10/15/2022

DIA DO PROFESSOR

O Google, na sua janela de imagens, anuncia hoje – 15-10-2022 – o "Dia do Professor". Posto novamente meu poema em referência a este dia tão importante para todos, em homenagem a essa profissão tão menosprezada tanto pela consideração que mereceria como pela remuneração que não condiz com sua função. ----------------------------------------------------------------------------------------------------------- O PROFESSOR (homenagem ao Dia do Professor) Joaquim Branco Preparado pra ensinar, costuma aprender tanto quanto ou mais do que ensina. Também ensina a ensinar. Na sua oficina feita de livros, giz e lousa, muitas vezes o que mais faz de toda a coisa é conviver: viver com. Prepara sua aula arruma sua alma e nem vê que faz mais do que sente: inventa. Na outra ponta, está quem é sua razão de ser e viver: o aluno, uno em sua estação de ser. São ambos, quando os juntamos – aluno e professor – uma só unidade num só contendor. A total identidade.

9/24/2022

POSSE NA ACADEMIA JUIZ-FORANA DE LETRAS - 23-09-2022

O DISCURSO DE POSSE DO POMBA AO PARAIBUNA Rios cortam cidades, abraçam bairros, contornam ilhas, e fluem constantemente parece que para o nada. São protetores, mas também destruidores. Dão-nos alimentos e podem levar nossas casas e nossas lembranças. Em Cataguases temos o Rio Pomba. Ele é uma metáfora da cidade. E nós viemos de lá para encontrar a gente do Paraibuna, contudo esses rios não se encontram. Não são afluentes um do outro. Mas nós, vindo de lá e aqui nos encontrando, somos mais que afluentes, somos influentes. Do Pomba ao Paraibuna, a influência e a contribuição devem ser sempre imensas, à procura de nossas margens que funcionam como encaixes culturais e sociais, pelo proveito de duas cidades, diferentes no nome e na história: Cataguases e Juiz de Fora. Assim vejo metaforicamente o convite que recebi para minha ligação com os membros dessa Academia, ainda que tenha sido pequeno o nosso contato. Agradeço a todos os presentes, esperando firmemente que ocorra a confluência de nossas ideias para o objetivo maior da cultura de nossa terra. Joaquim Branco em 23-09-2022

7/09/2022

O INFERNO DE JAMES JOYCE - Joaquim Branco

Uma das obras-primas da literatura universal é o romance “Ulisses”, do irlandês James Joyce (1882-1941), publicado em 1920. No Brasil, conheço duas traduções do romance: a do crítico Antonio Houaiss (de 1966) e a mais recente da professora Bernardina da Silveira Pinheiro (2005), ambas magistrais. A da professora pende mais para uma “leitura” discursiva e mais acessível ao público, tendo em vista a dificuldade que se apresenta para um leitor comum a literatura joyceana. Com ela vou trabalhar a seguir. No final do volume há um glossário que orienta sobre os caminhos a percorrer na localização de pessoas e lugares citados. Bernardina oferece, a partir da página 835, dados elucidativos das passagens criadas por Joyce para os eventos “reais” em que se apoia o livro. Sabe-se que a obra é uma paródia da “Odisseia” de Homero, tendo como protagonista o mesmo Ulisses, ali chamado de Leopold Bloom. Vou abordar aqui o episódio “6/Hades”. No livro de Homero, Odisseu (Ulisses) desce ao Hades (o Inferno na Mitologia grega) a conselho de Circe, para falar com o profeta Tirésias sobre sua volta a Ítaca. Tirésias o alerta para as dificuldades que seriam criadas por Poseidon caso matasse os bois sagrados de Hélio (deus Sol). Se isso acontecesse perderia seus marinheiros e teria mais dificuldades para chegar a Ítaca. Na terra natal, ainda teria que eliminar os pretendentes que cortejavam sua esposa e aí sim poderia retomar Penélope. Joyce em seu romance, cria um episódio que corresponde à descida ao Inferno. É a ida de Leopold Bloom ao cemitério Glasnevin para um enterro e ali acontecem ações e manifestações acerca da morte. O autor utiliza a técnica do Incubismo para mostrar os pesadelos com fantasmas e conversas imaginárias (da página 102 à 132). No enterro do sr. Paddin Dignam desenrolam-se esses acontecimentos, e o texto joyceano comparece com seus personagens e falas: “(...)a facção Gouding, o contadorzinho bêbado e Criscia, o torrãozinho de esterco do papai, a filha sábia que conhece seu próprio pai”. (p. 104) Surgem aqui e ali os comentários maldosos entrecortando a narrativa: “Corpo de anão, fraco como betume, num caixão raiado de branco. A Friendly Society paga o enterro. Um penny por semana para uma gleba de gramado. Nosso. Pequeno. Mendigo. Bebê. (...) Se é saudável herdou da mãe. Se não do homem. Mais sorte da próxima vez. (p. 111) Ou quando recorre à frase-feita para mudá-la no fim do episódio: “...longe dos olhos, perto do coração.” (p. 115) No final melancólico: “Não sofrer mais. Não acordar mais. Ninguém é dono. (p. 112) Reflexões rápidas: “A imagem do assassino nos olhos do assassinado.” (p. 116)_ Ou mais longas? “Alguma coisa nova para lhe dar esperança não como o passado que ela queria de volta, aguardando. Ele nunca vem. Um tem que ir antes: sozinho, debaixo da terra: e não se deitar mais na cama quente dela” (p. 118) Joyce interpreta fisicamente vida e morte, no discurso livre: “Coração partido. Uma bomba afinal de contas bombeando milhares de galões de sangue todo dia. (...) Velhas bombas enferrujadas: maldito tudo o mais (p. 122) Em meio às considerações: “No meio da morte estamos na vida. Os dois extremos se encontram (p. 124) E quase ao final do episódio, como se revisse a frase anteriormente citada para transformá-la: “O barro caiu mais suavemente. Começar a ser esquecido. Longe dos olhos longe do coração.” (p. 127) JOYCE, James. Ulisses. Tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2005.

7/03/2022

UMA ANTIGA HISTÓRIA DE CATAGUASES (1908)

"O MUNICÍPIO DE CATAGUASES", reeditado recentemente (2021)
Esta obra pode ser adquirida pelo email: joaquimb@gmail.com

6/18/2022

HERBERTO DUTRA

HERBERTO, A ORATÓRIA COMO ARTE
Enfileirados, alunos e professores iam entrando pelo corredor do antigo Cinema Machado (onde hoje é o Centro Cultural Humberto Mauro); por último, com os braços para trás, vinha o paraninfo das turmas dos grupos escolares de Cataguases, um homem alto de bela e tranquila figura. Minha mãe, atenta, apontou: “é ele, Herberto Dutra”. E virando-se para mim: “Você não poderia perder esta oportunidade de vê-lo falar”. Naquele instante vivido no final dos anos 50, eu ainda relutava em aceitar o convite dela, mesmo sabendo que ela nunca perdia uma oportunidade de promover momentos culturais para os filhos. Começou a cerimônia. Falam professoras, diretoras e alunos. Hinos são cantados e todo o auditório ouve atento. Por último, chega o momento pelo qual minha mãe ansiava. O paraninfo foi chamado a falar. Herberto pega o microfone e o afasta; levanta-se e inicia suas palavras de improviso, inspirando-se na letra do último hino cantado pelos alunos. Logo nas primeiras frases, eu percebi a importância da insistência para que eu visse e ouvisse aquilo. A voz colocada no lugar e as palavras saindo como num poema perfeito. Nos meus 10 anos de idade, como aproveitei aquele momento único, e como toda a plateia ouvia atentamente sem um barulho. Ao término, era como se pedíssemos mais. Alguns anos depois, já em meados da década de 50, eu soube que o orador que tanto me impressionara iria participar de um jantar político na mansão do dr. Pedro Dutra, seu irmão. Pedi a minha mãe para me levar até lá. Queria confirmar ou não aquela boa impressão que tivera. Chegamos cedo e esperamos por algum tempo. No meio do jantar, começaram os discursos, todos muito repetitivos, cheios de lugares-comuns. O melhor viria depois. Herberto se levanta e começa sua fala que vai aos poucos arrebatando a todos. Lembro-me de que ele começou fazendo comparações com as montanhas de Minas. Era um poema novamente. Fiquei maravilhado e agora bem mais, pois, com um pouco mais de idade, pude aproveitar suas palavras quase que integralmente. Ao final do jantar, pedi a minha mãe para que me apresentasse o orador, que acedeu prontamente. Eu lhe disse da minha admiração, e ele, abaixando-se e dirigindo-se a mim, afirmou que soubera do meu sucesso no ginásio, das minhas notas boas, do quadro de honra. Eu, mudo diante daquilo, não pude falar mais nada, apenas vê-lo lentamente se afastar para nunca mais. Herberto Dutra (1909 - 1970)

1/23/2022

ASTOLFO DUTRA NICÁCIO NETO (1921-2008)

Joaquim Branco e Pedro J. Branco Ribeiro entrevistam Astolfo Dutra Nicácio Neto (1921-2008): “Meus pais me legaram o amor pelo nosso torrão”
Morreu no dia 2 de dezembro de 2008 o eminente cataguasense Astolfo Dutra Nicácio Neto. Filho do casal Flávio/Pedro Dutra, herdou dos pais principalmente a correção e a generosidade que passava a todos que o cercavam. Advogado e escritor talentoso, político avançado e advogado aposentado do Banco do Brasil, vivia no Rio de Janeiro há muitos anos ao lado da esposa Neusa Rodrigues Moreira Mesquita, professora universitária. Do primeiro casamento teve três filhos: Maria Cristina, Pedro e Beatriz Helena. Foi deputado estadual em 1946, e seu pai Pedro Dutra tornou-se um político da maior importância em nossa cidade, bem como seu avô Astolfo Dutra, que alcançou a presidência da Câmara de Deputados por 6 vezes. Em 2002 publicou o livro "Astolfo Dutra – um líder mineiro na República Velha", rica contribuição à cultura e especialmente à história brasileira. Nessa época, fiz com ele uma entrevista, que transcrevo a seguir em forma de depoimento, e em que teve a oportunidade de discorrer sobre os estudos, a literatura, a política, a vida familiar, a história e outros temas. O NASCIMENTO E A FAMÍLIA Nasci a sete de agosto de 1921, em Cataguases, na avenida a que tomaria de empréstimo o nome. Era o único neto varão do casal Antônia-Astolfo Dutra. Não me faltavam tios, ao todo sete, a maioria dos quais residindo no casarão plantado entre as casas de José Peixoto e um terreno baldio, limítrofe com a casa de Agenor Ladeira. Minha família era de origem rural, bacharelizada pelo empobrecimento. O clã Resende-Dutra Nicácio esvaía-se. Na realidade, no ramo de que provenho, nunca foi acentuada a vocação rural. Muitos dos Dutra e dos Resende, como compensação à perda de patrimônio, dedicaram-se ao exercício de profissões liberais: Advocacia, Medicina, Engenharia, com extensões ocasionais pela Política. Por outro lado, é forçoso reconhecer a inabilidade familiar em amealhar riqueza. No meu caso particular, desde cedo, ouvi dizer que, enquanto alguns tinham talento para criar fortuna, outros tinham para gastá-la. É claro o caráter jocoso da afirmação. Entretanto, aqui valem algumas observações: sob o ponto de vista material, os dois momentos mais prósperos da vida de Pedro Dutra foram aqueles em que mais distante se manteve da lida política – o período anterior à eleição para Deputado Estadual, entre 1924 e 1930, quando construiu a casa da avenida; e aquele compreendido na ditadura de Getúlio Vargas, quando ampliou grandemente sua residência, adquiriu e aparelhou a Fazenda Itaguaí, com mais de trezentos hectares. PRIMEIROS ANOS Os tempos desenrolados na residência de minha avó e tios marcaram suavemente minha infância, na cidadezinha ainda de ruas recobertas de terra, carentes de movimento e que me permitiam e aos pequenos amigos brincar em segurança na rua. A vida corria serena, não havendo sensíveis diferenças de classes sociais; todos os meninos estudavam no Grupo, o curso primário era ministrado de forma excelente. Basta dizer que deixávamos o curso primário com o sistema métrico decimal na ponta da língua. Cumprido o curso primário, o prosseguimento de meus estudos teve forma utópica: fui cursar o ensino médio no Liceu Rio Branco, na capital de São Paulo, onde moravam meus tios maternos, cerca de dez. Aqui cabe assinalar um fato que marcou positiva e significativamente minha modesta formação cultural: quase todos os meus tios eram leitores cuidadosos e se empenhavam em que não me mantivesse alheio aos livros. Ali travei conhecimento, a partir de dez anos, com Monteiro Lobato, Paulo Setúbal e Guilherme de Almeida. Radiquei-me em São Paulo nos primeiros dias de 1933. Era uma cidade ainda com toques provincianos, inúmeras ruas iluminadas a gás, ali, bem atual, o soneto de Jorge de Lima. ESTUDOS E LITERATURA Meu ingresso no ginásio não foi isento de certo temor. São Paulo acabara de ser derrotado na Revolução de 1930, sobretudo pelas tropas da Polícia Militar de Minas. Os ânimos permaneciam exaltados, num certo sentimento de humilhação. E mineiro eu era, de certa forma coautor da frustração paulista. Mas tudo se arrumou e fui gentilmente recebido. Concluído o curso ginasial, segui para o Rio de Janeiro, vindo morar em Copacabana, com minha avó e meus tios paternos. O mesmo carinho, o mesmo empenho em minha formação cultural. A princípio, pode parecer que me tenha desinteressado dos grupos literários de Cataguases. Tal não se deu, ocorrendo apenas um fato curioso: os integrantes dos movimentos literários daqui eram bem mais velhos do que eu, o que me intimidava. Além do mais, não me sentia com vocação literária que me permitisse integrar-me entre os intelectuais de minha terra. FORMAÇÃO E POLÍTICA Em minha formação, além das influências familiares já assinaladas (pais, tios), assinalo a presença de três professores: Joaquim Silva - História; Geraldo Rodrigues, ex-aluno do Caraça - Conhecimentos Gerais; San Tiago Dantas - Direito. Foram pronunciadas as influências familiares, em sentido genérico e específico. Meus parentes em geral e meus pais em particular mantinham constantes diálogos comigo, comentando livros e matéria jornalística, o que provavelmente me estimulou o interesse pela coisa pública em geral. Meu interesse pela Política sempre significou maior apego ao trato da coisa pública e sua análise do que atração pelas picuinhas ou tricas de bastidores. VIDA NO INTERIOR Na amenidade do trato familiar, raramente, ou quase nunca, os assuntos deixavam de ter como núcleo temas de natureza geral. Um dos aspectos positivos da vida no interior pode ser considerado o convívio entre os moradores, quase todos vizinhos, na cidade de pequenas dimensões. Ter os pais com que o destino me presenteou e haver recebido os ensinamentos que me proporcionaram, devo confessar ter sido a dádiva maior, esta sim, pode ser afirmada como o exemplo fundamental e a herança mais significativa de minha existência. A CARREIRA Nunca meus pais procuraram influir na escolha da carreira que viria a abraçar. Fui advogado por escolha própria e obtive razoáveis êxitos profissionais. A tendência para a História de Cataguases decorre do amor que meus pais me legaram pelo nosso torrão. O mérito e o significado que a biografia "Astolfo Dutra: um líder mineiro na República Velha" possa ter deitam raízes no hereditário amor à terra. É com grande pesar que registro o falecimento desse grande cataguasense que foi Astolfo Dutra Nicácio, um homem de convívio agradável, talentoso e principalmente dono de uma escrita elegante e correta, e que agora perdemos.

12/20/2021

UM FICCIONISTA DE LOND

Joaquim Branco
Kafka na cama, de Jair Ferreira dos Santos, marcou em 1980 a estreia de um escritor cuja trajetória já dava para antecipar como das mais auspiciosas para a literatura brasileira. Reuniu o autor sete contos (a rigor, seis contos e uma novela), que, numa primeira abordagem, apresentam um divisor de águas que marca especialmente o conjunto das narrativas. Nascido no Paraná, região de Londrina, Jair Ferreira dos Santos transferiu-se na década de 70 para o Rio, e esse ponto divisório, marcado pelo eixo Londrina/Rio, atua como fulcro, ora dividindo os caminhos da narração, ora propondo rotas para uma visão crítica. Daí derivam duas ficções – advindas das ambiências, dos personagens, do plot – a influir na própria linguagem e esta em cada estória. Do eixo Londrina, vem a primeira, uma ficção de temas, ação e traços da província (a família, no fundo), terreno em que a introspecção se sedimenta sob um léxico forte e bem jogado. "Mais para Gardel do que para o bardo inglês", "Sextuor: o pai" e "Anjos" estão desse lado do rio. A província – e não o regional conduzindo ao “facilmente” social – aí pulsa, “torpe, mas hílare”, como nestes fragmentos: “À noite, em casa, pensei que diante dos filhos o casal se recuperasse moralmente. Pobre de mim! Separados são sórdidos, perto são pérfidos. Fogo e gelo.” “Pouca água correu. A vida aqui, não é preciso ser nenhum Houdini para adivinhar, segue naquele ritmo pantanoso de sempre. De tão pequenas que nem dá gosto mencionar, duas novidades: voltei a estudar violão e estou com hemorróidas.” Nas descrições, a terra e a natureza recriam-se plasticamente e por si sós, movendo-se ora e vez pelo olho atento de uma câmera invisível: “Logo o sol dará à cidade, no horizonte, a aparência arenosa de um traço a pastel, um aceno. Mas ele é rijo e sem olhar para ela segue a caminho do Sul.” Ou nesta visão meio nostálgica, um tanto à Salinger e/ou Saroyan: “Havia guerra do outro lado do mundo e fora por ruas diferentes daquela terra vermelha, forte, barrenta, que ambos tinham chegado a L., em meados dos anos 40.” Mais adiante a província se abre inteira dentro do cotidiano: “...coisas na memória dela amontoadas ao acaso como cartas de jogar, eles tiveram mesmo de se casar, para acabar com os falatórios e os rubores do seu corpo.” A dedicatória do livro reforça mais ainda a preocupação do autor com a dualidade província-metrópole, quando os advérbios aqui e lá introduzem e separam as homenagens ao clã local e aos novos amigos do Rio. Mas de novo nos fixamos no filão de Lond.(ou Land. ou Londrina). Aqui, subjacente, um caminho se percorre e se desdobra mais uma vez: o do romancista que pode surgir e que nos parece de fôlego e correnteza represados em "Sextuor: o pai". Os diques colocados nesta novela à maneira de divisões de capítulos são marcas de condensações de um romance que só deixou de crescer para se acomodar ao livro como conjunto de 'contos reunidos'. Embora não deixe de compor um todo orgânico com os demais contos, "Sextuor: o pai" é em si um painel completo (mesmo comprimido) para onde convergem todos os dramas que a província amesquinha e amplifica. “É vivendo aqui em Land., que só tem a crescer na sua mediocridade. Dezenas de casais como nós enfiando a cabeça pelas frestas dos baronetes do café.” Também é ao falar da terra que vêm as melhores descrições da paisagem paranaense, e é nelas que o autor deixa transparecer a vocação poética: “Neblina como echarpes preguiçosas na copa das árvores à margem da lagoa. Depois vinha o sol branco, sorridente, cheio de revelações. Os pastos, as vacas, as amoreiras”. E mais ainda as descrições vão se adensando para brilhar na noite: “É noite, meu pai. Lá fora, para nosso embevecimento, há um céu de maio que parece sustentar-se apenas na sua pureza, com uma Lua cabeceante a leste entre duas constelações. Estamos em Touro, sob o domínio suave de Vênus. Hydra navega desdenhosamente próxima de Leo, enquanto Antares, no centro da noite, brilha girando sobre si mesma como uma noiva em festa. Eis a trama dos astros para o fim desse outono de nossa desesperança.” Em busca da vida em seus detalhes, o ficcionista procura definições, sonda nuances, “na calma febril da memória, com aqueles anos destroçados entre os dedos, anos sem clareza, sem destino e que, se tinham sido perdidos tão abusada, tão levianamente, pelo seu pendor a culpas à menor sombra de logro ela merecia que não lhe trouxessem alento nem proteção contra a morte pestanejante às suas costas.” Outras vezes Jair Ferreira tira do prosaico o poético ou o prosaico dele mesmo: “A cozinha com suas facas de dois gumes.” Ou aqui, meio à Oswald de Andrade: “Os requintes dela tinham sido vestidos de crepe, sianinha, sutache, tailleurs de linha para casamentos e batizados, boleros para esporte e às vezes um turbante enrolado com jeito e romantismo meio a uma nuvem de talco Ross e água-de-colônia.” Em Lond. estava centralizada a vida da burguesia do café e da terra roxa do Paraná, e ali novas relações se faziam: “Nascer em Land e ser artista de teatro. Só faltava essa. Diverte-se porque Ariel não é capaz de imaginar a mulher que for sua mulher sem cozinha de aço, aspirador de pó, seguro de vida e uma reconfortante conta conjunta como prêmio para proezas na cama.” “Já tem morte de sobra rondando sobre nós. Sinto. Morremos em nossa família. Dois irmãos há muito tempo. Por isso mesmo, já era hora. Dois ciprestes bem altos atrás do túmulo deles. No outono ficam escuros e tristes. Ariel prometeu pintar o túmulo para novembro. Longe demais.” A outra parte anteriormente mencionada – constituída por "Dan & Dan: exercícios de Narciso", "De tarde", "Kafka, na cama", "Joel Sad ou Week-end mais ou menos à Saroyan" e "Xique & Jô/Ousada pecinha fratricida" –, pertence a uma linha urbana. É a vertente carioca. Esses contos mostram uma sintaxe peculiar que é a teia em que corretamente se “inscreve” e acontece sua narrativa curta. E o circuito se transforma num jogo em que um gato e seu dono – Dan e Dan – se enrolam numa amizade perfeita, no conto "Dan & Dan: exercícios de Narciso", de todos o mais bem realizado no plano da linguagem. “(...) não era nem persa nem angorá nem siamês nem espanhol, mas um preguiçoso novelo de pelúcia cor-de-rosa (Dan tingira-o) acidentalmente estendido sobre ossatura e vísceras de procedência ignorada.” De tarde, Kafka, na cama, de fachada erótica, transmite a todo tempo um humor resvalante para o cinismo: “– Vocês têm filhos? – Não e não é triste. Seriam pessoas a mais a quem mentir. – É sempre assim com você? Não há nada que você aceite sem bancar a serpente? – Uma boa cama.” Em "Joel Sad", há o encontro do personagem-título com o guarda do aeroporto e o tête-a-tête com a prostituta. Merece transcrição. “(...) ele teve de se recompor quando achou que o guarda do portão de embarque, com a fatalidade de uma máquina a realizar o seu trabalho, caminhava na sua direção. O guarda passou. A ansiedade ficou. Relax, imbecil. Liberdade não é vigia. O guarda do guarda. Ad infinitum." “Ela tirou a roupa com a rapidez de ilusionista e o que era mulher converteu-se numa ave gorda, implume, tatuada do joelho à nuca com tranças de celulite.” E o diálogo cortante, com a saída pela tangente: “– Você tem mãe? – Mãe está fora de moda – não sabia por que respondeu Joel.” A Joel restava – no abandono de um dia inteiro vagando pela cidade grande – ver a “decolagem de aviões no Santos Dumont. Arrebatado por eles, pelo seu dom de repouso no ar, talvez recuperasse um pouco a tolerância consigo (...)” Quase todo num diálogo acre é "Xique & Jô/ousada pecinha fratricida", em que os personagens são um corcunda paralítico e seu periquito, em clima surreal. “Jô: Aquecimento, Xique. Circuit training. Poesia faz bem. É a ginástica da alma. Xique: E a fome? Jôz: É a prosa.” Ou ainda na definição de Jô: “A felicidade. A velha cenoura que apodrece cada vez mais longe do nariz. Quem disse que eu quero ser feliz?” E neste que poderia ser um desfecho, com pano rápido, no auge do pessimismo: “Xique: Eu te mato (vários soluços) Jô: Você não me faria esse favor (...)” Com “Kafka na cama”, Jair Ferreira dos Santos pode – pela qualidade de texto, pela criatividade na criação e pela acuidade com que produz suas cenas e personagens – ser considerado um dos melhores ficcionistas da atualidade. Bibliografia: SANTOS, Jair Ferreira dos. Kafka na cama. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.