James Joyce (1882-1941) nasceu em
Dublin, Irlanda. Considerado pela crítica como um dos maiores escritores do
século XX, escreveu contos e romances.
Como romancista criou “Ulisses” (*),
um romance que revolucionou as técnicas da ficção ao desmontar a narrativa e até
a sintaxe tradicional, e nisso se inclui a pontuação, a estrutura das palavras,
a ordem do seu (anti)discurso.
Há cerca de 20 anos venho lendo
esse livro. e agora, graças à excelente tradução da professora Bernardina da
Silveira Pinheiro, estou vencendo essa escrita cheia de citações históricas embutidas
num texto várias vezes truncado pelas experimentações com a linguagem.
Na página 201 surge o episódio
do rapaz cego encontrado por Leopold Bloom (o protagonista) na Dawson Street,
em Dublin. Ali o texto joyceano se enriquece ainda mais e posso associá-lo a um
fato autobiográfico: o autor teve sérios problemas com a visão.
“Um rapazinho cego batia de leve no
meio-fio com sua bengala fina.
– Você quer atravessar? – perguntou o
sr. Bloom.
O rapazinho
cego não respondeu. Sua cara rígida se fechou levemente. [...]
– Eu o ajudo a atravessar. Você quer ir para
Molesworth Street?
– Sim – respondeu o rapazinho. [...]
– Venha – disse o sr. Bloom.”
Aí vem o toque
joyceano: “Ele tocou gentilmente o cotovelo magro: em seguida tomou a mão
vidente e flácida para guiá-la adiante.” (p.
202)
“[...] O
rapazinho cego bateu de leve no meio-fio e prosseguiu no seu caminho recolhendo
sua bengala apalpando o chão de novo com ela.”
“O sr. Bloom caminhou atrás dos
pés privados de visão, de terno de tweed em espinha de peixe de corte uniforme.
Pobre moço! Mas afinal de contas como ele podia saber que o furgão estava ali?
Deve tê-lo sentido. Veem coisas em suas cabeças talvez: uma espécie de sentido
de volume. Peso ou tamanho dele, alguma coisa mais negra do que a escuridão. Me
pergunto como ele se sentiria se alguma coisa fosse removida. Sentiria como um
buraco. [...]” (p. 203)
Assim, o narrador vai registrando
suas impressões por meio do protagonista, e, até a página 205 há outras que o
colocam também na mente do personagem, numa associação provavelmente referente à
própria deficiência do autor.
Como esse episódio, existem
muitos outros dignos de menção, pois, nas suas 888 páginas este romance não
revolucionou apenas a estrutura da narrativa ficcional, mas também muito do
pensamento do século em que viveu o autor.
(*) JOYCE, James. Ulisses. Trad.
Bernardina da Silveira Pinheiro. São Paulo: Editora Objetiva, 2005, 888 páginas.
07/01/2026

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