7/15/2015

poemÀcidade - Joaquim Branco 2015

Cartões com minipoemas de Joaquim Branco - homenagem à cidade de Cataguases - Fotos de Natália T. Ribeiro e Eugênia Branco



6/23/2015

HISTÓRIA DE CATAGUASES - Capítulo do livro "O Município de Cataguases"




CAPÍTULO XXII - fragmento

Quarto e quinto triênios - 1901-1907
Sete anos de administração coronel Joaquim Gomes de Araújo Porto
ATOS PRINCIPAIS

[Em 1906] Foi reformada e consolidada toda a legislação municipal; da consolidação tendo se incumbido o dr. Astolpho Vieira de Rezende, residente no Rio de Janeiro.
Um dos serviços mais notáveis desses 7 anos foi a organização do arquivo, levada a efeito em 1901 pelo presidente da Câmara, dr. Astolpho Vieira de Rezende.

Eis como ele descrevia essa repartição em mensagem de 3 de abril daquele ano: “O Arquivo Municipal encontra-se no mais deplorável baralhamento; não é um arquivo, é uma porção de prateleiras recheadas de embrulhos, onde toda a busca é materialmente impossível.
A administração sente a necessidade de recorrer a papéis guardados, quer para se instruir sobre os negócios públicos, quer para satisfazer a requisições particulares, e luta com dificuldades quase insuperáveis”.

A Câmara autorizou o Agente Executivo a pôr em ordem o arquivo e a expedir o respectivo regulamento, o que fez o dr. Rezende com o dec. nº 48, de 9 de maio do mesmo ano.

A mesma lei criou, sob inspiração do dr. Astolpho Rezende, a Biblioteca Municipal, a respeito da qual escrevia o seguinte o Oficial da Secretaria, no Relatório relativo ao ano de 1904: “A Biblioteca Municipal, fundada em 1901, no governo interino do dr. Astolpho Vieira de Rezende, tem se enriquecido progressivamente com donativos e aquisições: entre aqueles é de justiça mencionar os da Biblioteca Laminense, fundada em um distrito do município de Queluz pelo sr. Napoleão Reis, e os do dr. Francisco Antonio de Sales, ilustre Presidente do Estado. Conta a nossa Biblioteca cerca de mil volumes entre eles a coleção completa das leis do Brasil, desde 1808, estando todos os volumes devidamente catalogados. (70) Recebe também diversos jornais de diferentes pontos do país”.

No relatório do ano seguinte, acrescentou que a Biblioteca fora enriquecida com a aquisição do Dicionário Larousse, que custou 275$, e que o sr. Napoleão Reis continuava a fazer valiosos donativos. Em janeiro de 1907, consignava que a Biblioteca já dispunha de l.300 volumes, devidamente catalogados.

6/06/2015

Grupo Totem - Literatura de Cataguases 1960/70



O Grupo de literatura denominado Totem iniciou suas atividades em Cataguases em 1961, através do jornal O Muro, do qual saíram 11 números.
Houve pequeno interesse público sobre o jornal, pois ali apareciam trabalhos ligados às vanguardas da época.
Eram textos da mesma linha da Poesia Concreta, movimento que se iniciara poucos anos antes.em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Os principais participantes desse jornal eram: Ronaldo Werneck, Carlos Sérgio Bittencourt, Joaquim e Aquiles Branco, P. J. Ribeiro e Plínio Guilherme Filho.
A segunda fase veio em 1968 com a edição do “SLD – Suplemento Literatura Difusão”, que saía como suplemento do jornal Cataguases, e que foi lançado junto com a I Exposição de Poesia Concreta de Cataguases.
Aos integrantes anteriores, juntaram-se outros: Sebastião Carvalho, Ivan Rocha, Adolfo Paulino, Dayse Lacerda, Fernando Abritta, José Lucas Ferraz, Lecy Delfim Vieira e Arabela Amarante.
O SLD teve 9 números, o último em 1969. Nesse ano, a equipe organizou o I Festival de Música Popular de Cataguases. No ano seguinte, foi alterado o nome para FAC - Festival Audiovisual de Cataguases, englobando música popular e poesia de vanguarda.
A terceira fase surgiu em 1975 com o jornal Totem, editado inicialmente no Centro Acadêmico Francisco Inácio Peixoto, da FIC, e dirigido por Joaquim Branco, Márcia Carrano e P. J. Ribeiro. Aos participantes iniciais do grupo, juntou-se Márcia Carrano.
Nessa fase foi grande a influência do Poema-Processo e da Arte Postal, permitindo ao grupo participar de muitas exposições de poemas no Brasil e no exterior.


Na entrada do Colégio Cataguases.





Fernando Abritta, integrante do jornal em vários números.








No aniversário de 70 anos de Francisco Inácio em sua residência (1979) e lançamento de um dos números do suplemento "Totem".





1º número do suplemento Totem em forma de jornal.


1º FAC - Festival Audiovisual de Cataguases, vanguarda musical poética na região.



Lecy Delfim Vieira, participante do grupo.







Cidade partida, de P.J.Ribeiro


Tio Sam, John, Son & Co., de Ronaldo Werneck.


Musa 1, de Fernando Abritta.




Teagonia - Plínio Guilherme Filho.











Fragmento do livro de minipoemas "Vento Leve",
de Márcia Carrano:

todas as mortes
me pesam
num dia qualquer
sem aviso.
(p. 47)






Livro de Aquiles Branco

5/24/2015

Literatura de Cataguases - CELINA FERREIRA (1928-2012)



CELINA FERREIRA (1928-2012)

Morreu no dia 5 de agosto de 2012, no Rio de Janeiro, a poetisa Celina Ferreira, nascida em Santana de Cataguases em 1928. Aos 4 anos de idade sofreu um acidente que lhe prejudicou uma das pernas, causando-lhe problemas físicos por toda a vida. Viveu em Cataguases, onde lecionou por algum tempo, transferindo-se depois para Belo Horizonte, onde se tornou assistente social.
Casou-se aos 27 anos e transferiu-se para o Rio de Janeiro; teve 4 filhos e tornou-se escritora de certo prestígio por sua poesia de grande poder expressivo. Trabalhou na Rádio MEC, no Jornal do Brasil e na TV Tupi, como redatora.
Autora premiada com o Prêmio de Literatura Infantil do Estado da Guanabara, em 1971 e o Prêmio Brasília de Literatura Infantil e Juvenil e o Prêmio Fernando Chinaglia, em 1978.
Sua obra foi muito pouco divulgada, o que não a impediu de receber referências positivas de Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Artur da Távola, Affonso Romano de Santana e outros grandes escritores. Se houvesse mais divulgação, hoje seu nome teria lugar ao lado de Henriqueta Lisboa e Cecília Meireles
Obras: “Espelho convexo” (1973), “Hoje poemas” (1966), “Invenção do mundo” (1958). “Nave incorpórea” (1955), “Poesia de ninguém” (1954) e outros.
Sua família providenciou a remoção do corpo para Cataguases (a seu pedido) que foi velado na capela do cemitério no dia 7 de agosto. Uma das vozes isoladas e ao mesmo tempo mais significativas da literatura cataguasense nos anos de 1940-50.

Bilhete enviado a mim por sua filha Márcia: "Apenas para atualizar a informação. Mamãe faleceu em Teresópolis, no Hospital São José. Foi trasladada de lá para Cataguases. Ela viveu em Teresópolis desde final de 1998 ou princípio de 1999, não me lembro ao certo. Foi entre Natal e Ano Novo, ou depois do Ano Novo que ela foi para lá. Primeiro para a minha casa. Em 2000 é que foi para a Casa de repouso Santa Lúcia, em Teresópolis e viveu lá seus últimos anos.
Um abraço,
Márcia Ferreira"

Transcrevo a seguir um poema, que pode dar um pouco da dimensão artística de Celina Ferreira:

FLOR SOZINHA

Que flor é aquela
na beira do rio?
Ninguém a descobre
na beira do rio.
A flor é sozinha,
parece comigo.





Celina e seu marido Márcio de Azevedo Cardoso.













PRELÚDIO EM CINZA

Meu corpo cresce baixinho,
ai que vontade de amar!
Eu sinto a vida nos braços
que abraçaram quase nada.

Eu sinto o sangue crescendo
devagar como a tulipa.
Ai, que receio de amar!
Eu não amei quase nada.

Grave, meu corpo se estende
à superfície das águas.
Ai, desejo de naufrágio!
Por dentro morro calada.

(p. 79 – Hoje poemas)



Celina na calçada

















RONDÓ DA CHUVA CAINDO

A chuva chovendo chora
Minhas totas de alegria.
Que é do meu livro de estórias,
a bruxa de cartolina,
meu pilãozinho de vidro?
Que é do arraial na memória,
o apito rouco da usina
noite e noite, dia e dia?

A chuva chove que chove,
Lembrança tanta haveria?

Santana será que existe?
As ruas da meninice,
o doido correndo alegre,
mais doido que alguém de nós.
O largo sem muita história,
Uma igreja e a Santa rindo,
Rindo, rindo sobre nós.
Com olhos chorando o tempo
Que a chuva mansa escorria.

A infância lavada em chuva,
o corpo crescendo agreste,
as mãos tocando o infinito.
Lá longe, o medo e o silêncio,
a solidão incorpoórea,
as coisas de desengano,
lá longe o tempo de agora.

E a chuva chovendo chora
minhas gotas de alegria.

(p. 78 – Hoje poemas)





Celina e as filhas Márcia e Adriana.













CANÇÃO PARA O MENINO LEPROSO

Não peças milagre,
menino leproso.
Esquece, é melhor.
Esquece a doença,
o rosto vermelho,
as mãos pequeninas
no meio das chagas.

Esquece as crianças
que fogem correndo
de tua ternura.
Esquece a mulher
que esconde seu filho
na barra da saia.
Não penses na mãgoa
Que aflige meus olhos
Cansados de vida

Repousa em meu ombro,
aceita o carinho
de minha canção.
No mundo irreal
De meu “faz-de-conta”,
eu sou tua mãe,
tu és meu menino.
(p. 14, Hoje poemas)


Com o poeta Francisco Marcelo Cabral.





Capa do livro Hoje Poemas.















5/19/2015

Literatura de Cataguases - Meia Pataca 1948/49 - LINA TÂMEGA PEIXOTO




LINA TÂMEGA PEIXOTO

Nascida em Cataguases a 5 de junho de 1931, é
pioneira em Brasília, chegando à Nova Capital em 1958, acompanhando o
marido, arquiteto, que iria trabalhar na construção da cidade. Publicou
Algum Dia (Edições Hipocampo, Rio, 1952) e Entretempo (Editora Record/INL,
Rio, 1984). Em sua terra natal, juntamente com Francisco Marcelo Cabral,
funda a revista Meia Pataca (1948/49). Participa das antologias Poetas de
Brasília
(Editora Dom Bosco, Brasília, 1962) e Antologia dos Poetas de
Brasília
(Coordenada Editora de Brasília, 1971), organizadas por Joanyr de
Oliveira. Diplomou-se em Letras Clássicas e compôs, em 1960, o grupo de
professores que se encarregou de implantar o ensino oficial na capital do
país. Exerceu o magistério, lecionando na Universidade de Brasília e na rede
oficial de ensino do Distrito Federal. Artigos e poemas têm sido publicados
em revistas e jornais do país. Conferencista em instituições culturais e
universidades do Brasil e Portugal. Sobre ela se manifestou Walmir Ayala, no
Jornal do Commércio (Rio, 27.8.63): “Há qualquer coisa de dança, de gesto,
de abandono nestes poemas rigorosos de Lina del Peloso. Trata-se de um poeta
que precisa urgentemente se projetar, aparecer na capital cultural do País,
este Rio de Janeiro imortal. Talvez seja o dom maior deste livro de poetas
exilados em Brasília [Antologia dos Poetas de Brasilia], o de revelar, para
alguns pelo menos, a poesia de Lina del Peloso. Esta poetisa integra-se
desde já, na linha dos melhores do Brasil, com Marly de Oliveira, Lélia
Coelho Frota, Hilda Hilst, Lupe Cotrim Garaude, Celina Ferreira, Renata
Pallottini etc.


Deu-me muito prazer a leitura de seus poemas. Raramente encontramos poesia na poesia que nos mandam, você sabe disto, porque é do ramo. Fui lendo e pensando, por que essa mulher não é mais divulgada? A elegância, a singularidade, a maestria, tudo está ali. Você conheceu Cecilia. Se Mário de Andrade te conhecesse ia se corresponder com você.
Sua relação com as plantas, com a casa (a destruição da cozinha é ótimo), a ressonância medieval, as viagens.
Parabéns, e parafraseando você, li seus poemas numa noite de sábado, eternamente.

Affonso Rpmano de Sant'Anna (2010)



ETÉREA LINA

Entre as possíveis damas da poesia cataguasense há uma prima dona: Lina Tâmega Peixoto.
Não apenas por ser das vozes femininas talvez a primeira cronologicamente, mais muito mais pela significação de seu contributo poético para nossas letras.
Lina fez o curso médio no Colégio Cataguases e, logo após, em 1948, criou, ao lado de Francisco Marcelo Cabral e outros, a revista Meia-Pataca. Naquela época, teve grande atuação dirigindo a publicação e mantendo contato com vários escritores, em especial Marques Rebelo e Cecília Meireles.
Mais tarde, casando-se com José Francisco Del Peloso, com quem teve o filho Marcelo, e transferiu-se para Brasília, onde se tornou professora da Faculdade de Letras da Universidade de Brasília.
Publicou seu primeiro livro Algum dia em 1952 e o segundo Entretempo em 1968, ambos de poesia.
Esta terceira obra continua e aperfeiçoa uma trajetória marcada por intensa sensibilidade transmitida por um natural refinamento da linguagem.
De sua “varanda” literária, situada às vezes em um “pretérito espaço”, Lina Tâmega é a menina que “borda palavras no papel”, e vai “percorrendo as constelações do mundo” que a “entrelaça em ilhas do tempo”.
Sua lira extrai das coisas que vê e a impressionam – principalmente da paisagem que não é um pano de fundo mas um suporte – os elementos concretos com que abstratiza e reelabora o seu material, indo do presente ao passado e daí de volta, como em “A criação do mundo”, em que a poeta parte de uma “coisa insone” para depois ‘construir’: “Coloco dentro de uma rua/ e nela uma casa/ com vidraças na varanda./ Trago um endereço na mão/ e paro defronte à porta,/ mas não posso abri-la.” De repente, está diante da “parede de chumbo da infância.”
A tematização do tempo – recorrente – é sua matéria, “na espessa lembrança/ de um barco que viajava/ preso ao cais do horizonte” onde busca os ancestrais na ”árida terra açoriana”. Ali as imagens ainda mais crescem e “nada escapa do coração/ por mais que o sacuda/ nas grades da varanda”.
Numa excêntrica e imaginosa viagem, a poeta leva o leitor a acompanhá-la aonde quer que sua imaginação conduza, como neste excerto: “Amo minhas imagens/ consagradas nas dádivas do tempo:/ o rio Pomba de Cataguases/ a voar dentro de um sonho alagado/ e se extinguindo em um nome sem asas;/ os músculos da água que distendem Veneza/ as cruzadas ondas do Tejo em Lisboa/ e o Egeu em azul margem de Atenas,/ criados pelo marulhar das lágrimas/ afluentes de minhas lendas.”
Assim, Lina navega e voa por lugares que não se situam em países conhecidos ou distintos por fronteiras: eles pertencem a um mapa onírico, e só podem ser percorridos poeticamente, como nesta insólita geografia que – maravilhados – contemplamos.

Joaquim Branco (2oo5)


Joaquim e Lina em Cataguases.















A LAGARTIXA

Lina Tâmega

Pequena e magrinha, parecia cansada e infeliz.
Alvejada de um branco gelado
era quieta e imóvel como a eternidade
e morava sozinha no rodapé da sala.
Não andava, não falava, não brincava,
nem comia a formiguinha que passeava
perto dela com a trouxa nas costas.
Tinha medo de que a varressem
como um papel amassado e seco,
uma pedrinha esquecida num canto
ou ausência da vida sem a forma.
O mistério fabrica a matéria amorosa
que inventa sapos, galinhas, bois, sabiás,
e inventa também esta lagartixa
como pocinha de leite
bebida pelo sol.
Era uma magratixa
uma tristitixa
até que numa tarde de domingo
engoliu o Paraíso
e ficou gorda e feliz.




Em palestra para a turma de Letras da faculdade de Cataguases.











Flor de Deus. Rocha do Espírito
Lina Tâmega Peixoto

Lá vai Maria levando
o Menino de presente
embrulhado no seu ventre
como tesouro do mundo.

Sombras, medo, desespero
desfalecem no seu Nome
que o mistério do Divino
aguarda seu nascimento
em festiva manjedoura
feita de rugas do vento.

ELE se faz pensamento
em infinito e horizonte
- vivos sussurros de vida-
A imperfeição de quem louva
muda-se em perfeito canto
de esperança e vero amor
que já nasceu o Menino
Flor de Deus. Rocha do Espírito.

(Natal de 2011)



















ENCONTRO

À memória de Manoel Inácio Peixoto

"Tenho agora uma única obsessão: ir ao Açores em busca
das origens" Francisco Inácio Peixoto em carta de 8/4/80

Morei nos Açores por uma semana, eternamente.
A ilha construída
da forma mineral da noite
circunda o ar navegado no oceano.
Nela, desembarquei no cais
de onde o avô havia partido.

Lugares, ancestrais, afeto
são coisas arrebatadas à vida
e corroídas de invenção.
Conta a família, para aumentar o infinito,
a travessia do pai,
ainda menino, cortando sozinho
as vagas de suor e medo
repetidos rumos de começo e fim.

A calçada, acertos de floração vulcânica,
leva à Igreja de Nossa Senhora das Candeias
e me desconcerta ver dormida a luz
nas mãos da santa.
A pia de batismo, manchada de limo,
ainda umida ao toque dos dedos,
embaça a esperada contemplação
- a de vivas cinzas caídas no chão
e a de muito antes, com grinaldas de água
molhando o recém-nascido -
Junto ao altar, um aroma seco rodeia
o jarro de flor.

A viagem descida até o fundo do corpo
desmancha-se em um nome.
Muitas vezes naufraguei
em meus próprios deuses
navegantes de um outro lado do mundo.

Este que procuro desdobra o passado nos retratos
e nas pinturas que seguram as paredes da casa.
Meu pai esculpe o rosto de seu pai
na certeza de que a imagem se assemelha
ao que ficou retido na infância.

Outras lembranças recolhem a visão
das rochas escuras e antigas
entornadas do vulcão.
Enraízam o sol e a seiva das videiras
e brilham com beleza tão intensa
como se guardassem dentro delas
auroras extintas.

Não há ossos.
Só o amor exacerbado pela solidão.
Escrevo a história deste
que vagueia pela Ilha do Pico
a respirar as sombras de sua aldeia
a ser trocada por uma pátria
desenhada de montanhas verdes
e de córregos e rio fechados
em cântaros de poesia e lama.

Deixo a Ilha, como fez o avô,
repetindo, com doçura, o que lá
submete a memória à desordem dos sonhos.
Eu já sou relíquia do acaso
que deixo em um canto da Ilha
ou em uma cidade de Minas.
Cataguases.
















5/17/2015

MEIA PATACA - Literatura de Cataguases 1948-49 - FRANCISCO MARCELO CABRAL


FRANCISCO MARCELO CABRAL - 1930 - 2014

Em 2001, organizei uma página no jornal Cataguases em homenagem aos 70 anos de Francisco M.Cabral. Reproduzo aqui.

Fazemos hoje um pequeno recorte da pessoa e da obra de Francisco Marcelo Cabral, neste Caderno. O poeta não cabe em duas páginas de jornal, mas, apertando aqui e ali, foi o que pudemos oferecer no momento.

Talvez só uma mínima parte da juventude cataguasense o conheça. Uma pena. Ele mora no Rio há muitos anos, mas sempre está aqui conosco. Eis o nosso jovem poeta aos 70 anos com tanta poesia que pode reparti-la a todos que se acercam dele. Não quis ser famoso, não está na mídia literária, mas nunca deixou de brilhar. Um paradoxo, uma brincadeira ou uma peça que vem nos pregando todo esse tempo.

Não posso esquecer quando, pela primeira vez, vi - estupefato - Marcelo Cabral discorrer sobre literatura. Garanto que não foi só uma impressão de adolescente, porque ela vem se confirmando até hoje quando o encontro. Ele poderia ser com facilidade um famoso professor de literatura: não conheço nenhum outro que o supere: pela verve, pela ironia, na avalanche das palavras, na propriedade ao discorrer e analisar, na capacidade crítica e na auto-crítica. Talvez auto-crítica demais, a ponto de prejudicar sua expansão.

Minha geração – mais do que as demais, talvez pela nossa insistência ou cara-de-pau mesmo – aproveitou muito mais que as outras os seus ensinamentos, sua presença, ora na intermediação de contatos com alguns “verdes” (com quem tivemos muitos encontros), ora ao nos apresentar a escritores conhecidos, não podendo me esquecer de suas provocações que nos afiavam as garras para novas propostas e próximos embates.
Até hoje não prescindimos de sua palavra.

É esse, Chiquinho, o preço que se paga (lá vem o velho Exupéry) por nos haver cativado e, mais do que isso, por tornar nosso caminho tão mais aplainado, rápido e até – quem sabe? – conseqüente.

Cataguases, 14 de fevereiro de 2001
Joaquim Branco


Em foto de Victor Giudice.






ESTE MOMENTO TEM NOME
Francisco Marcelo Cabral

Este momento tem nome: êxtase.
A luz dura do sol no teu olho cerrado
o zumbido de insetos delicados,
o ácido sal da vida,
o pulso e o ritmo ofegante do ar que te penetra.

Submerges nesta fresta do tempo
e sentes o universo tocando o teu ser,
tão íntimo que o podes separar em fruto e semente
tão sem limites em suas onze membranas
que nele tudo cabe inumeravelmente
tão diversamente o mesmo que não te contém e contém.

Não estás morrendo, sossega.
Apenas navegas em estilhaços
Como a estrela que explode na constelação do Centauro.


Lina, Cabral e Joaquim.


Em foto de Adriana Monteiro.






INEXÍLIO (fragmentos) - Francisco M.Cabral

NADA, Cataguases, em teu rio pobre
Pomba sem vida, mudo e sujo
rebanho cabisbaixo, a correr apertado
na calha entre os morros
onde morre o teu casario
e brincam crianças mal nutridas
e mulheres estéreis
tentam o inútil orgasmo

nada, Cataguases, nem teus morros feridos,
prestes a desabar sob a chuva alcalina
e sulfurosa

[.....]
Nada, nem Francisco Inácio
Peixoto se acostumando a perder
Amores, amizades e ambições,
Nem a morte de Rosário, ai de nós, ai de ti,
Merda de morte igual a todas inesperada
Colhedora do tigre e do joi

nada, nem a completa
destruição da paisagem da minha infância

[...]
nada, Cataguases, nem a tua indiferença ou desprezo
pelos teus poetas e teus loucos, únicos
que te conferem a glória de não seres
como outra qualquer um simples mercado
mas uma cidade, oh sim, uma cidade

[...]
nada
nem os que foram assassinados

nem os mortos por desastre
ou imperícia ou que se mataram
e cuja lição final, sempre a mesma,
ainda agora me cobre de cinzas e humildade

[...]
NADA ME FAZ
Lembrar um porto de diamantes
(que fossem topázios, ametistas,
crisólitas, opalas, turmalinas!)
nem mesmo saber – só agora – que no cascalho
do leito do Meia Pataca
ainda repousa o ouro não minerado

[...]
TE AMAR
berço, seio, colo, braço, calor e umidade
é um ato simples
como nadar, anulando-se, na corrente limpa do rio

[...]
AMAR MENOS
é morrer
como o rio sendo freado pela areia
que se acumula na linha frouxa das margens
onde a água é mais lenta e os peixes envelhecem;
como a locomotiva perdendo vapor,
[...]
como a festa de aniversário se acabando – farelos
sobre a toalha manchada de groselha,
a camisa salpicada de gelatina,
o nariz sujo de Grace;
como tirar os óculos, desligar o telefone,
guardar a máquina de escrever e sair de casa
para nada.

MENOS
que nada
é o pó do poema
que aqui sobrenada
sobre tudo
(que nada?)
Sobretudo sobre nada
Que nada é o que resta
Do rosto e da festa
Que nada é o que sobra
Do sabre e da sombra
Da cãibra e da cobra
Que nada é o que fica
Da faca e da treva
Da trave e da chama

Nada me faz te amar menos



O menino Chiquinho Cabral.


O jovem poeta Marcelo Cabral.


O poeta em Londres.


Cabral em um encontro com o grupo Totem.


Antiga Padaria Cabral tendo ao lado a residência da família de Pedro e Jandira Cabral, pais de Francisco M.Cabral.
(foto editada por Natália Tinoco para o Arquivo Joaquim Branco).