3/08/2026

MOVIMENTO VERDE - AUTOENTREVISTA - JOAQUIM BRANCO

 



AUTOENTREVISTA SOBRE A REVISTA VERDE

Joaquim Branco

Há algum tempo, algumas pessoas vêm me pedindo mais dados sobre a Revista Verde, pois a conhecem de ouvir falar, mas gostariam de entender essa história. Aí vão dados rápidos em forma de entrevista:

VERDE PARA QUEM QUER SABER

- O que era a “Revista Verde” de Cataguases?

- A Verde representava o movimento literário de vertente modernista surgido em Cataguases, zona da mata mineira em 1927. Começou com alunos e professores do antigo Ginásio de Cataguases e se firmou com a edição da Revista Verde, que teve ao todo 6 números.

– Por que Cataguases? Seria talvez um acaso?

– Teria sido a sorte de certos moços se encontrarem em Cataguases numa mesma época, atraídos pela fama do Ginásio, no início do século XX.

– O que era Cataguases?

– Uma cidadezinha no interior da zona da Mata mineira com 16 mil habitantes (toda a comarca), como outra qualquer.

– Quem eram os rapazes da Verde?

– 9 rapazes (de 17 a 24 anos), sendo 7 estudantes (Ascanio Lopes, Fonte Boa, Oswaldo Abritta, Guilhermino Cesar, Francisco Inácio, Camilo Soares, Rosário Fusco) e 1 professor no Ginásio Cataguases (Martins Mendes). O 9º já era engenheiro (Enrique de Resende) e construía, na época, a estrada de rodagem Cataguases-Leopoldina.

– Eram todos de Cataguases?

– Apenas 3 (Francisco, Enrique e Oswaldo) eram daqui mesmo, outros vieram para cá por acaso e outros foram atraídos pela fama do Ginásio e pela situação econômico-financeira do município.

– Além do Colégio que outros elementos contribuíram para o progresso da pequena cidade?

– O grande comércio de café (Cataguases era um centro comercial de toda a região);

- A chegada da Estrada de Ferro para cá;

- A criação do Teatro Recreio (hoje Edgard Cine-Teatro), onde eram representadas peças teatrais vindas do Rio de Janeiro.

Como e por que terminou o movimento da Revista?

Terminou em 1929 com saída de alguns para estudar em capitais e com morte do poeta Ascanio Lopes, mas continuou com a expansão das obras de alguns de seus participantes.

Nota: para maiores informações leiam meu livro "Passagem para a Modernidade", que esclarece muito mais.

  1. Camillo Soares
    Ascanio Lopes

                                                                             


 

Enrique de Resende
Enrique de Resende



Martins Mendes
Rosário Fusco
Guilhermino Cesar
E
                                      


Fonte Boa

Francisco Inácio Peixoto
                        
  

Oswaldo Abritta

1/07/2026

JOYCE - "ALGO MAIS NEGRO DO QUE A ESCURIDÃO"

 

James Joyce (1882-1941) nasceu em Dublin, Irlanda. Considerado pela crítica como um dos maiores escritores do século XX, escreveu contos e romances.


Como romancista criou “Ulisses” (*), um romance que revolucionou as técnicas da ficção ao desmontar a narrativa e até a sintaxe tradicional, e nisso se inclui a pontuação, a estrutura das palavras, a ordem do seu (anti)discurso.

Há cerca de 20 anos venho lendo esse livro. e agora, graças à excelente tradução da professora Bernardina da Silveira Pinheiro, estou vencendo essa escrita cheia de citações históricas embutidas num texto várias vezes truncado pelas experimentações com a linguagem.

Na página 201 surge o episódio do rapaz cego encontrado por Leopold Bloom (o protagonista) na Dawson Street, em Dublin. Ali o texto joyceano se enriquece ainda mais e posso associá-lo a um fato autobiográfico: o autor teve sérios problemas com a visão.

Um rapazinho cego batia de leve no meio-fio com sua bengala fina.

– Você quer atravessar? – perguntou o sr. Bloom.

O rapazinho cego não respondeu. Sua cara rígida se fechou levemente. [...]

– Eu o ajudo a atravessar. Você quer ir para Molesworth Street?

– Sim – respondeu o rapazinho. [...]

– Venha – disse o sr. Bloom.”

Aí vem o toque joyceano: “Ele tocou gentilmente o cotovelo magro: em seguida tomou a mão vidente e flácida para guiá-la adiante.” (p. 202)

“[...] O rapazinho cego bateu de leve no meio-fio e prosseguiu no seu caminho recolhendo sua bengala apalpando o chão de novo com ela.”

“O sr. Bloom caminhou atrás dos pés privados de visão, de terno de tweed em espinha de peixe de corte uniforme. Pobre moço! Mas afinal de contas como ele podia saber que o furgão estava ali? Deve tê-lo sentido. Veem coisas em suas cabeças talvez: uma espécie de sentido de volume. Peso ou tamanho dele, alguma coisa mais negra do que a escuridão. Me pergunto como ele se sentiria se alguma coisa fosse removida. Sentiria como um buraco. [...]” (p. 203)

Assim, o narrador vai registrando suas impressões por meio do protagonista, e, até a página 205 há outras que o colocam também na mente do personagem, numa associação provavelmente referente à própria deficiência do autor.

Como esse episódio, existem muitos outros dignos de menção, pois, nas suas 888 páginas este romance não revolucionou apenas a estrutura da narrativa ficcional, mas também muito do pensamento do século em que viveu o autor.

(*) JOYCE, James. Ulisses. Trad. Bernardina da Silveira Pinheiro. São Paulo: Editora Objetiva, 2005, 888 páginas.

07/01/2026