3/18/2023

POEMÀCIDADE - Joaquim Branco

SUAVE É A NOITE DA POESIA Para a sexta-feira passada (3-3-2023), o Restaurante Iguaria Gourmet preparou um cardápio inédito para os aficcionados da cultura: um evento com literatura e fotografias. Na parede, quadros com fotos e poemas sobre Cataguases e nas mesas e bancadas o relançamento da "Pequena História da Fundação de Cataguases". O resultado foi um agradável encontro com pessoas que eu não via há tempos, outras que são 'habituées' nesses eventos e a surpresa de conhecer um novo público ávido por leituras literárias e históricas. Seguem fotos do evento. Haverá outras fotos à medida que me sejam enviadas. O título desta materinha é uma homenagem ao meu irmão Pedro que escreveu sobre outro livro meu e intitulou: "Suave é a noite do Consumo" (o livro era o "Consumito")(JB).

POEMA DA AUSTERIDADE - Joaquim Branco

1/15/2023

BAPO OU A TRANSPARÊNCIA DA LINGUAGEM - Joaquim Branco

Publiquei este texto crítico em 14-01-1968 no jornal "Tribuna da Mata" logo após o lançamento do livro de Francisco Inácio Peixoto "A janela", na antiga loja "Domus" em Cataguases, ocorrido no dia 31-12-1967. 
Lembro-me de que, na noite do lançamento, dona Amelinha me pediu para abrir o evento, dizendo algumas palavras, e que ele gostaria que fosse eu. Mesmo diante de sua insistência e da minha vontade de aceitar o honroso convite, não tive coragem naquela sala muito cheia e a inibição me tomou. Fico me perguntando: será que ela me perdoou? 
Aqui vai a minha tardia desculpa.
________________ BAPO OU A TRANSPARÊNCIA DA LINGUAGEM___________ Joaquim Branco_________________ Ler o livro de contos de Francisco Inácio Peixoto, lançado em noite festiva no domingo passado (leia-se 07-01-1968) é travar contato com um trabalho sério cujo aprimoramento a passagem dos anos veio confirmar. Os 7 contos que compõem o volume “A Janela” (Editora do Autor, 1967, 76 páginas), com excelente capa de José Maria Dias da Cruz, são prova concreta da vitalidade de um artista que – apesar de estar encerrado na província e marginalizado pela atividade por longo tempo como industrial têxtil (felizmente agora aposentado) – soube manter seu compromisso com a literatura, verdadeiro ofício do escritor. Não vou analisar a obra desta vez. Fica para depois, com mais espaço e vagar que o livro merece. Hoje chamo a atenção dos leitores para o último conto da presente coletânea – “Bapo” – que considero a peça mais bem realizada do conjunto. Este é um conto enxuto, limpo, composto de imagens plásticas de alta comunicabilidade e que me impressionou vivamente. Para citar bons contistas contemporâneos – Dalton Trevisan, José J. Veiga, Ivan Ângelo – pode se associar o ficcionista em questão a algum dos citados, mas seria difícil uma ligação por proximidade de estilo ou algo semelhante. Características além da originalidade, nota-se a marca do poeta, descobrindo e registando a imagem em pequenas explosões de cores e ritmos, taquigrafando a nomenclatura inconsciente das sensações, ou criando uma ponte entre o clima, o “plot” e a linguagem. “Bapo” é a onomatopeia da criança que a imaginação do escritor captou num lance rápido e que foi bem encaminhada dentro de uma sintaxe clara e melopaica, à medida que vai sendo desatada a estória e vão se delineando as figuras do Menino e do Peixe. O contista por trás deles – como a persona poundiana – se esgueira, flutua, nomeia as palavras, e daí nasce uma atmosfera ao mesmo tempo real e alegórica. Além disso, o conto comunica uma transparência ambiental comum ao reino dos peixes que tem ligação com a luminosidade do mundo infantil, onde as cores – mais definidas e por isso diversificadas – adquirem uma espécie de fosforescência meio estranha. Transcrevo alguns fragmentos do conto onde o autor descreve o aspecto daquele “pequeno e vivo ludião vermelho”: “era um desses peixinhos lindos de aquário, habituados à transparência de sua bola de cristal” (p. 74). Ou quando da agonia do pequeno Bapo: “o corpo perdera a flexibilidade e só a custo se contraía sem direção. Era uma pequena alga que as águas levassem. Recurvara-se em sinuoso e hirto.” (...) “As guelras batiam, ritmando o incessante abrir e fechar da boca”. (p. 76) Em seguida, a tentativa de salvamento: “puxaram-no para a margem, como uma coisa, como um papel amarrotado que estivesse boiando no tanque. Algumas escamas haviam perdido os reflexos dourados e se esfiapavam formando manchas macetadas”.(p.76) E finalmente a morte: “E Bapo foi descendo lentamente, lentamente, como um esquifezinho, até mergulhar no lodo a pequenina cabeça vermelha. Quando o tiraram dali, estava morto.” (p. 76)

10/15/2022

DIA DO PROFESSOR

O Google, na sua janela de imagens, anuncia hoje – 15-10-2022 – o "Dia do Professor". Posto novamente meu poema em referência a este dia tão importante para todos, em homenagem a essa profissão tão menosprezada tanto pela consideração que mereceria como pela remuneração que não condiz com sua função. ----------------------------------------------------------------------------------------------------------- O PROFESSOR (homenagem ao Dia do Professor) Joaquim Branco Preparado pra ensinar, costuma aprender tanto quanto ou mais do que ensina. Também ensina a ensinar. Na sua oficina feita de livros, giz e lousa, muitas vezes o que mais faz de toda a coisa é conviver: viver com. Prepara sua aula arruma sua alma e nem vê que faz mais do que sente: inventa. Na outra ponta, está quem é sua razão de ser e viver: o aluno, uno em sua estação de ser. São ambos, quando os juntamos – aluno e professor – uma só unidade num só contendor. A total identidade.

9/24/2022

POSSE NA ACADEMIA JUIZ-FORANA DE LETRAS - 23-09-2022

O DISCURSO DE POSSE DO POMBA AO PARAIBUNA Rios cortam cidades, abraçam bairros, contornam ilhas, e fluem constantemente parece que para o nada. São protetores, mas também destruidores. Dão-nos alimentos e podem levar nossas casas e nossas lembranças. Em Cataguases temos o Rio Pomba. Ele é uma metáfora da cidade. E nós viemos de lá para encontrar a gente do Paraibuna, contudo esses rios não se encontram. Não são afluentes um do outro. Mas nós, vindo de lá e aqui nos encontrando, somos mais que afluentes, somos influentes. Do Pomba ao Paraibuna, a influência e a contribuição devem ser sempre imensas, à procura de nossas margens que funcionam como encaixes culturais e sociais, pelo proveito de duas cidades, diferentes no nome e na história: Cataguases e Juiz de Fora. Assim vejo metaforicamente o convite que recebi para minha ligação com os membros dessa Academia, ainda que tenha sido pequeno o nosso contato. Agradeço a todos os presentes, esperando firmemente que ocorra a confluência de nossas ideias para o objetivo maior da cultura de nossa terra. Joaquim Branco em 23-09-2022

7/09/2022

O INFERNO DE JAMES JOYCE - Joaquim Branco

Uma das obras-primas da literatura universal é o romance “Ulisses”, do irlandês James Joyce (1882-1941), publicado em 1920. No Brasil, conheço duas traduções do romance: a do crítico Antonio Houaiss (de 1966) e a mais recente da professora Bernardina da Silveira Pinheiro (2005), ambas magistrais. A da professora pende mais para uma “leitura” discursiva e mais acessível ao público, tendo em vista a dificuldade que se apresenta para um leitor comum a literatura joyceana. Com ela vou trabalhar a seguir. No final do volume há um glossário que orienta sobre os caminhos a percorrer na localização de pessoas e lugares citados. Bernardina oferece, a partir da página 835, dados elucidativos das passagens criadas por Joyce para os eventos “reais” em que se apoia o livro. Sabe-se que a obra é uma paródia da “Odisseia” de Homero, tendo como protagonista o mesmo Ulisses, ali chamado de Leopold Bloom. Vou abordar aqui o episódio “6/Hades”. No livro de Homero, Odisseu (Ulisses) desce ao Hades (o Inferno na Mitologia grega) a conselho de Circe, para falar com o profeta Tirésias sobre sua volta a Ítaca. Tirésias o alerta para as dificuldades que seriam criadas por Poseidon caso matasse os bois sagrados de Hélio (deus Sol). Se isso acontecesse perderia seus marinheiros e teria mais dificuldades para chegar a Ítaca. Na terra natal, ainda teria que eliminar os pretendentes que cortejavam sua esposa e aí sim poderia retomar Penélope. Joyce em seu romance, cria um episódio que corresponde à descida ao Inferno. É a ida de Leopold Bloom ao cemitério Glasnevin para um enterro e ali acontecem ações e manifestações acerca da morte. O autor utiliza a técnica do Incubismo para mostrar os pesadelos com fantasmas e conversas imaginárias (da página 102 à 132). No enterro do sr. Paddin Dignam desenrolam-se esses acontecimentos, e o texto joyceano comparece com seus personagens e falas: “(...)a facção Gouding, o contadorzinho bêbado e Criscia, o torrãozinho de esterco do papai, a filha sábia que conhece seu próprio pai”. (p. 104) Surgem aqui e ali os comentários maldosos entrecortando a narrativa: “Corpo de anão, fraco como betume, num caixão raiado de branco. A Friendly Society paga o enterro. Um penny por semana para uma gleba de gramado. Nosso. Pequeno. Mendigo. Bebê. (...) Se é saudável herdou da mãe. Se não do homem. Mais sorte da próxima vez. (p. 111) Ou quando recorre à frase-feita para mudá-la no fim do episódio: “...longe dos olhos, perto do coração.” (p. 115) No final melancólico: “Não sofrer mais. Não acordar mais. Ninguém é dono. (p. 112) Reflexões rápidas: “A imagem do assassino nos olhos do assassinado.” (p. 116)_ Ou mais longas? “Alguma coisa nova para lhe dar esperança não como o passado que ela queria de volta, aguardando. Ele nunca vem. Um tem que ir antes: sozinho, debaixo da terra: e não se deitar mais na cama quente dela” (p. 118) Joyce interpreta fisicamente vida e morte, no discurso livre: “Coração partido. Uma bomba afinal de contas bombeando milhares de galões de sangue todo dia. (...) Velhas bombas enferrujadas: maldito tudo o mais (p. 122) Em meio às considerações: “No meio da morte estamos na vida. Os dois extremos se encontram (p. 124) E quase ao final do episódio, como se revisse a frase anteriormente citada para transformá-la: “O barro caiu mais suavemente. Começar a ser esquecido. Longe dos olhos longe do coração.” (p. 127) JOYCE, James. Ulisses. Tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2005.

7/03/2022

UMA ANTIGA HISTÓRIA DE CATAGUASES (1908)

"O MUNICÍPIO DE CATAGUASES", reeditado recentemente (2021)
Esta obra pode ser adquirida pelo email: joaquimb@gmail.com