A poeta cataguasense Celina Ferreira em sua residência no Rio de Janeiro. Autora de vários livros, entre eles Espelho convexo.
7/10/2007
Celina Ferreira
A poeta cataguasense Celina Ferreira em sua residência no Rio de Janeiro. Autora de vários livros, entre eles Espelho convexo.
7/09/2007
Henrique Silveira
Revista "Meia-Pataca" nº 1
6/30/2007
TOTEM nº 7
Revista literária "Verde"
6/03/2007
5/24/2007
NO CENTENÁRIO DE UM JORNAL
NO CENTENÁRIO DE UM JORNAL: 1906-2006
Joaquim Branco
Quem me incentivou um dia a escrever para o jornal Cataguases foi minha mãe. Ela me falava emocionada dos antigos redatores e cronistas da cidade, pessoas bem falantes, distintas, oradores do dia 7 de setembro nos palanques da Prefeitura, homens de terno, gravata, colarinho alto e colete.
Aquilo exercia em mim um certo fascínio, mas por outro lado dava um pouco de medo enfrentar a multidão na praça Santa Rita, com bandas de música, foguetório e gritos de alunos dos grupos escolares.
Ela que nunca publicara nada no jornal – talvez porque não houvesse sido convidada – ficava pelos cantos da casa, na janela, na mesa, sempre lendo e escrevendo uns rabiscos. À noite, às vezes ia ao meu quarto ler para mim e meus irmãos. Me lembro de pilhas de livros infantis que eu ficava moendo e remoendo na memória, enquanto ela os lia e relia um por um a meu pedido, sempre com prazer.
Por conta disso, quando menino conheci, nos anos 50, um outro tipo de redator que não aqueles sisudos do início do século, no entanto ele tinha algo daquela indumentária. Foi me apresentado pela minha avó. Era o Alzir Arruda, com um indefectível charuto na boca, paletó no ombro, suspensórios, um ar meio largado, passos soltos, bigodes, grandalhão, mas nada sério. Lembro-me muito bem dele a atravessar a rua Coronel Vieira, do antigo Bar Elite para a redação do Cataguases, onde hoje é a agência do Bradesco. Falastrão, cumprimentava e ria para todos, e eu me sentia naturalmente honrado com a deferência que fazia a mim, uma criança de dez anos. Por tudo isso, o admirava muito.
Naquele tempo, embora guardasse no fundo uma grande vontade, jamais imaginei que eu teria desde cedo a vida tão intimamente ligada ao Cataguases. Ali, a partir da década de 60, tenho escrito crônicas, poemas, artigos, editado suplementos – o “SLD”, “Totem”, “Cataguarte” e ultimamente o “Caderno C”, e mantive por quatro anos uma coluna de comentários sobre livros e autores – "Janelas de Leitura".
Os redatores (seria mais apropriado chamá-los editores) passavam e com cada um deles tive boa relação: Eli Barbosa, Galba Ferraz, Ércio de Souza, Marcos Spinola, Carlos Alberto, Cristina Quirino, Marcelo Lopes, Vera Maciel, Jorge Fábio e de novo o Marcos (desculpem a falta de algum nome). Não poderia me esquecer do Mário Francisco Ferreira, que comandava com arte e dedicação a oficina tipográfica.
Agora, me convidam para escrever sobre o Centenário do jornal. Cem anos de presença junto à comunidade. Atos oficiais, crônicas, poesia, necrológios, nascimentos, bodas, aniversários, a vida da população cataguasense semanalmente anotada, como num grande livro em que se conta a existência da cidade, mesmo com a omissão de muita coisa da história não-oficial: os subterrâneos do baixo mundo, os negócios furtivos, traições, amores escusos, fugas à noite etc.; mas, ainda assim, o que transpira dos fatos chega às suas páginas, ora na ficção informe, ora no grito do poema, ora no subliminar das matérias ou na entrelinha de um texto. Ali estiveram também os “verdes”, antes da aventura da revista, numa coluna semanal especialmente criada para eles pelo editor do jornal nos anos 20, o cronista Soares dos Santos.
Em todo esse tempo foi se fazendo uma história que precisa ser contada em livro, é tempo de se pensar nisso. Nesta data em que se comemora o centenário do jornal, seria oportuno não só registrar essa trajetória como também providenciar para o Cataguases uma estrutura administrativa adequada com a criação de uma Imprensa Municipal Oficial. Fica mais uma vez a idéia para ser aproveitada.
Parabéns, velho Cataguases! Enquanto isso, suas folhas balançam no tempo e ao vento, como se fossem a bandeira da imprensa – livre – que não pode ficar parada no ar.
(artigo refundido e ampliado para publicação na época do Centenário do Cataguases)
Joaquim Branco
Quem me incentivou um dia a escrever para o jornal Cataguases foi minha mãe. Ela me falava emocionada dos antigos redatores e cronistas da cidade, pessoas bem falantes, distintas, oradores do dia 7 de setembro nos palanques da Prefeitura, homens de terno, gravata, colarinho alto e colete.
Aquilo exercia em mim um certo fascínio, mas por outro lado dava um pouco de medo enfrentar a multidão na praça Santa Rita, com bandas de música, foguetório e gritos de alunos dos grupos escolares.
Ela que nunca publicara nada no jornal – talvez porque não houvesse sido convidada – ficava pelos cantos da casa, na janela, na mesa, sempre lendo e escrevendo uns rabiscos. À noite, às vezes ia ao meu quarto ler para mim e meus irmãos. Me lembro de pilhas de livros infantis que eu ficava moendo e remoendo na memória, enquanto ela os lia e relia um por um a meu pedido, sempre com prazer.
Por conta disso, quando menino conheci, nos anos 50, um outro tipo de redator que não aqueles sisudos do início do século, no entanto ele tinha algo daquela indumentária. Foi me apresentado pela minha avó. Era o Alzir Arruda, com um indefectível charuto na boca, paletó no ombro, suspensórios, um ar meio largado, passos soltos, bigodes, grandalhão, mas nada sério. Lembro-me muito bem dele a atravessar a rua Coronel Vieira, do antigo Bar Elite para a redação do Cataguases, onde hoje é a agência do Bradesco. Falastrão, cumprimentava e ria para todos, e eu me sentia naturalmente honrado com a deferência que fazia a mim, uma criança de dez anos. Por tudo isso, o admirava muito.
Naquele tempo, embora guardasse no fundo uma grande vontade, jamais imaginei que eu teria desde cedo a vida tão intimamente ligada ao Cataguases. Ali, a partir da década de 60, tenho escrito crônicas, poemas, artigos, editado suplementos – o “SLD”, “Totem”, “Cataguarte” e ultimamente o “Caderno C”, e mantive por quatro anos uma coluna de comentários sobre livros e autores – "Janelas de Leitura".
Os redatores (seria mais apropriado chamá-los editores) passavam e com cada um deles tive boa relação: Eli Barbosa, Galba Ferraz, Ércio de Souza, Marcos Spinola, Carlos Alberto, Cristina Quirino, Marcelo Lopes, Vera Maciel, Jorge Fábio e de novo o Marcos (desculpem a falta de algum nome). Não poderia me esquecer do Mário Francisco Ferreira, que comandava com arte e dedicação a oficina tipográfica.
Agora, me convidam para escrever sobre o Centenário do jornal. Cem anos de presença junto à comunidade. Atos oficiais, crônicas, poesia, necrológios, nascimentos, bodas, aniversários, a vida da população cataguasense semanalmente anotada, como num grande livro em que se conta a existência da cidade, mesmo com a omissão de muita coisa da história não-oficial: os subterrâneos do baixo mundo, os negócios furtivos, traições, amores escusos, fugas à noite etc.; mas, ainda assim, o que transpira dos fatos chega às suas páginas, ora na ficção informe, ora no grito do poema, ora no subliminar das matérias ou na entrelinha de um texto. Ali estiveram também os “verdes”, antes da aventura da revista, numa coluna semanal especialmente criada para eles pelo editor do jornal nos anos 20, o cronista Soares dos Santos.
Em todo esse tempo foi se fazendo uma história que precisa ser contada em livro, é tempo de se pensar nisso. Nesta data em que se comemora o centenário do jornal, seria oportuno não só registrar essa trajetória como também providenciar para o Cataguases uma estrutura administrativa adequada com a criação de uma Imprensa Municipal Oficial. Fica mais uma vez a idéia para ser aproveitada.
Parabéns, velho Cataguases! Enquanto isso, suas folhas balançam no tempo e ao vento, como se fossem a bandeira da imprensa – livre – que não pode ficar parada no ar.
(artigo refundido e ampliado para publicação na época do Centenário do Cataguases)
4/30/2007
AO MESTRE, COM ADMIRAÇÃO

Transcrição de uma crônica que escrevi para o jornal Cataguases, quando da inauguração, no CAIC, da Biblioteca José da Silva Gradim:
“Talvez a velhice e o medo enganem-me, mas suspeito que a espécie humana - a única - está por extinguir-se e que a Biblioteca permanecerá: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.” Jorge Luis Borges, in Ficções
A noite prometia tudo, mas era destinada a poucos. Ou poucos puderam escolhê-la, porque no fundo de seu mistério havia um mestre e sua biblioteca. Estrelas tinham cunhado para si e para ele uma luz especial, própria.
O CAIC, colocado estrategicamente no morro, parecia uma esfinge à espera de todos, os convidados. Nos olhos da diretora havia um brilho novo: Filomena sorria e aguardava a hora de repartir o segredo de tanto tempo – a Biblioteca José da Silva Gradim.
Esperávamos todos e era como não se esperasse ninguém. Contudo, mais uma vez o mestre se fez presente e os primeiros faróis e motores vazaram o silêncio e o breu, para se transformar em números de amigos, professores e aficcionados da língua e da literatura luso-brasileira.
Pequenos grupos começaram a se esquentar da noite fria na conversa animada. Célio e Ana Maria, Dirce, professor Luís, Imaculada, Betinha e Pedro Mendes, Hélia, Maria Lúcia e Paulo Miranda, Vasco e Filomena e muitos outros ex-alunos, colegas e admiradores. O assunto rolava um só: o ineditismo e a raridade da homenagem. Finalmente, um evento cultural no sentido mais justo e profundo que se poderia imaginar em Cataguases.
Chegava a hora e subimos todos para o primeiro andar do CAIC. Corredores e portas levavam a uma nova ordem de coisas onde a clareza e o despojamento incitam ao estudo e aos objetivos. No último vão, enfim, a biblioteca. Na parede de frente, o pôster da página inteira do “Cataguases” ampliada, onde se traçava o perfil do professor. Dirce, emocionada, descerra a placa em bronze: Biblioteca Professor J. S. Gradim. Filomena marca uma vitória na cultura cataguasense.
Saudações e apresentações. Célio Lacerda custa a colocar a voz no lugar, mas as palavras são firmes, fiéis, quase perfeitas, daquelas que qualquer um de nós gostaria de assinar em baixo. O ambiente era gradiniano, em cor e forma, e em fundo também.
Lá fora o ar era tão frio que constrastava com o interior do prédio e de todos. As pessoas pareciam como que escolhidas para estar ali. No céu de junho, poucas estrelas arriscavam um brilho e lá dentro apenas um vulto parecia passear entre nós e os livros, lembrando os textos e tempos de Garret, Herculano, Machado e Camões – o professor Gradim e sua poderosa voz ressoando verbos, declinações, supinos e particípios do futuro, poemas e contos fantásticos.
4/21/2007
A INVASÃO DOS POEMAS
A INVASÃO DOS POEMAS
P. J. RIBEIRO
Os poemas, atenção senhores, estão entrando nas casas, invadindo tudo, quebrando vidraças, subindo rio acima, nesse instante estão vindo com muito mais força, ora vejam só, os diques são impotentes pra segurá-los, ó céus, façam alguma coisa, não é possível a coisa continuar desse jeito, reparem, algumas pessoas que antes nada percebiam agora já estão até reclamando da presença desses horríveis poemas, não dá, garanto que s´eu tivesse aqui comigo uma corda bem grossa os enforcaria um a um, vocês estão vendo o qu´eu tô vendo lá embaixo nesse instante?, eles perderam a vergonha, olhem, estão ocupando os quartos daquela casa na maior...e essa rua...como está apinhada de poemas! é, estamos perdidos mesmo, senhores, saibam de uma vez por todas que com poemas não tem jeito, principalmente com poemas desse jeito!
P. J. RIBEIRO
Os poemas, atenção senhores, estão entrando nas casas, invadindo tudo, quebrando vidraças, subindo rio acima, nesse instante estão vindo com muito mais força, ora vejam só, os diques são impotentes pra segurá-los, ó céus, façam alguma coisa, não é possível a coisa continuar desse jeito, reparem, algumas pessoas que antes nada percebiam agora já estão até reclamando da presença desses horríveis poemas, não dá, garanto que s´eu tivesse aqui comigo uma corda bem grossa os enforcaria um a um, vocês estão vendo o qu´eu tô vendo lá embaixo nesse instante?, eles perderam a vergonha, olhem, estão ocupando os quartos daquela casa na maior...e essa rua...como está apinhada de poemas! é, estamos perdidos mesmo, senhores, saibam de uma vez por todas que com poemas não tem jeito, principalmente com poemas desse jeito!
4/19/2007
QUEM LÊ BEM ESCREVE BEM
“Acho que a felicidade de um leitor está além da de um escritor,
pois o leitor não precisa experimentar aflição nem ansiedade:
seu negócio é simplesmente a felicidade.” (BORGES, 2000, p. 106)
O mestre argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), que exerce como poucos a magia da ficção sobre o leitor, deixando-o quase sempre magnetizado, consegue repetir a façanha também em suas palestras. Descobertas recentemente e reunidas em livro, as conversas que teve com estudantes da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, receberam o título geral de Esse ofício do verso, do qual me ocuparei especialmente em outro artigo.
As palavras da epígrafe, que transcrevo acima, pertencem a esse livro, e me vieram à lembrança quando examinava um manual sobre a técnica da leitura e seu aproveitamento para se atingir um bom nível de redação: Os degraus da leitura, das professoras Adriane Belluci B.Castro, Cinthia Maria R. Remach, Helena Aparecida G.Arantes e Léa Sílvia Braga de C.Sá, editado pela Edusc-Editora da Universidade do Sagrado Coração, de Bauru (SP).
De modo prático e objetivo, este livro ensina o leitor a penetrar em um texto por meio do reconhecimento de suas palavras-chave, da desmontagem de sua estrutura e outros recursos. São muitos os exercícios propostos nos capítulos em que se divide a obra, abrangendo muitos itens para um pequeno volume, como letras de música, poemas, contos e até textos não propriamente literários. Trata-se de um projeto que se situa mais no terreno da leitura e da escritura, visando ao ensino-aprendizagem de estudantes desta matéria hoje denominada Produção de Textos.
Voltando, no entanto, ao livro de Borges, pode-se observar que suas considerações viajam mais no terreno da arte como exercícios de uma mente privilegiada que conhece como ninguém os segredos da poesia e da criação.
Por isso, não estranhe, leitor-autor, se encontrar nas palestras borgianas esse arremate como uma flecha mortalmente dirigida a você:
“A pessoa lê o que gosta – porém não escreve o que gostaria de escrever, e sim o que é capaz de escrever.” (IBID., p. 103)
Referências bibliográficas:
BORGES, Jorge Luis. Esse ofício do verso. Trad. José Marcos Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
CASTRO Adriane Belucci B. et alii. Os degraus da leitura. Bauru: Edusc, 2000.
SONHOS (?) DE KAFKA
“Envolve a criança nas dobras do teu manto, sonho sublime.”
Este é o último fragmento do livro Sonhos, de Franz Kafka, traduzido por Ricardo F. Henrique (Editora Iluminuras). Poucas palavras, verdadeiros touchestones em que o leitor pode se fartar de beleza e, ao mesmo tempo, se perder em suas variadas formas significativas.
Para conhecedores da obra deste grande escritor tcheco, que viveu na confluência do século XIX com o XX e assombrou o seu tempo (e por que não dizer o nosso?) com sua prodigiosa literatura, fica um pouco difícil pensar num título desses.
A obra de Kafka, considerada um autêntico pesadelo da e na modernidade, tornou-se a emblemática tradução de nossas perplexidades ante o mundo que se nos apresentava como indecifrável e absurdo pelas guerras e outras aberrações do ser humano.
Kafka, um jovem judeu intimidado pela arrogância paterna, pressionado no gueto de Praga, enredado pela burocracia de um trabalho mecânico demais para sua vocação de escritor, escreveu um relato que até hoje desafia o pensamento crítico e remete sua reflexão para o futuro.
O processo, O castelo, A metamorfose, América são livros cuja linguagem é até acessível ao público, mas o pensamento que ela conduz, a tortuosidade do dilema que propõe, a densa névoa com que o autor reveste as palavras podem dificultar os caminhos do leitor.
Mas nada disso embaça a beleza do seu texto erguido em cima de uma simplicidade ao mesmo tempo poética e enigmática.
Os fragmentos desta coletânea denominada Sonhos foram recolhidos em cartas a suas namoradas Felice e Milena e ao amigo Max Brod e ainda em páginas soltas de seu diário. E se não constituem propriamente sonhos de uma pessoa comum são viagens numa nave encantada que só alguns poucos como Kafka podem (e sabem) pilotar.
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