5/16/2015

MEIA PATACA - Literatura de Cataguases 1948-49


No Jornal CATAGUASES de 22.08.1948 lia-se a seguinte notícia:

“Meia Pataca: É este o nome da interessante revista que acaba de surgir nesta e fundada por um grupo de jovens literatos contemporâneos, a cuja frente se encontram as figuras promissoras de Francisco Peixoto Filho, Francisco Marcelo Cabral, Lina Tâmega Peixoto e Luciano Peixoto Garcia, seus diretores.”

Saíram 2 números da revista em 1948 e 1949, onde firmaram-se os nomes de Francisco Marcelo Cabral (1930-2013) e Lina Tâmega Peixoto (1931).


Lina e Cabral no Rio de Janeiro em 2007.




Capa do 1º nº da revista Meia Pataca.




Capa do 2º nº da revista Meia Pataca.


Francisco Marcelo Cabral em foto de Júlio Azevedo.


Lina Tâmega Peixoto em foto de Natália Tinoco.




Capa do livro que registrou o estudo feito no Curso de Letras da FIC pelo professor Joaquim Branco e seus alunos Roberto Júlio e Felipe Fritiz.

5/11/2015

Literatura de Cataguases - Cataguases 1950/60 - MANUEL DAS NEVES




Manuel das Neves Peixoto nasceu em Cataguases em 31.07.1914. Aos 7 anos mudou-se para Juíz de Fora onde completou o ginásio. Formou-se em direito em Belo Horizonte na UFMG em 1935. Logo foi nomeado promotor em Estrela do Sul, residindo ali por um longo tempo. Posteriormente mudou-se para o estado de Goiás, advogando em Inhumas por 3 anos, lecionou na Faculdade de Direito do estado.
No começo da década de 40, por um chamado de Francisco Inácio, voltou a Cataguases para participar do projeto de um colégio que iria substituir o velho Ginásio de Cataguases. Assim, em 1943 foi nomeado o primeiro diretor do Colégio de Cataguases e também professor de História. Lecionou na FIC na década de 70.
Teve atuação notável como advogado de presos políticos após a ditadura de 1964, conseguindo a libertação de todos os acusados.
Deixou um livro de crônicas intitulado Reta da Saudade, editado em 1981 pela então secretária de cultura Celeste Quirino.
Como grande cronista, escreveu nas décadas de 1950 e 60 no jornal Cataguases. Suas magníficas crônicas foram reeditadas no livro O admirável mundo de Manuel das Neves, organizado por Aquiles Branco em 2011.
Era casado com dona Yone Maria Fonseca das Neves Peixoto, com quem teve 3 filhos: Manuel, Gustavo e Inácio.
Morreu em Cataguases em 11.07.1999.


Manuel com sua esposa d. Yone e os filhos Manuel, Gustavo e Inácio.
















A CHUVA - crônica de Manuel das Neves

A chuva cai macia e encharca devagar a rua. As águas escorrem pelos telhados, nas sarjetas, dentro da gente. Agora a chuva amainou um pouco. Das marquises escorregam alguns pingos.
Duas andorinhas mergulham juntas no espaço cinzento e brincam de amar. Giram sempre juntas e vão e vêm. Estão fazendo ballet as andorinhas.
As pessoas passam apressadamente. Alguns, todavia, caminham indiferentes e vagarosos. Todos estão solitários por causa da chuva.
Todos, não. Há duas jovens andorinhas, andorinhas da terra, que estão debaixo de uma marquise, de mãos juntas, que se olham, se amam e soltam doces arrulhos.
Um senhor circunspecto veio descendo a rua segurando seu guarda-chuva.
As andorinhas da terra voaram, isoladas. Agora, só as andorinhas do céu mergulham no espaço cinzento, sempre juntas e livres. As andorinhas do céu não se preocupam com o senhor circunspecto que desce a rua segurando o seu guarda-chuva.

Cataguases, 19 de abril de 1959




Dona Yone autografa o livro "O admirável mundo de Manuel das Neves".


A capa do livro criada por Natália Tinoco.


A família Manuel das Neves.





5/09/2015

Perfil dos "Verdes" - Cataguases 1927 - (9) ROSÁRIO FUSCO





ROSÁRIO FUSCO - Rosário Fusco de Souza Guerra nasceu em São Geraldo (MG), em 1910, mas veio para Cataguases aos 6 meses de idade. Ascânio e Fusco foram os “motores” da Verde. Fusco, apesar de muito novo (17 anos) na época, cuidava de toda a correspondência da revista, bem como de sua diagramação e ilustrações. Dedicou-se a todos os gêneros literários. Como advogado, foi procurador-geral do Rio de Janeiro, onde residiu por bastante tempo. Em 1967 voltou para Cataguases, morrendo em 1977.
Obras: O agressor, Livro de João, Carta à noiva, Dia do Juízo, A.S.A. - Associação dos solitários anônimos (romances); Fruta de conde e Poemas cronológicos (poesia, com Enrique Resende e Ascânio) e muitos outros; deixou inéditos: Vacachuvamor (romance), Um jaburu na Torre Eiffel (livro de viagem), Creme de pérolas (poemas). (foto Adriana Monteiro)



Com o cineasta Humberto Mauro, nos anos 60.



Com a mulher Annie, numa foto à la Hemingway, em plena criação de seus textos.









Fragmentos do romance "Dia do Juízo", obra-prima de Rosário Fusco:

“Sete dias gastei para fazer a terra que os senhores transformaram nesta lamentável droga. Encareço os sete dias para mostrar meu capricho: poderia tê-la formado com sete fiats.” (p. 249)

“São motivos vindos de fora que nos obrigam a agir... pode-se prever muita coisa neste mundo, menos a vontade... no fim a gente é vivida, mas não vive coisa nenhuma.” (p. 85)




Fusco ladeado por mim e por Bebeto Bittencourt, quando fomos recepcioná-lo na entrada do Hotel Cataguases, e preparava seu retorno a Cataguases, em 1967.



Bom desenhista, Rosário se incumbia da parte de ilustrações e de gráficos da revista Verde, inclusive do logotipo da própria revista.


Com o compositor e poeta Vinicius de Morais, na década de 70, em sua residência na Granjaria, Cataguases.




INTRODUÇÃO

[...]
Em todo caso lá pelas bandas da Vila Tereza
os sapos inda martelam bem surdo no charco imundo
sob o pisca-piscado das estrelas (vermelhinhas!) brilhando nas águas do Pomba.
Negrinhos molambentos parece que vivem de mijar (de tanto que mijam!)
no dia africano de bananeiras verdes balangando...

Mesmo assim Vila Tereza é uma lição de Brasil!

(1929)




Fragmento do romance Dia do Juízo, exemplo de narrativa moderna:

“[...] se às moradas do Pai o Filho se refere, e por moradas entendeis plurais moradas, quantos céus, nas alturas, haverá?
Vede em Lucas o que disse o Mestre, e ruminai o metassunto: pra valer.
Aviso: a não ser que prefirais o inferno ao céu (pois há gosto para tudo, e o inferno de muitos – ó preciosa liberdade de escolher – é o céu de inumeráveis), de nenhum modo, e nem por isso, deveis descuidar-vos em vida, tendo presente que o vosso reino, este, aquele ou aqueloutro, começa no lugar em que tiverdes apoiado os pés.
Que, até lá, a existência vos pese menos do que uma pá de cal.
Saudações e paz.” (p. 250)



Com a esposa Annie e a artista Josephine Baker, em Paris.



Capa de Poemas cronológicos, que dividiu com Enrique de Resende e Ascânio Lopes.




Chico e Fusco, uma dupla de grandes amigos.


Desenho do pintor Di Carrara para o meu arquivo pessoal.







Ronaldo Werneck e eu em visita ao amigo Rosário Fusco, na entrada de sua residência na Granjaria, Cataguases.





Fotos cedidas por Rosário François e outras pertencentes ao Arquivo Joaquim Branco.














5/08/2015

Perfil dos "Verdes" - Cataguases 1927 - (8) OSWALDO ABRITTA




OSWALDO ABRITTA - Oswaldo José Abritta nasceu em l908, no distrito de Cataguarino, município de Cataguases. Fez o ginásio como aluno interno no antigo Ginásio Municipal de Cataguases. Aos 23 anos, com seus colegas e professores, escreveu uma antologia manuscrita denominada "Um pouco de tudo". Integrante do Movimento Verde de literatura. Seu filho, Luiz Carlos Abritta, preservou sua obra - deixada encadernada e em manuscritos, e intitulada "Versos de ontem e de hoje", datada de 1931 - e a fez editar, em 2000. Morreu em Carandaí, em 1947. Obra publicada: Versos de ontem e de hoje - 1931 (2000).


A RUA DA ESTAÇÃO

A rua da Estação em Cataguases,
à noite, é silenciosa
e os automóveis sobre ela deslizam
como se deslizassem sobre um tapete...
Passam homens, mulheres apressadas
para o footing da Praça Rui Barbosa,
onde eu vejo sempre uma melindrosa
defendendo o charleston e falando
em crepes da China e fios de Escócia
e meias bege...
Mal sabe ela que eu a sigo silencioso
só porque ela se parece com um mapa
da América do Sul, colorido...
A rua da Estação em Cataguases, durante o dia,
é tumultuosa como os grandes centros.
Passam rapazes sem paletó e vão dizendo "olá "
para os conhecidos...
Caminhões, carroças...
Tudo exprime vida, força, energia, entusiasmo
nesta cidade principesca...
A rua da Estação é a vida de Cataguases.
(16.01.1928)


Oswaldo, a esposa e o filho.




JARDIM

Monotonia estranha dentro da tarde.
E o meu jardim?
O meu jardim
deixou de ser jardim
para ser perfume...
(1927)


Oswaldo e o irmão Oduvaldo Abritta


A AVENIDA

A Avenida é o encanto da cidade
de Cataguases – pérola luzente...
Tem tanto encanto, tanta suavidade
que até comove o coração da gente.

Quem a contempla, ao lusco-fusco brando,
tão serena, risonha e silenciosa
ficará em silêncio meditando
na sua formosura esplendorosa.

A alameda de oitis, calma e sombria
que lhe orgulhece o vulto de princesa
dá-lhe uma nota de Melancolia,
de saudade, de angústia, de tristeza...

E o regato que lhe serpeia e corre,
suas águas levando de roldão,
vai suspirando como a voz que morre
de Amor cantando dúlcida canção...

Tanta beleza vemos na Avenida
que eu não sei com que versos, com frases
hei de cantar a pérola nascida
para ser coração de Cataguases...


Oswaldo e a esposa Yolanda




O poeta, a esposa e os filhos em foto de 1943




QUADRO

Serenidade da minha rua
na manhã fresca.
A grama respingada de orvalho
se alastrando no calçamento
aqui, ali, acolá.
Gosto muito deste silêncio.
Não vejo automóveis,
não ouço vitrolas inconvenientes,
nem berros da criançada do vizinho.
Sinto uma paz caseira de roça
temperada de preguiça.

Mas...
na casa do vizinho, ao lado,
duas francesas franzinas ensinam francês.

E vêm meninas da Escola Normal
pra estudar com elas.
A francesinha magra pergunta:
– Que tipinho é este que te trouxe?
– Meu primo, responde.
Bem como as outras.

E a francesinha ingênua fica pensando,
cheia de ternura,
na solidariedade dos primos brasileiros...

(Belo Horizonte, 1929)





O poeta Oswaldo Abritta



DO CREPÚSCULO

Para J. Carlos

Crepúsculos de Belo Horizonte...
A noite quase a cair
sobre o brilho fosco da natureza...

O crepúsculo tem a doçura indizível
dos momentos despreocupados...

Pelo parque
as árvores têm a concentração das longas cismas
e a atitude indiferente
de quem não se preocupa com a Vida...

(Belo Horizonte, março de 1928)



Em bico-de-pena do pintor Di Carrara para o suplemento "Totem"






(ilustrações cedidas pelo filho Luiz Carlos Abritta para o Arquivo Joaquim Branco)







5/07/2015

Perfil dos "Verdes" - Cataguases 1927 - (7) MARTINS MENDES



MARTINS MENDES - Antônio Martins Mendes nasceu em 1903, na Fazenda da Pedra Redonda, em Araponga/Ubá MG. Transferiu-se cedo para Cataguases, onde foi estudante no antigo Ginásio de Cataguases e posteriormente professor. Foi advogado e promotor público. Começou seus estudos de Direito em Belo Horizonte, concluindo-o na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, em 1929. Fez parte do grupo do Movimento Verde. Morreu em 1980, no Rio de Janeiro, para onde se transferira, alguns anos antes, com a família.
Obra: Treze poemas (1929).



meia pataca

Martins Mendes

lá no fundo da cidade,
lá no fim da rua de casas velhas,
entre ingazeiros e canaviais,
rola um ralo rio de águas claras,
rola calmo, preguiçosamente,
que até parece que não rola...

No tempo de Guido Marlière,
o francês que plantou povoações
e morreu num deserto verde,
o rio deu ouro (diz a lenda).
Sua água lustral batizou a povoação:
- MEIA PATACA.

Hoje o Meia-Pataca não dá ouro.

É um riozinho triste, esquecido,
que lembra a gente
que no tempo dos índios,
no tempo da onça,
no tempo de Guido Marlière,
Cataguases se chamou
MEIA PATACA, apenasmente.
(1929)


O jovem Antônio Martins Mendes.



PRECE
(Dedicado ao Dr. Levindo Coelho)

Martins Mendes

Senhor, dá para as minhas mãos vazias,
que se levantam para o Teu céu,
o trabalho que fará o pão para minha fome;
dá, para meus olhos cansados,
um pouco do brilho das estrelas
que a Tua mão de Criador
espalhou pelo Teu céu.

Dá para meu espírito que te sente
mas que Te não compreende,
o sossego dos que estão certos do amanhã.

Dá, Senhor, para o meu coração
a graça dos que creem e esperam,
a resignação dos que confiam em Ti
e a bondade dos que perdoam e esquecem.

Dá, Senhor, dá para mim, a fé que anima aos fracos,
e a esperança que consola aos tristes .

Assim seja, meu Senhor e o meu Deus,
por todos os séculos dos séculos.


Em foto de Iannini.


Em caricatura de Di Carrara.



Evocação

martins mendes

no quarto da austera sala de visitas
da velha Fazenda da Pedra-Redonda
há uma capelinha simples
onde, à noite,
Vovó rezava o terço e as ladainhas.
(Velho costume...)

À hora da reza ela acendia as velas da
Capela
e reunia o pessoal da Fazenda
... e começava o terço e as ladainhas...

Todas as noites Vovó rezava uma Ave-
Maria
pra as almas dos que morreram na Fa
zenda.
(Ela não se esquecia dos mortos)
E pra os netinhos que estudavam
nos colégios da cidade,
e pra os doentes
Vovó rezava uma reza especial.

Era comprida a reza na capelinha da Fa-
zenda!

Os pretos velhos cochilavam no meio da
reza
e, de vez em quando, batiam no peito
com a mão descarnada com que se ben-
ziam,
uma pancada forte
e diziam – AMÉM.

Na capelinha enfeitada com flores de pa-
pel de seda
há velas bentas
que vovó acendia nos dias de tempestade
rezando pra Santa Bárbara e S.Jerônimo.

Hoje ela morreu...
E, à noite, à hora da reza,
entre lágrimas e saudades,
nós nos lembramos de Vovó
com um Padre-Nosso e uma Ave-Maria.

E a reza vai ficando cada vez mais com-
prida
na capelinha da Fazenda!
Mais comprida...
(1929)


Vista da região de Pedra Redonda, onde nasceu o poeta.


Fazenda da Pedra Redonda, onde nasceu Martins Mendes.



a tropa

martins mendes

trotando a trotes largos
pela estrada poeirenta,
a tropa vem de longe,
vem do sertão.

Trauteando uma cantilena3 compassada
o tropeiro cansado, empoeirado,
vem seguindo atento, atento
a tropa que vem de longe.

Passou pela cidade a tropa
envolta numa nuvem de pó amarelo
– como a esconder-se de vergonha
por ser uma cousa velha,
muito antiga,
colonial...

Passou a tropa a passos lentos...

Perdidos no ar, dentro do meu coração,
lembrando o serão distante,
ficou o som forte e triste
da cantilena do tropeiro
– da tropa do sertão...




Capa do livro de Luiz Fernando de Sousa sobre vida e obra de Martins Mendes.


Com a esposa Nair, em seu apartamento no Rio de Janeiro.


Com as filhas Maria do Carmo e Lina.


No dia de lançamento da peça "Carta aos Ases", de Ronaldo Werneck, Joaquim Branco e Mauro Sérgio Silva, homenagem aos 40 anos da revista Verde, em 1967, no Clube Social Cataguases.




o túnel

martins mendes

a boca-de-pedra do morro
engoliu o trem-de-ferro
que vinha rolando nos trilhos,
que vinha rolando...

Quando se acabou a escuridão
dentro do carro,
eu cheguei á janela
e olhei a boca-de-pedra.

Ela soltava baforadas de fumo grosso
como se tivesse tirado uma tragada gos-
tosa
num charuto grande
como um trem-de-ferro.
(1929)


Autografando seu livro no Hotel Cataguases, década de 1960.


Capa do livro de Martins Mendes, 1929.


Ficha de funcionário no Colégio Cataguases.



Fotos cedidas ao meu arquivo pessoal por familiares do poeta, a quem agradeço muito.






5/05/2015

PERFIL DOS "VERDES" - Cataguases 1927 - (6) GUILHERMINO CESAR



GUILHERMINO CESAR - Guilhermino Cesar de Oliveira nasceu em Eugenópolis (MG), em 1908, vindo em 1920 para Cataguases. Mudou-se ainda jovem para Porto Alegre(RS) e fez carreira como professor de literatura na UFRGS. Quando esteve lecionando na Universidade de Coimbra, Portugal, fundou o Curso de Letras lá. Foi poeta, professor, crítico e ficcionista.
Obras: Meia Pataca (1928, poesia, em comum com Francisco Inácio Peixoto), Sul (romance), História da literatura do Rio Grande Sul (1971), Lira coimbrã e Portulano de Lisboa (1965, poesia), Arte de matar (1969, poesia), Sistema do imperfeito & outros poemas (1977, poesia) e muitos outros. Morreu em Porto Alegre, em 1993.




MEIA-PATACA

O conquistador chegou cansado
e batizou com o ouro da cobiça
a terra que lhe prometia
um punhado de coisas tentadoras
MEIA-PATACA!

Vieram mais gentes
porém não havia mais ouro
no rio de águas feias.
Vieram outras gentes.
Cataguases... a cidade cresceu.
O Pomba tem barcos de nome estrangeiro
brincando no dorso barrento.
O Meia-Pataca ficou desdeixado
pobre riozinho que se esconde
e passa de longe medroso.

– Olhando o rio esquecido
eu penso no ouro que sumiu
e no ouro que ficou pra sempre
no coração da minha gente.


Caricatura criada por Maria Antônia Rodrigues para o Arquivo Joaquim Branco.


VIAGEM

O destino? Cataguases.
Quero depressa chegar.
O motivo da viagem
não é segredo nenhum,
virá nas folhas de cá:
- Embarco pra Cataguases,
que lá me vão enterrar.

Por favor, façam depressa
o transporte para o chão
do meu corpo e seu fedor.
Não deixem pelo caminho
mazelas que foram minhas,
herói de infeliz amor.

Me arquivem logo no chão,
no frio barro vermelho
do outro lado do rio,
um pouco depois da ponte
(com licença do Ouvidor).

Cubram, idem, o monturo
com pedra, areia e cimento,
mas não deixem nenhum brilho,
nenhum sinal exterior
que inda aos pássaros engane,
que a visitas e coveiros,
jornalistas e parentes
recorde o silêncio escuro
em que dormindo me fique.

Depois, me larguem, me olvidem.
Que eu seja bem digerido
pelo chão de Cataguases,
reino de Minas, Brasil.


Guilhermino, Ascânio e Chico Peixoto, jovens numa praça.


Ilustração do pintor Di Carrara para o Arquivo Joaquim Branco.


Na Universidade de Coimbra com o filho e a esposa.


Com a esposa e o filho.


Em sua biblioteca em Porto Alegre RS.


O velho e grande poeta Guilhermino Cesar.

(as fotos e desenhos são do Arquivo Joaquim Branco e do álbum de família do autor).