11/25/2014

DELSON GONÇALVES FERREIRA (1928-2014)


Delson Gonçalves Ferreira é filho de Cataguases embora tenha nascido em Miraí e sempre fizesse questão de afirmá-lo. Acontece que, além da proximidade e das muitas similaridades, a cidade de Miraí já fez parte do nosso município. Portanto, podemos dividir o orgulho – e ele, naturalmente, sobra para as duas cidades.

Delson tinha índole de pesquisador e desde cedo destacou-se como escritor e professor de colégios, cursos pré-vestibulares e da Universidade Federal de Minas Gerais, onde se aposentou.
Notabilizou-se também pela publicação de livros não só na área do ensino literário como também de crítica e pesquisa.

Suas obras centrais são Ascânio Lopes - vida e poesia, editado nos anos 60, em que faz excelente levantamento da vida/obra de Ascânio Lopes, e que tem sido muito importante no conhecimento e na divulgação do poeta mineiro, e O Aleijadinho, em que levanta minuciosamente todos os elementos biográficos e artísticos que marcaram a presença deste gênio da arte em Minas Gerais.

Soube por seu irmão Dalton de sua morte em Belo Horizonte. Lamento muito, principalmente pela amizade e admiração que tinha por ele. E destaco sua grande contribuição como professor e ensaísta para a cultura cataguasense, mineira e brasileira.

11/08/2014

COM OS BESOUROS FALANTES NA PELE DA LINGUAGEM

No meio do mato besouros falantes emitem cochichos. Formigam farelos de falas, confundem e misturam nexos. Estes não são propriamente aqueles animaizinhos de asas noturnas e dura casca que, na ânsia da luz e dos holofotes, rodopiam rodopiam até cair embaixo de sapatos esmagadores.

Seu misterioso ciclo de vida resume a metáfora do destino humano ou o capricho das sensações e a busca de um sentido para as coisas. Os besouros que narram também pintam e bordam na construção de um texto sem paralelismos e rodeios. Sua mágica entra na poesia e sai na prosa, e, quando se pensa que se tornaram líricos, já se vestiram de épicos ou penetraram no drama.

Esses bichinhos ruminam sua fome de dentro da mente humana e dali se veem diante de uma sede que não sacia nunca. Ficam remoendo um grilo que o descuido deixou apanhar, ou dormem sobre o remorso de horas tediosas. São falantes porque o tempo todo falam e ouvem vozes que lhes ensinam coisas, e eles as devolvem ao leitor no seu besourar contínuo.

A maioria dos microtextos do livro de P. J. Ribeiro ("Besouros falantes"), que transcrevemos a seguir, foi escrita na década de 1960, alguns na de 70, poucos na virada do século. Mas todos trazem indelevelmente inscrita na pele a marca da aventura com a linguagem, que faz do homem não o melhor, mas o mais inquieto bicho da natureza.
Transcrevo algumas dessas micronarrativas de P.J.Ribeiro para o leitor continuar a ‘viagem’ que iniciei:

MONTANHAS DE MINAS
Olhe, só depois de passar por certas coisas e de notar esta chuva caindo de mansinho e que só aumenta com o tempo é que finalmente tomo coragem, passo as mãos nos móveis da sala e sinto como estão frios. Então percebo lá fora aquelas montanhas de Minas que continuam caladas estupidamente geladas olhando para mim.

NUM DETERMINADO PAÍS
Num país subdesenvolvido o que vale é ser rico.
Num país subnutrido o que vale é ser bicho.
Num país desenvolvido o que vale é ser mito.
Num país independente o que vale é ser gente.

CLÍNICA
Por favor,
aguarde na recepção.
Pode ser grande
a decepção.

DIAS E NOITES
Dias e noites eu me chego bem pra perto de mim – o sol se distancia e uma luz se apaga – e as perdas qu’eu sinto no peito, contrafeito, mordem-me os sentidos, tolhem-me a vontade.
Noites e dias me pergunto tonto qual o destino dessa vida errante, se pra me encontrar me afasto tanto, se ao me entregar me despedaço antes.

COCEIRA
Coço a cabeça, passo a mão na perna, limpo meu rosto, pego o cigarro, escovo os dentes, sento-me no vaso e só aí sai alguma coisa.
Descarrego sonhos.

DE QUE ME ADIANTA?
De que me adianta ser feliz em Atlanta?
De que me vale ser uma besta em Sales?
O que me impede de ser um cego em Medes?
O que me leva a esconder nas trevas?

DO LADO DE LÁ
Quero ver o que acontece
do lado de lá.
Quero mudar de time
pra me escalar.

Quem puder ouvir essas vozes aproveite; o livro é pequeno, mas a conversa é preciosa. Os besouros não estarão para sempre do lado do homem, a entrar em seus pensamentos para lhe dar ideias...

11/06/2014

VEREDAS NO "GRANDE SERTÃO"


O Grande sertão: veredas, obra maior de Guimarães Rosa, é um relato pontilhado de vozes, sonoridades e o entrecruzar de comentários e informações emitidas em todos os níveis.

É narrado por Riobaldo, um vaqueiro meio “letrado” que, por essas coisas do destino, se vê ali como jagunço “no meio do redemunho”, dentro do sertão e das aventuras que vão acontecendo.

Quem "ouve" as estórias contadas pelo protagonista Riobaldo é um homem misterioso e culto (ou o próprio autor, que ouviu de jagunços e vaqueiros os ‘causos’ transformados e refundidos em esplêndida trama ficcional) que jamais aparece, fica sempre na penumbra dos fatos.

Muitos leitores começam a ler o livro e param logo no início, porque querem "entender" imediatamente a narração, mas com isso incorrem num grande erro. É preciso avançar nas primeiras páginas, apenas ouvindo aquela estranha música, pois trata-se de um poema de grande fôlego, uma epopeia porém em prosa e que necessita de se espraiar para tomar corpo.

Quando os seus sentidos perceberam aquela melodia, você já estará trilhando aqueles novos caminhos, por dentro de palavras mágicas, e a estória do livro, trazida de dentro da construção vocabular e sintática de Rosa, se tornará conhecida e familiar.

Outro dado interessante é que dentro do Grande Sertão, há muitas pequenas estórias, entre elas o caso de Maria Mutema, o do Aleixo e o do Pedro Pindó. Vou tentar resumir os dois últimos, a seguir.

O Aleixo era um homem mau que vivia no Passo-da-Areia, junto a um açude onde criava traíras.
Um dia, Aleixo matou, sem motivo, um velhinho que por lá passara pedindo esmola. Antes de um ano se passar, seus quatro filhos adoeceram com uma espécie de sarampo, tiveram os olhos vermelhos e ficaram cegos.
Aleixo não enlouqueceu, mas mudou completamente sua vida, passando a fazer caridade dia e noite.

Já o caso de Pedro Pindó apresenta uma mudança do posicionamento dos personagens. Pedro e sua mulher viviam sossegados e no caminho do bem. Mas tiveram um filho de nome Valtêi que tinha maus instintos e maltratava e feria pessoas e animais. Os pais, então, começaram a surrar o menino até sangrar. Com o tempo, habituaram-se a bater nele todos os dias. O menino foi emagrecendo e os pais quanto mais batiam, mais sentiam prazer naquilo. Diziam os vizinhos que o menino não iria durar até a próxima quaresma.

Assim são – dentro da trama maior – as pequenas estórias de Guimarães Rosa no Grande sertão: veredas e nos demais livros. Relatos cheios de mistério e estranheza que retratam a vida num sertão cercado tanto de fantasia, religiosidade e preconceitos como de belos gestos e de aventuras fantásticas.
Depois desse romance o leitor nunca mais será o mesmo.

Guimarães Rosa, João. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: J.Olympio, 2ª ed., definitiva.

11/05/2014

UMA SINFONIA PARA MANUELZÃO

Só os verdadeiros ficcionistas têm o segredo da criação dos grandes personagens, baseiem-se eles ou não em algo de suas próprias vidas.
Mas o que aconteceu a Manuelzão escapa até ao previsível.

Manuelzão vivia no norte de Minas, era um vaqueiro daqueles embrenhados no sertão e às voltas com o gado e a roça. Um dia, conheceu um tal de dr. João Rosa, a quem contou suas estórias. Tempos depois, se transformou num personagem famoso, pois o doutor que havia conhecido era nada mais nada menos do que o grande escritor brasileiro João Guimarães Rosa.

Descoberto pela mídia após a morte de seu ´criador´, Manuelzão conheceu a grande cidade, fez sucesso em entrevistas de jornais e revistas e até na tv, com aquela sua maneira simples de contador de 'causos', de físico quixotesco e jeitão mulherengo.

Certo dia, porém, morreu o nosso herói.
Foi então que o contista Adrino Aragão resolveu contar como foi o dia em que morreu Manuelzão. E não é que Manuelzão, bebendo um fiozinho da prosa poética do autor amazonense, tomou vida e voltou às páginas de um novo livro, como personagem recriado pelo Adrino.

O livro se chama No dia em que Manuelzão se encantou – uma novela em que o autor narra os últimos dias do nosso Cavaleiro das Gerais fora do seu habitat.
É prosa, mas beira a poesia, e não poderia ser de outro modo ao se colocarem par a par o contista-poeta Adrino Aragão e um personagem especial de Guimarães Rosa, ou João Rosa, como o chamavam os vaqueiros de Minas.
Manuelzão, que havia saído da ficção de João Rosa para os bastidores da vida, para as entrevistas de rádio, televisão, jornais e revistas, agora faz o caminho inverso. Volta, depois de morto, definitivamente ao universo ficcional – de outro escritor –, transforma-se em personagem de uma nova estória.

No dia em que Manuelzão se encantou narra os últimos dias de Manuelzão no quarto de sua casa, após deixar o hospital, assistido pela mulher Rosalina. É lá que, entre lençóis e remédios, sente saudades do sertão, das veredas e dos animais, da vida aventurosa de cavaleiro das Gerais.

Longe da cavalgada e das proezas, no seu leito de morte, Manuelzão, através do habilidoso discurso indireto livre do narrador, revive o périplo que era sua vida e se sente agora deslocado. “O sonho de Manuelzão era poder morrer montado no cavalo, tocando boiada pelas veredas do sertão” (p. 23). Um verdadeiro cavaleiro não poderia morrer assim.

E agora estava ali, embalado pelo passado, lembrando a festa de inauguração da capelinha de Samarra, sonhando com o amor impossível de Leonísia, dormitando bem na fronteira onde termina o real. O voo de um passarinho que entra no seu quarto é mais do que um presságio: parece o preâmbulo do poético rondando a delicadeza e a magia do instante que precedeu à sua morte.
Comparecem algumas visitas ao quarto do doente: uma repórter de jornal que recebe os galanteios do velho vaqueiro, seus companheiros do Grande sertão e de Corpo de baile e o próprio autor. Manuelzão se emociona, fala com o matador Cara-de-Bronze, se enternece com Diadorim e Riobaldo, mas a cena final é reservada para o ‘criador’ João Rosa, o homem das letras e também o ouvinte atento que tudo anotava e o tornou famoso.
Em poucas e belas páginas, Adrino recria um Manuelzão trazido da legenda rosiana e de uma breve passagem pelo sucesso na cidade grande.

Adrino Aragão, em sua pequena novela, não reproduz a saga ou a linguagem rosiana. Mais do que isso, produz um texto independente e de rendilhado fino e sutil, cujo resultado é a magia desta pequena estória, certamente uma joia que dialoga com as veredas do grande sertão ficcional de Guimarães Rosa.

9/29/2014

VIDAS ILUMINADAS


São quase 1100 os manuscritos desta obra que, alcançando grande sucesso na Idade Média, vem sendo mundialmente traduzida e editada desde a sua origem em 1293. É a coletânea de hagiografia (vida de santos) intitulada Legenda áurea, de Jacopo de Varazze, traduzida diretamente do latim por Hilário Franco Jr. para a Companhia das Letras.

Em pouco mais de mil páginas, com apresentação, notas, iconografia, glossário de nomes e índice onomástico, o alentado volume tem encadernação dura e de luxo, e constitui em si um marco editorial: entre 1470 e 1500 – enquanto foram feitas 128 edições da Bíblia –, a Legenda teve 156. Esta sua 1ª edição em língua portuguesa contém a obra completa, dividida em 175 capítulos.

Um simbolismo medieval e bíblico impregna todas as páginas: as velas, além de fator de iluminação nas procissões, representam Cristo por serem fabricadas da cera pura das abelhas; o fogo é associado à divindade, também iluminadora e que consome; a mecha lembra a alma, latente na cera/carne; o demônio muitas vezes leva à perdição sob a forma feminina.

Outro elemento que faz parte da simbologia é a etimologia dos nomes dos santos que está presente em 86 capítulos, correspondendo à metade do total.

Somam 153 os santos focalizados, de Santo Abdão a São Vito, dos quais 91 foram martirizados das mais variadas e torpes formas.

Além dos aspectos religioso e histórico, cabe ressaltar o valor da Legenda áurea pelo lado específico do relato – revelado não apenas no seu conteúdo mas nas técnicas narrativas utilizadas – que foi preservado através dos tempos pelo trabalho meticuloso e meritório do religioso-escritor Jacomo de Varazze e que agora está à disposição do leitor brasileiro.

7/28/2014

EPISÓDIOS DA NOSSA HISTÓRIA


Estudiosos e interessados em história de Cataguases não podem desconhecer duas obras a que dediquei, no final do ano passado, prazerosa leitura: O solar da Fazenda do Rochedo e Cataguases e Engenho velho dos cataguás.

Escrito por Hélio Brasil que se baseou em pesquisas e notas de José Rezende Reis, o Solar da Fazenda do Rochedo e Cataguases (edição do autor, 2010, 271 páginas) é um criterioso e bem escrito trabalho que revela fatos históricos do município tendo como fulcro a Fazenda do Rochedo, situada nas proximidades do distrito do Glória.

O belo e antigo solar da família Rezende, onde morou o Coronel Vieira e grande parte de seus descendentes, guarda muitas recordações de nossa história e há anos vem sendo conservado pela família em sucessivas gerações.

Nesse livro, se discorre sobre fatos importantes que tiveram os Vieira de Resende como protagonistas, numa linguagem historicamente bem colocada aos propósitos do livro.
Ao final, está registrado um apelo para que as autoridades municipais tomem providências para efetivar o tombamento do Rochedo, o que, aliás, já foi previsto na Lei Orgânica do Município de 07-09-1990, no artigo 119.

Para complementar, nas suas últimas páginas estão estampadas inúmeras fotografias que ilustram vários dos eventos narrados e seus personagens.

De Climeia Rezende Jaffet (Bienal, 1998, 292 páginas), a segunda obra – Engenho velho dos cataguás – ainda que sob a mesma temática histórica, tem uma característica de narrativa romanceada, bem na linha de obras atuais.

A autora levanta fatos que remontam à origem da família Resende quando seus integrantes ainda moravam em Portugal, desde o século XV, passando pelo XVIII, XIX e XX.

Por meio desse relato, pode se também conhecer parte intrigante da vida de um grande personagem histórico nacional – o Tiradentes – parente ilustre da família Vieira de Resende. A história termina com a chegada da família à zona da mata mineira, especificamente a Cataguases.

Esses são livros básicos não só para o entretenimento do leitor pela saborosa leitura, como para o conhecimento da história de Cataguases, sem o que muitos dos nossos episódios significativos ficariam no sombrio limbo de nosso esquecimento.

(28-07-2014)

4/12/2014

ENSAIO COM EQUIPE DO PROLER-CATAGUASES

Fotos com a Equipe Proler-Cataguases, no dia 11-04-2014, na Chácara Dona Catarina, para o evento "Cataguases Cartazes".
(fotos com celular por Eugênia Ribeiro)

VISITA À FAZENDA DO ROCHEDO -- Cataguases


No dia 28 de janeiro de 2014, eu, Sonia, Eugênia e Yasuhiro Inoue - a convite do representante da famíia Vieira de Rezende José Rezende Reis - fizemos uma visita ao solar da Fazenda do Rochedo, situada no Distrito da Glória, município de Cataguases MG. Foi uma manhã extremamente agradável e enriquecedora especialmente do ponto de vista histórico, pois trata-se de um solar do século XIX que vem sendo conservado através do tempo por descendentes da família Rezende. Isso nos propiciou, graças à gentileza de José Rezende e irmãos, conhecer muito do nosso passado histórico-cultural.Da minha parte, foi a segunda visita que fiz à bela fazenda. As fotos são de Eugênia Ribeiro e Yasuhiro Inoue.


4/03/2014

O QUARTO CANTO DOS DEUSES - teatralização

Depois de muita busca, Pedro J.Ribeiro encontrou os originais da peça de sua autoria "O Quarto Canto dos Deuses", encenada no salão do Colégio Carmo (quando ali estava a Fafic) no ano de 1972. Cursávamos o 1º ano de Letras. Publico a seguir a ficha técnica da apresentação.Também foi encontrado o texto completo.


O QUARTO CANTO DOS DEUSES

Adaptação e Montagem recr(e,i) ativa, em um ato, do 3º e 4º Canto do poema "Os Lusíadas", de Luís de Camões, por P.J.Ribeiro, interpretado pelos alunos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Cataguases.

ATORES: Nilza Rodrigues, Terezinha Fonseca, Isabel Resende, Renata Teixeira, Elizabeth Schelb, Ana Maria Abritta, Mariana Cardoso, Pedro Branco, Cristina Carvalho.

MÚSICAS: Pedro Branco (P.J.Ribeiro) e Márcia Carrano.
VIOLÃO: Maria do Carmo Oliveira
TÉCNICA DE LUZ: Ana Pinheiro
TEXTO: Pedro e Joaquim Branco
DIREÇÃO: Simão José Silva

4/02/2014

QUEM LÊ BEM ESCREVE BEM


“Acho que a felicidade de um leitor está além da de um escritor, pois o leitor não precisa experimentar aflição nem ansiedade: seu negócio é simplesmente a felicidade.” (BORGES, 2000, p. 106)



Jorge Luis Borges (1889-1986), que exerce como poucos a magia da ficção sobre o leitor, deixando-o sempre magnetizado, consegue repetir a façanha também em suas palestras, reunidas em livro que recebeu o título de Esse ofício do verso. Deste, porém, me ocuparei especialmente em outro artigo. Agora farei apenas alusões à leitura e à escritura.

As palavras da epígrafe estão nesse livro, e me vieram à lembrança quando examinava um manual sobre a técnica da leitura e seu aproveitamento para se atingir uma boa escrita: Os degraus da leitura (2000, 81 p.), das professoras Adriane Belluci B.Castro, Cinthia Maria R. Remach, Helena Aparecida G. Arantes e Léa Sílvia Braga de C.Sá, editado pela Edusc-Editora da Universidade do Sagrado Coração, de Bauru (SP).

De modo prático e objetivo, o livro ensina o leitor a penetrar num texto por meio do reconhecimento de suas palavras-chave, da desmontagem de sua estrutura e outros recursos. São muitos os exercícios propostos nos capítulos em que se divide a obra, abrangendo, em um pequeno exemplar, letras de música, poemas, contos e até textos não-literários.

Escrever bem nem sempre significa ser um escritor – poeta ou ficcionista -, mas ser alguém que pode conhecer os segredos da língua, portanto manejar bem o idioma, penetrar na estrutura frasal e no sentido das palavras. Tudo isso se situa mais no terreno da pedagogia da leitura e da escrita, em nível de ensino-aprendizagem para estudantes de produção de textos.

As considerações de Borges, seu trabalho como escritor vão muito além; são exercícios de uma mente privilegiada que passeia invariavelmente pelos caminhos da poesia e da criação. Por isso, não estranhe o leitor este seu arremate com um desfecho quase tão irônico quanto mortal:

“A pessoa lê o que gosta – porém não escreve o que gostaria de escrever, e sim o que é capaz de escrever.” (Borges, 2000, p. 103)

BORGES, Jorge Luis. Esse ofício do verso. Trad. José Marcos Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

3/23/2014

QUINTAIS PELO MUNDO


– Como é bom
possuir
quintais por todo o mundo!,

dizes com olhos ávidos
a contemplar terras e mares
deste planeta azul.

Estendes tentáculos
por balas
canhões
e naves
que avermelham oráculos
e ameaçam
penínsulas
ilhas
desertos
em Cabul, na Mesopotâmia ou alhures.
E de que vale tudo isso
se se voltarem contra
na ânsia de mortal vingança?

Esses quintais são terras alheias,
ninhos de aves que podem se espantar
e virar seus bicos de metal e lacre
mesmo contra as fortes ameias
de um castelo de metáforas de aço.

Queres todos os quintais
do mundo
onde implantar
royalties, cifras e lucros,
como fez Roma
um dia
dona do sol que nunca se punha
no rico império que de si supunha.

06-03-2014



3/20/2014

EQUINÓCIO DO OUTONO



Com imagens de árvores
sem folhas
o Google comemora o equinócio
de outono.

Hoje é o primeiro dia do outono
quando os dias e as noites
partem-se igualmente
e começa a primavera
no hemisfério norte.

Hoje acontece o instante
em que o Sol corta em dois
o plano do equador celeste.

Cá as folhas não caem como as de lá
e lá os pássaros não gorjeiam como os de cá.
(Ah! Gonçalves Dias!!!)

Enquanto o hemisfério sul
se prepara para um ameno
inverno
no norte, por certo, o verão virá
com muito menos
sol.

20-03-2014

(foto Natália Tinoco)

3/08/2014

RECEITA FACE-TO-FACE'BOOK
















Adicionar é somar algo (ou alguém)
a alguém (ou alguma coisa).

Depois precisa-se misturar, esquentar
e mexer ou bater bem.

É essencial provar para ver
se ficou boa a mistura.

Em seguida, aconselha-se soprar
e mexer para não queimar a língua.
Enfim, deve-se engolir com a devida cautela.
Mesmo assim, pode fazer mal.

Em caso de dúvida, consultar imediatamente
um especialista.

3/02/2014

PEQUENA HISTÓRIA DO LIVRO

A história do livro e das bibliotecas se confunde com a história da liberdade do homem. É um longo relato que precisaria de muitos volumes para ser contado. No entanto Luciano Canfora, em pouco mais de 100 páginas conseguiu reunir em 8 capítulos uma série de informações preciosas que validam inteiramente aquele surrado provérbio dos “pequenos frascos que contêm...etc. etc.”.

Livro e liberdade (Ateliê Editorial e Casa da Palavra, 2002, 104 p.) nos dá, após a leitura, a sensação de prazer que toda pesquisa deveria levar ao leitor, além do conhecimento.

Recorda-se com ele a obsessão de Dom Quixote em se envolver com os livros de cavalaria e depois em aventuras, influenciado pela “projeção do mundo livresco sobre o mundo real” (p. 19); as fogueiras e mortes na época da Inquisição; os antigos textos de Luciano de Samósata que contam o caso da “epidemia” que tomou conta dos espectadores após a apresentação da peça Andrômeda, por terem-na fixado demais em suas mentes; a descoberta da verdadeira identidade de Shakespeare por meio do exame de um exemplar da Bíblia deixado pelo bardo inglês e que chegou às mãos de seus biógrafos.

Mas o capítulo mais interessante é o que narra fatos relativos ao Iluminismo francês, e às figuras dos enciclopedistas Diderot e D´Alembert. Deliciamo-nos quando o autor invoca acontecimentos da época da Encyclopédie, em especial alguns que envolveram sua confecção e publicação.

O personagem de Cervantes, as perseguições a Galileu e a Giordano Bruno, o Ancien Régime e a Revolução, a censura, a queima de livros e muitos outros estão nas páginas deste livro que vai interessar ao público em geral.
Há um capítulo em que o escritor Bertolt Brecht, em poema escrito no exílio, fala da raiva de um autor ao saber que os nazistas se ‘esqueceram’ de suas obras na fogueira de livros promovida por Hitler em 1933:

“Corre à escrivaninha, cheio de ira, e escreve aos poderosos uma carta.
Queimem-me!, rabiscou, queimem-me!
Não me fizessem semelhante ofensa!
Não me deixassem de fora! Pois a verdade, eu não a disse sempre nos meus livros?
E agora me tratam com se fosse um mentiroso! Ordeno-lhes! Queimem-me!” (p. 61)

2/23/2014

A MINERAÇÃO DA ESCRITA



Será lançado em Cataguases provavelmente em maio deste ano o novo livro de Lina Tâmega Peixoto Entre desertos (Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2013). Mais uma obra que vai enriquecer a fortuna literária de uma autora que começou a escrever em finais da década de 1940 e ainda tem muito a buscar nas minas de sua escrita.

Ler um livro de Lina requer tempo. Não o tempo normal que se gasta para leituras cotidianas, mas um tempo para se concentrar mais, pois ele exige do leitor mais do que a fruição de palavras que vão puxando palavras. Seu discurso requer um silêncio dentro desse tempo para se buscar, na memória de poemas já lidos, algo que nos favoreça e possa tirar do doce deleite de leitor desavisado.

Por outro lado, uma leitura distraída pode também trazer seus frutos, aqueles que, ao final de cada poema, sentimos quando pensamos apenas como diletantes do livro.

A partir dessas duas direções, comecei minha leitura, e deu certo mais uma vez. Fui dirigindo meu voo por penetráveis porém surpreendentes vias – que é assim o caminho dos bons livros – deparando ora com o recurso da metalinguagem, ora com a difícil música de alguns versos ou com a ligeireza do pensamento.

Neles há a predominância do gênero lírico, no entanto eles se repartem em temas cotidianos, religiosos, de amor à terra, aos amigos, à vida etc.

Em "Cone", "Hexágono", "A idade das palavras", "Caligrafia", "Atributos", está presente a metalinguagem diretamente, como nos exemplos:

"Mexo nas folhas do livro
como quem abre no corpo
a danação do espírito." (p. 35)

"Uma trepadeira de papel
arrasta-se pelas palavras
e entra pela janela do quarto." (p. 37)

No "Encontro em São Giovanni Rotondo", manifesta-se o elemento religioso, precedida pela epígrafe "Em São Padre Pio, a morte é construção". Nele, a autora vê "olhos abertos para as constelações da morte" (p. 57). O fecho do poema não é menos angustiante:

"Crespas e alvas palavras soltam-se de mim
em direção ao túmulo.
E cintilam na terra." (p. 57)

A solidão penetra no eu-lírico em "Sinto-me só", quase todo ele construído, filosoficamente em metáforas interrogativas, mas iniciado com exigências de quem assedia a poeta:

"Pediram-me chuva no deserto
como se eu fosse um seio
a amamentar as águas." (p. 55)

"Cobrir os ombros com altas estrelas
amassadas pelo azul que o céu sustenta?
Escavar o coração para vê-lo
enlutado de rosas
e rosário de vozes enterradas vivas? (p. 55)

Entretanto as vozes da poesia de Lina encontram mais eco nas coisas da natureza, no mundo físico que contempla, para dali tirar o pensamento mais denso, a lição da hora amarga ou do momento feliz, na "lida vã de limpar o tempo" (p. 26):

"lavo e enxáguo minha vida.
Amontoadas no sol
as montanhas de Minas erguem-se
em panelas, chaleiras e xícaras." (p. 27)

Tenho muito mais a falar sobre esse livro, mas é preciso deixar algo ao leitor para encontrar neste Entre desertos – ótimo título a nos acenar para horizontes poéticos desta poesia maior com que Lina nos brinda de tempos em tempos. Vale transcrever os versos em que mais uma vez fala de sua terra:

"Gotas de asas revoam
no manso curso do rio Pomba
como afluentes do pássaro." (p. 22)

(23-02-2014)











2/16/2014

"CATAGUASES CARTAZES" - Expô de poesia visual 1960-70

A MORTE DIRIGÍVEL


Drones são naves solitárias
que seguem um remoto comando
e, como folhas ao vento
ou como aves sem bando,
viajam no silêncio e na sombra.

Em seus bicos, trazem inscrita
a morte secreta e dirigível
que localiza em voo sinistro,
por um toque celular,
alguém que esteja no deserto,
no mar ou no indizível.

Um drone corta o espaço
em fatias de simples decupagens,
como se a viagem fosse apenas
pelo prazer do ar em suas penas.

Noturnos, eles traçam um voo cego
para pegar de surpresa o inimigo
ou qualquer um que desafie
o Império, o poder, o ego.

Voltam depois, na mesma noite-asilo
de que saíram, pois são velozes
vorazes assassinos do ar,
e, como estes, vão dormir tranquilos
nos hangares da inconsciência
que lhes tirou a inocência.

11-02-2014

2/10/2014

O PRESENTE QUE VEIO DA GRÉCIA


Não é segredo para ninguém o que a Grécia representou para o mundo – principalmente para o Ocidente – em termos de civilização e cultura. Sua influência através dos tempos deu-se de maneira intensa e multiforme, tanto na literatura como na história, na política, na filosofia, no teatro e até nos esportes.

Foi ali que beberam Shakespeare para suas tragédias, Camões para sua épica, e até Freud, que buscou na nomenclatura e no drama situações para suas descobertas no terreno científico, além de muitos outros.

Nessa longa tradição, a figura inaugural foi Homero que no século VIII A.C. criou a poesia épica e com ela as magníficas Ilíada e Odisseia. Imagine-se a existência desses dois monumentos da literatura 800 anos antes da era cristã! São obras clássicas inspiradoras de toda uma linha de produção que veio a se cristalizar no Renascimento, já no século XVI de nossa era.

Depois da época arcaica – a de Homero e Hesíodo – sucedeu-lhe a Idade Clássica, representada pelos mestres da filosofia, do teatro e da história cujo apogeu aconteceu nos séculos IV e V A.C. A filosofia, centrada na tríade composta por Sócrates, Platão e Aristóteles, legou à humanidade a base por meio da qual se iniciam, até hoje, os estudos filosóficos.

O mundo grego, fundamentado no debate e na variedade de ideias, também o era nas guerras, tema consagrado pelos primeiros historiadores de que se tem notícia: Heródoto, denominado o pai da história, e Tucídides.
No período entre os séculos VI e V A.C., com o objetivo inicial de homenagear os seus deuses e antepassados, inaugurou-se a arte teatral, firmada mais tarde com os festivais dramáticos. Considerado também um evento cívico, o teatro teve em Sófocles (Édipo-Rei), Eurípedes (Medeia), Ésquilo (Os sete contra Tebas) e Aristófanes (Lisístrata) os seus expoentes.

(texto já publicado no jornal Cataguases)

2/08/2014

DOMINGO DE LEITURA

Há algumas décadas ele me acenava da estante. É desses livros que vamos deixando para depois, devido a leituras prioritárias determinadas pela necessidade no trabalho e/ou nos estudos. Recentemente mandei-o para a encadernação e agora voltou em uma cor bege, mantidas, no entanto, no seu interior, a capa e as características que me atraíram desde 1959: Adeus, Mr. Chips (Porto Alegre: Editora Globo, 4ª ed., 1959, 132 pp.) , uma pequena novela escrita por James Hilton.

Chegava a sua vez. O domingo não me prometia nada e, mais do que uma leitura, um entretenimento poderia mudar as coisas, como efetivamente aconteceu.

Vale uma pequena introdução sobre o autor.

Escritor do século passado, Hilton (1900-1954) nasceu na Inglaterra, em Leigh (Lancashire) e morreu nos Estados Unidos, em Long Beach (Califórnia).

Começou sua carreira de ficcionista em 1920 com o romance Catherine herserf, mas só ficou famoso com Horizonte perdido (1933) – um best-seller na época – e com Adeus, Mr. Chips (1934). No ano seguinte, Hilton, com poucas malas e muita coragem, partiu para Hollywood, onde, até o final da vida, fez carreira como roteirista e adaptador de seus livros e de outros escritores para o cinema, com grande sucesso.

Voltando ao pequeno volume que tenho em mãos: são 18 capítulos curtos em letras grandes, formato pocket, 132 páginas. Acabei não muito rápido, mais para prolongar o prazer pelo resto da tarde na história de um professor que recorda sua vida numa escola inglesa – Brookfield – de fins do século XIX e princípios do XX.

O narrador, em terceira pessoa e com mão extremamente leve e hábil, conta a história do professor Chipping, apelidado Mr. Chips, desde que começou a lecionar. As conversas com a senhora Wickett, em cuja casa alugava um dos quartos, o contato com os alunos, o humor que desfiava em todas as ocasiões, uma vida enfim que passava como um filme, numa narrativa que parecia a princípio simples demais e que na sua inteireza se mostrou tão emocionante quanto criativa pela maestria do saber narrar.

Até o capítulo IV tudo transcorre na atmosfera da existência comum e enfadonha de um conformado solteirão que, “como ele próprio dizia, não fazia caso das mulheres, nunca se sentia bem ou à vontade na companhia delas”. (p. 27) Mas, nessa altura da novela, circunstancialmente, irrompe um personagem, uma certa Miss Katherine Bridges, “de olhos azuis e fulgurantes, faces pintalgadas de sardas e cabelos lisos cor de palha” (p. 29). Sua presença marcante e suas ideias avançadas não demoram a transformar o professor, eles se apaixonam e acabam se casando.

No flash-back do velho professor, que constitui a base da narrativa, esse fato parece ter determinado a mudança em suas atitudes, e estas, mesmo após a morte prematura de Katherine, passaram a compor, através dos anos, a mística de homem compreensivo, solidário e inovador em que se transformou o professor Chips na escola.

O desfecho da novela assinala o ‘adeus’ de um aluno a Mr. Chips e o anúncio de sua morte que consternou toda a comunidade, como foi consignado no discurso de despedida de Cartwright: “Brookfield jamais esquecerá essa figura querida.” (p. 132).





O escritor James Hilton