1/18/2014

AS HEROÍNAS FRÍVOLAS DE MACHADO DE ASSIS

 

                          O sonho, a idealização e (por que não dizer?) a frivolidade dos personagens femininos sempre foram ingredientes do Romantismo nos séculos XVIII e início do XIX. É só repassar as páginas de Alencar, Macedo, Bernardo Guimarães – para ficar só no Brasil –, ou folhear os romances de Alexandre Dumas, Camilo Castelo Branco, Dickens – fora do país – para confirmar isso.

            Aos heróis aventureiros, corajosos, perfeitos, correspondiam heroínas transpassadas de docilidade, beleza e ansiosas pelo cavaleiro (ou cavalheiro) gentil e destemido que lhes arrebatasse a mão.

            No Realismo, porém, essa caracterização feminina 'escorreu' para a frivolidade, funcionando para os escritores como crítica a um status social que não seria apenas a um posicionamento de inércia diante do mundo em evolução. A mulher passou a protagonista, e com ela o cultivo de uma personalidade fútil penetrou na temática dos melhores romances da época como Madame Bovary, Dom Casmurro O primo Basílio.

           Fútil, leviana, superficial, a mulher frívola se caracterizou como personagem realista que se coloca no meio da cena ficcional de maneira diferente do que ocorrera entre os românticos. Batendo firme na moral burguesa, os romancistas realistas, por diversas vezes, mostram a personagem feminina num quadro de traição conjugal e no vazio de um cotidiano repetitivo e sem finalidade; ela que antes já havia sido vítima de um casamento por conveniência tratado pelos pais com a família do noivo, sem o seu consentimento.
  
            Machado não poderia "passar batido" sem aproveitar esse modelo da época. Em seus romances, isso fica evidente na personalidade e no 'comportamento'  de Capitu, Virgília e Sofia. E nos contos, é tão costumeira a situação que os exemplos podem ser coletados facilmente, em meio à crítica à sociedade burguesa.

            No conto "O segredo de Augusta", logo na 2ª página, a protagonista se revela na voz do narrador: "Augusta vestia com suprema elegância; gastava muito, é verdade; mas aproveitava bem as enormes despesas, se acaso isso é aproveitá-las" (ASSIS, 1959, p. 85).

            É comum encontrar viúvas bonitas na ficção machadiana, invariavelmente marcadas pelo caráter frívolo. Mariana é uma delas, em "Três consequências": "Uma prima levou-a a uma das melhores modistas. D. Mariana disse-lhe o que queria: – sortir-se de vestidos escuros, apropriados ao estado de viúva. Escolheu vinte, sendo dois inteiramente pretos, doze escuros e simples para uso de casa, e seis mais enfeitados. Escolheu também chapéu noutra casa." (Idem, s.d., p. 208)

            Em "O caso do Romualdo", Carlota e D. Maria eram amigas e costumavam passear pela rua do Ouvidor para observar o movimento e fazer compras. Esta cena ilustra o tema: "D. Maria foi vestir-se e daí a pouco saíram ambas. Vieram à rua do Ouvidor, onde não foi difícil esquecer o assunto, tudo acabou ou ficou adiado. Contribuiu para isso o baile da véspera; a viúva alcançou finalmente que falassem das impressões trazidas, falaram por muito tempo, esquecidas do resto, e para não voltar logo para a casa, foram comprar alguma coisa a uma loja. Que coisa? Nunca se soube claramente o que foi; há razões para crer que foi um metro de fita, outros dizem que dois, alguns opinam por uma dúzia de lenços. O único ponto liquidado é que estiveram na loja até quatro horas. (Idem, s.d., p. 160)

            O tempero, porém, usado pelo autor para chamar a atenção para o tema das mulheres frívolas é visível. Mais uma vez a ironia bem conduzida por Machado vai direto ao alvo e torna a expressividade do seu texto tão relevante a ponto de apresentar a ficção de qualidade mais completa que a literatura brasileira já produziu.

Referências bibliográficas:
ASSIS, Machado de. O caso do Romualdo. In:______. Relíquias de casa velha I. 3 vol. São Paulo: Edigraf, s.d.
______. O segredo de Augusta. In: ______. Contos fluminenses I. 3 vol. São Paulo: Clube do livro, 1959.
______. Três consequências. In: ______. Relíquias de casa velha II. 3 vol. São Paulo: Edigraf, s.d.igraf, s.d.

1/15/2014

AO MESTRE, COM ADMIRAÇÃO (repostagem)


(Transcrição de uma crônica que escrevi para o jornal Cataguases, quando da inauguração, no Caic, da Biblioteca José da Silva Gradim) (na foto, Filomena, Dirce, eu, Imaculada e Ana Maria):

A noite prometia tudo, mas era destinada a poucos. Ou poucos puderam escolhê-la, porque no fundo de seu mistério havia um mestre e sua biblioteca. Estrelas tinham cunhado para si e para ele uma luz própria, especial.

O Caic, colocado estrategicamente no morro, parecia uma esfinge à espera de todos – os convidados. Nos olhos da diretora havia um novo brilho: Filomena sorria e aguardava a hora de repartir o segredo de tanto tempo – a Biblioteca José da Silva Gradim.

Esperávamos todos e era como não se esperasse ninguém. Contudo, mais uma vez o mestre se fez presente e os primeiros faróis e motores vazaram o silêncio e o breu, para se transformar em números de amigos, professores e aficcionados da língua e da literatura luso-brasileira.

Pequenos grupos começaram a se esquentar da noite fria na conversa animada. Célio e Ana Maria, Dirce, professor Luís, Imaculada, Betinha e Pedro Mendes, Hélia, Maria Lúcia e Paulo Miranda, Vasco e Filomena, eu e Sonia e outros ex-alunos, colegas e admiradores. O assunto rolava um só: o ineditismo e a raridade da homenagem. Finalmente, um evento cultural no sentido mais justo e profundo que se poderia imaginar em Cataguases.

Chegava a hora e subimos todos para o primeiro andar do Caic. Corredores e portas levavam a uma nova ordem de coisas onde a clareza e o despojamento incitam ao estudo e aos objetivos. No último vão, enfim, a biblioteca. Na parede de frente, o pôster da página inteira do Cataguases ampliada, onde se traçava o perfil do professor. Dirce, emocionada, descerra a placa em bronze: Biblioteca Professor J. S. Gradim. Filomena marca uma vitória na cultura cataguasense.

Saudações e apresentações. Célio Lacerda custa a colocar a voz no lugar, mas, quando consegue, as palavras são firmes, fiéis, quase perfeitas, daquelas que qualquer um de nós gostaria de assinar em baixo. O ambiente era gradiniano, em cor e forma, e em fundo também.

Lá fora o ar era tão frio que constrastava com o interior do prédio e de todos. As pessoas pareciam como que escolhidas para estar ali. No céu de junho, poucas estrelas arriscavam um brilho e lá dentro apenas um vulto parecia passear entre nós e os livros, lembrando os textos e tempos de Garret, Herculano, Machado e Camões – o professor Gradim e sua poderosa voz ressoando verbos, declinações, supinos e particípios do futuro, poemas e contos fantásticos.

1/14/2014

MUITO ALÉM DA 'CORTINA DE FERRO'


Hoje poucos devem-se lembrar da expressão “Cortina de Ferro”, utilizada pelo Ocidente para caracterizar negativamente o bloco dos países socialistas da Europa Oriental, nos tempos da Guerra Fria que envolveu Estados Unidos e Rússia (ex-União Soviética). Ela indicava uma espécie de separação virtual entre o mundo “livre”, capitalista, e as nações “comunistas”. O próprio significado da expressão já denota o grau de mistério e terror que a propaganda anticomunista procurava infundir aos povos subdesenvolvidos (em especial) com relação aos países socialistas.

Foi nessa época –1955 – que Francisco Inácio Peixoto e sua mulher dona Amelinha fizeram uma viagem à antiga União Soviética e à Tchecoslováquia, e na volta não puderam passar pelos Estados Unidos, devido ao visto carimbado em seus passaportes pelos ‘comunistas’. Foi necessária essa introdução, especialmente para os mais jovens, que não viveram os anos da Guerra Fria.

Dessa viagem resultou o livro "Passaporte Proibido" (Rio de Janeiro: Simões, 1960), escrito e publicado cinco anos depois por Francisco Inácio, e um dos melhores roteiros de viagens que já li. Através dele, o leitor conhece a paisagem e algo do povo russo, dos "espiões" nas esquinas moscovitas à comida, das viagens de trem à amabilidade e aos hábitos das pessoas que o casal encontrou.

Mas, além de tudo, o ponto alto do livro é a sua concretização como texto. Fica-nos sempre na lembrança a imagem daqueles livros de que não se pode retirar ou acrescentar uma linha sequer. Um texto essencialmente poético, onde fina ironia faz compasso com a divisão perfeita dos capítulos e os diálogos com as observações sempre pertinentes sobre o que o autor viu e anotou. A leitura do livro, prazerosa e enriquecedora, nos revela não só a terra soviética e a tcheca, como também a finura de um exímio estilista.

No primeiro fragmento selecionado, a descrição rápida do hotel em Praga deixa entrever a ironia com que o autor responde aos apelos da antipropaganda disseminada pelo ocidente contra os ‘inimigos’ do leste: “No Hotel Alcron, a tarde é triste. No grande salão sombrio, há mulheres suspeitas e, positivamente, conspiradores internacionais que aumentam nossa emoção." (p.10)

No capítulo “No futebol, com Ludmila”, quando vão a um estádio para ver um jogo, a frase descreve o amor pela paz universal, sintetizada na palavra “Mir”, que em russo significa “Paz”: "(...)desfraldando bandeiras e flâmulas. Numa delas, em muitas delas, em letras vermelhas, a palavra nunca esquecida: "Mir". Paz, asas."(p. 60)

Em visita a uma adega e na recepção calorosa que receberam: "Mais safras houvera, mais prováramos, pois a adega é fria; a hospitalidade, antiga; as obras, demoradas e o vinho, um veludo". (p. 158) "Dos sorrisos, entretanto, optamos por aquele que umedece negros olhos caucasianos."(p. 76)

No retorno à Tchecoslováquia, Peixoto narra, em Bratislava, o jantar com o escritor Wladmir Olerini, e, depois das conversas iniciais à mesa, aproveita para fechar o diálogo com esta observação: “Quanto ao Danúbio, já dormia. Tarde, não há mais nada a fazer, senão jantar e dormir também.” (p. 165)

Na despedida de Bratislava, volta a referência ao Danúbio: “Primeira descoberta: o Danúbio não é azul. Suas águas são cinzentas, como se rolassem num leito de tabatinga.” (p. 171)

O turista, muito longe da terra natal, descobre no comércio a lembrança brasileira, em pequeno capítulo denominado “Saudade, apenas”: “A mercearia exibe, na vitrina, os dois saquinhos de café com as indicações ‘Minas’ e ‘Santos’, trazendo secretas e profundas nostalgias às almas dos turistas.”(p. 14)

A breve visita a Praga, na atual República Tcheca revela o cumprimento carinhoso à velha cidade: “Estes, a quem ausência e regresso repetidos já conferem sentimentos de cidadania, te cumprimentam: – Bom dia, cem torres! Moldau, bom dia! É bom volver à tua primavera, Praga, reconhecê-la, ainda que se esconda na negrura e solidão de tuas noites.” (p. 175)
São belas e impressionistas as descrições que o escritor faz da cidade de Moscou e do cotidiano vivido lá no meio do povo, em seu primeiro dia de visita: "(...) Atravessamos a Praça Vermelha e contornamos as muralhas do Kremlim, até onde se avista o plácido Moskva, com suas ilhotas flutuantes de neve suja, descendo na correnteza. Na avenida marginal, as crianças do jardim da infância passam por nós como bichinhos desconfiados. Mais além, a fileira de ferroviários que se formou para a visita ao Kremlim, nem se dá conta de que invejamos sua alegria palreira e ingênua. As mulheres, de lenços na cabeça, riem com dentes de ouro, os homens de boné riem. (...)” (p. 41-2)

Passeando pelas ruas, em liberdade, sentindo-se um ‘fora-da-lei’, viu um povo tranquilo e receptivo: "Havia uma semana que estávamos em Moscou, num 'à vontade' de colegiais em férias. Às vezes desacompanhados de nossos intérpretes, íamos à toa pelas ruas. Desapontava-nos o fato de não estarmos sendo seguidos (tanto pode a contrapropaganda sistemática!). Era, pois, sempre com uma ligeira emoção de out-laws, de quem se lançou em perigosa aventura, que saíamos para esses passeios solitários. E se nos sovertêssemos de um momento para outro, raptados pelos ferozes organismos da polícia soviética, suspeitosos de nosso caderninho de notas e de nossa curiosidade peripatética? Mas, não houve espiões nas manhãs e nas tardes moscovitas. O povo, esse, se mostrava pacato e, sempre que com ele nos pusemos em contato, hospitaleiro e acolhedor. Sozinhos andamos e sozinhos chegamos a comprar (milagres da mais pura mímica!) uma canção que nos enlevara, um par de meias e um colorido gorro do Usbequistão.” (p. 64-5)

No trem noturno para Leningrado, em companhia de duas russas que se tornaram amigas, Francisco e Amelinha viveram novas emoções: "Vera e Ludmila partiram conosco para Leningrado. Deixaram-nos à porta da cabina, onde ainda levamos tempo parolando, e já o trem andava a quilômetros de Moscou quando nos separamos para ir dormir. Mas, não dormimos logo, que é sempre triste a partida, mesmo sem termos de quem nos despedir, e a noite é fermento para cismas doidas. Quando estas crescem, assim, em terra estranha, mais triste é o contraponto das rodas rodando nos trilhos e mais pungente o apito da locomotiva. Apagamos a luz do abajur e só ficou o rádio tocando baixinho, no escuro, uma perdida canção.

Acordamos com um hino, quando já era madrugada lá fora, nas bétulas e nos pinheiros, nas estepes regadas de orvalho. Que riacho é este? Duas mulheres apanham água na bica, uma cerca ao fundo, um homem olhando o trem passar, três casinhas na estrada tortuosa, três crianças, o cachorro latindo, a estação vazia. Por que esta paisagem incaracterística, e não outra, permanece indelével na memória?

Vera bate à porta, trazendo-nos um embrulho de sanduíches e laranjas. No trem noturno só servem o copo de chá quente, que a camareira nos oferece na bandeja, com os cubos de açúcar. Outra vez: próvida e previdente Vera!” (p. 110-1)

Finalizamos com o capítulo denominado “Despedida e regresso”, que retrata o fim da viagem, de rápida e rara beleza plástica, fechando numa tomada tipicamente cinematográfica: "(...)Para acalmar a nossa excitação, servem-nos carne defumada com knedlik. E bebemos, de Pilsen, a subornadora Prazdroj.

No dia seguinte partimos. Da janela do trem que nos levaria a Viena, vamos vendo, cada vez mais embaciados, os vultos de Jitika, de Frantisek, de Gabriel, que nos acenam da plataforma. Uma curva súbita, e os três desaparecem. Para sempre.” (p. 178)

Há muitas outras passagens interessantes no livro, que fala de economia, de política, de literatura, sempre com um tempero de humor e lirismo, mas, de tudo isso, preferimos os fragmentos que extraímos do texto e as impressões que ficaram desse vivo retrato de dois povos admiráveis.

(Na foto, Francisco e Amelinha, cercados de curiosos na fria manhã em Moscou)










1/09/2014

OS CONTOS DE FADAS E O UNIVERSO FEMININO

No Brasil, ainda são poucos os estudos sobre o fenômeno das fábulas e dos contos de fadas que habitam até hoje os sonhos de crianças de todas as idades.

Rico manancial do nosso imaginário, as histórias escritas por Perrault, Andersen, os irmãos Grimm, La Fontaine e outros tiveram em Esopo um pioneiro na antiguidade grega.
Histórias como “A Bela Adormecida”, “Chapeuzinho Vermelho”, “Cinderela”, “Pele de Asno”, “Barba Azul”, “Branca de Neve”, “João e Maria”, além de serem tradicionalmente femininas, devem sua permanência, através dos tempos, às mulheres contadoras de histórias.

Esopo – um grego natural da Frígia, que viveu no século VI antes de Cristo – criou inúmeras fábulas que chegaram até nós pela tradição oral.
Nos fins do século XVII, Charles Perrault, pesquisando contos da Idade Média, retirou-lhes o conteúdo campesino-vulgar e deu-lhes um sabor mais refinado para o deleite da aristocracia francesa. Na Alemanha, os irmãos Grimm, no século XIX, passaram nova peneira e afastaram dos contos os sinais mais fortes de sexualidade, acentuando, porém, o castigo para os malfeitores.

Com o tempo, os contos foram passando de escritor para escritor e perdendo sua marca de autoria, a ponto de Walt Disney, no século XX, ‘reescrevê-los’ para o cinema, e tornar-se, para o grande público, seu único e verdadeiro autor.
Outras versões cinematográficas foram produzidas como “My fair lady” e “Uma linda mulher” que fizeram de Audrey Hepburn e Julia Roberts cinderelas da era moderna, e alcançando grande sucesso nas telas. Glamurizados por Hollywood, entretanto, esses filmes são versões adocicadas das velhas estórias, que eram quase sempre carregadas de maldade e erotismo, razão pela qual chegaram a ser condenadas por educadores, que viam nelas uma influência negativa para a juventude.

Contemporaneamente, sabe-se que os jovens se preparam para a vida muito mais cedo do que antes, e que o sofrimento e as dificuldades são verdadeiramente a ponte para a sua transformação e progresso pessoal.
Algumas dessas informações e outras bastante interessantes estão no livro Fiando palha, tecendo ouro – o que os contos de fada revelam sobre as transformações na vida da mulher, de Jean Gould (Editora Rocco), que aconselho a todos os leitores – especialmente as mulheres –, pela consistente e criativa interpretação dos contos de fadas e de sua relação com o universo feminino desenvolvida pela autora.    

Poeta, crítico; doutor em literatura comparada pela UERJ. Autor de O menino que procurava o reino da poesia, Janelas de leitura, entre outros livros. Mora em Cataguases

1/02/2014

DUAS ESTÓRIAS, UM TEMA

Um dos temas mais abordados por Machado de Assis é o da busca da perfeição humana. Vários de seus contos tratam dessa temática, cada um à sua maneira.

Pois bem, ao ler outro dia "O destinado", do 2º volume da antologia Relíquias de casa velha (publicado em 1906 e em A Estação, em 1883), lembrei-me imediatamente de outra narrativa – "Trio em lá menor" (Gazeta de Notícias, 1886, e em Várias histórias, 1895), obra também antológica do autor.

As duas estórias, ainda que diferentes no enredo e tudo o mais, caminham juntas.
Em "O destinado", a protagonista é a moça Delfina e o conto tem a valsa como fundo musical, pois a cena inicial se dá num baile, que lhe propicia conhecer dois pretendentes: o bacharel Soares e o bacharel Antunes, com quem dança uma quadrilha e uma valsa, respectivamente.

A onisciência do narrador em 3ª pessoa leva as observações e impressões de Delfina para o texto como se fossem o seu próprio pensamento, quase um discurso indireto livre.
Antunes era um elegante valsista e tinha "um par de olhos mansos" e "uma linguagem doce, canora, todas as seduções da conversação" (p. 189). Delfina pendia para ele. Mas houve uma primeira escorregadela que, pela interferência do narrador, poderia tornar-se um pecado mortal: uma frase piegas, "que não a ponho aqui para não desconcertar o estilo" (p. 189), diz o narrador. A moça, porém, era muito educada e pouco exigente, como acentua ainda o narrador.
Já o bacharel Soares possuía "um rico par de bigodes" que competiam com os olhos do outro. Ele tirou-a para dançar, e em dado momento, chamou-lhe "sílfide", enquanto dava certa pressão no seu corpo.

Ao chegar em casa, os dois moços não saíam da mente de Delfina. Ora pendia para um, ora para o outro. Funcionava aí a balança da dúvida machadiana, a procura da perfeição.
Depois de muito pensar, deixou a escolha para o tempo: "Quando eu menos pensar, disse ela, estou amando deveras ao escolhido." (p. 192)

Pela manhã, Delfina percebeu que seu irmão tinha uma visita. Ficou apreensiva. Deveria ser o Antunes... Constatou que era "um rapaz seco, murcho, acanhado, sem bigodes nem olhos mansos, com o chapéu nos joelhos, e um ar modesto, quase pedinte. Era um cliente do jovem advogado." (p. 193)
Machado desromantiza a heroína, casando-a no final com esse personagem.

Em "Trio em lá menor", a protagonista Maria Regina dedilha um piano durante toda a narrativa e sonha com dois rapazes que conheceu fortuitamente, Maciel e Miranda. Um é jovem, elegante, o outro, mais velho, mais inteligente. Mas ambos que, a princípio pareciam perfeitos aos seus olhos, vão se mostrando falhos. "Maria Regina viu dentro de si a estrela dupla e única. Separadas, valiam bastante; juntas, davam um astro esplêndido. E ela queria o astro esplêndido. Quando abriu os olhos e viu que o firmamento ficava tão alto, concluiu que a criação era um livro falho e incorreto, e desesperou".(p. 324)

Pode-se notar que há muitas semelhanças, não só de temas, entre os dois contos. Deixo, porém, o desfecho da segunda estória para o leitor que se aventurar a ler o texto original de Machado de Assis. Assim ganhará muito mais do que lendo essas apressadas notas.

(Desenho da edição da Edigraf - SP)

(02-01-2014)

12/30/2013

NA PENUMBRA DA LINGUAGEM



No 1º tomo de Relíquias de casa velha, Machado de Assis reuniu contos da linha clássica de sua criação ficcional como "Pai contra mãe", "Suje-se gordo", "Anedota do cabriolé" e outros.

Há nesses contos famosas marcas machadianas, como a presença da personagem viúva – bonita e rodeada pelos pretendentes –, dândis do século XIX – jovens e senhores que viviam de heranças como ela e que certamente não trabalhavam. Na outra ponta, os serviçais: escravos que aparecem aqui e ali, entrando e saindo de cena, quase invisíveis para compor o ambiente urbano, como em outras obras de temática rural.
O conto "Marcha fúnebre", um dos melhores da antologia, cujo protagonista é o deputado Cordovil, passa-se na década de 60 do oitocentismo e fala sobre um homem solitário e suas esquisitices, entre elas a fixação do pensamento na morte.

Nas idas e vindas com que Machado estrutura a narrativa, o personagem Cordovil vai imaginando para si as inúmeras maneiras como as pessoas morrem. Mortes ruins, sofridas, outras rápidas talvez sem dor, ainda outras depois de ameaças e violência etc. Mas, na cena que antecede o final e que registra a hora de dormir do personagem, o autor caprichou ainda mais: é de uma beleza textual que merece ser reproduzida pelo uso de uma linguagem muito refinada. Vejam como Machado descreve aquela penumbra que antecede o sono:

"Ah! foi então que o sono tentou entrar, calado e surdo, todo cautelas, como seria a morte, se quisesse levá-lo de repente, para nunca mais. Cordovil cerrou os olhos com força, e fez mal, porque a força acentuou a vontade que tinha de dormir; cuidou de os afrouxar, e fez bem. O sono, passando-lhe aqueles braços leves e pesados, a um tempo, que tiram à pessoa todo o movimento. Cordovil os sentia, e com os seus quis conchegá-los ainda mais... A imagem não é boa, mas não tenho outra à mão nem tempo de ir buscá-la. Digo só o resultado do gesto, que foi arredar o sono de si, tão aborrecido ficou este reformador de cansados." (p. 48)

Repare o leitor como Machado avalia que romantizou demais as imagens do sono de que estava tratando e acaba se autocriticando ao dizer que "a imagem não é boa". No entanto, a imagem é boa, aliás, é ótima, um verdadeiro rendado tecido com a linguagem.

O último tipo de morte lembrado por Cordovil foi aquela em que a pessoa deita, dorme e amanhece morto. Mas ele não iria morrer naquela noite... Assim Machado de Assis finaliza a estória de modo magistral:
"Quando veio a falecer, muitos anos depois, pediu e teve a morte, não súbita, mas vagarosa, a morte de um vinho filtrado, que sai impuro de uma garrafa para entrar purificado em outra: a borra iria para o cemitério. Agora é que lhe via a filosofia; em ambas as garrafas era sempre o vinho que ia ficando, até passar inteiro e pingado para a segunda. Morte súbita não acabava de entender o que era." (p. 49)

(ASSIS, Machado de. Marcha fúnebre. In: ______.  Relíquias de casa velha, tomo I, São Paulo: Edigraf, p. 43-49).

(30-12-2013)

12/11/2013

DOIS POEMAS PARA MANDELA

Fiz 2 poemas em homenagem a Nelson Mandela: um em 1967, quando fui convocado para uma exposição de poesia visual internacional em louvor do grande líder – "Free Jazz para Mandela" –; e outro em 2013, quando de sua morte – "Afreekamandela" –, uma versão em forma discursiva:




12/09/2013

EVOLUÇÃO PARA TRÁS


No livro "Relíquias da casa velha", de Machado de Assis, há um conto intitulado "Evolução", em que o autor – através do personagem-narrador Inácio – faz suas considerações, como sempre.

Prepara-se o tema assim: "Quem nunca viajou não sabe o valor que tem uma dessas banalidades graves e sólidas para dissipar os tédios do caminho. O espírito areja-se, os próprios músculos recebem uma comunicação agradável, o sangue não salta, fica-se em paz com Deus e os homens".

No diálogo que se abre, Machado aproveita para chamar atenção para um dos nossos maiores problemas – a falta de ferrovias – e que já foi antevisto por ele na época:
"– Não serão os nossos filhos que verão todo este país cortado de estradas, disse ele.
– Não, decerto. O senhor tem filhos?
– Nenhum.
– Nem eu. Não será ainda em cinquenta anos; e, entretanto, é a nossa primeira necessidade. Eu comparo o Brasil a uma criança que está engatinhando: só começará a andar quando tiver muitas estradas de ferro.
– Bonita ideia! exclamou Benedito faiscando-lhe os olhos.
– Importa-me pouco que seja bonita, contanto que seja justa." (p. 76)

Vale uma observação a mais. Saiba-se que o Brasil chegou a ter muitas ferrovias até o século XX, mas foram sendo desativadas pelos governos da ditadura de 64, em prol de uma política equivocada. Espero que isso seja revertido, pois trata-se de um meio de transporte barato e eficiente. Já fui muito ao Rio, na década de 40 e 50, com meus pais e minha avó, e não me esqueço dessas incríveis viagens, apesar de demoradas. Na passagem escura dos túneis, eu tinha muito medo e minha avó sempre acendia uma vela salvadora.

Velho e grande Machado. Tão atual que não foi levado a sério. Pior para nós.

11/24/2013

Um estranho Natal em 1928




O Natal – considerado por uns um momento de tristeza e por outros de comemoração, ou às vezes as duas coisas – é sempre um tema difícil, ainda que tentador para um poeta.

O poema de Ascânio Lopes (1907-1929) que transcrevemos a seguir deve ter sido escrito quando ele estava internado num sanatório em Belo Horizonte, provavelmente no final do ano de 1928, pois morreria no dia 10 de janeiro do ano seguinte.
Vejamos o que ele nos apresenta.

O título – "Natal do tuberculoso" – coloca o leitor literalmente de frente para uma temática crua, de enfrentamento direto, mas ao mesmo tempo parece nos enganar, pois o texto escorre para uma leveza puerilizada pelo tema, contribuindo para isso a escolha de palavras simples e a opção por um discurso com um tom marcadamente inocente.

Contudo, de repente, toda essa atmosfera é tragada por um realismo duro e de conformação, tendo como fundo os sinos da Missa do Galo que arrebatam para o texto uma sombra de inexorabilidade.

Será que podemos sentir, nessa aceitação da morte pelo poeta, um apelo final ao leitor? Algo filtrado nas entrelinhas e acentuado pelas reticências em gradação descendente pode nos dizer isso? Vejamos: “E aqui dentro ninguém... o silêncio..., o descanso... o mistério”.

Surpreendentemente, porém, o último verso insere um novo elemento no universo do poema, pois termina com uma metonímia ironicamente seca, trazida pela imagem agigantada dos "sapatos".

Se aí vai um instante de tristeza neste poema autobiográfico de um grande poeta cataguasense, pelo menos aproveite o leitor este momento poético que tem a assinatura indelével de Ascânio Lopes.


NATAL DO TUBERCULOSO

Ascânio Lopes

Eu pensei que Papai Noel passasse por aqui
e pus na janela do quarto
meus sapatos inúteis de doente que não mais andará.
Depois rezei. Uma oração feita por mim,
entrecortada pelo arfar do peito e pela tosse rouca.
Pedi uma morte mansa suave
o coração parando, sem aflição, sem dor.
Lá fora os sinos da Missa do Galo
acompanhando minha morte lenta.
E aqui dentro ninguém... o silêncio... o descanso... o mistério...
Mas Papai Noel passou sem nada me dar.
Achou decerto enormes meus sapatos...

(desenho de Slotti)


9/21/2013

MACHADO DE ASSIS E SEUS TRUQUES FICCIONAIS


Machado de Assis tem um conto intitulado "Miss Dollar" na coletânea Contos fluminenses I. É um conto de tamanho médio a grande para os parâmetros machadianos – 23 páginas.

O texto começa com um suspense em relação à figura de Miss Dollar, que Machado projeta na cabeça do leitor, fazendo-o imaginar mil possibilidades sobre sua identidade. Assim o autor passa quase duas páginas preparando o 'ambiente' e espicaçando a curiosidade do leitor sobre os tipos de mulher que estariam 'escondidas' atrás de nome tão extravagante. Até que afinal revela: trata-se de uma cadelinha galga que fugira da casa de sua proprietária, uma bela viúva rica que oferecia pelo jornal a quantia de duzentos mil réis a quem a encontrasse.  

Pulando quase um século e meio, volto a esse conto, lembrado pela recente fuga da cadelinha Gigi de minha casa, em quem gostaria de colocar o mesmo nome do personagem do conto de Machado, mas em casa fui voto vencido na época.

Quem a encontra – não a minha, mas a cadela machadiana – foi um amigo dos cães, o dr. Mendonça, que, ao ler a notícia, prontamente dirigiu-se à residência da dona. Não era uma simples casa, mas uma mansão, e Machado não deixa passar de liso a impressão crítica:

Na sala não havia ninguém. Algumas pessoas, que têm salas elegantemente dispostas, costumam deixar tempo de serem estas admiradas pelas visitas, antes de as virem cumprimentar. (p. 33)

Margarida – era esse o seu nome – vivia com sua tia dona Antônia, e esse era um par muito comum na obra machadiana. A mulher solteira ou viúva nunca mora só; é sempre acompanhada de uma parenta ou agregada da família.

Feitas as apresentações, Mendonça naturalmente não aceitou a recompensa, mas passou a frequentar a casa de Margarida e acabou se apaixonando por ela após alguns encontros. Contudo não era correspondido, pois a viúva não havia ido bem no casamento e não queria ter outra decepção, assim o texto revela.

Nas idas e vindas por que circula a narração, o protagonista acaba convencendo Margarida do seu amor, mas quando acontece o final feliz com o casamento dos noivos, Miss Dollar, que havia passado à penumbra das ações, retorna ao centro dos acontecimentos ao ser atropelada por um carro.

Assim Machado de Assis encerra a narrativa pondo um curto e triste ponto final na vida de um personagem que, no início, parecia a protagonista da história, mas que na verdade foi apenas o leit-motiv, ou melhor, a 'bossa' usada para introduzir a dúvida e a curiosidade na cabeça do seu leitor, e desse modo o motivar ainda mais para não interromper a leitura antes da conclusão.

ASSIS, Machado. Miss Dollar. In: ______. Contos fluminenses. Vol. I. São Paulo: Clube do Livro, 1959, p. 29-52.     


8/27/2013

INSTALAÇÕES NO POÇO

Mais uma vez sou surpreendido pelo artista-professor Luiz Lopez.
Fui ver hoje (27-08-2013) a abertura das suas instalações artísticas para a qual recebi convite.
Como, com tão poucos recursos, Luiz Lopez conseguiu um resultado de excelência que me deixou bom tempo estupefato ante as inúmeras propostas apresentadas, tendo como objeto-base o livro!
Na abertura, somos recebidos por um pórtico construído por exemplares de poesia de cordel, que abrem o projeto para o popular.
Um bonequinho como o super-homem dos quadrinhos surge em cima de uma pilha de livros, e o poder se mostra agigantado e diminuído ao mesmo tempo: um voo sobre o saber.
Mais adiante, uma escada de livros nos conduz para dentro das instalações que se dirigem a um trono feito de livros. A mescla de poder e ciência ou a dissociação de ambos fazem desconfiar de que há algo por detrás desses conceitos.
Estantes metalinguísticas, baús de intertextos, tudo leva a uma espécie de poço da sabedoria que nos conduz a associações infantis como o poço dos mistérios, dos brinquedos, das águas furtivas. E o efeito mais impressionante está aí. Luiz Lopez incita o expectador a olhar para dentro do poço, e lá a surpresa: ele parece não ter fundo. como se as letras e as fantasias ficcionais nos tirassem de repente do pesadelo do real e apontassem para algo bem mais próximo do sonho.

Joaquim Branco

                                                                                                  fotos: Cimar Medeiros

Não percam esta exposição no saguão do Colégio Cataguases até dia 13 de setembro.












6/03/2013

NO QUEBRA-NOZES, COM MACHADO DE ASSIS


Cada vez me conscientizo mais de que Machado de Assis ‘viu’ como ninguém o Rio de Janeiro de seu tempo. Os problemas sociais, os políticos – toda a saga urbana de um povo foi retratada por ele, não escapando nem o teatro que se fazia então.

Não sendo autor de nomeada nesse gênero, passou a crítico teatral e – pasmem! – a censor oficial não remunerado do CDB – Conservatório Dramático Brasileiro, exercendo essas funções de 1862 a 1864.

Para se entender isso, é preciso remontar ao projeto cultural de Machado de Assis – como crítico e cronista –, que teve três fases distintas: a primeira, considerada nacionalista-romântica, em que rebateu a penetração de peças estrangeiras no Brasil; a segunda, uma ação pedagógica em que começa a aceitar a alteridade, especialmente o teatro francês de qualidade; e a última, de um nacionalismo voltado para o povo, com suas crônicas maduras em que procurou analisar as mazelas do brasileiro, visando à busca de uma identidade nacional.

Essas são algumas considerações que faço inicialmente, a partir da leitura do magnífico ensaio de Eduardo Luz intitulado O quebra-nozes de Machado de Assis – crítica e nacionalismo, Edições UFC (Universidade Federal do Ceará), Fortaleza, 243 páginas.

Aqui, acompanhamos o trajeto machadiano mapeado paulatinamente, não sem mostrar o crescimento e o avanço que permitiram a ele tornar-se o mais importante escritor do Oitocentos brasileiro.
Naquela fase inicial, o jovem Machado torcia o nariz para o teatro que vinha de fora, rejeitando a “cozinha estranha”, e propunha ao governo imperial normas para a valorização da produção interna. Sua atividade como censor batia nessa tecla e em outras como o aprimoramento dos textos que lhe chegavam para análise e liberação, e, concomitantemente, buscava meios que pudessem promover o refinamento do público.

Enquanto isso, “expandia-se e diversificava-se o público de baixa comédia” (p. 81). Também não se poderia exigir muito de um país cuja população contava tanto em 1876 quanto em 1900 com 84% de analfabetos, segundo o Censo.

Por outro lado, o governo imperial vedava, entre outros itens, as peças que se apresentassem “contra a veneração à Nossa Santa Religião, contra o respeito devido aos Poderes Políticos da Nação e às Autoridades constituídas, e contra a guarda da moral e decência pública” (p. 74).

Poderíamos falar bem mais sobre esse ensaio de Eduardo Luz, feliz edição da Universidade Federal do Ceará, mas paremos machadeanamente no título. É Machado quem faz, numa crônica de 3 de abril de 1885, uma relação entre as nozes e as ideias, já que em ambas é preciso quebrar a “casca” para saber o que têm dentro. Aí reside o segredo da descoberta.

Sempre o velho-novo Machado para nos mostrar – recorrendo a outra metáfora que não a das nozes – com quantos paus se faz uma canoa... na vida e na ficção. 

(07-06-2013)
(Eduardo Luz, autor do livro em análise)

5/27/2013

UM CASO E MUITAS HISTÓRIAS

Pela segunda vez, Fernando Abritta participa da Lei Murilo Mendes, da Funalfa em Juiz de Fora, e desta vez para produzir uma obra singular, em duas versões: uma escrita e outra falada, já que se trata de um audiobook (o livro mais um CD com as falas do texto). O livro infantojuvenil intitula-se “O caso da menina que perdeu a voz”.
Outra novidade: Fernando criou os desenhos e depois estes foram bordados em ponto- cruz e em cores, por Josenira Correa, Lígia Maria Soares e Lígia M. Quaglio, e, a seguir, fotografados por Kempton Viana. Assim, o resultado plástico-visual deixa entrever a ilusão de uma gramatura especial para a visão do leitor.
A boa apresentação de Antonio Jaime completa o trabalho, realçando o roteiro das aventuras e as características da história.
No enredo, os personagens – crianças e bichos – saem em busca da voz que a Menina perdeu, numa viagem aflita e solidária, e passam por muitas reviravoltas e situações. Pelo caminho, outros personagens vão contando histórias imaginosas ao correr dos obstáculos vencidos, e frases bem achadas refletem o nível do texto, que “sobe” nesses momentos poéticos:
“Será que existe um lugar onde as vozes se escondem? Moleque com a boca cheia, respondia: – Vozes ou palavras?” (p. 18)
“Eu conheço uma árvore onde tudo fica guardado” (p. 19)
“Era cajueiro nas folhas e galhos. Não era cajueiro porque dava mangas, abacates, caquis, toda espécie de frutas, todas maduras e saborosas” (p. 21)
“Passeou ouvidos nos cantos dos pássaros.” (p. 21)
“Precisamos achar a voz perdida.” (p. 22)
“Lá todos os tempos são no presente. Lá tem sol e chuva no mesmo momento. Lá, o vento permite voar até onde falta ar, bem perto de Deus.” (p. 23)
“E o vento leve soprando rostos dos garotos, penteando cabelos.” (p. 26)
“Na Montanha não havia sinal algum da voz de Menina. A única coisa parecida com uma pista era a frase.” (p. 27)
A metáfora – no seu aspecto mais genérico – enforma o discurso ficcional de Fernando Abritta, neste “O caso da menina que perdeu a voz” e as vozes de que se utiliza o texto literário podem, no fundo, representar a própria procura do autor como representação metalinguística da obra.

A voz que se perde e se quer reconquistar, a fala que faltou ou que desapareceu no tempo, a essencialidade do discurso para o homem – tudo isso importa muito e constitui o sentido metafórico que o autor procurou tematizar neste livro pleno de ação e criação. 
Em Cataguases, o lançamento será no dia 7 de junho de 2013, a partir de 19 h, na Chácara D. Catarina. (foto do autor: Paulo Gama)

5/22/2013

IDOS DE 1930 – FICÇÃO E POESIA


Henriqueta Lisboa


Recebi, para opinar, Literatura brasileira – 1930, organizado por Andréa Sirihal Werkema, José Américo Miranda, Maria Cecília Boechat e Silvana Maria Pessoa de Oliveira, contendo ensaios de diversos professores-autores acadêmicos (Editora UFMG). São trabalhos ensejados pelo II Seminário de Pesquisas em Literatura Brasileira, promovido pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.

Pelo título, se vê que a abordagem é a segunda fase do Modernismo que se convencionou chamar “Romance de 30”, mas o volume é mais abrangente em todos os sentidos e compreende também a poesia que se produziu naquele período.
Portanto, trata-se de um trabalho imprescindível a quem quer ter uma minuciosa análise das obras e autores da época.

Divide-se o livro em três partes: “Ficção de 1930”, “Intervalo lírico” e “Poesia de 1930”.
Na 1ª, surgem os grandes ficcionistas: Graciliano Ramos, Oswald de Andrade, Lúcio Cardoso, Cyro dos Anjos e Eduardo Frieiro, sem deixar de comentar sobre os demais autores do ciclo. A 2ª e a 3ª parte relacionam poetas que se distinguiram: Drummond, Jorge de Lima, Henriqueta Lisboa, Murilo Mendes e outros.

O livro começa bem com o artigo de Luís Bueno abordando a “Divisão e unidade no romance de 30”, numa bem formulada colocação do problema, ao comentar, entre outros itens, sobre a divisão dos romancistas em intimistas e sociais e o seu realismo focado em 1ª e 3ª pessoa, para concluir por uma unidade e uma tensão em que as linhas de ambas tendências se mesclam no que ele chama de “embaralhamento”.

Chamo a atenção também para o texto de Ângela Vaz Leão, sobre “Henriqueta Lisboa em mais de uma voz”, quando se misturam as vozes da amiga e admiradora com a da crítica literária para compor um retrato muito pessoal e ao mesmo tempo verdadeiro de uma poeta tão pouco valorizada no Brasil.

Em “Jorge de Lima: a fé e a febre da poesia”, Raimundo Carvalho fala de um poeta pouco analisado no país e que merece estar entre os primeiros do Modernismo pela “abertura de novos territórios poéticos” (p. 303). Pena que o ensaísta não se aventurou pela obra mais importante de Jorge de Lima – Invenção de Orfeu. Mas isso demandaria outro ensaio crítico.

Não caberia aqui comentar sobre todos os ensaios do livro, portanto ficam essas  considerações mais como aperitivo para a leitura maior dos demais trabalhos desta significativa antologia crítica da Editora UFMG.

NA REVISTA DA PREVI


REVISTA PREVI
Categoria: Artes
Subcategoria: Prosa e Verso

LITERATURA INTENSA

Aposentado lança obra que conta sobre movimento artístico que provocou mudanças culturais

O mineiro de Cataguases (MG) Joaquim Branco trabalhou no Banco do Brasil (BB) por 30 anos. Em 1992, se aposentou. Foi nesse momento que ele passou a ter uma vida profissional mais voltada à universidade. Dedicou-se ao doutorado em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Hoje, leciona nas Faculdades Integradas de Cataguases.

Produção literária intensa
O funcionário do BB sempre teve uma ligação muito intensa com a literatura. Tem aproximadamente 30 livros publicados, entre obras de ensaios críticos, crônicas e poemas. Foi editor de vários jornais e revistas de literatura. Nos anos 80 foi redator na antiga revista Cacex, do BB, no Rio de Janeiro. Já publicou em suplementos de grandes e pequenos jornais como O Globo, Jornal do Brasil, Tribuna da Imprensa, Estado de Minas, SLMG-Suplemento Literário de Minas Gerais etc., além de inúmeras antologias no Brasil e no exterior. Além disso, mantém ativo um blog (http://www.joaquimbranco.blogspot.com) e dá palestras em universidades.

Recente publicação
No dia 27 de abril, lançou em sua cidade natal o livro “Totem e as vanguardas poéticas dos anos 1960/70”. A obra conta a aventura de rapazes e moças que, nos anos de 1960 e 70, em Cataguases, fizeram um movimento artístico paralelo a outros que aconteceram no mundo e transformaram os costumes e as artes daquele meado de século.
O movimento artístico citado no livro aconteceu na vida real? Como se deu? Sim. A partir da década de 1960 participei de vários movimentos literários de renovação artística como o Concretismo, o Poema-Processo e a Arte Postal, que se estenderam até a década de 80. Foi a época dos movimentos em grupos de autores. Nossa equipe se denominou “Totem”, nome tirado de um jornal entre os vários que editávamos.
Quais mudanças ocorreram devido ao movimento? Com a participação de grupos (como o nosso) do interior do país, a cultura se permitiu descentralizar mais, saindo a cultura daquele posicionamento elitista e irradiador que havia anteriormente. Foi um período de intenso intercâmbio e atuação independente, apesar da censura imposta pela ditadura. A poesia brasileira começou a ter mais atuação e influência até no exterior.
Planos para novas publicações? Sim, tenho tantos projetos que não sei bem qual será o próximo. Publico constantemente em revistas especializadas e jornais.
Para entrar em contato com autor basta escrever para joaquimb@gmail.com. Através do http://www.joaquimbranco.blogspot.com é possível se inscrever para receber informações sobre literatura gratuitamente.
http://www.previ.com.br/portal/page?_pageid=57,2412312&_dad=portal&_schema=PORTAL

3/09/2013

CARTA AOS ASES - 1967




 Martins Mendes, Guilhermino Cesar, Enrique de Resende, Francisco Inácio, Dona Amelinha, Marques Rebelo e Humberto Mauro
 Francisco Peixoto Fº (diretor do Colégio Cataguases) e dona Carmelita Guimarães
 Milton Peixoto (prefeito), Marques, Chico, Enrique Resende, Guilhermino, Mauro; sentados: Acir Vassalo, Ivan Rocha, Simão José Silva, Joaquim Branco, Ronaldo Werneck, Carlos Sérgio, Aurora Novarino, Messias dos Santos, Bebeto Bittencourt e Carlinhos Vasconcelos