8/27/2013

INSTALAÇÕES NO POÇO

Mais uma vez sou surpreendido pelo artista-professor Luiz Lopez.
Fui ver hoje (27-08-2013) a abertura das suas instalações artísticas para a qual recebi convite.
Como, com tão poucos recursos, Luiz Lopez conseguiu um resultado de excelência que me deixou bom tempo estupefato ante as inúmeras propostas apresentadas, tendo como objeto-base o livro!
Na abertura, somos recebidos por um pórtico construído por exemplares de poesia de cordel, que abrem o projeto para o popular.
Um bonequinho como o super-homem dos quadrinhos surge em cima de uma pilha de livros, e o poder se mostra agigantado e diminuído ao mesmo tempo: um voo sobre o saber.
Mais adiante, uma escada de livros nos conduz para dentro das instalações que se dirigem a um trono feito de livros. A mescla de poder e ciência ou a dissociação de ambos fazem desconfiar de que há algo por detrás desses conceitos.
Estantes metalinguísticas, baús de intertextos, tudo leva a uma espécie de poço da sabedoria que nos conduz a associações infantis como o poço dos mistérios, dos brinquedos, das águas furtivas. E o efeito mais impressionante está aí. Luiz Lopez incita o expectador a olhar para dentro do poço, e lá a surpresa: ele parece não ter fundo. como se as letras e as fantasias ficcionais nos tirassem de repente do pesadelo do real e apontassem para algo bem mais próximo do sonho.

Joaquim Branco

                                                                                                  fotos: Cimar Medeiros

Não percam esta exposição no saguão do Colégio Cataguases até dia 13 de setembro.












6/03/2013

NO QUEBRA-NOZES, COM MACHADO DE ASSIS


Cada vez me conscientizo mais de que Machado de Assis ‘viu’ como ninguém o Rio de Janeiro de seu tempo. Os problemas sociais, os políticos – toda a saga urbana de um povo foi retratada por ele, não escapando nem o teatro que se fazia então.

Não sendo autor de nomeada nesse gênero, passou a crítico teatral e – pasmem! – a censor oficial não remunerado do CDB – Conservatório Dramático Brasileiro, exercendo essas funções de 1862 a 1864.

Para se entender isso, é preciso remontar ao projeto cultural de Machado de Assis – como crítico e cronista –, que teve três fases distintas: a primeira, considerada nacionalista-romântica, em que rebateu a penetração de peças estrangeiras no Brasil; a segunda, uma ação pedagógica em que começa a aceitar a alteridade, especialmente o teatro francês de qualidade; e a última, de um nacionalismo voltado para o povo, com suas crônicas maduras em que procurou analisar as mazelas do brasileiro, visando à busca de uma identidade nacional.

Essas são algumas considerações que faço inicialmente, a partir da leitura do magnífico ensaio de Eduardo Luz intitulado O quebra-nozes de Machado de Assis – crítica e nacionalismo, Edições UFC (Universidade Federal do Ceará), Fortaleza, 243 páginas.

Aqui, acompanhamos o trajeto machadiano mapeado paulatinamente, não sem mostrar o crescimento e o avanço que permitiram a ele tornar-se o mais importante escritor do Oitocentos brasileiro.
Naquela fase inicial, o jovem Machado torcia o nariz para o teatro que vinha de fora, rejeitando a “cozinha estranha”, e propunha ao governo imperial normas para a valorização da produção interna. Sua atividade como censor batia nessa tecla e em outras como o aprimoramento dos textos que lhe chegavam para análise e liberação, e, concomitantemente, buscava meios que pudessem promover o refinamento do público.

Enquanto isso, “expandia-se e diversificava-se o público de baixa comédia” (p. 81). Também não se poderia exigir muito de um país cuja população contava tanto em 1876 quanto em 1900 com 84% de analfabetos, segundo o Censo.

Por outro lado, o governo imperial vedava, entre outros itens, as peças que se apresentassem “contra a veneração à Nossa Santa Religião, contra o respeito devido aos Poderes Políticos da Nação e às Autoridades constituídas, e contra a guarda da moral e decência pública” (p. 74).

Poderíamos falar bem mais sobre esse ensaio de Eduardo Luz, feliz edição da Universidade Federal do Ceará, mas paremos machadeanamente no título. É Machado quem faz, numa crônica de 3 de abril de 1885, uma relação entre as nozes e as ideias, já que em ambas é preciso quebrar a “casca” para saber o que têm dentro. Aí reside o segredo da descoberta.

Sempre o velho-novo Machado para nos mostrar – recorrendo a outra metáfora que não a das nozes – com quantos paus se faz uma canoa... na vida e na ficção. 

(07-06-2013)
(Eduardo Luz, autor do livro em análise)

5/27/2013

UM CASO E MUITAS HISTÓRIAS

Pela segunda vez, Fernando Abritta participa da Lei Murilo Mendes, da Funalfa em Juiz de Fora, e desta vez para produzir uma obra singular, em duas versões: uma escrita e outra falada, já que se trata de um audiobook (o livro mais um CD com as falas do texto). O livro infantojuvenil intitula-se “O caso da menina que perdeu a voz”.
Outra novidade: Fernando criou os desenhos e depois estes foram bordados em ponto- cruz e em cores, por Josenira Correa, Lígia Maria Soares e Lígia M. Quaglio, e, a seguir, fotografados por Kempton Viana. Assim, o resultado plástico-visual deixa entrever a ilusão de uma gramatura especial para a visão do leitor.
A boa apresentação de Antonio Jaime completa o trabalho, realçando o roteiro das aventuras e as características da história.
No enredo, os personagens – crianças e bichos – saem em busca da voz que a Menina perdeu, numa viagem aflita e solidária, e passam por muitas reviravoltas e situações. Pelo caminho, outros personagens vão contando histórias imaginosas ao correr dos obstáculos vencidos, e frases bem achadas refletem o nível do texto, que “sobe” nesses momentos poéticos:
“Será que existe um lugar onde as vozes se escondem? Moleque com a boca cheia, respondia: – Vozes ou palavras?” (p. 18)
“Eu conheço uma árvore onde tudo fica guardado” (p. 19)
“Era cajueiro nas folhas e galhos. Não era cajueiro porque dava mangas, abacates, caquis, toda espécie de frutas, todas maduras e saborosas” (p. 21)
“Passeou ouvidos nos cantos dos pássaros.” (p. 21)
“Precisamos achar a voz perdida.” (p. 22)
“Lá todos os tempos são no presente. Lá tem sol e chuva no mesmo momento. Lá, o vento permite voar até onde falta ar, bem perto de Deus.” (p. 23)
“E o vento leve soprando rostos dos garotos, penteando cabelos.” (p. 26)
“Na Montanha não havia sinal algum da voz de Menina. A única coisa parecida com uma pista era a frase.” (p. 27)
A metáfora – no seu aspecto mais genérico – enforma o discurso ficcional de Fernando Abritta, neste “O caso da menina que perdeu a voz” e as vozes de que se utiliza o texto literário podem, no fundo, representar a própria procura do autor como representação metalinguística da obra.

A voz que se perde e se quer reconquistar, a fala que faltou ou que desapareceu no tempo, a essencialidade do discurso para o homem – tudo isso importa muito e constitui o sentido metafórico que o autor procurou tematizar neste livro pleno de ação e criação. 
Em Cataguases, o lançamento será no dia 7 de junho de 2013, a partir de 19 h, na Chácara D. Catarina. (foto do autor: Paulo Gama)

5/22/2013

IDOS DE 1930 – FICÇÃO E POESIA


Henriqueta Lisboa


Recebi, para opinar, Literatura brasileira – 1930, organizado por Andréa Sirihal Werkema, José Américo Miranda, Maria Cecília Boechat e Silvana Maria Pessoa de Oliveira, contendo ensaios de diversos professores-autores acadêmicos (Editora UFMG). São trabalhos ensejados pelo II Seminário de Pesquisas em Literatura Brasileira, promovido pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.

Pelo título, se vê que a abordagem é a segunda fase do Modernismo que se convencionou chamar “Romance de 30”, mas o volume é mais abrangente em todos os sentidos e compreende também a poesia que se produziu naquele período.
Portanto, trata-se de um trabalho imprescindível a quem quer ter uma minuciosa análise das obras e autores da época.

Divide-se o livro em três partes: “Ficção de 1930”, “Intervalo lírico” e “Poesia de 1930”.
Na 1ª, surgem os grandes ficcionistas: Graciliano Ramos, Oswald de Andrade, Lúcio Cardoso, Cyro dos Anjos e Eduardo Frieiro, sem deixar de comentar sobre os demais autores do ciclo. A 2ª e a 3ª parte relacionam poetas que se distinguiram: Drummond, Jorge de Lima, Henriqueta Lisboa, Murilo Mendes e outros.

O livro começa bem com o artigo de Luís Bueno abordando a “Divisão e unidade no romance de 30”, numa bem formulada colocação do problema, ao comentar, entre outros itens, sobre a divisão dos romancistas em intimistas e sociais e o seu realismo focado em 1ª e 3ª pessoa, para concluir por uma unidade e uma tensão em que as linhas de ambas tendências se mesclam no que ele chama de “embaralhamento”.

Chamo a atenção também para o texto de Ângela Vaz Leão, sobre “Henriqueta Lisboa em mais de uma voz”, quando se misturam as vozes da amiga e admiradora com a da crítica literária para compor um retrato muito pessoal e ao mesmo tempo verdadeiro de uma poeta tão pouco valorizada no Brasil.

Em “Jorge de Lima: a fé e a febre da poesia”, Raimundo Carvalho fala de um poeta pouco analisado no país e que merece estar entre os primeiros do Modernismo pela “abertura de novos territórios poéticos” (p. 303). Pena que o ensaísta não se aventurou pela obra mais importante de Jorge de Lima – Invenção de Orfeu. Mas isso demandaria outro ensaio crítico.

Não caberia aqui comentar sobre todos os ensaios do livro, portanto ficam essas  considerações mais como aperitivo para a leitura maior dos demais trabalhos desta significativa antologia crítica da Editora UFMG.

NA REVISTA DA PREVI


REVISTA PREVI
Categoria: Artes
Subcategoria: Prosa e Verso

LITERATURA INTENSA

Aposentado lança obra que conta sobre movimento artístico que provocou mudanças culturais

O mineiro de Cataguases (MG) Joaquim Branco trabalhou no Banco do Brasil (BB) por 30 anos. Em 1992, se aposentou. Foi nesse momento que ele passou a ter uma vida profissional mais voltada à universidade. Dedicou-se ao doutorado em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Hoje, leciona nas Faculdades Integradas de Cataguases.

Produção literária intensa
O funcionário do BB sempre teve uma ligação muito intensa com a literatura. Tem aproximadamente 30 livros publicados, entre obras de ensaios críticos, crônicas e poemas. Foi editor de vários jornais e revistas de literatura. Nos anos 80 foi redator na antiga revista Cacex, do BB, no Rio de Janeiro. Já publicou em suplementos de grandes e pequenos jornais como O Globo, Jornal do Brasil, Tribuna da Imprensa, Estado de Minas, SLMG-Suplemento Literário de Minas Gerais etc., além de inúmeras antologias no Brasil e no exterior. Além disso, mantém ativo um blog (http://www.joaquimbranco.blogspot.com) e dá palestras em universidades.

Recente publicação
No dia 27 de abril, lançou em sua cidade natal o livro “Totem e as vanguardas poéticas dos anos 1960/70”. A obra conta a aventura de rapazes e moças que, nos anos de 1960 e 70, em Cataguases, fizeram um movimento artístico paralelo a outros que aconteceram no mundo e transformaram os costumes e as artes daquele meado de século.
O movimento artístico citado no livro aconteceu na vida real? Como se deu? Sim. A partir da década de 1960 participei de vários movimentos literários de renovação artística como o Concretismo, o Poema-Processo e a Arte Postal, que se estenderam até a década de 80. Foi a época dos movimentos em grupos de autores. Nossa equipe se denominou “Totem”, nome tirado de um jornal entre os vários que editávamos.
Quais mudanças ocorreram devido ao movimento? Com a participação de grupos (como o nosso) do interior do país, a cultura se permitiu descentralizar mais, saindo a cultura daquele posicionamento elitista e irradiador que havia anteriormente. Foi um período de intenso intercâmbio e atuação independente, apesar da censura imposta pela ditadura. A poesia brasileira começou a ter mais atuação e influência até no exterior.
Planos para novas publicações? Sim, tenho tantos projetos que não sei bem qual será o próximo. Publico constantemente em revistas especializadas e jornais.
Para entrar em contato com autor basta escrever para joaquimb@gmail.com. Através do http://www.joaquimbranco.blogspot.com é possível se inscrever para receber informações sobre literatura gratuitamente.
http://www.previ.com.br/portal/page?_pageid=57,2412312&_dad=portal&_schema=PORTAL

3/09/2013

CARTA AOS ASES - 1967




 Martins Mendes, Guilhermino Cesar, Enrique de Resende, Francisco Inácio, Dona Amelinha, Marques Rebelo e Humberto Mauro
 Francisco Peixoto Fº (diretor do Colégio Cataguases) e dona Carmelita Guimarães
 Milton Peixoto (prefeito), Marques, Chico, Enrique Resende, Guilhermino, Mauro; sentados: Acir Vassalo, Ivan Rocha, Simão José Silva, Joaquim Branco, Ronaldo Werneck, Carlos Sérgio, Aurora Novarino, Messias dos Santos, Bebeto Bittencourt e Carlinhos Vasconcelos



12/17/2012

UM CAVALEIRO NA NOITE DE NATAL



(fotomontagem: Natália Tinoco)

Há um escritor que se destaca como pioneiro da caminhada do homem na noite absurda e caótica do século XX: é Franz Kafka, um judeu tcheco incrivelmente genial que nasceu em 1883 e viveu apenas 41 anos. Dele é o conto de Natal que vou comentar hoje, “O Cavaleiro do Balde”(1), escrito no inverno de 1916(2).

Poucos sabem deste relato, e quem nunca leu Kafka pode até esperar por um conto de fadas, só que, com roupagens kafkianas, tudo muda. A aparente simplicidade da escritura de Kafka não encaixa como uma luva no seu tema nervoso e suprarreal; pelo contrário, causa uma instabilidade semântica em quem o lê. No entanto, e positivamente, ele premia o leitor com uma comunicação – embora estranha – essencial a toda a humanidade.

Naquele inverno de 1916, faltara carvão para os moradores dos arredores da rua dos Alquimistas, em Praga, capital da antiga Tchecoslováquia, onde morava o nosso autor. Pode ter sido essa a ambiência que motivou a história. Para nós torna-se difícil até imaginar como o inverno em certas noites na Europa Central é terrível, e como o carvão, naquele tempo, era a salvação contra o gelo que penetrava até no coração das pessoas.

Eis o pano de fundo desse miniconto de pouco mais de uma página: Um pobre homem. Praga. 1916. Uma tenebrosa noite de inverno.

Com um balde na mão, fingindo cavalgá-lo, nosso protagonista chega à porta de um homem que vende carvão, e ensaia um monólogo interior:
“[...] não posso morrer congelado; atrás de mim a estufa impiedosa, à minha frente o céu igualmente sem pena.” “[o carvão] significa para mim o próprio sol no firmamento”.(3)

Seu apelo vem agora em forma de diálogo:
“Por favor, carvoeiro, me dê um pouco de carvão. Meu balde já está tão vazio que posso cavalgar nele. Seja bom. Assim que puder eu pago.”(4)
Embora o carvoeiro não o ouça bem, sua mulher, contrariamente, finge não escutar a súplica do pobre e permanece tricotando à beira da estufa. Mas a insistência é tanta que, a pedido do marido, vai até a porta de entrada, e a ela ele se dirige agora:
“Senhora carvoeira! Respeitosa saudação. Só uma pá de carvão, bem aqui no balde. Eu mesmo o levo para casa. Uma pá do pior carvão. Evidentemente pago tudo, mas não agora, não agora.”(5)

A interferência do Narrador (ou do personagem em discurso indireto livre), que vem agora subsequente à fala do Cavaleiro, é um golpe mortal nas suas pretensões, e vai preparar, como uma armadilha, a negativa da mulher do carvoeiro que viria posteriormente. Assim se estrutura o texto:
“Como as duas palavras ‘Não agora’ parecem um som de sino e como elas se misturam perturbadoramente ao toque do anoitecer que se pode escutar da igreja vizinha!”(6)

Novamente a mulher do carvoeiro se volta para junto da estufa, abandonando o homem lá fora. O carvoeiro agora, porém, ouve os chamamentos, tenta ajudar o homem (que via nele sua única esperança), mas a mulher o impede de todas as maneiras e o convence a ir-se deitar por causa de uma tosse.

Vou buscar nas meditações do diário de Kafka um intervalo para este conto, das quais bem poderia ter derivado sua massa ficcional:
“O verdadeiro caminho passa sobre uma corda que não está estendida no espaço, mas quase ao rés do solo. Parece destinada a fazer tropeçar e não a ser percorrida.
Há dois pecados humanos capitais dos quais derivam todos os outros: a impaciência e a preguiça. Por causa da impaciência, foram expulsos do Paraíso. Por causa da preguiça não regressam lá.” (7)

De volta ao conto, estamos no final, quando o Cavaleiro se desespera num apelo inútil que Kafka traduz por meio de uma linguagem propositadamente infantilizada:
“Você é malvada! Pedi uma pá do pior carvão e você não me deu.”(8)

A derradeira fala do Cavaleiro – tomando as rédeas da narração – interpreta o início de sua nova ‘viagem’, para penetrar definitivamente no território do próprio mistério kafkiano que finaliza a história:
“E com isso ascendo às regiões das montanhas geladas e me perco para nunca mais.”(9)

Referências bibliográficas:
1 Kafka, Franz. O cavaleiro do balde. Trad. Modesto Carone. In: Folha de S.Paulo, São Paulo, 22.10.1995, p. 8.
2 Esse conto foi teatralizado por mim em 1998 e apresentado por alunos de Letras na FIC, em Cataguases, com o título de O Cavaleiro do Sr. K, sob a direção de Carlos Sérgio Bittencourt. A protagonista era a acadêmica Denise Mathias.
3 Kafka, op.cit., p. 8.
4 Ibid..
5 Ibid.
6 Ibid.
7 Idem. Antologia de páginas íntimas. Trad. Alfredo Margarido. Lisboa: Guimaraes Editores, s/d, p. 171.
8 Idem., op. cit., p. 8.
9 Ibid., p. 8.



Sonia Regina Tinoco - efeitos de som.

11/12/2012

CAMPO DE POUSO I (conto)

(desenho de Zeluca - José Lucas Ferraz)

“Às vezes também penso, e imagino, que o que me dá realmente este enjoo constante é o movimento de rotação da Terra.”
“[...] cheguei até à beirada do planeta e olhei pra baixo. Sabes que não tinha nada lá? [...]” (Lecy Delfim Vieira)



KJ-1 tremera ao acordar. Num jato, estava no banho e preferira não pensar. Como se pudesse estar à meia-luz dos fatos e esquecer tudo. Espanejar a memória. Desligar o painel como na vídeo-tela. Escurecer por dentro. Fim.

As cortinas de par em par na torre: abertas agora por um botão. KJ-1 vê a noite, quase refeito. Ele sustenta náuseas de tempos que se acumularam em fatias de bolo. Por isso foi que tremeu, num susto, em lances de sonho.

Esses transportes à outra realidade haveriam de ser sempre mal lembrados. Não dera jeito de se livrar da memória ainda, como também dos sonhos rápidos. Num segundo, vira YU-15, NO-3 e WRE-17, figuras embaçadas de épocas passadas e ruins.

Das alturas da torre em que mora e pela vista magnética aos seus olhos, um grande setor do Campo de Pouso parecia fantástico demais para ser visto. Como o que havia acontecido em sua vida anterior.

Pontos luminosos no horizonte, brilhos de outras torres mais distantes, um jato puro passando, o violeta saído de cores difíceis de se descrever, no ar. Nuvens-flocos mais escuras que claras. Tonalidades no céu, na pré-manhã, noite ainda. Silêncio natural. Focos de luz relanceando vez ou outra.

Ele fora para ali recentemente, mas como diferia de outras eras, esse tempo.
Aquele outro formava um compartimento estanque com espaços marcados e horas definidas.

KJ-1 passara pela colônia de estímulos e fizera primeiro um tratamento de adaptação.
No Campo de Pouso, agora aguardava as reações e partiria para ‘novas tendências’, como haviam previsto os seus iniciadores. Para os técnicos do KRJUYC talvez essa fase de transição e a simples colocação no Campo pudessem levar KJ-1 a um plano melhor, e talvez nada mais fosse necessário, devido ao nível de seus conhecimentos. Havia sido um especialista em ficção científica, um indivíduo sensível.

As alterações na memória levaram, porém, KJ-1 a uma preocupação maior. Depois das técnicas iniciais, aprendera o médium-tônus-ócio. E criara um vazio interior indefinível. Não poderia dizer que fosse bom ou ruim. O certo é que KJ-1 voltara a um estágio pré-cultural e as coisas ficaram distantes e desinteressantes.
Os olhos de KJ-1 não saberiam perguntar mais nada: as torres onde morava fechavam-se numa solidão de régua e compasso.

Há muitos dias que não ligava a vídeo-tela. Não lhe interessavam as notícias, a ludo-arte ou o make-messages. Estava vivendo ainda do mal, ao sabor, no entanto, de uma esteira de tecnologia e lazer, como os demais naquele Campo. Por vários dias, andou lentamente em seu life-room. Os olhos fixos no grande visor da torre.

Agora começara a sentir novamente. Não eram bons sinais para quem viera de lutas psicológicas antigas e pensara estar fora de um tempo-espaço convencional. Por certo não havia lugar mais para angústias e problemas individuais. Isso o assustava ainda.
E internamente KJ-1 já estivera preparando terreno para uma saída dessas, desde que passara a ter contato com o pessoal do Campo de Pouso.

O psicológico só beneficia tiranias mentais – pensara certa vez. Blasfemou para o ar. E o éter lá fora, no nível das torres, parecia diluído e filtrado, como nas galáxias que aprendera a ver na tela, em horas variadas. “Estrelas natimortas”, “a fria constelação do Touro”, tudo lembrava um poema de Faustino. Bahh!!! Velhas ideias.
De repente vê os limites da noite na Terra, em confronto com as imagens pretas de uma visão extraterrena.

E, na vídeo-tela, aos poucos, seu decifrador de ideias traduz, em filamentos, um estranho esboço visual que logo reconhece claramente. Não pode acreditar no que vê.
Então KJ-1 – ao mesmo tempo que parece ensaiar as palavras – codifica o pensamento, e a máquina imediatamente recebe seus impulsos, mostrando no visor as primeiras frases de um longo texto em que se vê mergulhar:

Campo de Pouso, 21 de janeiro de 1974.

11/02/2012

PRIMAVERA INDÍGENA

(desenho de Ariana)


Massacre do sonho guarani.
Mais saques no canto bem aí.

Índio: – Toda a terra era minha.
Fazendeiro: – Eu cheguei primeiro.
Guarani: – Mas eu já tava aqui.
Fazendeiro: – Ri melhor quem ri por último.

Federação Racional do Ímpio – Fundai.

Índio: – Ensinei o branco a tomar banho.
Fazendeiro: – Não penso em coisas de antanho.

Regularização de terras indigentes.

Índio: – Mortes não apuradas.
Fazendeiro: – Sorte não invejada.

Remarcação de preços na reserva.

Índio: – Aqui é a morte coletiva.
Fazendeiro: – Aqui é o corte seletivo.

Comissão de Rejeitos Humanos.

Índio: – Morreremos por nossa terra.
Fazendeiro: – Enterraremos em sua própria serra.


02-11-2012

10/22/2012

CORDEL: UM GÊNERO LITERÁRIO?

(Capa Edna A.W.Gabriel, a partir de xilogravuras de José Francisco Borges)(imagem da capa divulgação)

A literatura de cordel é um gênero popular que conta, em versos, estórias de batalhas, crimes, amores, eventos políticos e sociais, nacionais ou mundiais. Também narra desafios entre cantadores.

Esse tipo de poesia surgiu em Portugal no século XIX, criada e lida por gente da classe média (advogados, professores, militares, padres, médicos, funcionários públicos). Eram livros impressos em papel barato, a preços módicos e pendurados em barbante (daí o nome cordel).

Incluía autos, farsas, contos fantásticos, moralizantes, peças teatrais, hagiografias e aparecia em forma de poesia (verso) ou teatro. Esses livros eram adquiridos por pessoas letradas e lidos para pessoas não-letradas.

No Brasil, a princípio receberam o nome de folhetos, impressos em tipografias, mas depois passaram a ser produzidos em tipografias do próprio poeta (sistema mais prático e econômico) e ganharam a denominação de Cordel.

Entre os iniciadores no Brasil estão Leandro Gomes de Barros (Branca de neve e o soldado guerreiro, Juazeiro, 1978) (Vida e testamento de Cancao de Fogo; S.Paulo, Luzeiro, s.d.) (Peleja de Manoel Riachão com o diabo; S.Paulo, Luzeiro, s.d.), em 1893, e Francisco das Chagas Batista (1902). O período áureo da literatura de cordel foi até os anos de 1920.

A venda dos folhetos era feita pelo Correio ou nas ruas; mais tarde é que passaram aos mercados públicos e comercializados pelos próprios autores ou por agentes revendedores.

Na década de 20 estabeleceram-se as características do cordel:
• 8 a 16 páginas, para as pelejas (ou desafios) e folhetos de circunstância;
• 24 a 56 páginas, para os chamados romances.

Nas suas histórias, ainda que alguns nomes e situações lembrem outras terras – ao falar de príncipes, reis e princesas – a ambientação mostra fazendeiros, peões e moças do sertão nordestino, com nomes e características próprias.

Algumas histórias contêm o mote, tema em forma de verso que é apresentado a um cantador durante uma disputa com outro.

Há também os folhetos de circunstância ou de época, que narram acontecimentos políticos e assombrações; os ABCs – poemas narrativos com as letras do alfabeto; e os romances, as chamadas ´histórias de antigamente´, sem data fixada.

Muitas dessas e outras informações estão em Cordel na sala de aula, de Hélder Pinheiro e Ana Cristina Marinho Lúcio, editado como livro de bolso pela Livraria Duas Cidades. A obra faz parte da coleção Literatura e Ensino e vem cobrir uma lacuna num setor em que as publicações são raras e as informações também.

10/10/2012

AFFONSO ÁVILA E O SENTIMENTO DO MUNDO




Hoje recebi a notícia do falecimento do maior poeta mineiro da atualidade: Affonso Ávila.

Um tímido, um esquivo que “nunca adulou a Dona Glorinha”, como diria o nosso Rosário Fusco, e talvez por isso jamais se alçou a alturas midiáticas, como se faz hoje habitualmente.

Em 2005, quando ele completava 80 anos, a UFMG, talvez numa tardia homenagem, editou sua obra completa com o título de Homem ao termo (poesia reunida 1949-2005).

São 56 anos de produção intelectual constante, a deste raro mineiro que raramente saía de Minas. A bela edição da UFMG tem introdução de Benedito Nunes e uma carta-posfácio de Antonio Candido, dois pesos-pesados da teoria e da crítica literária.
O volume se inicia com "O açude" e se encerra com "Mínimo", entre os quais se desenrola extensa lista de livros memoráveis como Carta do solo, Código Nacional de Trânsito, Cantaria barroca, para citar os de minha preferência maior.

A atividade de Affonso Ávila engloba também a de pesquisador, ensaísta e profundo conhecedor do Barroco, mas é na poesia que mais se distinguiu o nosso autor, tendo construído uma obra que começa com sonetos bem realizados e encontra seu território na permanente experimentação com a linguagem.

Pelo conjunto da obra, poderia ser considerado um dos maiores poetas brasileiros contemporâneos (ao lado de Augusto de Campos, Wlademir Dias Pino e Ferreira Gullar), no entanto, para usar as palavras de outro mineiro (Carlos Drummond), Affonso Ávila sempre teve a “cabeça baixa”, e, por outro lado, um posicionamento crítico em que ressaltam o equilíbrio e o “sentimento do mundo” que os só grandes poetas têm.
Para os nossos leitores, apenas um flash poético de Cantaria barroca:

BECO DO ESCORREGA

& a gente pensa que está subindo
& está é descendo
& a gente pensa que está sabendo
& está é descrendo
& a gente pensa que está somando
& está é diminuindo
& a gente pensa que está salvando
& está é destruindo

10/07/2012

NOS PORÕES DA MENTE


Considerado um dos mais importantes autores da literatura russa no século XIX, Dostoiévski, atormentado pelo pai despótico na infância e mais tarde pela epilepsia, produziu intensa obra ficcional.

O jovem Dostoiévski, nascido em Moscou em 1821, chegou a enfrentar a prisão e o degredo na Sibéria por ter participado em 1849 de um levante contra o czar Nicolau I. Lá casou-se com Maria Dinitrievna e escreveria o seu primeiro clásssico: Recordações da casa dos mortos.

Dez anos após, de volta a São Petersburgo e com novas ideias políticas, dedicou-se ao jornalismo e publicou Crime e castigo – sua mais célebre novela – e Noites brancas.
Apesar da venda dos livros, endividou-se com a doença da mulher, a quem abandonou para seguir para o exterior com a estudante Polina Súslova. Consegue trabalho na França, e gasta o dinheiro no jogo. Com remorsos pela sorte da esposa, deixa a amante e volta à Rússia, onde enfrenta situação pior: repressão, encargos e doenças na família.

A epilepsia e a angústia atacam-no. Nesse período concebe a novela Notas do subterrâneo, livro publicado no Brasil pela Editora Bertrand-Brasil em tradução de Moacir Werneck de Castro, capa de Victor Burton.

Reflexo direto de sua precária condição pessoal, o livro é um mergulho na mente humana, onde o autor vai buscar no pessimismo e na dor material para a obra, da qual transcrevemos alguns fragmentos:

“(...) não somente não mudamos, como simplesmente não podemos fazer coisa alguma. Seguir-se-ia, por exemplo, como resultado de uma consciência apurada, que ninguém se censura por ser um canalha, como se houvesse para o canalha algum consolo no fato de compreender que é realmente um canalha”. (p. 15)

“E agora termino minha vida no meu canto, escarnecendo de mim mesmo com o inútil e despeitado consolo de que um homem inteligente não pode vir a ser nada de sério desde que o só o idiota o consegue. Sim, no século XIX, um homem inteligente deve, está obrigado moralmente a ser, em essência, uma criatura sem caráter.” (p. 11)

Quando preparava para seu editor o livro Crime e castigoO Cidadão, torna-se um renovador do jornalismo. Quando publica Os possessos e Os irmãos Karamázovi já era o maior autor russo do momento.

9/28/2012

SOBRE UMA "MÁQUINA DE NARRAR"


Com a publicação de Tempo reencontrado, de Alexandre Eulálio (1932-1988), a Editora 34 em parceria com o Instituto Moreira Salles corrige uma injustiça que há muito vem sendo feita a esse grande crítico e teórico brasileiro.
Organizado pelo estudioso Carlos Augusto Calil, o volume de 269 páginas reúne ensaios sobre literatura à luz das artes plásticas, tendo como pano de fundo o Oitocentos brasileiro e o início da modernidade.

Abre com um panorama do século XIX e divide os capítulos com ensaios sobre diversificados autores como Lucio de Mendonça, Gonzaga Duque, Henrique Alvim, Cornelio Penna e Jorge de Lima, sempre equilibrando pintura e letras.
Reservo meus comentários, porém, para o capítulo 5 em que se destaca o estudo sobre Esaú e Jacó (1904), um romance tardio de Machado de Assis, e geralmente colocado um pouco abaixo da celebrada tríade formada por Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro.

Sob o subtítulo “Narrador e personagens diante do espelho”, Alexandre Eulálio classifica a obra Esaú e Jacó como a mais complexa e ambígua da maturidade machadiana e aquela em que a parábola e o apólogo – formas preferidas pelas quais o autor aborda sua ficção – se apresentam de maneira diferente das demais obras, deixando a história de Pedro e Paulo nas mãos de um leitor atônito para “entender” a temática em meio aos elementos narrativos que vão sendo propostos.

As célebres conversas do narrador com o leitor aqui acontecem como nos outros romances, mas “rompendo com a convenção do gênero no seu tempo, o narrador fictício, delegado do autêntico criador, e seu porta-voz, abre o processo mesmo da criação, ao pretender fazer-se acompanhar do leitor às raízes do escrever.” (p. 112) Não sem deixar transparecer a força da criação literária, a crítica à ficção e os embaraços que pode trazer o caminho ficcional e principalmente a crise pela qual a narrativa já estava passando dentro do Realismo. Desse modo, por essas e outras características, Machado de Assis se coloca na vanguarda da narração de ficção de seu tempo.

Eulálio lembra, a propósito, como o narrador, seguindo o “gosto floreal do modern style [....] cria uma moldura caligráfica que ao mesmo tempo separa e integra, num movimento de ida e volta, o absoluto da criação romanesca e a relatividade do seu existir em livro.” (p. 120) As ações do livro vão sendo acompanhadas, por um lado, pela escrita do diário pelo Conselheiro Ayres e, por outro, constroem a narrativa ajudadas pelos comentários junto ao leitor.

O caso dos gêmeos Pedro e Paulo – cerne de Esaú e Jacó – lembra a Alexandre Eulálio o conto “O espelho”, do próprio Machado, e me lembra outro conto – “Trio em lá menor” – em que a protagonista Maria Regina não se decide entre dois pretendentes e termina em longos pensamentos em busca do absoluto. É a dialética do duplo, ou de duas almas que aparecem divididas pelo eterno problema existencial e trabalhadas em forma de metáfora na ficção machadiana.

O artigo de Alexandre Eulálio sobre o romance de Machado, por si só, vale pelo livro todo, dá oportunidade ao leitor de entrever o talento crítico-criativo do autor e me lembra a frase de Luiz Costa Lima: “O crítico não é nada se não tem, como o poeta, o impulso ficcional”. Eulálio tinha.
Na dúvida, porém, “o melhor é ler com atenção”. Assinado: Machado de Assis.

9/11/2012

A MULHER NO SÉCULO DAS LUZES

Émilie Émilie - a ambição feminina no século XVIII
Elisabeth Badinter
Trad. Celeste Marcondes
Paz e Terra/Discurso Editorial/Duna Dueto.


O que mais se identifica com o século XVIII europeu do que a máxima de Hegel: “Nada de grande se faz jamais sem paixão”? Assim, tudo que, em tempos passados, representava equilíbrio e indiferença às vicissitudes da vida foi afastado em prol de uma nova moda que era viver sob a ótica do amor e das emoções.

O Setecentos trouxe não só o progresso das ciências, a Revolução Industrial, a Ilustração e a Encyclopédie, como o nascimento do romance como gênero literário popular em substituição às liras pastoris, epopeias e histórias de feitos virtuosos.

Por outro lado, o poder dos reis ainda no auge e a aristocracia brilhando nos salões retratam tanto esse século quanto o início de uma classe em ascensão: a dos burgueses.

Como tempero a essas transformações que iriam alterar o curso da história, a vida de duas mulheres notáveis – as primeiras pensadoras – mexe com a nossa curiosidade ao ler a obra de Elisabeth Badinter Émilie Émilie - a ambição feminina no século XVIII, edição tríplice da Paz e Terra, Discurso Editorial e Duna Dueto.

Tendo como pano de fundo o Século das Luzes, a história de duas damas da aristocracia francesa – Madame de Châtelet e Madame d’Epinay, ou simplesmente Émilie e Louise – é magnificamente descrita no ambiente de sedução e de lances de fingimento e coragem na Corte.

A historiadora francesa Elisabeth Badinter deu ao seu trabalho, por um lado características de pesquisa séria, por outro uma tonalidade romanesca que o torna de sabor inigualável para leitores exigentes de todas as idades e gostos. Ler este livro é penetrar nos salões imperiais dos tempos do Iluminismo.

9/10/2012

SOBRE LUIZ BACELLAR

O texto a seguir é uma homenagem feita pelo escritor Adrino Aragão ao grande poeta amazonense Luiz Bacellar, falecido no dia 08-09-2012 aos 84 anos.



Carpintaria poética

Adrino Aragão


Luiz Bacellar é, dentre os expressivos poetas amazonenses, o mais aclamado pelas elites, estudantes e populares de Manaus. Mas, ao contrário do que possa parecer, sua poesia não é tão simples, de fácil consumo. Artesão da palavra, carpinteiro do verso, Bacellar constrói cada poema com rigor formal e forte densidade temática, numa linguagem refinada, primorosa.
Como explicar o sucesso de um poeta sério como Luiz Bacellar que não faz poesia em função do mercado? Mistérios da poesia, da arte? Talvez. Quem sabe uma resposta ao mercado do livro que aí está: a boa literatura brasileira existe; há, sim, leitores para a poesia, o conto, o romance, a novela de nossos escritores.
A verdade é que são 50 anos de trabalho poético de Luiz Bacellar. Frauta de barro, seu livro de estreia, na correta afirmação do poeta e crítico literário professor Tenório Telles, “é um marco na evolução da literatura que se faz no Amazonas”.
De formação clássica e espírito de renovação estética modernista, Bacellar pôde construir, com admirável liberdade (já a partir desse livro) algo de novo na dicção lírica de sua poesia. E que haveria de se ampliar em livros posteriores. Canta o poeta em “Variações sobre um prólogo”: “Em menino achei um dia/ bem no fundo de um surrão/ um frio tubo de argila/ e fui feliz desde então; // rude e doce melodia/ quando me pus a soprá-lo/ jorrou límpida e tranquila/ como água por um gargalo. // E mesmo que toda a gente/ fique rindo, duvidando/ destas estórias que narro, // não me importo: vou contente/ toscamente improvisando/ na minha frauta de barro.// É o tema recomeçado/ na minha vária canção.”
Enquanto muitos destroem o passado com a ânsia de criar o novo, o moderno, o poeta Luiz Bacellar mantém forte diálogo com a tradição, elege a memória como tema em muitos de seus textos poéticos. Sem saudosismos. O passado tem o sentido de memória, de registro - seja de denúncia ou crítica (quase sempre bem-humorada) contra o silêncio do descaso, do abandono, da “insanidade de um presente” que flagela e aniquila as fontes de nossa história. Como nos versos de “Balada da rua da Conceição”: “Vão derrubar vinte casas/ na rua da Conceição./ Vão derrubar as mangueiras/ e as fachadas de azulejo/ da rua da Conceição./ (Onde irão morar os ratos/ de ventre gordo e pelado?/ e a saparia canora da rua da Conceição?” O poeta, por vezes, estende o olhar sobre gentes humildes, os esquecidos, como em “Lavadeiras”, poema do mais fino lirismo, comparável a de um Jorge de Lima: “A roupa nos varais panda flutuando,/ com seus laivos de anil coando a brisa,/ até parece ávida nau cortando/ o mar azul que a leve espuma frisa.// O vento timoneiro vai guiando/ e o sol nas bolhas de sabão se irisa/ enquanto as lavadeiras vão cantando/ a torcer e a bater na tábua lisa”. Aliás, como um Midas, Bacellar consegue transformar em filigranas de poesia as coisas mais comuns, por exemplo, um simples isqueiro, vejam: “Se, na pedra, acordo estrelas/ com um golpe do polegar,/ a chama, só para vê-las,/ já se levanta a bailar”.
Frauta de barro tem ainda outro mérito. Deu ao poeta Luiz Bacellar o prêmio Olavo Bilac, da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro (1959). Na comissão julgadora do concurso estavam dois dos maiores poetas brasileiros, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Pode haver reconhecimento maior que este, para qualquer escritor?
Mas Luiz Bacellar não é poeta de um livro só. Outros foram publicados. Cada um deles revela, de modo surpreendente, a performance desse poeta que tece poesia de altíssima qualidade.
Sol de feira é outro grande momento literário de Luiz Bacellar. Para início, o tema é originalíssimo, senão inusitado, na poética brasileira. Professor Ernesto Renan Freitas Pinto considerou o livro um “pomar real” que “nos ensina a admirar e saborear a rica coleção dos frutos da terra”. Vejo-o como telas do mais belo impressionismo. Mas, às vezes, parece escorrer, do rondel de cada fruta, um sumo mágico de canções: é quando me sinto arrebatado pelos acordes de uma sinfonia de Bach ou Handel. Por que não de Villa-Lobos? Como nos versos de “rondel da pitanga”: “Gracioso arbusto/ de folhas breves/ todo adornado/ de frutos leves/ como as caboclas/ do meu torrão/ e as notas loucas/ do meu violão// rubras miçangas/ rubis talhados/ de viva cor/ sois vós pitangas/ cristalizados/ beijos de amor”.
Há mais, muito mais. Por exemplo, um belíssimo poema musical longo, dividido em 33 partes – ou, como declara o poeta, sonata em si bemol menor para flauta, fagote, clarinete e oboé. Inclusive uma boa safra de haicais, em que o poeta reafirma o seu talento criativo. “Rajadas de chuva/ sobre o teto de alumínio:/ sons da lua cheia.” “Como um prisioneiro/ a lua me espia pelas/ grades do banheiro.” “Água resmungona.../ No tanque limoso/ o pulo da rã.” (Bashô)
A Editora Valer publicou (1998) as obras de Luiz Bacellar, reunidas em um só volume, com o título de Quarteto.
Vale a pena ler Luiz Bacellar. E conhecer, através de seus poemas, a trajetória luminosa do poeta amazonense, que atingiu o estado de excelência na poesia brasileira. Mais que isto. Ultrapassou a barreira do preestabelecido: ao lidar com elementos tradicionais, aprofunda o exato conceito de modernidade.

(foto cedida por Rogelio Casado)



8/30/2012

O APELO DO ORIENTE


Entre as histórias que povoaram a infância de boa parte da minha geração, encontram-se os contos de Malba Tahan (1895-1974), esse professor brasileiro que se especializou em cultura oriental, geralmente ligada a problemas de matemática.
Lia com encantamento suas estórias pontilhadas de mistério, em que se encontravam sábios, leões, xeques, gatos siameses e princesas, todos personagens de um texto que ressaltava a simplicidade e a concisão narrativa.
Lembro-me de Paca tatu, Maktub e principalmente de O homem que calculava, o mais famoso de seus livros. Acima da curiosidade dos problemas aritméticos ali propostos, atraíam-me os temas inusitados e a maneira leve e interessante como Malba Tahan escrevia.
O tema me remete a outro sonhador com o Oriente – Jorge Luis Borges – que afirma em seu livro Sete noites:

“A gente tem vontade de perder-se em ‘As mil e uma noites’, pois sabe que, se entrar nesse livro, é capaz de esquecer nosso pobre destino humano”.

Citado por Borges, o inglês-indiano Kipling acrescenta algo não menos precioso:

“Se ouvires o apelo do Oriente, já não ouvirás outra coisa”.

Pode ser encontrada nas livrarias uma compilação dos melhores trabalhos de M. Tahan intitulada Contos e lendas orientais, edição ilustrada da Ediouro, que, além de entretenimento, constitui boa literatura para leitores de todas as idades exercitarem sua imaginação e desenvolverem suas técnicas de escrever.

8/28/2012

AS VISITAS DE UM BRITÂNICO ILUSTRE

(Na foto, o crítico inglês John Gledson em palestra na UERJ, em 2006).

John Gledson é um brasilianista inglês que descobriu a nossa literatura e suas pesquisas deram bons resultados.
Inicialmente veio ao Brasil para estudar a obra de Carlos Drummond de Andrade resultando no livro Poesia e poética de Carlos Drummond de Andrade. Apaixonou-se tanto pela literatura brasileira que resolveu ir à base, ninguém menos do que Machado de Assis. Novamente acertou o inglês, que não para mais de estudar esses dois autores fundamentais, um da época do Realismo, outro do Modernismo.
E agora nos surpreende com Machado de Assis - ficção e história (Editora Paz e Terra) e Influências e impasses - Drummond e alguns contemporâneos (Companhia das Letras).
O primeiro toque de Gledson está no seu estilo de escrever: rodeando o tema, vai cativando o leitor por meio de uma escrita simples e envolvente, em que estudado e estudioso se veem lado a lado, e literatura e história vão recebendo paulatinamente tintas e cores vindas do ficcional e da pesquisa que o tempo e o espaço fornecem.
No livro sobre Machado, várias considerações me chamaram a atenção, especialmente as que partiram da ‘descoberta’ do romance Casa velha (1885), obra situada entre Brás Cubas (1881) e Quincas Borba (1886) e à qual a crítica brasileira nunca deu maior importância.
No tocante ao livro sobre Drummond, Gledson se aventurou num terreno em que nossos críticos pouco pisaram: o do comparativismo e das influências, o que torna sua pesquisa mais interessante e diferenciada. O crítico busca autores nacionais e estrangeiros que tiveram alguma parcela de contribuição na obra do poeta de Itabira, de Bandeira a Cabral, de Jules Supervielle a Valéry.
Os caminhos seguidos e as marcas deixadas aqui e ali por poetas, bem como o desempenho e o aproveitamento de CDA são ‘perseguidos’ pelo pesquisador com minúcia de detetive e mãos de conhecedor da matéria, num trabalho que, aos olhos do leitor, qualifica ainda mais as obras de Machado de Assis e Carlos Drummond pelo que elas têm de universal e – por que não dizer? – de eterno.

8/21/2012

A SUPOSTA INFERIORIDADE



Há certos artigos, poemas e trechos de livros que gostaríamos que todo mundo lesse, e nessa vontade às vezes os levamos aos amigos mais interessados.
Um desses textos que sempre me vêm à mente intitula-se "Sobre o óbvio", e foi escrito por Darcy Ribeiro na revista Civilização Brasileira no final dos 70. Nele, Darcy dá uma aula de inteligência e massacra o velho pensamento dominante que coloca a nós, centro e sul-americanos – mestiços – como supostamente inferiores aos nobres habitantes do hemisfério norte. Nosso antropólogo comenta e desmoraliza a balela de que, se tivéssemos sido colonizados por ingleses, alemães ou outra raça ‘superior’, estaríamos hoje em pé de igualdade com os norte-americanos.
São preconceitos que até hoje querem nos impingir, como os da inferioridade das mulheres, dos negros, judeus e outros em que as pessoas infelizmente acreditavam.
O artigo é crítico, irônico, argumentativo, e levanta todos os pontos da questão, desde aquele início de colonização até os poderes de uma classe que, a partir do descobrimento, domina a cena brasileira. Da sua leitura, sai-se de alma lavada.
Um livro que de certo modo complementa a matéria é O avesso e o direito (Trad. Valerie Rumjanek, Rio de Janeiro, Record, 1995), do franco-argelino Albert Camus, que no prefácio abre para uma constatação redentora:
“Encontram-se muitas injustiças no mundo, mas existe uma da qual nunca se fala, que é a do clima”. (p. 20)
Isso nada mais é que outra fixação em que tentam nos manter; a de que as pessoas que vivem em climas quentes são inferiores, preguiçosas e não lutam pela vida.
Nas recordações infantis de Camus estão as mais belas descrições de sua terra – a Argélia – e tantas outras assertivas esclarecedoras:

“[...] fui colocado a meio caminho entre a miséria e o sol. A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na história; o sol ensinou-me que a história não é tudo”. “De qualquer forma, o belo calor que reinou sobre minha infância privou-me de qualquer ressentimento. Eu vivia na adversidade, mas, também, numa espécie de gozo. Sentia em mim forças infinitas: bastava, apenas, encontrar seu ponto de aplicação. Não era a miséria que colocava barreiras a essas forças: na África, o mar e o sol nada custam. A barreira está mais nos preconceitos ou na burrice”. (p. 18/19)

(foto do escritor Albert Camus)




8/06/2012

VIAGEM À BABILÔNIA


Nascida em Worcester, nas imediações de Boston, a menina Elizabeth Bishop (1911-1979) perdeu os pais muito cedo e foi criada pelos avós, que apenas conseguiram remediar seus traços de solidão, pois esta a acompanhou por toda a vida.
Ajudada pelo pecúlio deixado pelo pai, pôde concluir a faculdade, mudando-se depois para Nova York. A vida solitária constantemente a impeliu para as viagens, por isso conheceu o Canadá, França, Itália, Marrocos e muitos outros países.
Com o primeiro livro publicado – Norte e Sul –, Elizabeth recebeu um prêmio literário, logo seguido de muitos outros, numa carreira literária de sucesso, especialmente de crítica.
Em Washington tornou-se consultora de poesia na Biblioteca do Congresso, contudo, nessa época, seus problemas maiores – o álcool e a depressão – quase a levaram ao suicídio.
Foi numa grande viagem em 1951 que esteve em alguns países da América do Sul, tendo se maravilhado com o Brasil, onde residiu por alguns anos ao lado de Lota, a companheira que conheceu aqui.
Em 1967, de volta aos EUA, dedicou-se ao magistério, lecionando em universidades como Harvard, contudo voltava sempre ao Brasil. Em contato com a literatura brasileira verteu para o inglês poemas de João Cabral, Drummond e Vinicius de Moraes.
Morreu em 1979, aos 68 anos, em Boston, e deixou obra valiosa, entre cartas, poemas e textos em prosa.
A poesia de Elizabeth Bishop pertence cronologicamente ao alto modernismo norte-americano, no entanto o grande domínio dos ritmos deu-lhe uma característica variada na composição poética.
Ainda que tenha demonstrado preferência por temas em que os lugares – sua geografia em particular – e o mundo dos animais se sobressaem, Bishop era uma poetisa voltada para o “eu”, às vezes com tendência surrealista e ora com traços de ironia.
A Companhia das Letras publicou "O iceberg imaginário e outros poemas", de Elizabeth Bishop, com seleção, tradução e estudo crítico de Paulo Henriques Britto.
Ali estão seus mais significativos poemas e, especialmente, um – “O ladrão da Babilônia” –, escrito quando de sua estada no Brasil, do qual extraímos o fragmento a seguir, que tem como tema os morros do Rio de Janeiro, onde a pobreza a impressionou sobremaneira:

O LADRÃO DA BABILÔNIA

Nos morros verdes do Rio
há uma mancha a se espalhar: são os pobres que vêm pro Rio
e não têm como voltar.

São milhares, são milhões,
são aves de arribação,
que constroem ninhos frágeis
de madeira e papelão.

Parecem tão leves que um sopro
os faria desabar.
Porém grudam feito líquens,
sempre a se multiplicar.

Pois cada vez mais gente
tem o morro da Macumba,
tem o morro da Galinha,
e o morro da Catacumba;

tem o morro do Querosene,
o Esqueleto, o da Congonha,
tem o morro do Pasmado
e o morro da Babilônia.
[...]

(publicado no jornal Cataguases)

7/13/2012

A ORALIDADE DE UM MESTRE

São célebres as conferências pronunciadas por Jorge Luis Borges em universidades europeias e americanas. Reunidas, algumas delas foram publicadas no Brasil, nos anos 80, pela Editora Max Limonad de São Paulo sob o título de Sete noites. Este livro, em termos de criatividade e qualidade textual, nada fica a dever às obras de ficção e de poesia do mestre argentino. Ali Borges aborda temas como: o pesadelo; a cabala, a cegueira, o budismo, entre outros.

Após a publicação, a partir de 1999, de suas Obras completas pela Editora Globo, em excelente trabalho editorial em quatro volumes encadernados, não pensei que teria mais oportunidade de ‘ouvir’ outros de seus textos ditos ‘orais’.
Mas eis que, por vias enigmáticas (borgianas, por certo), descobrem-se seis palestras perdidas, que haviam sido proferidas em inglês na Universidade de Harvard, em 1967-68, que a Companhia das Letras leva ao público com o título de Esse ofício do verso, organizadas por Calin-Andrei Mihailescu, em tradução de José Marcos Macedo (São Paulo: 2000, 159 p.).

Novos temas no mínimo diferentes: a metáfora; o narrar uma história; o credo de um poeta etc. O mesmo Borges – concentrado e livre; simples e erudito; poético e com uma memória prodigiosa ao citar trechos de livros sem recorrer a apontamentos, e já vitimado pela cegueira.

No capítulo “O credo de um poeta”, seus comentários sobre a literatura, em especial a poesia, são marca registrada de um modo particular de lidar com as palavras:

"(...) muitas coisas aconteceram comigo, como a todos os homens. Tirei prazer de muitas coisas – de nadar, de escrever, de contemplar um nascer do sol ou um crepúsculo, de estar apaixonado e assim por diante. Mas, de algum modo, o fato central de minha vida foi a existência das palavras e a possibilidade de tecê-las em poesia" (BORGES, 2000, p. 106).

Sobre a preocupação com o leitor, de que pouco se fala em Borges, no mesmo capítulo podem-se anotar fragmentos de refinada sensibilidade poética:

"Quando escrevo não penso no leitor (porque o leitor é um personagem imaginário) e não penso em mim mesmo (talvez eu também seja um personagem imaginário), mas penso no que tento transmitir e faço de tudo para não estragá-lo. Quando eu era jovem acreditava na expressão. [...] não acredito mais na expressão: acredito somente na alusão. Afinal de contas, o que são as palavras? As palavras são símbolos para memórias partilhadas. Se uso uma palavra, então vocês devem ter alguma experiência do que essa palavra representa. Senão a palavra não significa nada para vocês. Acho que podemos apenas aludir, podemos apenas tentar fazer o leitor imaginar" (BORGES, 2000, p. 121-2).

Se neste livro mais uma vez o leitor terá contato com uma literatura de alta expressividade (e – por que não dizer? – de inúmeras alusões), característica dos grandes escritores, poderá igualmente usufruir de um conhecimento mais profundo das coisas do mundo que se sintetiza numa só palavra: sabedoria. Que Borges sempre soube distribuir fartamente a todos que o leram e leem.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
BORGES, Jorge Luis. Esse ofício do verso. Org. por Calin-Andrei Mihailescu. Trad. José Marcos Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.