3/06/2015
CONVERSA À BEIRA DO RIACHO
Há muito venho adiando essa conversa.
Já fiz um longo poema sobre o tema, mas praticamente não deu resultado.
Agora vai uma prosa de apelo, de união, de cobrança.
É sobre o Córrego Lava-pés, que atravessa algumas de nossas principais vias como as avenidas João Inácio Peixoto, a Humberto Mauro e a Astolfo Dutra. Acontece que, se se analisar bem, ele passa por vários lugares – pelos bairros Nova Granjaria, Miguel, Cojan (João Paulo II), Colinas, Granjaria, Campo Burrão e os condomínios da Química e Palmeiras.
Imagine-se, nesses últimos anos, como cresceu o "serviço" e o desgaste desse pequeno riacho. Ruas, becos e vielas, avenidas, e ainda mais com a demolição de muitas casas transformadas pouco a pouco em prédios de apartamentos e comércio e indústrias – todos servidos por esse minúsculo fio d'água teimoso e persistente, apesar do número de detritos e lixo jogados diariamente em suas águas.
Sei que a Prefeitura limpa mensal mas superficialmente suas margens, recolhendo tudo que a população continua jogando inexplicavalmente em suas bordas, na forma de colchões e sapatos velhos, animais mortos, garrafas e plásticos em grande quantidade.
E o córrego vai remando toda essa parafernália em direção ao Meia Pataca, outro de nossos heróis esquecidos, que leva finalmente ao velho Pomba.
Recentemente com a erosão e as chuvas, na parte do Lava-pés que fica na Av. João Peixoto, criaram-se pequenos lagos ao lado de sua minicorrenteza, que são reservatórios de mosquitos. Verdadeiros campos favoráveis ao cultivo do aedes-egypti e outros de semelhante larva (literalmente). Isso representa um perigo muito maior. Fui atendido em alguns apelos à Secretaria de Obras, mas o que foi feito não resolveu o problema. A cada chuva, alagam-se as margens novamente... e voltam os insetos.
Portanto, urge pelo menos que se faça a canalização das margens do Córrego Lava-pés, principalmente na parte da Av. João Peixoto, cujas bordas estão se desmanchando e propiciando esse fenômeno.
É preciso tornar mais fluida a passagem heroica do Lava-pés por nossas casas, no mínimo como agradecimento pelo trabalho diuturno de levar tantas mazelas para outras paragens, enquanto não surge uma melhor solução...
(06-03-2015)
2/27/2015
COLÉGIO DE CATAGUASES - V
Complementando nossa série sobre o Colégio Cataguases, fechamos com esta foto da nossa bela conterrânea Penha de Souza em "solo" de pose criativa, na piscina do colégio. Lembra muito as "pin-ups" do cinema norte-americano dos anos 50, como Natalie Wood. Reparem no maiô, que é um charme. (in revista "O Cruzeiro", 11-02-1950)
2/26/2015
O CONTO, ESSA VALISE DE EMOÇÕES
O conto – seja ele muito curto ou apenas curto, experimental ou não, ou ainda o simplesmente tradicional conto realista com enredo claro e delineado – apresenta um limite de extensão, a partir do qual será considerado novela. Com tempo e espaço condensados, o contista tem que ser incisivo desde sua introdução, portanto todos os detalhes que vão sendo revelados devem ser observados atentamente pelo leitor com pena de se perder algo que as entrelinhas trazem implícito e que vai ser determinante para o clímax e a realização da história.
Julio Cortazar, no capítulo “Alguns aspectos do conto”, em seu Valise de cronópio (São Paulo: Perspectiva, 1974) mesmo reconhecendo que não há uma receita para se fazer um conto, propõe o que ele chama de “pontos de vista” – elementos que funcionam para formar a estrutura desse gênero literário.
Paralelamente à noção de limitação de páginas, Cortazar lembra, como decorrência disso, a eliminação de todos os elementos gratuitos ou decorativos do seu enredo, e acrescenta que tempo e espaço devem estar “submetidos a uma alta pressão espiritual e formal” (p. 152) para que se produza uma “espécie de abertura, de fermento que projete a inteligência e a sensibilidade em direção a algo que vai muito além do argumento visual ou literário” (p. 152).
Além disso, o ficcionista precisa manter a rédea do tempo e do espaço sob intensa pressão, tanto no que se refere ao enredo quanto à escritura utilizada, sem o que ficaria comprometida a realização do texto como relato ficcional.
Cortazar chega a afirmar que “um conto é ruim quando é escrito sem essa tensão que se deve manifestar desde as primeiras palavras ou desde as primeiras cenas” (p. 152).
A essa intensidade e tensão, alia-se um outro componente: o elemento ‘significativo’ do conto, que, ligado à temática, consiste na escolha de “um acontecimento real ou fictício que possua essa misteriosa propriedade de irradiar alguma coisa para além dele mesmo, de modo que um vulgar episódio doméstico, como ocorre em tantas admiráveis narrativas de uma Katherine Mansfield ou de um Sherwood Anderson, se converta no resumo implacável de uma certa condição humana, ou no símbolo candente de uma ordem social ou histórica” (p. 152-3).
Essa “misteriosa propriedade” – que representa um corte no cotidiano, no trivial, no puramente episódico e epidérmico – é que dá a qualquer narrativa o status de qualidade, de dinamicidade com o tempo e além dele, de cruzamento com o espaço comum dos acontecimentos, para se caracterizar como obra maior destinada a vencer as contingências da própria época em que foi escrita para se tornar um clássico da literatura.
Daí se concluir que não é a escolha do tema propriamente o que vai elevar o conto à categoria de esmero ou de “classicidade”, mas toda uma combinação de condições que presidem a sua elaboração pelo autor.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CORTAZAR, Julio. Alguns aspectos do conto. In:______. Valise de Cronópio. São Paulo: Perspectiva, 1974, p. 149.
(*) Este texto é parte de meu próximo livro sobre o minimalismo na literatura, intitulado O conto à meia-luz.
2/16/2015
MASSA AMORFA - poema visual
Poema visual construído a partir de massa de um pedreiro jogada na parede..... Me impressionou o vigor com que o profissional jogava o material na parede e como pouca coisa se perdia no chão. Daí surgiu de repente a ilação que fiz com o tema que abordei afinal, e que lembrava o trabalho de um outro Pedreiro. Observe-se o comparaivismo entre o Micro e o Macro...
2/14/2015
BRASÍLIA: A CIDADE E AS PALAVRAS
Nicolas Behr é um remanescente da geração de poetas que revolucionaram os anos 70 do século XX com sua poesia minimalista, rápida, bem-humorada e objetiva. E, para ser mais preciso, em doses homeopáticas. Ou seja, em pequenos livros feitos artesanalmente em mimeógrafos ou gráficas caseiras, foi editando ele mesmo suas preciosidades: "Iogurte com farinha", "Chá com porrada", "Brasileia desvairada", "Vinde a mim as palavrinhas" e uma série imensa de outros, sempre com a marca da qualidade unida à novidade.
Não se pode esquecer, porém, que a maioria deles tem a cidade de Brasília como leit-motiv e referência maior.
Esse brasiliense de coração agora comparece com mais um pocket-book que intitulou "BrasíliA-Z - cidade-palavra", um minidicionário que marca sua longa e intensa vivência na capital federal.
São verbetes que começam com a palavra "Alma" e terminam com "Vitrais" e catalogam praticamente tudo o que se falou ou escreveu sobre Brasília, numa demonstração de que esse maior conhecedor da cidade traçou um mapa completo de sua vida, mazelas e grandezas, acrescentando invariavelmente sua visão pessoal.
No verbete "Alma", está a impressão negativa que teve a escritora francesa Simone de Beauvoir ao passar por lá em 1960: "Brasília nunca terá alma. Estou em Brasília, a mais demente elocubração que o cérebro humano jamais concebeu [...]" E o nosso autor arremata: "A praga que Madame de Beauvoir rogou contra Brasília não vingou. Errou feio." (p. 12)
Há no livreto um roteiro impressionante sobre restaurantes, igrejas, vias públicas, bares, festas e ainda curiosidades sobre cigarras, presidentes, personagens marcantes, e tudo que deixa entrever o seu profundo conhecimento acerca de Brasília e especialmente sua história e suas virtudes de cidade especialíssima.
Para os que – como eu – admiram a capital brasileira ou gostariam de conhecer os meandros de sua geografia física e humana, não há melhor indicação livreira. É só pedir para o email: paubrasilia@paubrasilia.com.br
Vale como citação final o que Nicolas Behr diz em "Superquadras": "Ao adentrar uma superquadra, atenção: você está entrando em uma ideia. Toque esses pilotis com cuidado, pois que foram sonho. Esses blocos um dia foram apenas rabiscos, intenções. As nossas superquadras são a única experiência de habitação coletiva modernista que deu certo." (p. 146)
(fevereiro 2015)
2/01/2015
O TRIÂNGULO MACHADIANO
“O historiador foi inventado por ti, homem culto, letrado, humanista; o contador de histórias foi inventado pelo povo, que nunca leu Tito Lívio, e entende que contar o que passou é só fantasiar.”
(MACHADO DE ASSIS, em crônica de 15.3.1877, na revista Ilustração Brasileira, apud revista Contato, nº 6, jan-mar/2000)
Um dos temas mais apreciados por Machado de Assis em suas obras é o do triângulo amoroso que coloca três personagens numa balança: o marido, a mulher e uma terceira pessoa, geralmente um homem.
Isso está patente nos seus mais importantes romances – Memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro, bem como em vários de seus contos.
O célebre triângulo não é propriamente uma invenção do romancista, mas uma reprodução da vida tal como ela é. E Machado de Assis, como um analista de casos e personalidades, não só contemplou-o como também produziu com sua ficção profundas introspecções dentro dessa temática e sob diversos ângulos.
Assim, vemos em Memórias póstumas de Brás Cubas – embora não seja este o leit-motiv da obra – um triângulo formado por Virgília, Brás Cubas e Lobo Neves, em que o personagem-narrador (Brás Cubas) faz o papel do traidor que malbarata um casamento já em si mal resolvido. Interesses de parte a parte se entrecruzam e acabam por formar a própria narrativa em vários trechos do livro.
A estória mais conhecida do público é a de Dom Casmurro, em que Bentinho se ‘sente’ o marido traído pelo melhor amigo – Escobar –, ficando Capitu no vértice mais caprichoso do triângulo. Aqui o triângulo está no centro do romance, pois é através dele que o narrador respira e faz palpitar a sua trama.
Já em Quincas Borba, temos novamente o protagonista como um "traidor" diferente – Rubião –, que se mete com o casal Palha-Sofia, mas nunca consegue perturbar a dupla de pilantras que se articula para roubar e realmente rouba sua fortuna.
Entre os temas mais caros a Machado – como a busca da perfeição humana, a loucura, a dúvida, o fantástico –, insere-se o triângulo amoroso nas suas narrativas, a ponto de fazer parte essencial dos seus três melhores romances e de tantos contos, e lhe permitir criar momentos inesquecíveis da literatura brasileira.
(desenho: Luzimar)
1/29/2015
UMA ILHA DE POESIA CHAMADA HENRIQUE SILVEIRA
O poeta Henrique Ignacio da Silveira (1919-1943) viveu sua aventura literária na década de 1930 e início de 40, em Cataguases, no entreato do finalzinho do Modernismo, tendo produzido um tipo de trabalho mesclado de poemas curtos e introspectivos.
Um solitário, sem grandes ousadias, construiu pequena obra que está sintetizada no livro Poemas desta guerra, publicado pós-morte em 1979, numa antologia selecionada e organizada por mim, após uma pesquisa em que suprimi apenas poucas peças.
Suas temáticas circulam ora pelo muito subjetivismo, ora pela interferência nas coisas do mundo como as guerras, as doenças e os amores.
O poema "Um canto na noite", por si só, nos dá a dimensão deste autor cataguasense cujo senso poético-musical é reforçado por sua capacidade de criação e de domínio do texto literário.
O tema da II Guerra Mundial, que se passava justamente no auge do amadurecimento do poeta (final da década de 1930), é abordado aqui com uma força e uma singeleza pouco comuns.
Um canto na noite
Henrique Silveira
Um canto chegou
lá de onde floresciam as papoilas...
Chegou com a noite, mas não é da noite.
Veio dos campos de luta molhados de sangue,
veio do chão pisado de máquinas.
Veio das crateras e passou pelos corpos inertes.
Saiu de dentro das trincheiras de ninguém
e rompeu o silêncio,
o silêncio que estava perto de tudo
em toda extensão.
Chegou um canto como de pássaros chumbados.
Chegou flocado de vozes,
de vozes perdidas e de vozes lívidas
e de vozes à procura de Deus.
Quem ouve comigo este canto na noite!?
Em todo o texto, o poeta entoa um canto seu, mas que vem de terras distantes: de onde nascem as "papoilas", de campos "molhados de sangue", e "pisado de máquinas", e fala de trincheiras e do silêncio mortal dos "corpos inertes". Verso a verso, ele prepara o terreno para o leitor chegar a esse tempo (que é o seu) e a esse lugar distante (e próximo) de nós, para que se mostre – como ele – solidário a tanto sofrimento.
Observem-se na penúltima estrofe, as metáforas carregadas do peso e da sombra da guerra: o canto de "pássaros chumbados", "flocado de vozes", apertado logo em seguida pelos "iis" de "vozes perdidas e de vozes lívidas" que afinam o discurso poético para, em seguida, abrir e se multiplicar nas vozes "à procura de Deus".
Sua sensibilidade poética pode ser reconhecida na dicção perfeita propiciada pela escolha das palavras, tocadas por um ritmo que vai num crescendo e termina com um estranho lamento como a buscar na interrogativa a cumplicidade do Outro.
(desenho de Iannini)
1/28/2015
BORGES: A ORALIDADE DE UM MESTRE
São célebres as conferências pronunciadas por Jorge Luis Borges em universidades europeias, na América e em outros continentes.
Reunidas, algumas delas foram publicadas no Brasil, nos anos 80, pela Editora Max Limonad de São Paulo sob o título “Sete noites”. Este livro, em termos de criatividade e qualidade textual, nada fica a dever às obras de ficção e de poesia do mestre argentino.
Ali Borges aborda temas como: o pesadelo, a cabala, a cegueira, o budismo, entre outros.
Após a publicação, a partir de 1999, de suas “Obras completas” pela Editora Globo, em excelente trabalho editorial em quatro volumes encadernados, não pensei que teria mais oportunidade de ‘ouvir’ outros de seus textos ditos ‘orais’.
Mas eis que, por vias enigmáticas (borgianas, por certo), descobrem-se seis palestras perdidas, que haviam sido proferidas em inglês na Universidade de Harvard, em 1967-68, que a Companhia das Letras leva ao público com o título de “Esse ofício do verso”, organizadas por Calin-Andrei Mihailescu, em tradução de José Marcos Macedo.
Novos temas no mínimo diferentes: a metáfora; o narrar uma história; o credo de um poeta etc. O mesmo Borges – concentrado e livre; simples e erudito; poético e com uma memória prodigiosa ao citar trechos de livros sem recorrer a apontamentos, e já vitimado pela cegueira.
No capítulo “O credo de um poeta”, faz comentários sobre a literatura, em especial a poesia: “[...] muitas coisas aconteceram comigo, como a todos os homens. Tirei prazer de muitas coisas – de nadar, de escrever, de contemplar um nascer do sol ou um crepúsculo, de estar apaixonado e assim por diante. Mas, de algum modo, o fato central de minha vida foi a existência das palavras e a possibilidade de tecê-las em poesia.” (p. 106)
Sobre a preocupação com o leitor, no mesmo capítulo, pode-se anotar: “Quando escrevo não penso no leitor (porque o leitor é um personagem imaginário) e não penso em mim mesmo (talvez eu também seja um personagem imaginário), mas penso no que tento transmitir e faço de tudo para não estragá-lo. Quando eu era jovem acreditava na expressão. [...] não acredito mais na expressão: acredito somente na alusão. Afinal de contas, o que são as palavras? As palavras são símbolos para memórias partilhadas. Se uso uma palavra, então vocês devem ter alguma experiência do que essa palavra representa. Senão a palavra não significa nada para vocês. Acho que podemos apenas aludir, podemos apenas tentar fazer o leitor imaginar.” (p. 121-2)
Se neste livro mais uma vez o leitor terá contato com uma literatura de alta expressividade (e – por que não dizer? – de inúmeras alusões), característica dos grandes escritores, poderá igualmente usufruir de um conhecimento mais profundo das coisas do mundo que se sintetiza numa só palavra: sabedoria. Que Borges sempre soube distribuir fartamente a todos que o leram e leem.
1/24/2015
O CONTO MODERNO SEGUNDO JAMES JOYCE
O conto, uma das mais antigas formas de narrar, apresenta na história da literatura uma sequência de grandes mestres, desde as velhas narrativas orais às contemporâneas.
Foi contando histórias que Sherazade virou personagem de As mil e uma noites e foi no Novecentos que Machado de Assis, Tchekhov e Maupassant e, no século XX, que Hemingway, Cortázar, Borges e Faulkner criaram obras geniais.
Há algum tempo, resolvi reler um conto de James Joyce (1882-1941) intitulado “Os mortos”, de Dublinenses (Civilização Brasileira, Trad. Hamilton Trevisan, 1964), um livro que eu havia lido em 1965.
Trata-se de um dos seus melhores trabalhos, segundo a crítica, mas que, na época, não me chamou muito a atenção. Esta segunda leitura me mostrou como eu não estava preparado para a empreitada. O conto é mais uma novela, pois vai da página 143 à 182.
Pelo título, espera-se algo diferente, mas a primeira cena abre-se com um baile organizado anualmente pela família Morkan – as irmãs Júlia e Kate e sua sobrinha Mary Jane –, no sobrado em que moravam, na Ilha de Usher, na Irlanda. Júlia e Kate eram duas senhoras idosas “um pouco rabujentas” (p. 144), que não admitiam ser respondidas e tinham uma serviçal chamada Lily que “raramente cometia erros” (p. 144).
Quase toda a narrativa tem como cenário a festa que as Morkan organizaram – Júlia para seus amigos do coro e Kate para seus alunos de piano.
James Joyce então vai construindo cena por cena as ações do conto dentro do ambiente do baile. Ali os personagens falam dos filhos, de bebidas, dos bordados, fazem fofocas e até comentam sobre política como no diálogo entre Molly e Gabriel:
“– Oh, meu ingênuo amigo! Descobri que você escreve para o Daily Express. Não sente vergonha disso?
– Por que deveria me envergonhar? – perguntou Gabriel piscando os olhos e tentando sorrir.
– Bem. Estou envergonhado de você – disse ela com franqueza.
– Pensar que escreve para um jornal como esse. Não sabia que era britânico.” (p. 153)
“[...] Não sabia como enfrentar o ataque. Queria dizer que a literatura estava acima da política” (p. 153)
O conto se desenvolve até a página 166 apenas em torno de amenidades. Joyce preparava o bote. E ali mesmo ele dá o primeiro toque no coração do tema: “Nossa passagem pela vida é marcada por muitas dessas recordações e se tivéssemos de pensar nelas todo o tempo, não nos sobrariam forças para desempenhar corajosamente nossas tarefas entre os vivos” (p. 166)
Logo após, volta ao ritmo anterior; na página 173 a festa termina e o casal D’Arcy – Gretta e Gabriel – assume o centro das ações.
Nesse ponto é que começa verdadeiramente o conto. Toda aquela massa ficcional servira apenas de anteparo ou de ante-câmera para o que Joyce queria contar e se concentra nesta magnífica imagem: “Momentos de sua vida íntima irromperam como estrelas na memória.” (p. 174)
O casal, já em casa, no preâmbulo de uma cena íntima, Gretta conta a Gabriel – e agora tudo se passa no território da memória – sobre um rapaz chamado Michael que conhecera em Galway e com quem tivera uma ligação amorosa, mas o jovem morreu aos 17 anos. “Ele estava doente na pensão em Galway e não o deixavam sair. Sua família, que morava em Oyghterard, tinha sido avisada. Dizem que definhava [...]” (p. 179)
“Na noite anterior à partida [dela] estava em casa de minha avó em Nun’s Island, arrumando as malas, quando ouvi uma pedra bater na vidraça. Os vidros estavam tão embaçados que não pude ver nada. Desci correndo as escadas, vestida como estava, e dei furtivamente a volta pelos fundos da casa e lá estava o pobre rapaz, num canto do jardim, tiritando de frio. – E não o mandou voltar para casa? – perguntou Gabriel. – Implorei que o fizesse; disse que a chuva ia matá-lo. Respondeu que não queria viver. Lembro-me tão bem de seus olhos! Tão bem! Estava parado perto do muro onde havia uma árvore.” (p. 180)
Seguem-se belíssimas descrições da morte de Michael e pensamentos do narrador de que transcrevo dois fragmentos: “Um por um, estavam todos se transformando em sonhos” (p. 181) e: “Sua alma acercava-se da região habitada pela vasta legião dos mortos.” (p. 181)
O conto se fecha com um voo cinematográfico da memória pelos recantos do cemitério em que jazia o jovem Michael: “Sua alma desmaiava lentamente ouvindo a neve caindo suave através do universo, caindo brandamente, como a queda final, sobre todos os vivos, sobre todos os mortos.” (p. 182)
1/14/2015
COLÉGIO DE CATAGUASES - IV
Em minha recente viagem ao Rio, encontrei-me prazerosamente com a poeta visual Anna Carolina, que me trouxe um presentão: o álbum completo (feito carinhosamente por sua mãe) do seu irmão Luiz Edmundo, ex-interno no Colégio nos idos de 1953. São "preciosidades" em fotos, das quais publico algumas agora, acrescentando-as às que já divulguei. Luiz Edmundo Peixoto Albernaz nasceu em 1936, estudou no Colégio em 1952 e 53, e faleceu prematuramente em 1965, num desastre aéreo.
Alunos internos no trampolim da piscina.
Descansando perto do campo de futebol do Colégio.
Cartão da prof. Dona Ophelia agradecendo a gentileza do aluno Luiz Edmundo.
Cartão do diretor e professor Dr. Manuel das Neves para Luiz Edmundo.
Formandos do ginásio do Colégio no ano de 1953.
Folheto de propaganda do Colégio (1953)
Caricatura do prof. Gradim criada pelo aluno Cauê (no local da assinatura do autor há um rasgão que impede a leitura perfeita do nome).
Ingresso para a peça "Cala a boca, Etelvina", encenada por alunos do Colégio tendo como protagonista a aluna Marli Valério, e dirigida por José da Silva Gradim. Um sucesso total de público na época.
Visão do alto e dos fundos do Colégio.
Visão aérea do Colégio.
Internos na porta do Colégio Carmo.
Alunos internos no trampolim da piscina.
Descansando perto do campo de futebol do Colégio.
Cartão da prof. Dona Ophelia agradecendo a gentileza do aluno Luiz Edmundo.
Cartão do diretor e professor Dr. Manuel das Neves para Luiz Edmundo.
Formandos do ginásio do Colégio no ano de 1953.
Folheto de propaganda do Colégio (1953)
Caricatura do prof. Gradim criada pelo aluno Cauê (no local da assinatura do autor há um rasgão que impede a leitura perfeita do nome).
Ingresso para a peça "Cala a boca, Etelvina", encenada por alunos do Colégio tendo como protagonista a aluna Marli Valério, e dirigida por José da Silva Gradim. Um sucesso total de público na época.
Visão do alto e dos fundos do Colégio.
Visão aérea do Colégio.
Internos na porta do Colégio Carmo.
1/13/2015
UMA GEOGRAFIA INUSITADA
A capa do livro
O autor: Marcos Mergarejo Netto.
Acompanhei a uma certa distância, mas sempre com grande interesse, o desenvolvimento da tese de Doutorado pela Unesp - Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho do cataguasense Marcos Mergarejo Netto.
Pelo título já dá pra despertar uma atenção especial: "A Geografia do Queijo Minas Artesanal", ou seja, um estudo de pós-graduação sobre o queijo minas! Imagine o leitor.
Pois foi nesse tema inusitado que buscou fundamentos o professor Marcos Mergarejo, graduado em Geografia e História, com experiência maior em Geografia Humana.
Após inúmeras leituras e diversas viagens – até ao exterior –, foi defendida e aprovada a tese em 2011, e tratou-se de imprimir o resultado, o que, depois de muitos esforços, se efetivou. Surgiu então a obra nas suas 429 páginas, com 23 ilustrações coloridas, num trabalho também bem executado graficamente e com encadernação costurada, o que traz uma boa comodidade para a leitura.
A obra tem sete capítulos, todos revelando uma pesquisa séria e de profundidade, começando por "O queijo no tempo e no espaço", que faz um levantamento completo da existência do queijo desde a Antiguidade, passando pelos monges da Idade Média, pela expansão do produto no período moderno até a sua disseminação pelo mundo, já na contemporaneidade.
Os segredos e a arte de sua fabricação ocupam o segundo capítulo, onde se conhecem desde o leite, o coalho e o fermento bem como todos os tipos e sabores. Chegamos ao queijo em Minas Gerais no terceiro capítulo, em que o autor fala dos viajantes na Capitania e sobre a Minas agrária. Seguem-se outros capítulos sobre os demais queijos, além das origens e dos produtores do queijo minas artesanal.
Mas tudo isso ainda é pouco se se falar nos conhecimentos que essa pesquisa alcançou, trazendo para o texto os usos e costumes, viagens e explorações, tradições familiares e tudo aquilo que forma a cultura dos povos que se viram atraídos pelo queijo e o transformaram, a partir de um hábito alimentar, em fonte de interesse comercial e lucrativo.
Este livro, em edição muito bem cuidada pelo autor, faz uma viagem no tempo e no espaço que levará o leitor a conhecer caminhos que até então jamais havia percorrido. E que leitor não gostaria de testar sua curiosidade e provar essa iguaria?
O primeiro lançamento foi na praça do Abacaxi, no Mercado Central de Belo Horizonte, em 13 de dezembro de 2014, um local realmente bem escolhido para o evento.
Pedidos para o email: mm.netto@yahoo.com.br ou geoqueijo@yahoo.com.br
Marcos autografa o livro
Visão do alto
Em plena atividade de lançamento, na praça do Abacaxi
Em diálogo com os leitores
1/02/2015
COLÉGIO DE CATAGUASES - III
Por conta das postagens sobre o Colégio de Cataguases, recebi da poeta Anna Carolina um bom material com fotos e cartões do ano de 1953, quando seu irmão Luís Edmundo Albernaz estudou em Cataguases como interno. Ela destacou o fato de Luiz Edmundo ter gostado demais da cidade e do colégio, tendo até participado da peça "Cala a boca, Etelvina", de Armando Gonzaga, sob a direção do prof. Gradim. Eu me lembro de haver assistido à apresentação e de ter gostado bastante. Pois bem, Anna Carolina me enviou agora todas as fotos do álbum que sua mãe organizou com vários itens interessantes sobre seu filho no início da década de 1950 em Cataguases.
Aqui vão algumas:
Sentadas Raquel Lourenço, Bárbara Peixoto, Lena Hahn, Margarida Cordeiro e Marluce Rezende. No fundo, Luiz Fernando Siqueira e de paletó, Mauro Sérgio Fernandes Silva.
Alunos do internato do Colégio
Cartão de agradecimento do diretor Francisco Inácio Peixoto para Luiz Edmundo.
Luiz Edmundo e um colega no salão de festas do colégio.
Notícia no jornal da apresentação e sucesso da peça em Cataguases por alunos do Colégio.
Alunos do internato
Aqui vão algumas:
Sentadas Raquel Lourenço, Bárbara Peixoto, Lena Hahn, Margarida Cordeiro e Marluce Rezende. No fundo, Luiz Fernando Siqueira e de paletó, Mauro Sérgio Fernandes Silva.
Alunos do internato do Colégio
Cartão de agradecimento do diretor Francisco Inácio Peixoto para Luiz Edmundo.
Luiz Edmundo e um colega no salão de festas do colégio.
Notícia no jornal da apresentação e sucesso da peça em Cataguases por alunos do Colégio.
Alunos do internato
12/31/2014
TODOS OS DIAS DE POMPEIA
Um dos mais finos prosadores que o século XIX produziu no Brasil foi Raul Pompeia.
No entanto, poucos críticos da sua época puderam perceber isso, na teia sutil de sua escrita impressionista, de que ressaltam também temperos expressionistas.
Emergindo de um ambiente entre um romantismo tardio e um modismo naturalista, Pompeia teceu uma renda tão trabalhada que, com apenas um livro – O Ateneu –, ocupa um nicho especial na ficção brasileira oitocentista.
Para se ampliar o conhecimento desse grande autor, nada melhor do que a leitura do lançamento da Editora Gryphus intitulado Raul Pompeia - biografia, escrito pelo pesquisador Camil Capaz.
Finalmente, as biografias dos nossos escritores vêm despertando interesse nos estudiosos, e abrindo um caminho para o entendimento maior do tempo em que viveram os biografados e das circunstâncias que ensejaram suas obras.
A biografia de Capaz descortina o cenário político e social da Corte (Rio de Janeiro) no final do século XIX, levanta episódios da vida agitada de Raul Pompeia e, principalmente, ilumina a trajetória do artista que deixou contribuição inestimável, não só para a literatura, pois participou como jornalista de muitos fatos da vida do país (Abolição, República etc.)
O escritor Raul Pompeia em 2 imagens.
No entanto, poucos críticos da sua época puderam perceber isso, na teia sutil de sua escrita impressionista, de que ressaltam também temperos expressionistas.
Emergindo de um ambiente entre um romantismo tardio e um modismo naturalista, Pompeia teceu uma renda tão trabalhada que, com apenas um livro – O Ateneu –, ocupa um nicho especial na ficção brasileira oitocentista.
Para se ampliar o conhecimento desse grande autor, nada melhor do que a leitura do lançamento da Editora Gryphus intitulado Raul Pompeia - biografia, escrito pelo pesquisador Camil Capaz.
Finalmente, as biografias dos nossos escritores vêm despertando interesse nos estudiosos, e abrindo um caminho para o entendimento maior do tempo em que viveram os biografados e das circunstâncias que ensejaram suas obras.
A biografia de Capaz descortina o cenário político e social da Corte (Rio de Janeiro) no final do século XIX, levanta episódios da vida agitada de Raul Pompeia e, principalmente, ilumina a trajetória do artista que deixou contribuição inestimável, não só para a literatura, pois participou como jornalista de muitos fatos da vida do país (Abolição, República etc.)
O escritor Raul Pompeia em 2 imagens.
12/29/2014
"OS LUSÍADAS" X "GRANDE SERTÃO: VEREDAS"
Quadro Comparativo das obras "Os Lusíadas", de Camões, e "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa, aprimorado por mim, a partir de inúmeras leituras dos referidos textos:
12/27/2014
COLÉGIO DE CATAGUASES - II
(Professor Antônio Amaro, diretor do antigo Ginásio de Cataguases)
(Alunos do novo Colégio de Cataguases em 1950)
(Alunos do Colégio Cataguases)
(antigo caminho para o Colégio)
(Alunos 1946)
(Alunos em 1959)
(1959)
(1959)
COLÉGIO DE CATAGUASES - I
(Alunos e professores - 3º Científico de 1959)
(Alunos externos e internos - 3º Científico 1959)
(Alunos externos - 3º Científico 1959)
(Professor Gradim entrega ao aluno Pedro José Branco Ribeiro o diploma do 3º Científico 1959)
(Alunos externos e internos - 3º Científico 1959)
(Alunos externos - 3º Científico 1959)
(Professor Gradim entrega ao aluno Pedro José Branco Ribeiro o diploma do 3º Científico 1959)
12/18/2014
ENCONTRO CORAL
Ontem (17-12-2014) compareci a um evento interessante. O lançamento de um CD de registro para o Hino de Cataguases e um curta-metragem de Emanuel Messias tendo como tema um poema de Ascânio Lopes. Foi uma reunião agradável entre amigos-artistas e artistas-amigos. Agradeço pelo convite. Valeu a pena.
A propósito, lembrei-me de um texto que escrevi há tempos sobre um "Encontro de Corais" no Edgard Cine Teatro:
ENCONTRO DE CORAIS
Vozes veladas
veludosas vozes
volúpias de violões
vozes veladas. (Cruz e Sousa)
Um coro de vozes é uma reza unida que nunca vai-se apagar.
Ela atravessa as gargantas da História, vara o tempo, para se colocar no interior do Livro dos Cantos.
Este livro representa sua sentença de vida, ou a sua própria história.
Desde as primeiras vozes asiladas aqui no início do século, passando pelos Verdes – no Meia Pataca ainda de águas claras e límpidas – às décadas de 50, 60 e até hoje, Cataguases ouviu, de dentro de suas montanhas, inúmeros cânticos, todos eles corais, porque em grupos.
Celinas, Cabrais, Franciscos, Linas, Fuscos, Ascânios, Henriques, Wernecks e companhia ilimitada. Em outra leva, Lilas, Pierres, Rogérios, Lourdes, Alcinas, Celestes e muitos corais de igrejas e internatos, escolas e bandas de música.
Eram e são agora cantos corais de sempre, colhidos no vento e escritos em mil vozes na História.
O que seria a interpretação de um encontro de todos esses corais?
Um desfilar de vozes que foram, um dia, cada uma em si, e agora buscam eternamente ser um único som, uma só voz. Um encontro do encontro do encontro do encontro...que felizmente nunca vai terminar.
(visual da ponte por Natália Tinoco)
12/13/2014
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