3/24/2018

SHOW DE TRUMP






Nas savanas da África
soa o alarme das armas:
Trump autoriza caçadores
americanos a buscar seus troféus
na cabeça de elefantes e leões.

É uma nova lei (da selva)
sem Tarzan, com caravanas
para o deleite da alta burguesia
numa fria escalada de horror.

Ante o poder do dinheiro
nada podem os africanos.
(– Eles só querem os chifres,
os dentes e as cabeças dos bichos!..)

– Mas como tirar chifres e cornos
sem os matar?
Trump avança entre o sim e o não
e seu coração (?) balança
pela ordem final: a matança.

Duvidar, quem há-de?

(24-03-2018)

2/25/2018

ROTA PARA O RIO-MAR





Sobre o lado ímpar da memória
o anjo da guarda esqueceu
perguntas que não se respondem.

(João Cabral de Melo Neto)


Quanto mais se souber da geração que, nos anos de 1960, na esfera mundial, revolucionou artes e costumes de modo tão radical, e da história da pequena cidade mineira de Cataguases, mais se vai poder mergulhar no universo de Pomba-Poema, de Ronaldo Werneck. Porque essas são águas da memória, feita de emanações poéticas vindas de regiões e de um tempo que ainda não se conhecem bem.

Mas, se não for assim, mesmo se não se tiver afinidades com a geração de lennons, faustinos e guevaras, pode-se também fruir desse poema-livro, que é muito bom.

Percebe-se no início do poema como se descortina a cidade e o mundo – por que não? – como a preparar o leitor para a descrição-narração que vai acontecer: “Nesgas neblina/ manhã ainda agora/ o cheiro da maçã/ evocando a metrópole/ o mundo exterior extraído/ a cada odor & dentada/ o mundo além da reta da saudade/ antes das indústrias o mundo/ atolado/ na ponte do sabiá/ Há? Não há? Não sabíamos/ não sabemos/ não soubemos/ nunca jamais/ estava ali o mundo/ antes do tempo e da ponte/ num repente/ na girândola do vento/ manga/ jabuticaba/ abiu/ explodindo no dente/ mas o mar mar/ telando as pedras/ no meio da luz/ e dia memória.[...]” (p. 25)

Assim, deixe-se levar pelo seu embalo, perca-se nas corredeiras estreitas aqui, livres ali, ouça o canto dos seus pássaros nas margens, esqueça a poesia gramatical e paramentada. Guie-se pela descoberta e pelas sonoridades fluviais que puder encontrar dentro de si mesmo, porque ali estarão os poemas que ainda não foram escritos.

Lembre-se de que os modernistas nos deram a forma livre de escrever, depois João Cabral e os concretistas descobriram a palavra-ouro na sintaxe da bateia discursiva, e Cassiano Ricardo e os pós-modernos jogaram a palavra de novo no rio, riscando no mapa constelações de linossignos, afluentes e caudais ideogrâmicos e visuais.
Deixe o espírito liberto e o corpo descansado para ouvir estas vozes, que você entenderá, ou melhor, perceberá.

Mesmo porque o Pomba-Poema volta agora em outro livro, Minas em mim e o mar esse trem azul (Cataguases: Poemação Produções), com recorte novo e refotografado, garfado instante a instante por um Ronaldo ainda mais consciente e dono da matéria poética.

O livro ganhou, com o tempo, um projeto de edição definitiva, para ser lido aquém e além-mares, até que o futuro o consuma, e estes versos, que bem poderiam ser uma homenagem ao poeta Mário Faustino, vêm muito a propósito para finalizar a viagem de Ronaldo Werneck: “ao largo/ eu ilha/ eu barco/ bateau à toa/ rumo ao arco/ da tarde/ quilha que ecoa/ e corta/ o mar melado/ de sol/ e eternidade.” (p. 139)

2/20/2018

A NOITE DE JORGE TUFIC



O poeta Jorge Tufic (foto: proparnaiba.com)




A morte na semana passada do poeta Jorge Tufic (1930-2018) me colhe de surpresa, mas não sem dizer algo sobre ele e sua obra.

Poeta isolado no interior da Amazônia, destinado ao ostracismo pela distância dos grandes centros (São Paulo e Rio), mesmo assim conseguiu se projetar na literatura brasileira, embora seja mais conhecido por poetas e ficcionistas.

Na juventude, em Manaus, Tufic foi um dos fundadores em 1953 do "Clube da Madrugada", que reunia jovens escritores que estavam se iniciando na literatura e que mais tarde se projetaram regional e nacionalmente.

Outro dia, um de seus componentes, o contista Adrino Aragão, me lembrou de um de melhores trabalhos de Jorge Tufic: "Que será de ti, Amazônia?", constante de seu livro "Quando as noites voavam". Belo título, bons poemas, tema atualíssimo.

Por isso, vou me concentrar nesse poema. Não poderei transcrevê-lo dada a sua extensão, mas pinçarei alguns fragmentos. O título funciona como refrão a abrir todas as estrofes.

[...]
Que será de ti, Amazônia,
enquanto o envolvimento de teu solo,
à cata de minérios
envenenar os seus rios
e as toras de madeira submersas
desabarem sobre ti
numa queda insalubre e frenética
de chuvas ácidas?

[...]
enquanto o desmatamento e as queimadas
transferem para os teus ares o sezão
dos pântanos
e a temperatura dos internos?

[...]
última página do Gênesis,
quando os seres que fazem a tua escrita
enigmática
mergulhar na usura
que te rebaixa
aos olhos do mundo?

Assim, Tufic vai desfiando poeticamente todas as mazelas que afligiam (e agora ainda mais) sua terra, para terminar apocalipticamente:

"Os nichos sagrados estão em chamas.
Teu coração também se revolta
e sangra, Amazônia.
Fetos de carbono
imitam pajés enforcados
nas enviras do luar."

(20-02-2018)

2/08/2018

ASCENSOR PARA O CADAFALSO




Não sei por que, ao acordar, me lembrei do filme de Louis Malle "Ascensor para o cadafalso", com Jeanne Moreau e Maurice Ronet, de 1958. Um clássico francês.
Posso resumir: a mulher e o amante bolam um plano para matar o marido. O homem pratica o ato com a ajuda da mulher. Mas ao sair do apartamento, lembram-se de que esqueceram um roupão incriminador. O homem volta para pegar, mas fica preso no elevador.
Esse filme tem tudo – a partir do título – que lembra o momento atual: sordidez, traição, injustiça, mas aqui falta o roupão. Está tudo preparado. Por certo, se esquecerão de algo...
Escrevo antes do ato, portanto só posso conjecturar.
Mas, pela tv, estou vendo o exercício de contorcionismo dos cameramen para não mostrar toda a multidão que se concentra nas ruas. Os locutores estão exercendo o que tiveram de aprender em meses de distorção dos fatos, ao escolher palavras trocadas, num esforço para agradar aos senhores das estações. Tristes "profissionais". Os comentaristas, geralmente de baixo nível em língua portuguesa, fingem caras de sérios naquele "esforço" de dizer o implausível...
Só o povo nas ruas é pra valer. Muitos viajaram horas, torrando seu curto e suado dinheirinho para dar o seu apoio, mostrar a indignação para os togados e para a nação.
Sinceramente não sei o que poderá acontecer. Só tenho as palavras, estas que aqui vou alinhando, alinhavanhando, escolhendo e deixando no ar. Talvez para nada.
Prepararam o cadafalso. O ascensor vai subir. Tomara que pare e se possa fazer justiça a alguém que fez tudo para levantar o povo, e alguns ainda nem tomaram consciência disso.

2/06/2018

O "BRICOLEUR" MACHADO DE ASSIS







Depois de O quebra-nozes de Machado de Assis: crítica e historiografia, o professor e crítico Eduardo Luz volta às pesquisas machadianas com sua tese de doutorado O romance que não foi lido: Helena, de Machado de Assis (Edições UFC, Fortaleza, 2017).

Dividido basicamente em 3 partes: "O que Machado de Assis fez", "Como Machado de Assis fez" e "O que Machado de Assis é", a obra penetra profundamente no romance Helena, considerado até aqui como pertencente à primeira fase – a romântica – da ficção de Machado.

A leitura da tese é puro prazer para quem pelo menos conhece algo da obra de um dos maiores ficcionistas da literatura mundial no século XIX. Eduardo Luz produziu um trabalho que desperta a atenção do leitor até pela maneira como realizou o livro.

Na 1ª parte, o crítico prepara sua tese, alertando-nos para o que viria. Na 2ª, vem a grande novidade para mim pelo ineditismo da proposição: os 28 capítulos de Helena mereceram 211 notas curtas e curtíssimas que fornecem ao leitor um caminho suave (como leitura descansada e tranquila) para vencer essas 300 páginas de análise crítica. E na 3ª, identificam-se as fontes gregas aonde M. de A. foi buscar inspiração: as tragédias Coéforas, de Ésquilo, e Electra, de Sófocles e Eurípedes, atualizando-as para o seu século – o XIX.

Do mesmo modo que Eduardo chama Machado de "bricoleur", aqui lhe devolvemos o nome, pois utilizando o recurso das notas curtas, o crítico vai juntando os pedaços e/ou cacos para formar um imenso painel de clareza argumentativa, ao ir e vir, com desenvoltura, pelas páginas do romance, a fim de mostrar como nosso grande romancista construiu tijolo por tijolo sua obra. E o mais importante: ao provar que Helena não foi concebido como um simples romance do Romantismo da época, Eduardo Luz chama atenção para as 2 camadas em que Machado trabalhou: a "camada aparente", que seria percebida como interpretação romantizada, e a "subjacente", bem mais sofisticada, e que tem como tema a vingança ao estilo grego com as devidas adaptações para o Oitocentos.

Fonte inesgotável de pesquisas, a obra de Machado de Assis continua propiciando novas "descobertas" ao longo do tempo. Esta agora, da maior importância, levou o professor e crítico Eduardo Luz a publicar este "romance que não foi lido", uma bela surpresa para todos nós, críticos e leitores de Machado de Assis.




O crítico e professor Eduardo Luz







Cena de Helena, de Machado de Assis (coleção Gráfica e Editora Edigraf, S.Paulo).




A pintura de Magritte ilustra a capa de Valdianio Araújo Macedo.




1/06/2018

POEMA PROCESSO - 50 ANOS


Ao completar 50 anos de sua inauguração, 1968-2018, o movimento do Poema-Processo teve agora um documento digno de sua importância na vanguarda brasileira.
A edição da exposição e do livro Poema-Processo: uma vanguarda semiológica, pesquisa e organização de Gustavo Nóbrega pela Galeria Superfície, em São Paulo. Registramos o destaque à atuação e importância do poeta Wlademir Dias-Pino, pelo seu pioneirismo.


O poeta Dias-Pino



Trata-se de um tijolão de 320 páginas, formato grande, encadernação dura, edição wmf-martinsfontes.
Nele vamos encontrar toda a documentação sobre o movimento, incluindo os poemas e textos mais representativos, no tempo e no espaço, compreendendo as diversas vanguardas que formaram o P/P no país. Do grupo de Cataguases, participam da antologia com poemas: Ronaldo Werneck, Plinio Guilherme Filho, P.J.Ribeiro, Sebastião Carvalho e Joaquim Branco.


Bilhete do organizador Gustavo Nóbrega



Capa e contracapa do volume











Alguns dos poemas incluídos na antologia:


Cavalo Vietcong, de P.J.Ribeiro



Teagonia, de Plínio Guilherme Filho





de Sebastião Carvalho

12/07/2017

DIANTE DA LEI - Franz Kafka




DIANTE DA LEI

Franz Kafka

Diante da Lei há um guarda. Um camponês apresenta-se diante deste guarda, e solicita que lhe permita entrar na Lei. Mas o guarda responde que por enquanto não pode deixá-lo entrar. O homem reflete, e pergunta se mais tarde o deixarão entrar.
– É possível – disse o porteiro –, mas não agora.
A porta que dá para a Lei está aberta, como de costume; quando o guarda se põe de lado, o homem inclina-se para espiar. O guarda vê isso, ri-se e lhe diz:
– Se tão grande é o teu desejo, experimenta entrar apesar de minha proibição. Mas lembra-te de que sou poderoso. E sou somente o último dos guardas. Entre salão e salão também existem guardas, cada qual mais poderoso do que o outro. Já o terceiro guarda é tão terrível que não posso suportar seu aspecto.
O camponês não havia previsto estas dificuldades; a Lei deveria ser sempre acessível para todos, pensa ele, mas ao observar o guarda, com seu abrigo de peles, seu nariz grande e como de águia, sua barba longa de tártaro, rala e negra, resolve que mais lhe convém esperar. O guarda dá-lhe um banquinho, e permite-lhe sentar-se a um lado da porta. Ali espera dias e anos. Tenta infinitas vezes entrar, e cansa ao guarda com suas súplicas. Com frequência o guarda mantém com ele breves palestras, faz-lhe perguntas sobre seu país, e sobre muitas outras coisas; mas são perguntas indiferentes, como as dos grandes senhores, e para terminar, sempre lhe repete que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que se abasteceu de muitas coisas para a viagem, sacrifica tudo, por mais valioso que seja, para subornar ao guarda. Este aceita tudo, com efeito, mas lhe diz:
– Aceito-o para que não julgues que tenhas omitido algum esforço.
Durante esses longos anos, o homem observa quase continuamente ao guarda: esquece-se dos outros, e parece-lhe que este é o único obstáculo que o separa da Lei. Maldiz sua má sorte, durante os primeiros anos temerariamente e em voz alta; mais tarde, à medida que envelhece, apenas murmura para si. Retorna à infância, e como em sua longa contemplação do guarda, chegou a conhecer até as pulgas de seu abrigo, também suplica às pulgas que o ajudem e convençam ao guarda. Finalmente sua vista enfraquece-se, e já não sabe se realmente há menos luz, ou se apenas o enganam seus olhos. Mas em meio da obscuridade distingue um resplendor, que surge inextinguível da porta da Lei. Já lhe resta pouco tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências desses longos anos se confundem em sua mente em uma só pergunta, que até agora não formou. Faz sinais ao guarda para que se aproxime, já que o rigor da morte endurece seu corpo. O guarda vê-se obrigado a baixar-se muito para falar com ele, porque a disparidade de estaturas entre ambos aumentou bastante com o tempo, para detrimento do camponês.
– Que queres saber agora? – pergunta o guarda –. És insaciável.
– Todos se esforçam por chegar à Lei – diz o homem –; como é possível então que durante tantos anos ninguém mais do que eu pretendesse entrar?
O guarda compreende que o homem está para morrer, e para que seus desfalecentes sentidos percebam suas palavras, diz-lhe junto ao ouvido com voz atroadora:
– Ninguém podia pretender isso, porque esta entrada era somente para ti. Agora vou fechá-la.

(In A Colônia Penal, Trad. Torrieri Guimarães, Livraria Exposição do Livro, 1965)

11/11/2017

NAS MÃOS DA INSÔNIA E DA MEMÓRIA





As poucas vezes em que enfrentei a insônia passei por instantes ruins de nervosismo e impaciência.
Imagino o que pode ser um problema desses se se tratar de inumeráveis desses momentos a se repetirem quase todas as noites.

Cida Rezende é "habituée" da insônia e reflete isso em suas crônicas de "Não apague a luz ainda", título em que, utilizando uma única palavra (a última), revela-se toda a angústia de quem prevê uma noite difícil e por isso é preciso retardar o sofrimento.
Só que ela aprendeu a enfrentar a vigília... escrevendo, e – segundo a própria – assim consegue escapar dos conhecidos remédios para ansiedade e outras mazelas que afligem o ser humano.

A literatura universal – de Proust a Stephen King, de Tchecov a Graciliano Ramos (este último tem até um livro com esse título), lista à qual não poderia faltar o argentino Jorge Luis Borges – é rica na temática, não fosse grande o número dos artistas frequentadores da noite e seu silêncio para as criações literárias. Num de seus contos, Borges, viajando em suas poéticas abordagens, assim define o sono: "Dormir é distrair-se do mundo".

"Não apague a luz ainda" é um conjunto de crônicas de Maria Aparecida Resende Lacerda sob os temas da insônia e da memória, tratando-os, na maioria das vezes, tão leve e distraidamente que o leitor pode ser pego embarcando na mesma viagem da autora. Para isso contribui uma linguagem equilibrada e bem dosada que envolve e pede mais leitura a cada fragmento lido.

A primeira crônica "Foi assim", no entanto, mostra os primeiros enfrentamentos por meio dos quais a autora parece lutar fisicamente contra inimigos mortais e invisíveis ao mesmo tempo, como se antecipasse a vinda de um pesadelo cruel.
À medida que a escritura avança, como em "Entregando os pontos", a protagonista-autora descobre que, se for se soltando aos poucos nas mãos da insônia será melhor, como num doce martírio que acaba consumindo sem se sentir mais nada.
Os "canarinhos da terra" são protagonistas de "Opressão" e personificam o gênero humano em sua alegria e crueza, transvestidos de metáforas do homem em sua muitas vezes terrível miséria moral. Seres tão frágeis e bonitos, de repente, parecem se banalizar para "viver" personagens que a autora trabalha não como marionetes, mas como figuras que aos poucos vão criando vida própria e já não dependem do criador.

Percebi então, nessa altura da leitura do livro, que Cida não reuniu apenas crônicas dentro de um tema X, mas alcançou algo mais do que o gênero crônica e chegou a uma narrativa real-ficcional em capítulos, por meio de textos encadeados que se complementam e se sucedem naturalmente. Aí está a maior virtude do livro, a meu ver.

"Boa noite" e "Asas de anjo" formam um recorte para introduzir cenas da infância da autora a reviver momentos de saudade, sempre com cuidadoso uso da linguagem.
Bem mais à frente, ocorre um retorno ao tema da insônia, como se aqueles fossem quadros pelos quais a memória entressonhou a vida passada na mineiridade das coisas simples.
Essas crônicas inauguram uma série de reminiscências infantis e juvenis através de textos bem resolvidos e estruturados.
Na parte final, "Sono" retoma o fio que parecia perdido, como se a insônia reclamasse por algo que ficou no passado, e é isso mesmo, pois retornam os textos sobre a insônia que se encerram depois com "No silêncio".

Vale, para terminar, transcrever um fragmento que envolve "infância" e "insônia", como se ambas se juntassem para representar o passado e o presente tão bem urdidos e justapostos neste livro:

"Agora, tantos anos passados, aproveito minhas noites de vigília para reviver esses momentos e, com a inocência e delicadeza das crianças, visto minhas asas e vou ao encontro de outros anjos que foram embora e me deixaram para trás..."




11/02/2017

Conto "O ARQUIVO", de Victor Giudice



O ARQUIVO
– Victor Giudice

No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.
joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.
No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.
Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.
Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.
O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.
Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior:
dezessete por cento.
Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.
Agora, joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou. Prosseguiu a luta.
Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.
joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais, duas horas diárias.
Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.
Respirou descompassado.
– Seu joão. Nossa firma tem urna grande dívida com o senhor.
joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.
– Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.
O coração parava.
– Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.
A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.
– De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?
Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.
Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.
Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduzira-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.
Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se nun trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência:
A vida foi passando, com novos prêmios.
Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.
O corpo era um monte de rugas sorridentes.
Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho.
Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:
– Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.
O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um liquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:
– Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.
O chefe não compreendeu
– Mas, seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?
A emoção impediu qualquer resposta.
joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.
joão transformou-se num arquivo de metal.

(in GIUDICE, Victor. Necrológio. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1972, p. 1-6)
Victor Giudice, grande contista brasileiro (1934-1997) Foto de Verônica Peixoto, agência O Globo.
Obras:Necrológio (1972).[1]
Os banheiros: contos (1979).[2]
Museu Darbot e outros mistérios (1994), vencedor do Prêmio Jabuti de 1995.
Salvador janta no lamas: contos (1989)

10/30/2017

CDA - POEMAS DEMOLIDORES



POEMAS DEMOLIDORES

Joaquim Branco

É por demais conhecida a característica dessacralizadora dos primeiros anos do Modernismo brasileiro, quando Oswald de Andrade e seus aliados investiram contra as muralhas de um passado com o qual queriam romper.
Na literatura, particularmente, os poetas utilizaram uma arma tão mortífera quanto eficaz: o humor, temperado pela determinação de ruptura. Às vezes, apenas através de uma ironia reticente, mas, em muitos casos, do riso grotesco, da gargalhada franca ou da simples galhofa.
Tendo como foco a obra de Carlos Drummond de Andrade, vamos nos ocupar de uma fase de sua obra, que, mesmo tendo em vista uma atuação discreta em termos pessoais, contribuiu grandemente para a derrubada de um status quo que acompanhara a virada do século XIX.
No número de estreia da revista Verde, de Cataguases, Drummond comparece e deixa transparecer todo o seu arrojo, praticamente na sua primeira demonstração de que não estava no movimento apenas como figurante:

SINAL DE APITO

Um silvo breve: Atenção, siga.
Dois silvos breves: Pare.
Um silvo breve à noite: Acenda a lanterna.
Um silvo longo: Diminua a marcha.
Um silvo longo e breve: Trânsito impedido em todas as direções.
Três silvos longos: Motoristas a postos.

(A este sinal todos os condutores tomam lugar nos seus veículos
/para movimentá-los imediatamente).
(VERDE nº 1, set.1927, p. 15)

Continua a série de poemas demolidores da velha retórica, com o hoje famoso “Quadrilha”:

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém,
João foi pros Estados Unidos, Teresa foi pro convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com Brederodes (1)
que não tinha entrado na história.
(VERDE nº 3, nov./1927, p. 15)

E complementa sua participação na revista com “Convite ao suicídio”, em que se arrisca bem mais na questão temática, expondo-se à ira da tradicional família mineira em longo poema:

Vamos dar o tiro no ouvido,
Vamos?
Largar essa vida
largar esse mundo
com prar o último bilhete
e desembarcar na estação central do Infinito perante a comissão
/importante de arcanjos bem-aventurados profetas – vivôooô!
[...]
Vamos fazer a grande besteira:
rebentar os miolos
e ir receber no céu o castigo de nossos amores
e o prêmio de nossas devassidões.
(VERDE nº 4, dez./1927, p. 16-17)

Os versos anedóticos, poemas-minuto e as blagues extrapoladas de tão variados matizes predominam e nos dão a impressão de que o poeta tem uma metralhadora giratória nas mãos, quando faz crítica à poesia tradicional e ao mesmo tempo desloca o eixo da sobriedade poética, como em:

(...)
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é o meu coração.
(...) (Ibid., p. 9-10)

A última peça de Alguma poesia, o “Poema da purificação”, não tem o timbre iconoclasta dos demais, como a dizer ao leitor: olhe, eu também faço poesia sem brincadeiras. Em lugar do anjo torto do início do livro surgem as figuras de três anjos – um bom, um mau e um regenerador –, que ajudam o poeta a tentar a redenção do mundo pela poesia:

Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.
[...]
Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.
(Ibid., p. 77)

O humor e a poesia sintética foram as armas mais poderosas utilizadas por Carlos Drummond e seus companheiros de geração naquela hora em que o movimento modernista precisava se firmar, derrubando os clichês e os lugares-comuns de uma poesia ultrapassada. E foi através de Drummond, que demonstrou metalinguisticamente haver um mundo novo a se criar, que pudemos ver como alguns entulhos do conservadorismo foram removidos para a chegada de uma nova era.

BIBLIOGRAFIA
ANDRADE, Carlos Drummond. Fazendeiro do ar & poesia até agora. Rio de Janeiro: José Olympio, 2ª edição, 1955.
VERDE: revista mensal de arte e cultura. Cataguases, n. 1-5, n. 1 da fase 2; 1 n. especial de apresentação e depoimentos. Ed. fac-similar. 1927-1929. São Paulo: Metal Leve, 1978.
____________
1 Nas versões posteriores deste poema, Drummond alterou o nome 'Brederodes' para 'J. Pinto Fernandes', muito mais insinuante e significativo para as intenções do poeta e para o conjunto do texto.

(Desenho de CDA por Nelson Bravo)

10/18/2017

"VERDE" NO COLÉGIO ESTADUAL CLÓVIS SALGADO


Hoje, 18-10-2017, mantive pela manhã um bate-papo com professores e alunos do Colégio Clóvis Salgado, Cataguases, sobre o "Movimento Verde, a literatura modernista e a cidade de Cataguases". Apreciei o interesse de diretores, professores e alunos na matéria abordada e agradeço a atenção e a boa recepção que me proporcionaram durante a estada lá.






10/12/2017

POEMA PROCESSO - 50 ANOS (1967-2017)


50 ANOS POEMA/PROCESSO: UMA VANGUARDA SEMIOLÓGICA



Foto de Roberto Moriconi da 5ª Exposição do Poema Processo no Rio de Janeiro em 1968, a convite de Arte no Aterro, org. por Frederico Morais.


Após dois anos de pesquisa, a Galeria Superfície tem o prazer de apresentar a exposição 50 anos Poema/Processo: uma vanguarda semiológica. A mostra rememora as primeiras exposições e manifestações artísticas do movimento, iniciadas em dezembro de 1967, simultaneamente em Natal (RN) e Rio de Janeiro (RJ). Nesta ocasião, o grupo lançou seu manifesto e suas proposições, contando com artistas dos estados de Minas Gerais, Bahia, Rio Grande do Norte, Espírito Santo e Pernambuco.
Decorrente do concretismo, o movimento Poema/Processo surge como um rompimento criativo com a comunicação institucionalizada no campo da literatura, da poesia, do cinema e das artes plásticas. Verificou-se primeiro a necessidade de separação entre poema e poesia, tendo a poesia como um conceito abstrato, e o poema como objeto tátil, material, plausível de ser rasgado e manipulado. Depois a concepção de poema foi radicalmente ampliada sendo produzidos pelo grupo poemas-visuais, poemas-objeto, poemas para serem rasgados, poemas para serem queimados, poemas comestíveis, filme-poemas e happening-poema.
A exposição ocorrerá no espaço da Galeria nos Jardins em São Paulo e, simultaneamente, na Biblioteca Mário de Andrade, que recebe obras do movimento como extensão da mostra. Estarão em exibição obras históricas inéditas, produzidas entre o período de 1966 a 1977, de artistas como Wlademir Dias-Pino, Álvaro de Sá, Neide Sá, Décio Pignatari, Falves Silva, Moacy Cirne, Paulo Bruscky, Anchieta Fernandes, Márcio Sampaio, Joaquim Branco, P. J. Ribeiro, Ronaldo Werneck, entre outros.
No mesmo dia será exibido no auditório da Biblioteca, às 18h30, o filme Apocalipopótese - Guerra & Paz(1968), do poeta e documentarista Raymundo Amado, que registrou uma das primeiras exposições do movimento, nas atividades propostas por Frederico Moraes no evento chamado Arte no Aterro, no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro.
(Texto produzido pelos organizadores da mostra em São Paulo)
Serviço
21.10.2017 - 15.12.2017 Horário de visitação - Galeria Superfície: de terça a sexta, das 10h às 19h sábado, das 10h às 17h - Biblioteca Mário de Andrade:(Rua da Consolação, 94 - Consolação)de segunda a sexta, das 08h às 22h sábado e domingo, das 08h às 20h




"Manhattan", poema processo de Ronaldo Werneck




"Voguerrilha", de Sebastião Carvalho





Aquiles e Joaquim Branco, Ronaldo Werneck, P.J.Ribeiro e Sebastião Carvalho participam da expô dos 50 anos do Poema Processo (outubro 2017)




JB e P.J.Ribeiro



Ronaldo e JB


O grupo Totem nos idos de 1970: 1-Ronaldo, 2-Pedro, 3-Adolfo, 4-Joaquim, 5-Aquiles, 6-Sebastião, 7-Plínio e 8-Meu carro


JB e PJ Ribeiro com Wlademir Dias Pino, nos anos 1970






O grupo totem com Chico Peixoto, no seu aniversário de 70 anos.





10/08/2017

LANÇAMENTO DOS LIVROS "REFUGIADOS" E "SOB O SIGNO DO IMPREVISTO" - 09-09-2017

Fotos da noite de lançamento dos livros "Refugiados", de Joaquim Branco, e "Sob o signo do imprevisto", de Ronaldo Werneck, dia 9 de setembro de 2017: