coitado,
sozinho, no escuro? – O rio se vira. Continua trabalhando sem ser importunado.
Já é um descanso. Vai ver ele gosta.” (p 68)
O monólogo de Guto, recorrente em alguns pontos do livro,
também deve ser transcrito: “Eu tinha uma bronca do mar. Para mim ele era um
engolidor de rio. Poderoso... Violento... Sorrateiro... Perigoso... Genioso...
Sonso... Agressivo...” (p 79)
Terminamos com a volta do diálogo a propósito da viagem do Guto,
já adulto e saindo para enfrentar novos desafios: “O rio ficou calado,
pensativo, jururu... Era um rio muito sistemático, não ia dar braço a torcer. [...]
Presta atenção, Guto: o que a gente ama, a gente leva consigo – Fala bobagem,
não, meu amigo, como é que eu posso levar uma ponte comigo, um rio, uma lua...
um avô?... Ah, se eu pudesse! – Pode, é só querer – ele afirmou. [...] Se você
ama, você descobre o jeito.” (p. 94)
(2000-2024)
9/12/2024
CAMÕES A PALO SECO - Poema/Palestra
https://www.youtube.com/watch?v=bfOMKCfa1-s
https://youtu.be/bfOMKCfa1-s
8/18/2024
ZONA DA MATA: NAS CILADAS DO CAMINHO
Conheci os primeiros trabalhos de Fernando Fiorese nos anos 80, ele como participante do grupo D’Lira, de Juiz de Fora. Daí em diante, foi construindo sua obra em prosa e verso ao mesmo tempo que se tornou professor na área de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora.
Bem mais tarde, em 2006 Fernando
participou da minha banca de doutorado na UERJ – Universidade do Estado do Rio
de Janeiro.
Foi curto e distante o
contato que tivemos, mas o acompanhamento de sua obra sempre esteve mais
próximo e mais agora que acabo de ler o seu “Romance dos desenganados do ouro &
outras prosas” (Rio de Janeiro: Faria e Silva, 2024, 151 pp.).
Escrito em versos, ora
seguindo um metro ora outro, mas sem perder o fio da meada, este romance-poesia
nos conta a história da Zona da Mata Mineira – “de língua dura e destravada”,
ou “na letra corrida da espingarda” –, da segunda metade do século XIX.
Na busca do ouro que não
existia, “no miserê dos lares”, nos “quiprocós que davam em riso”, nas “pendengas
dos dares e tomares”, Fiorese vai construindo uma identidade quase perdida nessas
Geraes de nossos antepassados.
Há mesmo em toda essa
aventura um fio condutor – o jeito, o modo de vida, os costumes de um povo por
onde vai passando seu texto algumas vezes mais participante como neste pequeno
capítulo em prosa de “Na Livraria Pereira” (p. 104): “E não são os teares e
outras máquinas que escravizam o trabalhador, e sim os capitalistas que se
assenhoram das obras dos gênios das Ciências Mecânicas, cujos espíritos tratam
de mover e mudar a matéria”. (p. 104-105)
No poema “Totonho Furtado”,
vêm enrolados religião, conversa de botequim, brigas de família, para terminar
em referência bíblica temperada pelo humor: “Tem cabimento não, tanto escarcéu/
só fiz achar o mote, afinal/ foi tal e qual: QUINZIM MATOU ABEL.” (p. 89)
Em nossos ‘Sertões proibidos’,
convivem os ditos populares “aquilo que não se tem, faz-se” como a vida do
bandido Antônio que “ganhou fama por pegar qualquer serviço (de menos matar criança,
moça e padre)”. Mas o texto poético e crítico também aí comparece: “Dias e
noites no mesmo e igual cilício/ de derrubar mata e domar cavalo,/ de caçar
pretos e mais tantos bichos.” (p 7)
Fiorese vai traduzindo e
poetizando todo o material narrado numa impressionante sucessão de fatos onde “Muita
vez é maior verdade a lenda” (p. 11). Como no caso do Capitão Amaral que não
queria o casamento da filha com um pretendente desconhecido na região. “Por
ele, antes a filha sem marido/ que emprestar o sangue àquele sicrano,/ de quem
não tinha as modas nem o molde./ Entanto, Laura cismou que era Antônio/ ou se
atirava no Pomba a doidivanas.” (p. 10)
8/02/2024
Com os besouros falantes na pele da linguagem
Há 21 anos, meu irmão Pedro publicava este livro e se notabilizava com narrativas curtíssimas - seus microcontos de excelente qualidade que o colocaram como dos melhores criadores desse tipo de ficção:
COM UNS ‘BESOUROS FALANTES’, NA PELE DAS PALAVRAS
Joaquim Branco
(BESOUROS FALANTES – P. J. RibeiroEdições Totem – Cataguases - 87 pp.- 2003)
No meio do mato besouros falantes emitem cochichos. Formigam farelos de falas, confundem e misturam nexos. Estes não são propriamente aqueles animaizinhos de asas noturnas e dura casca que, na ânsia da luz e dos holofotes, rodopiam rodopiam até cair embaixo de sapatos esmagadores.
Seu misterioso ciclo de vida resume a metáfora do destino humano ou o capricho das sensações e a busca de um sentido para as coisas. Os besouros que narram também pintam e bordam na construção de um texto sem paralelismos e rodeios. Sua mágica entra na poesia e sai na prosa, e, quando se pensa que se tornaram líricos, já se vestiram de épicos ou penetraram no drama.
Esses bichinhos ruminam sua fome de dentro da mente humana e dali se veem diante de uma sede que não sacia nunca. Ficam remoendo um grilo que o descuido deixou apanhar, ou dormem sobre o remorso de horas tediosas. São falantes porque o tempo todo falam e ouvem vozes que lhes ensinam coisas, e eles as devolvem ao leitor no seu besourar contínuo.
A maioria dos microtextos deste livro de P. J. Ribeiro foi escrita na década de 1960, alguns na de 70, poucos na virada do século. Mas todos trazem indelevelmente inscrita na pele a marca da aventura com a linguagem, que faz do homem não o melhor, mas o mais inquieto bicho da natureza.
Transcrevo algumas dessas micronarrativas de P.J.Ribeiro para o leitor continuar a ‘viagem’:
MONTANHAS DE MINAS
Olhe, só depois de passar por certas coisas e de notar esta chuva caindo de mansinho e que só aumenta com o tempo é que finalmente tomo coragem, passo as mãos nos móveis da sala e sinto como estão frios. Então percebo lá fora aquelas montanhas de Minas que continuam caladas estupidamente geladas olhando para mim.
NUM DETERMINADO PAÍS
Num país subdesenvolvido o que vale é ser rico.
Num país subnutrido o que vale é ser bicho.
Num país desenvolvido o que vale é ser mito.
Num país independente o que vale é ser gente.
CLÍNICA
Por favor,
aguarde na recepção.
Pode ser grande
a decepção.
DIAS E NOITES
Dias e noites eu me chego bem pra perto de mim – o sol se distancia e uma luz se apaga – e as perdas qu’eu sinto no peito, contrafeito, mordem-me os sentidos, tolhem-me a vontade.
Noites e dias me pergunto tonto qual o destino dessa vida errante, se pra me encontrar me afasto tanto, se ao me entregar me despedaço antes.
COCEIRA
Coço a cabeça, passo a mão na perna, limpo meu rosto, pego o cigarro, escovo os dentes, sento-me no vaso e só aí sai alguma coisa.
Descarrego sonhos.
DE QUE ME ADIANTA?
De que me adianta ser feliz em Atlanta?
De que me vale ser uma besta em Sales?
O que me impede de ser um cego em Medes?
O que me leva a esconder nas trevas?
DO LADO DE LÁ
Quero ver o que acontece
do lado de lá.
Quero mudar de time
pra me escalar.
Quem puder ouvir essas vozes aproveite; o livro é pequeno, mas a conversa é preciosa. Os besouros não estarão para sempre do lado do homem, a entrar em seus pensamentos para lhe dar ideias...
6/10/2024
LANÇAMENTO DE EXPÔ E LIVRO "ZONA DE CONFLITO" EM CATAGUASES
5/29/2024
CINEMA NA UEMG
1/02/2024
POEMA PERPLEXO - VERSÃO EM BORDADO
12/21/2023
O PRIMEIRO LIVRO SOBRE A REVISTA VERDE DE 1927
12/16/2023
12/08/2023
O 1º SUPLEMENTO LITERÁRIO: SL/D (Suplemento/Literatura/Difusão) - 1968
No dia 08/03/1968, o jornal "Cataguases" anunciava a criação do suplemento SL/D (Suplemento Literatura Difusão) com novidades literárias. O entusiasmado texto era de Eli Barbosa, então redator-chefe do jornal, intelectual que deu guarida às novas ideias que surgiam na época. E esse apoio foi primordial para que desenvolvêssemos vários números subsequentes. Foto Adriana Monteiro.







































