4/12/2014

ENSAIO COM EQUIPE DO PROLER-CATAGUASES

Fotos com a Equipe Proler-Cataguases, no dia 11-04-2014, na Chácara Dona Catarina, para o evento "Cataguases Cartazes".
(fotos com celular por Eugênia Ribeiro)

VISITA À FAZENDA DO ROCHEDO -- Cataguases


No dia 28 de janeiro de 2014, eu, Sonia, Eugênia e Yasuhiro Inoue - a convite do representante da famíia Vieira de Rezende José Rezende Reis - fizemos uma visita ao solar da Fazenda do Rochedo, situada no Distrito da Glória, município de Cataguases MG. Foi uma manhã extremamente agradável e enriquecedora especialmente do ponto de vista histórico, pois trata-se de um solar do século XIX que vem sendo conservado através do tempo por descendentes da família Rezende. Isso nos propiciou, graças à gentileza de José Rezende e irmãos, conhecer muito do nosso passado histórico-cultural.Da minha parte, foi a segunda visita que fiz à bela fazenda. As fotos são de Eugênia Ribeiro e Yasuhiro Inoue.


4/03/2014

O QUARTO CANTO DOS DEUSES - teatralização

Depois de muita busca, Pedro J.Ribeiro encontrou os originais da peça de sua autoria "O Quarto Canto dos Deuses", encenada no salão do Colégio Carmo (quando ali estava a Fafic) no ano de 1972. Cursávamos o 1º ano de Letras. Publico a seguir a ficha técnica da apresentação.Também foi encontrado o texto completo.


O QUARTO CANTO DOS DEUSES

Adaptação e Montagem recr(e,i) ativa, em um ato, do 3º e 4º Canto do poema "Os Lusíadas", de Luís de Camões, por P.J.Ribeiro, interpretado pelos alunos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Cataguases.

ATORES: Nilza Rodrigues, Terezinha Fonseca, Isabel Resende, Renata Teixeira, Elizabeth Schelb, Ana Maria Abritta, Mariana Cardoso, Pedro Branco, Cristina Carvalho.

MÚSICAS: Pedro Branco (P.J.Ribeiro) e Márcia Carrano.
VIOLÃO: Maria do Carmo Oliveira
TÉCNICA DE LUZ: Ana Pinheiro
TEXTO: Pedro e Joaquim Branco
DIREÇÃO: Simão José Silva

4/02/2014

QUEM LÊ BEM ESCREVE BEM


“Acho que a felicidade de um leitor está além da de um escritor, pois o leitor não precisa experimentar aflição nem ansiedade: seu negócio é simplesmente a felicidade.” (BORGES, 2000, p. 106)



Jorge Luis Borges (1889-1986), que exerce como poucos a magia da ficção sobre o leitor, deixando-o sempre magnetizado, consegue repetir a façanha também em suas palestras, reunidas em livro que recebeu o título de Esse ofício do verso. Deste, porém, me ocuparei especialmente em outro artigo. Agora farei apenas alusões à leitura e à escritura.

As palavras da epígrafe estão nesse livro, e me vieram à lembrança quando examinava um manual sobre a técnica da leitura e seu aproveitamento para se atingir uma boa escrita: Os degraus da leitura (2000, 81 p.), das professoras Adriane Belluci B.Castro, Cinthia Maria R. Remach, Helena Aparecida G. Arantes e Léa Sílvia Braga de C.Sá, editado pela Edusc-Editora da Universidade do Sagrado Coração, de Bauru (SP).

De modo prático e objetivo, o livro ensina o leitor a penetrar num texto por meio do reconhecimento de suas palavras-chave, da desmontagem de sua estrutura e outros recursos. São muitos os exercícios propostos nos capítulos em que se divide a obra, abrangendo, em um pequeno exemplar, letras de música, poemas, contos e até textos não-literários.

Escrever bem nem sempre significa ser um escritor – poeta ou ficcionista -, mas ser alguém que pode conhecer os segredos da língua, portanto manejar bem o idioma, penetrar na estrutura frasal e no sentido das palavras. Tudo isso se situa mais no terreno da pedagogia da leitura e da escrita, em nível de ensino-aprendizagem para estudantes de produção de textos.

As considerações de Borges, seu trabalho como escritor vão muito além; são exercícios de uma mente privilegiada que passeia invariavelmente pelos caminhos da poesia e da criação. Por isso, não estranhe o leitor este seu arremate com um desfecho quase tão irônico quanto mortal:

“A pessoa lê o que gosta – porém não escreve o que gostaria de escrever, e sim o que é capaz de escrever.” (Borges, 2000, p. 103)

BORGES, Jorge Luis. Esse ofício do verso. Trad. José Marcos Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

3/23/2014

QUINTAIS PELO MUNDO


– Como é bom
possuir
quintais por todo o mundo!,

dizes com olhos ávidos
a contemplar terras e mares
deste planeta azul.

Estendes tentáculos
por balas
canhões
e naves
que avermelham oráculos
e ameaçam
penínsulas
ilhas
desertos
em Cabul, na Mesopotâmia ou alhures.
E de que vale tudo isso
se se voltarem contra
na ânsia de mortal vingança?

Esses quintais são terras alheias,
ninhos de aves que podem se espantar
e virar seus bicos de metal e lacre
mesmo contra as fortes ameias
de um castelo de metáforas de aço.

Queres todos os quintais
do mundo
onde implantar
royalties, cifras e lucros,
como fez Roma
um dia
dona do sol que nunca se punha
no rico império que de si supunha.

06-03-2014



3/20/2014

EQUINÓCIO DO OUTONO



Com imagens de árvores
sem folhas
o Google comemora o equinócio
de outono.

Hoje é o primeiro dia do outono
quando os dias e as noites
partem-se igualmente
e começa a primavera
no hemisfério norte.

Hoje acontece o instante
em que o Sol corta em dois
o plano do equador celeste.

Cá as folhas não caem como as de lá
e lá os pássaros não gorjeiam como os de cá.
(Ah! Gonçalves Dias!!!)

Enquanto o hemisfério sul
se prepara para um ameno
inverno
no norte, por certo, o verão virá
com muito menos
sol.

20-03-2014

(foto Natália Tinoco)

3/08/2014

RECEITA FACE-TO-FACE'BOOK
















Adicionar é somar algo (ou alguém)
a alguém (ou alguma coisa).

Depois precisa-se misturar, esquentar
e mexer ou bater bem.

É essencial provar para ver
se ficou boa a mistura.

Em seguida, aconselha-se soprar
e mexer para não queimar a língua.
Enfim, deve-se engolir com a devida cautela.
Mesmo assim, pode fazer mal.

Em caso de dúvida, consultar imediatamente
um especialista.

3/02/2014

PEQUENA HISTÓRIA DO LIVRO

A história do livro e das bibliotecas se confunde com a história da liberdade do homem. É um longo relato que precisaria de muitos volumes para ser contado. No entanto Luciano Canfora, em pouco mais de 100 páginas conseguiu reunir em 8 capítulos uma série de informações preciosas que validam inteiramente aquele surrado provérbio dos “pequenos frascos que contêm...etc. etc.”.

Livro e liberdade (Ateliê Editorial e Casa da Palavra, 2002, 104 p.) nos dá, após a leitura, a sensação de prazer que toda pesquisa deveria levar ao leitor, além do conhecimento.

Recorda-se com ele a obsessão de Dom Quixote em se envolver com os livros de cavalaria e depois em aventuras, influenciado pela “projeção do mundo livresco sobre o mundo real” (p. 19); as fogueiras e mortes na época da Inquisição; os antigos textos de Luciano de Samósata que contam o caso da “epidemia” que tomou conta dos espectadores após a apresentação da peça Andrômeda, por terem-na fixado demais em suas mentes; a descoberta da verdadeira identidade de Shakespeare por meio do exame de um exemplar da Bíblia deixado pelo bardo inglês e que chegou às mãos de seus biógrafos.

Mas o capítulo mais interessante é o que narra fatos relativos ao Iluminismo francês, e às figuras dos enciclopedistas Diderot e D´Alembert. Deliciamo-nos quando o autor invoca acontecimentos da época da Encyclopédie, em especial alguns que envolveram sua confecção e publicação.

O personagem de Cervantes, as perseguições a Galileu e a Giordano Bruno, o Ancien Régime e a Revolução, a censura, a queima de livros e muitos outros estão nas páginas deste livro que vai interessar ao público em geral.
Há um capítulo em que o escritor Bertolt Brecht, em poema escrito no exílio, fala da raiva de um autor ao saber que os nazistas se ‘esqueceram’ de suas obras na fogueira de livros promovida por Hitler em 1933:

“Corre à escrivaninha, cheio de ira, e escreve aos poderosos uma carta.
Queimem-me!, rabiscou, queimem-me!
Não me fizessem semelhante ofensa!
Não me deixassem de fora! Pois a verdade, eu não a disse sempre nos meus livros?
E agora me tratam com se fosse um mentiroso! Ordeno-lhes! Queimem-me!” (p. 61)

2/23/2014

A MINERAÇÃO DA ESCRITA



Será lançado em Cataguases provavelmente em maio deste ano o novo livro de Lina Tâmega Peixoto Entre desertos (Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2013). Mais uma obra que vai enriquecer a fortuna literária de uma autora que começou a escrever em finais da década de 1940 e ainda tem muito a buscar nas minas de sua escrita.

Ler um livro de Lina requer tempo. Não o tempo normal que se gasta para leituras cotidianas, mas um tempo para se concentrar mais, pois ele exige do leitor mais do que a fruição de palavras que vão puxando palavras. Seu discurso requer um silêncio dentro desse tempo para se buscar, na memória de poemas já lidos, algo que nos favoreça e possa tirar do doce deleite de leitor desavisado.

Por outro lado, uma leitura distraída pode também trazer seus frutos, aqueles que, ao final de cada poema, sentimos quando pensamos apenas como diletantes do livro.

A partir dessas duas direções, comecei minha leitura, e deu certo mais uma vez. Fui dirigindo meu voo por penetráveis porém surpreendentes vias – que é assim o caminho dos bons livros – deparando ora com o recurso da metalinguagem, ora com a difícil música de alguns versos ou com a ligeireza do pensamento.

Neles há a predominância do gênero lírico, no entanto eles se repartem em temas cotidianos, religiosos, de amor à terra, aos amigos, à vida etc.

Em "Cone", "Hexágono", "A idade das palavras", "Caligrafia", "Atributos", está presente a metalinguagem diretamente, como nos exemplos:

"Mexo nas folhas do livro
como quem abre no corpo
a danação do espírito." (p. 35)

"Uma trepadeira de papel
arrasta-se pelas palavras
e entra pela janela do quarto." (p. 37)

No "Encontro em São Giovanni Rotondo", manifesta-se o elemento religioso, precedida pela epígrafe "Em São Padre Pio, a morte é construção". Nele, a autora vê "olhos abertos para as constelações da morte" (p. 57). O fecho do poema não é menos angustiante:

"Crespas e alvas palavras soltam-se de mim
em direção ao túmulo.
E cintilam na terra." (p. 57)

A solidão penetra no eu-lírico em "Sinto-me só", quase todo ele construído, filosoficamente em metáforas interrogativas, mas iniciado com exigências de quem assedia a poeta:

"Pediram-me chuva no deserto
como se eu fosse um seio
a amamentar as águas." (p. 55)

"Cobrir os ombros com altas estrelas
amassadas pelo azul que o céu sustenta?
Escavar o coração para vê-lo
enlutado de rosas
e rosário de vozes enterradas vivas? (p. 55)

Entretanto as vozes da poesia de Lina encontram mais eco nas coisas da natureza, no mundo físico que contempla, para dali tirar o pensamento mais denso, a lição da hora amarga ou do momento feliz, na "lida vã de limpar o tempo" (p. 26):

"lavo e enxáguo minha vida.
Amontoadas no sol
as montanhas de Minas erguem-se
em panelas, chaleiras e xícaras." (p. 27)

Tenho muito mais a falar sobre esse livro, mas é preciso deixar algo ao leitor para encontrar neste Entre desertos – ótimo título a nos acenar para horizontes poéticos desta poesia maior com que Lina nos brinda de tempos em tempos. Vale transcrever os versos em que mais uma vez fala de sua terra:

"Gotas de asas revoam
no manso curso do rio Pomba
como afluentes do pássaro." (p. 22)

(23-02-2014)











2/16/2014

"CATAGUASES CARTAZES" - Expô de poesia visual 1960-70

A MORTE DIRIGÍVEL


Drones são naves solitárias
que seguem um remoto comando
e, como folhas ao vento
ou como aves sem bando,
viajam no silêncio e na sombra.

Em seus bicos, trazem inscrita
a morte secreta e dirigível
que localiza em voo sinistro,
por um toque celular,
alguém que esteja no deserto,
no mar ou no indizível.

Um drone corta o espaço
em fatias de simples decupagens,
como se a viagem fosse apenas
pelo prazer do ar em suas penas.

Noturnos, eles traçam um voo cego
para pegar de surpresa o inimigo
ou qualquer um que desafie
o Império, o poder, o ego.

Voltam depois, na mesma noite-asilo
de que saíram, pois são velozes
vorazes assassinos do ar,
e, como estes, vão dormir tranquilos
nos hangares da inconsciência
que lhes tirou a inocência.

11-02-2014

2/10/2014

O PRESENTE QUE VEIO DA GRÉCIA


Não é segredo para ninguém o que a Grécia representou para o mundo – principalmente para o Ocidente – em termos de civilização e cultura. Sua influência através dos tempos deu-se de maneira intensa e multiforme, tanto na literatura como na história, na política, na filosofia, no teatro e até nos esportes.

Foi ali que beberam Shakespeare para suas tragédias, Camões para sua épica, e até Freud, que buscou na nomenclatura e no drama situações para suas descobertas no terreno científico, além de muitos outros.

Nessa longa tradição, a figura inaugural foi Homero que no século VIII A.C. criou a poesia épica e com ela as magníficas Ilíada e Odisseia. Imagine-se a existência desses dois monumentos da literatura 800 anos antes da era cristã! São obras clássicas inspiradoras de toda uma linha de produção que veio a se cristalizar no Renascimento, já no século XVI de nossa era.

Depois da época arcaica – a de Homero e Hesíodo – sucedeu-lhe a Idade Clássica, representada pelos mestres da filosofia, do teatro e da história cujo apogeu aconteceu nos séculos IV e V A.C. A filosofia, centrada na tríade composta por Sócrates, Platão e Aristóteles, legou à humanidade a base por meio da qual se iniciam, até hoje, os estudos filosóficos.

O mundo grego, fundamentado no debate e na variedade de ideias, também o era nas guerras, tema consagrado pelos primeiros historiadores de que se tem notícia: Heródoto, denominado o pai da história, e Tucídides.
No período entre os séculos VI e V A.C., com o objetivo inicial de homenagear os seus deuses e antepassados, inaugurou-se a arte teatral, firmada mais tarde com os festivais dramáticos. Considerado também um evento cívico, o teatro teve em Sófocles (Édipo-Rei), Eurípedes (Medeia), Ésquilo (Os sete contra Tebas) e Aristófanes (Lisístrata) os seus expoentes.

(texto já publicado no jornal Cataguases)

2/08/2014

DOMINGO DE LEITURA

Há algumas décadas ele me acenava da estante. É desses livros que vamos deixando para depois, devido a leituras prioritárias determinadas pela necessidade no trabalho e/ou nos estudos. Recentemente mandei-o para a encadernação e agora voltou em uma cor bege, mantidas, no entanto, no seu interior, a capa e as características que me atraíram desde 1959: Adeus, Mr. Chips (Porto Alegre: Editora Globo, 4ª ed., 1959, 132 pp.) , uma pequena novela escrita por James Hilton.

Chegava a sua vez. O domingo não me prometia nada e, mais do que uma leitura, um entretenimento poderia mudar as coisas, como efetivamente aconteceu.

Vale uma pequena introdução sobre o autor.

Escritor do século passado, Hilton (1900-1954) nasceu na Inglaterra, em Leigh (Lancashire) e morreu nos Estados Unidos, em Long Beach (Califórnia).

Começou sua carreira de ficcionista em 1920 com o romance Catherine herserf, mas só ficou famoso com Horizonte perdido (1933) – um best-seller na época – e com Adeus, Mr. Chips (1934). No ano seguinte, Hilton, com poucas malas e muita coragem, partiu para Hollywood, onde, até o final da vida, fez carreira como roteirista e adaptador de seus livros e de outros escritores para o cinema, com grande sucesso.

Voltando ao pequeno volume que tenho em mãos: são 18 capítulos curtos em letras grandes, formato pocket, 132 páginas. Acabei não muito rápido, mais para prolongar o prazer pelo resto da tarde na história de um professor que recorda sua vida numa escola inglesa – Brookfield – de fins do século XIX e princípios do XX.

O narrador, em terceira pessoa e com mão extremamente leve e hábil, conta a história do professor Chipping, apelidado Mr. Chips, desde que começou a lecionar. As conversas com a senhora Wickett, em cuja casa alugava um dos quartos, o contato com os alunos, o humor que desfiava em todas as ocasiões, uma vida enfim que passava como um filme, numa narrativa que parecia a princípio simples demais e que na sua inteireza se mostrou tão emocionante quanto criativa pela maestria do saber narrar.

Até o capítulo IV tudo transcorre na atmosfera da existência comum e enfadonha de um conformado solteirão que, “como ele próprio dizia, não fazia caso das mulheres, nunca se sentia bem ou à vontade na companhia delas”. (p. 27) Mas, nessa altura da novela, circunstancialmente, irrompe um personagem, uma certa Miss Katherine Bridges, “de olhos azuis e fulgurantes, faces pintalgadas de sardas e cabelos lisos cor de palha” (p. 29). Sua presença marcante e suas ideias avançadas não demoram a transformar o professor, eles se apaixonam e acabam se casando.

No flash-back do velho professor, que constitui a base da narrativa, esse fato parece ter determinado a mudança em suas atitudes, e estas, mesmo após a morte prematura de Katherine, passaram a compor, através dos anos, a mística de homem compreensivo, solidário e inovador em que se transformou o professor Chips na escola.

O desfecho da novela assinala o ‘adeus’ de um aluno a Mr. Chips e o anúncio de sua morte que consternou toda a comunidade, como foi consignado no discurso de despedida de Cartwright: “Brookfield jamais esquecerá essa figura querida.” (p. 132).





O escritor James Hilton

2/07/2014

LEITURA DE POESIA

A leitura de uma obra literária – em especial quando se trata de poesia – apresenta à primeira vista dificuldades e limites a quem se aventura por ela. E não raro as pessoas se sentem frustradas, perdem-se no caminho e interrompem o ato de ler. “Trouxeste a chave?”, perguntaria o poeta Drummond, em sua ‘procura da poesia’.

O poeta-crítico José Paulo Paes, para quem o problema está relacionado a alguns pré-requisitos da parte do leitor, ressalta, em uma entrevista dada à revista Morcego Cego, a necessidade de uma passagem preliminar, na infância e na adolescência, pela chamada leitura de entretenimento. Por exemplo, a obra de Monteiro Lobato e outras que a escola moderna praticamente abandonou.

José Paulo, nessa mesma entrevista, fala de um comportamento mais produtivo para a poesia, salientando que é essencial “uma atenção mais distraída” a quem queira se aproximar do texto poético. E aconselha: “Você tem que se deixar penetrar pela música do poema e por via dessa música chegará à compreensão”(1).

Só após o entendimento “intuitivo”, o leitor estará pronto para tentar uma análise mais técnica e assim chegar à estrutura de um poema. Nessa segunda fase, o conhecimento de teoria literária e de mecanismos críticos para se penetrar na complexidade que toda obra apresenta levará o leitor a uma etapa mais avançada e até fruitiva.

Há algum tempo foram publicados dois livros que podem ajudar o estudioso do assunto. Leitura de poesia, organizado por Alfredo Bosi (Editora Ática), e Poemas para crianças, preparado por Hélder Pinheiro (Livraria Duas Cidades). Ambos – dentro de sua temática e perspectiva particular – reúnem especialistas na leitura crítica e na avaliação de textos literários, e podem nos proporcionar momentos de enriquecimento cultural que nos permitirão penetrar cada vez mais intensamente no mundo da poesia.

1 SANCHES, Miguel. Poética do fronteiriço. In: Rev. Morcego Cego, Florianópolis, 1996, p. 95.

2/02/2014

A MULHER NO SÉCULO DAS LUZES


Émilie Émilie - a ambição feminina no século XVIII
Elisabeth Badinter
Trad. Celeste Marcondes
Paz e Terra/Discurso Editorial/Duna Dueto.

O que mais se identifica com o século XVIII europeu do que a máxima de Hegel: “Nada de grande se faz jamais sem paixão”? Assim, tudo que, em tempos passados, representava equilíbrio e indiferença às vicissitudes da vida foi afastado em prol de uma nova moda que era viver sob a ótica do amor e das emoções.

O Setecentos trouxe não só o progresso das ciências, a Revolução Industrial, a Ilustração e a Encyclopédie, como o nascimento do romance como gênero literário popular em substituição às liras pastoris, epopeias e histórias de feitos virtuosos.

Por outro lado, o poder dos reis ainda no auge e a aristocracia brilhando nos salões retratam tanto esse século quanto o início de uma classe em ascensão: a dos burgueses.

Como tempero a essas transformações que iriam alterar o curso da história, a vida de duas mulheres notáveis – as primeiras pensadoras – mexe com a nossa curiosidade ao ler a obra de Elisabeth Badinter Émilie Émilie - a ambição feminina no século XVIII, edição tríplice da Paz e Terra, Discurso Editorial e Duna Dueto.
Tendo como pano de fundo o Século das Luzes, a história de duas damas da aristocracia francesa – Madame de Châtelet e Madame d’Epinay, ou simplesmente Émilie e Louise – é magnificamente descrita no ambiente de sedução e de lances de fingimento e coragem na Corte.

A historiadora francesa Elisabeth Badinter deu ao seu trabalho, por um lado características de pesquisa séria, por outro uma tonalidade romanesca que o torna de sabor inigualável para leitores exigentes de todas as idades e gostos. Ler este livro é penetrar nos salões imperiais dos tempos do Iluminismo.

(publicado no jornal "Cataguases"

1/28/2014

JOSÉ EMÍLIO PACHECO (1939-2014)



Morreu no dia 26 de janeiro deste ano José Emílio Pacheco (1939-2014), considerado um dos melhores poetas mexicanos contemporâneos, ganhador do Prêmio Cervantes em 2009. Traduzimos 2 de seus poemas curtos:

OUTRIDADE, OUTRA IDADE

O que pensaria de mim se eu entrasse neste momento
e me encontrasse onde estou,
como sou,
aquele que fui aos vinte anos?


ALTA TRAIÇÃO

Não amo minha pátria.
Seu fulgor abstrato é inacessível.
Mas (ainda que soe mal)
daria a vida
por dez lugares seus,
certa gente,
portos, bosques de pinhos,
fortalezas,
uma cidade desfeita,
cinza, monstruosa,
várias figuras de sua história,
montanhas
e três ou quatro rios.

1/27/2014

O MUNDO FOTO/GEO/GRÁFICO DAS GERAES

Será lançado no dia 11 de fevereiro, em Belo Horizonte (e depois em Cataguases), o livro Beirais das Gerais, com fotografia de Henrique Frade e texto de Leonardo Magalhães Gomes.
Trata-se de um livro de arte fotográfica, com 319 páginas, em formato grande, capa dura e todo em cores e papel “couché”, e que impressiona logo à primeira vista pela qualidade das imagens e da editoração.
Beirais das Gerais é um retrato de Minas em todas as suas regiões, por isso está dividido em cinco partes: a Zona da Mata e fronteira com o norte fluminense; a divisa de Minas com o Espírito Santo; o encontro do estado com a Bahia; a fronteira oeste; e São Paulo. A etapa final registra o retorno ao Rio de Janeiro.
Cada parte da obra é antecedida por um mapa detalhado das vias percorridas, seguido por um texto bem cuidado onde se narra o roteiro da viagem e se anotam as características e o significado dos topônimos e gentílicos encontrados, além de outras curiosidades.
Entretanto o que o leitor poderá captar ali de mais significativo, logo após as primeiras páginas visualizadas, se estendendo por todas as outras, é o enfoque principal da obra. A lente de Henrique Frade busca as pessoas, os caminhos, as casas e o ambiente de simplicidade e pobreza do mineiro interiorano e roceiro, bem como sua família, seu trabalho, para compor a paisagem rica e cotidiana de nossa terra. Ali não se verá a urbe com seus automóveis e prédios de apartamentos.
A visão da câmera é realista, porém nunca exacerbada em retratos cruéis ou hiperrealistas, e sim naquilo que ela pode devolver – às vezes em crítica e ironia – do que captou com tanta naturalidade e precisão.
Em meio a uma ambientação tipicamente mineira, nos são mostrados a estrada rural do Rio Pardo, as arvorezinhas do povoado de Araçaji, os cavaleiros de Almenara e Salto da Divisa, a estradinha de Janaúba, o pequeno comércio de Porteirinha, balseiros e crianças do São Francisco, moradores simples de São João das Missões, o casario de Januária, as igrejinhas de Riacho da Cruz e muitas outras.
Uma emocionante viagem que vale a pena fazer, página a página, e o leitor pode até se surpreender ao chegar às “locações” percorridas por Guimarães Rosa para escrever o seu Grande sertão: veredas, e quem sabe encontrar por lá o vaqueiro Riobaldo e sua Diadorim, o bandido Hermógenes, a noivinha Leonilda ou o temido chefão Cara-de-Bronze – personagens tão ficcionais quanto reais do maior romance escrito sobre o sertão de Minas Gerais.